quinta-feira, 18 de junho de 2026

PAUL McCARTNEY: 'WHEN I'M 84'

18 de junho de 1942 - neste exato dia, ou seja, há 84 anos atrás, nasceu em Liverpool, Inglaterra, um dos caras que iria revolucionar a música pop, e a arte em geral, no século XX - e podemos dizer que isso junto com outros caras, e também separadamente. Porque não tem jeito: é inegável que apesar de todo o legado dos Beatles, do qual participou como baixista, vocalista, e compositor principal ao lado do lendário John Lennon (a mais icônica parceria de todos os tempos), Paul McCartney já fez de tudo, e tanto, com uma carreira tão absurdamente prolífica e celebrada (com sua outra banda Wings e solo), que a sua obra e o seu carisma, não só com os seus antigos companheiros, vai muito além e atravessa décadas e mais décadas na história da cultura popular.

Irônico lembrar que o próprio Paul já fez da idade avançada e suas agruras inspiração para uma de suas mais simbólicas músicas dentro dos Beatles: a bela e reflexiva "When I'm 64" (Quando eu tiver 64 anos), do icônico álbum Sgt. Pepper's de 1967, que remonta ao som vaudeville típico dos salões ingleses, e impunha aquela marca registrada de Paul no grupo, sempre imbuído de uma musicalidade eclética muito forte e sem barreiras, flertando com o sinfônico, ao mesmo tempo em que gostava de um bom rock e de transgredir sonoramente (veremos isso logo adiante). Portanto, hoje seria dia de fazer um trocadilho bem humorado para Paul, que poderia até ter cantado: "when I'm 84" (quando eu tiver 84 anos).

Nunca é demais lembrar que o homem ainda está por aí, e não para. Assim como aquela outra poderosa força da natureza, os Rolling Stones, se recusa a entregar os pontos e se aposentar (ambos desmentem a gente desde aquele nosso primeiro post que inaugurou o blog aqui, ainda em novembro de 2023, onde cogitávamos essa possibilidade), e reafirmam isso juntos - Paul fazendo mais uma participação especial com os Stones, em mais uma faixa do novo disco dos caras que está prestes a sair (Foreign Tongues) - e também no recentemente lançado e já bastante elogiado álbum The Boys of Dungeon Lane (quentinho do forno, agora em 29 de maio último).

Para comemorar mais este aniversário da lenda viva, alguns fatos a seguir que todos os fãs mais acirrados já conhecem - mas que talvez possam ser mais ocultos para uma grande parte de sua sempre crescente legião de admiradores. 




1 - RIVALIDADE COM STU SUTCLIFFE

Nos primórdios dos Beatles, Paul não era o baixista - ele era guitarrista. E como muitos sabem, tal função cabia originalmente ao grande amigo e colega de John Lennon no Colégio de Arte de Liverpool, o mítico Stuart Sutcliffe, ou Stu, como era chamado. O cara era uma figura marcante, com aquela aura de "artista de vanguarda", e um visual bem chamativo para a época, sempre de jaqueta de couro e óculos escuros, além de ter estreado o clássico visual de cabelo franjinha dos Beatles (estética iniciada com o corte feito pela sua namorada, a artista alemã Astrid Kirchherr). Apesar de ser um instrumentista risível, e com pouquíssima técnica, a presença de Stu era substancialmente apreciada pelos primeiros fãs da banda em Liverpool e nas pequenas turnês que eles faziam, indo tocar nas casas de show de Hamburgo, na Alemanha, onde amadureceram enquanto banda. Stu tinha um momento no show que era uma número especial, onde ele entoava "Love Me Tender", de Elvis Presley, e fazia a mulherada ir à loucura. 

Stu Sutcliffe

Aliado a isso e a sua pouca habilidade no baixo, o seu estreito relacionamento com John passou a incomodar Paul, que demandava mais seriedade para as apresentações do grupo e que desenvolvessem melhor sua musicalidade, inclusive exigindo de John mais tempo de treinamento e dedicação a composições próprias. A coisa foi logo esquentando tanto para Paul, que em uma fatídica noite de 1960, logo após um dos shows do grupo, ele e Stu se desentenderam feio e acabaram saindo na mão - fato depois amenizado e acobertado pelo restante da banda. Mas a coisa já tinha azedado, e em 1961, Stu decide sair definitivamente dos Beatles para se dedicar à sua arte na pintura, pela qual sentia ter mais apreço, e se casar com Astrid. E para Paul sobrou o que então? Visto que ele exigia que o baixo fosse melhor tocado, e ninguém mais queria assumir essa responsabilidade, "bora lá, é comigo mesmo". Ainda passariam alguns meses até que ele conseguisse juntar uns trocados para comprar o famoso baixo Hofner 500, em formato viollino, que o eternizaria nos Beatles - até lá, ele foi se acostumando no instrumento e se virando no baixo modelo Hofner President mesmo, mais baratinho, que era anteriormente de Stu Sutcliffe.

Paul com Stu


2 - A DIETA 'CARNÍVORA' DE ANTIGAMENTE

Por convicções pessoais, Paul e sua eterna esposa Linda McCartney se tornaram vegetarianos em 1975, após observarem e se compadecerem pelos carneiros que eles criavam, logo após uma refeição, em sua famosa fazenda na Escócia. Mas antes disso, a dieta de Paul era extremamente simples, comum e carnívora, bem dentro dos padrões ingleses e dos moradores da simplória Liverpool - uma cidade costeira repleta de estivadores e gente que vivia "na dureza", e que precisava de muita caloria e carne para se manter na luta do dia a dia. Para se ter uma ideia, ele já relembrou, com certa nostalgia até, de algumas de suas antigas predileções culinárias, em entrevistas: big steaks e roast beef (bifão na chapa e rosbifes assados), chicken kiev (receita tradicional de frango assado com tanta manteiga e alho, que a carne até desmancha e escorre na hora de fatiar), chicken maryland (tradicional frango frito acompanhado de batatas e muito bacon), e os tradicionais cheeseburgers e eggs and chips (ovos com fritas), tão comuns no cardápio dos Beatles nos anos 60.


3 - UM TRANSGRESSOR ANTES DOS TRANSGRESSORES

A típica imagem dos Beatles, tida pela maioria dos fãs até hoje, é mais ou menos assim: John, guitarrista e vocalista, o líder natural de atitude forte e agressiva, com tendências para o rock mais primal, sonoridade mais crua e direta, vocais e jeito de tocar bem rudes e espontâneos, e afeito a experimentações sonoras; Paul, baixista e vocalista, o cara mais musical e melódico, voz doce, belas e líricas baladas, a principal ponte entre o produtor George Martin, a erudição e o som da banda; George Harrison, guitarrista e vocalista, o introspectivo, estudioso e solista, dedicado a descobrir influências indianas e novas texturas no som da banda, tentando introduzir mais composições próprias mas também sempre somando e agregando muito ao que Lennon/McCartney já produzem; e Ringo, o baterista boa praça, direto e eficiente, conciso mas denso em sua simplicidade, sempre oferecendo a batida certa na hora certa, e às vezes cantando e contribuindo com tudo mais o que pode, para manter todos unidos. Seria isso, certo? Pior que muitas vezes, não: essas imagens saem um pouco fora do parâmetro e se destoam em uma grande parte de fatos ocorridos na história do grupo - principalmente em relação ao que John Lennon e Paul McCartney representaram musicalmente em suas contribuições. 

John, muitas vezes, podia ser extremamente lírico e melódico, de um modo mais convencional (ainda que dentro de seu próprio estilo), e desenvolveu canções absolutamente sentimentais e com tendências sinfônicas espetaculares: "In My Life" (1965), "Strawberry Fields Forever" e "A Day in the Life" (1967), e "Across the Universe" (1970) são obras atemporais de sua autoria exclusiva que comprovam isso. E Paul, muitas vezes, podia ser um músico extremamente rocker, com músicas diretas e agressivas, e dado a arriscar e ser radical, bem fora dos padrões. Na fase inicial dos Beatles, ele por vezes disparava algumas das músicas mais pauleira do repertório do grupo: a vibrante "I Saw Her Standing There", que abria o primeiro disco dos Beatles, em 1963, covers rascantes de Little Richard, como "Kansas City" e "Ooh My Soul" (em 1964), e o torpedo "I'm Down", lançada em single de 1965. 

Mas duas composições se tornariam notórias no sentido de comprovar as inspirações mais 'vanguardistas' e transgressoras de Paul na música dos Beatles: primeiro, a famosa pedrada proto metal que é "Helter Skelter", lançada no famoso e polêmico White Album de 1968, uma faixa tão pesada e agressiva que influenciaria tudo que seria feito na área do hard rock a partir de então, e declaradamente construída por Paul daquele modo para, segundo ele, "competir com 'I Can See for Miles', do The Who, uma barulheira que me desafiou a mostrar que os Beatles também são capazes de por pra quebrar". E o segundo, e mais misterioso caso: a lendária "Carnival of Light", uma experiência sonora extrema, com mais de 15 minutos, criada por eles sob a coordenação de Paul, para um evento midiático de 1967 ocorrido em Londres (The Million Volt Light and Sound Rave). Os poucos afortunados que tiveram acesso a essa gravação se lembram de ser uma das coisas mais loucas e estranhas que eles já ouviram dos Beatles, e esse grupo seleto guarda a audição como algo único - apesar da contínua pressão de fãs do mundo todo ao longo dos anos, e dos esforços do próprio Paul com a EMI, no sentido de finalmente lançar a faixa em algum dos relançamentos do projeto Anthology, dos Beatles, ela continua inédita e guardada a sete chaves nos arquivos da gravadora, permanecendo como uma das mais intrigantes lost medias do maior grupo de todos os tempos.




4 - RESPONSÁVEL PELO BATISMO DE PUNK ROCKERS

Ramones

Essa muita gente já sabe: o nome de um dos mais famosos e precursores grupos de punk rock do mundo, os adorados Ramones, nasceu da admiração que eles sempre tiveram pela música dos Beatles, e sem ter uma outra ideia original para batizar o nome da banda no seu começo, se lembraram de ter lido em uma reportagem que o Paul se registrava em hotéis nos EUA com o nome "Paul Ramon", para despistar fãs histéricas da banda. Resolveram então chamar o grupo de Ramones em homenagem a tal fato, e utilizar como uma espécie de sobrenome dos integrantes, como se fosse todos membros de uma família (Joey Ramone, Dee Dee Ramone etc.). Dessa forma, Paul pode também ser considerado um responsável indireto pelo sucesso do punk rock a partir de então!


5 - SEM MEDO DA BREGUICE

Em 1973, prestes a chegar ao pleno auge da sua segunda grande onda de sucesso com a sua banda pós-Beatles, os Wings (onde também estrelava Linda McCartney nos teclados), Paul se lançou em negociações com a ATV britânica para produzir um especial televisivo, que iria ao ar em 16 de abril daquele ano, na esteira do sucesso do álbum Red Rose Speedway. Intitulado James Paul McCartnmey, e hoje redescoberto e já difundido online, esse evento tem momentos muito bons - foi a primeira vez que Paul executou novamente algumas músicas dos Beatles (como "Can't Buy Me Love" e "Yesterday") depois de um certo tempo traumatizado com o fim do grupo (maiores detalhes disso no excelente documentário Man on the Run, lançado este ano pela Amazon, que cobre bem essa fase dele). Mas há um segmento que pode chocar muito fã roqueiro mais tradicional: é o número de dança e música coreografada ao estilo Broadway com a canção "Gotta Sing, Gotta Dance", onde ao lado de uma trupe de bailarinas, ele parece querer homenagear os antigos musicais de Hollywood - com resultados irregulares. Tido como um dos momentos mais "cafonas" da carreira de Paul, atualmente soa divertido, se visto como uma curiosidade. E serve para provar uma coisa: o homem nunca teve mesmo preconceitos. Falou que é música? Tá valendo.



6 - PAIXÃO PELAS 'PLANTINHAS'

O propalado gosto de Paul pela ecologia, pelo verde das florestas, os animais e a preservação ambiental, vai um pouco mais além. O intenso e notório caso de amor do músico com uma certa 'erva', muito popular por aí (especialmente na Jamaica), foi do uso recreativo e trivial, para dar aquela relaxada, até episódios mais graves e de sérias implicações legais, em questão de alguns anos. Ainda por volta da época dos Beatles, quem empolgou Paul e os outros rapazes em relação ao "tapinha" foi, segundo todos contam, o grande Bob Dylan. Isso por volta de 1965, quando se encontraram e fizeram amizade. Paul acabou se tornando um dos seus maiores entusiastas. Já no ano seguinte, em 1966, sairia o seminal álbum dos Beatles, Revolver, que continha uma canção de Paul tida por muitos como apenas mais uma declaração de amor, comum em suas composições, "Got to Get You Into My Life" (Tenho que te colocar na minha vida) - e que ele confessaria, alguns anos depois, que era uma declaração não para uma personagem feminina, mas sim, para a tal folhinha. 

Mas a coisa chegou num nível tão retumbante, que em 1980, ao desembarcar no Japão para aquela que seria a sua última turnê com os Wings, Paul foi pego pelas rigorosas autoridades nipônicas com um pacote considerável da substância entre seus pertences na mala, ainda na vistoria do aeroporto. Com uma pena inicialmente prevista de prisão e sete anos de trabalhos forçados, ele acabou ficando nove dias detido, até que intrincadas negociações entre a gravadora, seus advogados (entre eles, o seu cunhado, irmão de Linda, John Eastman) e o governo japonês decidissem pela sua liberação. Paul ficou 10 anos proibido de pôr os pés no país, até que um perdão oficial ocorresse, o liberando para retornar com sua turnê mundial de 1990.



7 - INDO FUNDO NA SÉTIMA ARTE

Mais um passo tido por muitos como duvidoso na carreira de Paul foi a sua tentativa de emplacar sucessos cinematográficos. A primeira grande tentativa aconteceu quando o músico resolveu assumir (não oficialmente) a direção de uma produção dos próprios Beatles, ainda na época em que estavam juntos, e que dividiu muitas opiniões: o projeto Magical Mystery Tour, lançado no Natal de 1967, filme feito para a TV que se baseou em um pequeno conjunto de canções compostas e gravadas pelo grupo especialmente para a ocasião. O problema era que a linguagem do filme, hermética e com um humor às vezes tido como muito nonsense ou irônico, o distanciou do público acostumado a ver as travessuras dos Beatles nas tramas bem humoradas e acessíveis de seus filmes anteriores feitos para o cinema - Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day's Night, 1964) e Socorro! (Help!, 1965), ambos dirigidos por Richard Donner

Paul ainda foi o responsável por alinhar, com o diretor Michael Lindsay-Hogg, muitas das ideias para aquele que seria o último filme da banda (e que retrata a sua reta final), o documentário Let It Be (1970) - recentemente expandido e relançado como o projeto Get Back, de Peter Jackson, pela Disney streaming. Mas a empolgação final mesmo veio com a tentativa de atuar como o próprio protagonista de uma trama muito louca, que mistura aventuras no estilo "sessão da tarde" com uma complicada história sobre investigação e roubo de tapes de estúdio com gravações de músicas para um disco, e entremeada por vários, diversos números musicais: o nome dessa empreitada, que acabou não alcançando o sucesso esperado, foi Mande Lembranças para Broad Street (Give My Regards to Broad Street), de 1984, e resultou no hit "No More Lonely Nights" e num álbum com a trilha sonora, que teve até um bom desempenho nas paradas (por também conter regravações de algumas músicas dos Beatles, com nova roupagem de Paul em carreira solo). O filme, no entanto, não decolou mesmo.






8 - MÚSICA: A COMPANHEIRA CONSTANTE

A atribulada vida amorosa de Paul contém, oficialmente, alguns capítulos marcantes: a namorada e musa durante boa parte da fase com os Beatles, a atriz ruivinha Jane Asher (entre 1963 e 1968, chegando a ficar noiva), a "eterna esposa" e parceira de banda, sempre venerada, lembrada por ele e todos os fãs, Linda (entre 1969 e 1998, quando faleceu de câncer), a polêmica Heather Mills (entre 2002 e 2008, terminando com um bombástico divórcio), e a atual Nancy Shevell (de 2011 até o momento). Mas se formos considerar uma companhia etérea, envolvente e constante na vida dele, e que não se constitui nem mesmo em uma entidade, ou ser, esta seria a sua inspiração permanente: a música, esta sim, sempre presente nas ações e pensamentos desse cara que é, simplesmente, alguém que respira, vive, e é a própria personificação da música, para tantos fãs e admiradores ao redor do mundo, e em várias gerações, tamanha a facilidade e a expressividade com que ele domina e executa tal arte. 

Paul com Linda, em 1969, e a atual, Nancy Shevell, em 2023

Paul já disse que, diante de tantos musicistas e pessoas renomadas, de técnica e arte rebuscadas, que ele já viu e conheceu nesses seus 84 anos de vida, ele se sente até meio envergonhado em confessar que nunca aprendeu (nem ele ou nenhum dos Beatles) a ler ou escrever partituras, ou seja, estudar e fazer música do modo clássico, de conservatório. Diz que não consegue ver a música como "pontinhos num papel". Mas é óbvio que para ele, alguém que já fez tudo o que fez, e ainda faz, isso é irrelevante. Pegou um vôo para a Inglaterra depois da última turnê americana dos Beatles, e viu bandas vestindo roupas estranhas e usando nomes engraçados nos moldes psicodélicos, em uma revista: surgiu na hora a ideia para a estética e a composição das músicas do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). Tempos depois, pegou um outro vôo para passar uns dias de descanso na França: já desceu do avião pensando em todas as melodias e letra para "The Fool on the Hill" (1967), outro clássico. Anos depois, estava assistindo filmes de espionagem do James Bond: baixou na hora a inspiração para "Live and Let Die" (1973), que faria parte da trilha sonora do filme seguinte do agente 007. A música para ele é assim, é isso. Pura inspiração. Pura parte da vida.

Que venham mais anos de música e vida, Sir McCartney.




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quarta-feira, 10 de junho de 2026

O GIGANTE HOLANDÊS RUTGER HAUER: 10 FILMES MEMORÁVEIS

 

Poucos atores marcaram tanto e tão bem o cinema de ação dos anos 80 como o lendário holandês Rutger Hauer (1944 - 2019), um gigante nórdico de 1,85m que conseguiu enfileirar uma sequência marcante de filmes de sucesso nas bilheterias, e com um magnetismo visual e artístico tão interessante, que não é errado falar que tem toda uma geração por aí, que cresceu curtindo o audiovisual naquela década e até o comecinho dos anos 90, que assistiu e curtiu muito, mas bastante mesmo, icônicas obras do cinema que foram eternizadas com a presença do cara.

Conforme veremos a seguir, Hauer era talentoso e versátil, e era dotado de um carisma incomum e repleto de trejeitos e maneirismos típicos de sua atuação, que lhe conferiam destaque em diversas interpretações. Mas seu porte físico imponente invariavelmente o relegou a um número maior do que o convencional de papeis de sujeitos barra pesada e figuras ameaçadoras - muitas vezes ele era o vilão, o antagonista da história, mas quando era preciso que desempenhasse também um tipo heroico, que ia com tudo pra cima da bandidagem (como no clássico Ladyhawke, ou no subestimado Fúria Cega), a briga era boa, e o "pau quebrava" pra valer. 

Hauer infelizmente nos deixou em julho de 2019, devido a um câncer no pâncreas - mas sua carreira dentro e fora das telas foi admirável e prolífica. Além de ter se estabelecido nos circuitos do cinema americano e europeu, ele foi um ferrenho defensor de causas ambientalistas e humanitárias, e um dos grandes patrocinadores do Greenpeace. Também fundara a ONG Rutger Hauer Starfish Association, dedicada a prestar apoio a vítimas da AIDS, ainda lá nos anos 80.

Vamos relembrar a partir de agora, imersos naquela nostalgia boa, 10 momentos marcantes do ator na história da sétima arte.


1 - LOUCA PAIXÃO (Turkish Delight, 1973)



Cinéfilos de mais longa data sabem muito bem que o início do sucesso de Hauer em sua carreira começa junto com o sucesso internacional do icônico diretor de Robocop (1987), o célebre Paul Verhoeven, também holandês. Vindos do êxito de algumas produções para a televisão do país, Hauer e Verhoeven despontaram para a fama internacional com este filme perturbador que conseguiu a façanha de concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1974. Turkish Delight é um drama erótico de alta voltagem, bastante voltado para o clima contracultural daquela década, em que um jovem e cabeludo Hauer interpreta o artista plástico Eric, um rebelde transgressor obcecado por seu trágico e volátil relacionamento com uma jovem descendente de família rica e mentalmente instável, Olga (interpretada pela bela atriz Monique van de Ven). Não é um filme fácil, e nem indicado a todos os tipos de plateia: tem certa escatologia, é feito para chocar em alguns momentos, mas carrega bem nas tintas da autenticidade dramática e tem excelentes atuações do casal central, mostrando que Hauer era um talento pronto para estourar. Junto a Soldado de Laranja, drama de guerra que também seria realizado por Hauer e Verhoeven em 1977, são produções ousadas ainda da fase holandesa de ambos, que os revelaram e colocaram seus nomes em voga para o Ocidente.


2 - FALCÕES DA NOITE (Nighthawks, 1981)



É onde começa pra valer a carreira de Hauer na América, e não poderia ser melhor do que nesse clássico de ação policial com um também ainda jovem (e barbado) Sylvester Stallone - em papel bastante atípico, como um tímido e contido tira que fica obcecado em caçar um renomado terrorista que passa a ameaçar a cidade de Nova Iorque com atentados cada vez mais arrojados. Os olhares psicóticos e o tom gélido de Hauer, como o vilão Wulfgar, seriam o seu cartão de visitas para aquele que seria um dos seus maiores papéis (veremos no tópico a seguir), e o seu embate ensandecido com o policial DaSilva (Stallone) mantém a nossa atenção presa do início ao fim da fita. Filmaço.


3 - BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

Segue o antológico monólogo que se tornaria conhecido como "Tears in the Rain" (Lágrimas na chuva): "Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." Essas são as linhas da fala de Rutger Hauer, como o assustador andróide replicante Roy Batty, que o imortalizariam na história do cinema. A atmosfera dessa cena é tão bela e cortante, que percebemos o próprio Harrison Ford (que interpreta o caçador de andróides Deckard), ao contracenar com Hauer, deslumbrado e embevecido com o momento. Hoje sabemos que a parte final (que fala de momentos perdidos no tempo, como lágrimas na chuva) foi puro improviso de Hauer, o que acentuou sobremaneira a capacidade emotiva desenvolvida pelos replicantes e o senso fatalista da consciência de seu desligamento, o adeus à existência, que os torna semelhantes aos humanos. Representa um dos momentos mais impactantes do cinema de ficção científica, e Ridley Scott (o diretor) não tinha outra opção a não ser deixar a cena rolar, do jeito que foi (tinha ouro nas mãos). A trama do filme, basicamente, todo mundo já sabe - Deckard é um tira da Los Angeles do futuro escalado para caçar androides (os replicantes) que se revoltaram contra seu criador, o Dr. Tyrell, e buscam saber a sua data de validade antes de morrerem, agindo violentamente e a todo custo por isso. Hauer faz Roy Batty, o líder deles, e rouba a cena em toda hora que aparece. Obra-prima cult obrigatória e irrepreensível, que a gente é capaz de rever quantas vezes for só pra chegar no incrível e surpreendente final com o monólogo. 



4 - O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983)

Uma obra não tão conhecida ou festejada de Hauer, mas nem por isso menos interessante, por dois relevantes motivos: é o último filme de um mestre do cinema americano de ação e violência, o lendário Sam Peckinpah (The Wild Bunch - Meu Ódio Será a sua Herança), e é o primeiro filme que mostra Hauer desenvolvendo um tipo comum e pacato, o jornalista e apresentador de TV John Tanner, que se vê enredado numa perigosa trama de espionagem envolvendo a CIA e agentes soviéticos, que colocam em risco a sua própria família. Grande elenco (John Hurt, Craig T. Nelson, Dennis Hopper), e um clima de tensão crescente que explode em cenas de matança como só o bom e velho Peckinpah sabia fazer. Infelizmente, não fez tanto sucesso quando foi lançado nos cinemas, se popularizando bastante depois, no mercado de home video. Mostrou ao mundo do showbiz americano que Hauer poderia se dar bem onde quisesse, bastando um roteiro bom e uma direção firme para isso.


5 - LADYHAWKE - O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

Esse sim foi um dos mais aclamados e lembrados filmes da carreira de Hauer até hoje. Sob a batuta do genial Richard Donner (A Profecia, Superman, Máquina Mortífera), temos um dos melhores e mais marcantes contos modernos de capa e espada já realizados, ambientado na era medieval, onde o apaixonado casal Etienne Navarre (Hauer) e Isabeau d'Anjou (Michelle Pfeiffer, no auge da beleza) sofre com uma maldição lançada sobre eles, em que cada um se transforma em animal em um período diferente do dia (ela vira falcão de dia, e ele vira lobo durante a noite), impedindo que se encontrem em suas formas humanas. Quem terá a árdua missão de ajudá-los a quebrar o cruel encanto é um apavorado e gozadíssimo Matthew Broderick (nosso eterno Ferris Buller, de Curtindo a Vida Adoidado), no papel de Philipe, um ladrãozinho de vilarejos e castelos, que se compadece do sofrimento de ambos. Campeão de exibições nas 'sessões da tarde' da vida na TV, e diversão nostálgica e envolvente como não se produz mais, Ladyhawke cravou Hauer como um grande herói do cinema também, desempenhando o capitão Etienne com muita força e carisma. Estava comprovado que não havia nascido só para interpretar vilão.



6 - CONQUISTA SANGRENTA (Flesh + Blood, 1985)

Já bem ambientado no cinema norte-americano, Hauer retoma a sua parceria com o velho amigo holandês Paul Verhoeven, e perpetram aqui, também, uma aventura de capa e espada medieval - mas o total oposto de Ladyhawke, onde bem ao estilo Verhoeven, rola muito sangue, violência, e sexo bruto com obscenidades pra tudo quanto é lado. Flesh + Blood nos apresenta um grupo de guerreiros mercenários (liderados por Martin, papel de Hauer), que resolvem se vingar de um nobre que não os pagou por um serviço realizado, saqueando uma de suas caravanas e levando como refém a jovem noiva de seu filho, Agnes (interpretada por Jennifer Jason Leigh). Martin é um anti-herói, mas que obedece a um estrito código de honra - situação que gerou um ponto de discórdia entre ele e Verhoeven em relação ao roteiro, por terem visões diferentes de como deveria ser desenvolvido o personagem, e que causaria pela primeira vez uma séria briga entre ambos, inflamando o clima das filmagens e causando um rompimento entre ator e diretor, que ficariam anos sem se falar depois disso. Apesar do ambiente tenso da produção, bem como de problemas com a censura norte-americana (que empombou com o forte conteúdo do filme, chegando a cortar várias de suas cenas), foi bem recebido na época por público e crítica, solidificando ainda mais a carreira de Hauer (assim como a de Verhoeven, nos EUA).


7 - A MORTE PEDE CARONA (The Hitcher, 1986)

Chegamos a um dos papéis mais icônicos da carreira de Hauer, como o implacável e sanguinário psicopata John Ryder, que inferniza a vida de um pobre Jim Halsey (C. Thomas Howell), que cai na bobeira de dar carona ao indivíduo para se distrair do tédio de uma longa viagem para entregar um carro. É um dos mais tensos e eletrizantes road movies da década, e já demos uma pincelada nele aqui. Mais uma vez, a imagem emblemática de Hauer traz uma presença magnética incrível para a caracterização de um assassino frio e calculista, que executa suas vítimas pelo mais singelo prazer de matar. E há uma história curiosa de bastidores que o ator C. Thomas Howell sempre adorava contar: durante um bom tempo já, após o início das filmagens, Rutger Hauer mantinha um ar calado e distante do restante do elenco e produção. Até que um belo dia, Howell convida o ator para almoçarem juntos durante uma pausa nas gravações. Tentando quebrar o gelo, e fascinado pela postura de Hauer, ele não se contém e manda essa: "Qual é o seu segredo para fazer papeis de caras maus?". Hauer olhou incisivamente para Howell, fitou ele bem sério, e disse: "Eu não faço caras maus". O então jovem ator cascou fora, engolindo seco. Hoje ele ri ao se lembrar do momento, refletindo que Hauer disse tudo: ele possuía a nuance de sempre injetar alma e ambiguidade em todas as suas atuações, então não eram vilões em sua visão, apenas seres humanos.


8 - A LENDA DO SANTO BEBERRÃO (La Leggenda del Santo Bevitore, 1988)

Nunca vou me esquecer da grata surpresa que foi assistir esse filme melancólico e encantador, há muitos anos, numa insólita madrugada na TV Bandeirantes, em que eles tinham uma sessão nos finais de semana onde exibiam apenas filmes clássicos e de arte, em cópias legendadas, e isso foi por volta de 1990 (era Carlton Cine? Não me recordo, talvez). Havia pouco tempo, essa produção franco-italiana do grande diretor Ermano Olmi havia vencido o Festival de Cinema de Veneza, e além de contar a história (com fortes tons religiosos) de um mendigo alcoólatra que recebe uma quantia em dinheiro que deve ser restituída à igreja da santa de sua devoção (Santa Teresa), acaba servindo como um exercício pleno de atuação dramática para Hauer, fugindo totalmente de todos os estereótipos de ator de ação que vinham dominando a sua carreira, e se concentrando na cinematografia sutil de um simples drama de vanguarda europeia, para compor uma de suas mais bonitas atuações. Andreas, seu personagem, é um sujeito que se amoldou à vida na sarjeta, mas que repentinamente acaba se tornando, das formas mais inesperadas, uma prova viva de que milagres existem - por mais que as dores da existência sejam necessárias para essa certeza e para a reafirmação da fé. Uma joia rara e valiosíssima, oculta na filmografia de Hauer.


9 - FÚRIA CEGA (Blind Fury, 1989)

Muitos consideram esse o último grande papel de herói de ação de Hauer em sua carreira, visto que após ele, a partir de um longo período, entre todos os anos 90 e 2000, o ator iria passar a participar cada vez mais de produções menores e de menor apelo comercial, uma grande parte delas sendo "caça-níqueis" concebidos a toque de caixa, e um ou outro filme realmente mais significativo. É de se lamentar, mas as escolhas de Hauer após este Blind Fury demonstraram uma queda considerável de qualidade artística - posteriormente, foram poucos os destaques que conseguiram aliar vigor estético e artístico a sucessos relevantes e com reconhecimento, tanto por parte de público quanto de crítica. A partir de então, muitas gerações mais recentes perderam o trabalho do ator como um referencial de bons lançamentos, e seu nome foi sendo escanteado para segundo plano. Aqui, Hauer faz o papel de um veterano que perde a visão na Guerra do Vietnam, e com a ajuda de nativos passa a dominar os sentidos e se torna um mestre da espada e das artes marciais (ele é praticamente uma versão do Demolidor da Marvel, sem máscara!). Anos depois, ele acaba se tornando o guardião do filho de um ex-colega de tropa, e também se envolvendo em uma perigosa trama para resgatá-lo de uma violenta quadrilha. O ator se esbaldou, mostrando raça na sua última atuação realmente marcante como nice guy: fez questão de coreografar e treinar várias das cenas de ação do filme com uma venda nos olhos, de forma a imprimir todo o realismo necessário para a sua atuação como cego. Filme de ação muito bom, que não foi um êxito de bilheteria, mas recuperou bem a grana no mercado de home video, e vem sendo cada vez mais redescoberto ao longo dos anos.



10 - BATMAN BEGINS (2005)

Podemos dizer que, na reta final de sua carreira, Hauer já estava mais acomodado à condição de coadjuvante de luxo em várias produções, e com uma carreira internacional notória e já estabelecida, era aquele tipo de astro que já ocupava muito do seu tempo com outros empreendimentos (conforme citado lá no começo), estava vivendo bem com sua segunda esposa, em uma região campestre que ele amava (Frísia, uma província das Nederlands), e vez ou outra aparecia em algum filme que lhe interessava. Foi então que topou participar da épica nova saga cinematográfica do Batman de Christopher Nolan, fazendo o papel do inescrupuloso William Earle, executivo corrupto das Empresas Wayne, no que seria o último vilão memorável que ele interpretaria, mais lembrado por uma galera nova que ainda não conhecia o ator. E mandou bem, mais uma vez.





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quinta-feira, 4 de junho de 2026

O PONTO DE VIRADA DO BARDO FOLK

 

Com 85 anos completados no dia 24 de maio passado, Bob Dylan (nome de batismo: Robert Allen Zimmerman) continua sendo um dos mais celebrados e influentes cantores e compositores que simbolizam a música pop mundial, e está no panteão sagrado dos grandes que marcaram o gênero na década de sessenta do século XX. 

Não surpreende que, para muitos, ele representa - logo após Elvis Presley - o artista culturalmente mais relevante da música norte-americana, que carrega toda uma tradição e iconografia relevantes para se entender o rock do Tio Sam, em suas origens de blues, country, música folclórica, e como tudo isso se mistura e conversa com a alma peregrina dos trovadores e instrumentistas autênticos, que percorrem desde os pastos e áreas rurais até os grandes centros urbanos com seus bares e arranha-céus, levando a mensagem e o som, perpetuando o legado de tempos distantes e primitivos até a época atual.

A despeito de sua ascensão fenomenal como astro folk, lá por volta de 1962-63, só na base da gaitinha e do violão, escorados numa forte e anasalada voz que fugia de todos os padrões, mas que soava estranhamente bela e inseparável de suas letras socialmente pungentes, podemos dizer que Dylan, de fato, só carimbou sua passagem para a eternidade da mitologia pop com um registro impecável, eloquente e original, e que inegavelmente se tornaria o verdadeiro ponto de virada daquele jovem bardo: o lendário álbum Highway 61 Revisited, de 1965, puxado pela também lendária composição "Like a Rolling Stone". Disco que traz, também, a transição definitiva de Dylan para composições mais vanguardistas e sofisticadas, com letras repletas de metáforas existenciais, arranjos ousados e inovadores, e a transmutação do rock como um gênero mais avançado de arte, elevado a uma condição de maturidade.

Os fatos que envolvem o parto dessa obra-prima são variados e fascinantes, e tal período é abordado no (bom) filme de sucesso em que Thimotée Chalamet interpreta Dylan, A Complete Unknown (2024, leia sobre aqui) - mas uma boa parte deles é alterada, ou simplesmente omitida, devido aos caprichos da liberdade artística que sempre permeiam os roteiros cinematográficos. Vamos, portanto, a um apanhado mais fidedigno de toda a atmosfera que circundou a criação do disco.

A última turnê de Dylan na época, ocorrida com shows entre o final de 1964 e início de 1965, havia deixado o artista, física e mentalmente, em frangalhos. A última perna desse evento, com extensas apresentações cobrindo cidades da Inglaterra, compõe o famoso documentário Don't Look Back, de D.A. Pennebaker, que seria lançado dois anos depois nos cinemas - ali, em várias sequências, percebe-se um Dylan ora tenso, ora apático, e acuado pelos revezes conturbados da fama. Havia começado a transição dele do estilo folk purista tradicional para a combinação que agregava os sons de uma banda de rock como acompanhamento: isso já transparecia nitidamente no LP lançado no começo do ano, Bringing it All Back Home, que abria com a enérgica e emblemática "Subterranean Homesick Blues". 

O novo estilo musical que Dylan iniciava ali - e que se notabilizaria como folk rock - causava controvérsia e indignação em vários segmentos mais conservadores da mídia, que o acusavam se estar se "vendendo" e querendo pegar carona na onda do rock, de Beatles e Rolling Stones e todas as novas bandas do momento, traindo suas raízes musicais. Logo ele, o menestrel iluminado, o jovem "escolhido" para representar e levar adiante a bandeira e voz das causas sociais e suas canções simples com instrumentos rudimentares, como herdeiro direto dos folksters clássicos, gente como Woody Guthrie, Pete Seeger (seu amigo pessoal), e o Kingston TrioDylan troca o violão pela guitarra e toda a sua barulheira: heresia total!

Estafado, ele reclamava com seu empresário, Albert Grossman, e vários conhecidos ao seu redor, que se encontrava em um momento altamente desiludido e desanimado com sua própria carreira, apesar de todo o sucesso que detinha. Um jovem então na casa dos seus 24 anos, sentindo que simplesmente estava no fim, que não havia mais nada a dizer ou fazer artisticamente. Uma frase dele naqueles dias resume bem os sintomas de seu esgotamento: "Todos cantam as minhas músicas, mas eu não gosto mais de cantá-las. Outros cantam minhas músicas melhor do que eu". Havia em tal afirmação uma verdade: naquela altura, e com apenas poucos anos de idade e de êxito, Dylan já era um dos compositores mais populares e regravados nos EUA e Europa.

Ocorre enfim a reviravolta de que ele precisava: buscando paz e sossego, Dylan adquire uma casa na região rural de Woodstock, próxima de New York, para onde se muda secretamente, e nesse lugar caro à trajetória do artista (leia mais sobre aqui), eleito como seu grande refúgio, ele tem o que descreveria posteriormente como uma espécie de epifania ou jorro criativo, um "vômito" de versos e frases que ele vai febrilmente descendo na máquina de escrever, um autêntico desabafo existencial da série de coisas que ele vinha sentindo. O resultado final é um conjunto de vinte páginas de poesia abstrata e dinâmica - e que, condensadas e retrabalhadas, se tornam a letra de um hino.

Com o esboço original de "Like a Rolling Stone" em mãos, Dylan enfim reencontra a criatividade, se reanima, e está novamente pronto para encarar tudo, dali em diante. Vislumbrava possibilidades de inovação em sua arte, e o tesão por fazer música estava afinal revigorado: não à toa, é a composição que ele define como "algo que me deu o sentido pelo qual eu sou um artista", e sobre a qual ele inclusive mistifica o próprio processo de sua criação: "As palavras iam fluindo, era como se um espírito escrevesse aquilo através de mim". Ele partiria para as primeiras sessões de gravação do seu próximo disco em junho daquele ano, já com a certeza de que ela seria o carro-chefe do álbum, e seria a primeira canção a ser trabalhada.

Em 15 de junho de 1965, Highway 61 Revisited começa a ser concebido. Dois períodos de gravações ocorrem para gerar o álbum: o primeiro, entre os dias 15 e 16, que é dedicado somente a "Like a Rolling Stone", e o segundo mais adiante, entre 29 de julho e 4 de agosto, em que são produzidas as demais músicas do disco. Entre eles, um acontecimento histórico: o famigerado show no tradicional Festival de Newport de 1965, onde Dylan concretizou, diante de uma plateia efervescente e dividida (muitos aplaudindo, muitos vaiando e xingando), o casamento entre o folk e o rock em sua música, metendo um set elétrico com tudo e falando para os músicos de sua banda tocarem o mais alto possível. Eles já entram executando "Maggie's Farm" com todo o gás. Logo em seguida, emendam para "Like a Rolling Stone", estreando ali ao vivo. E dá-lhe vaias, gritos, berros homéricos o chamando de "gênio" ou "traidor". Que momento. A catarse de tudo foi tão intensa e impactante para Dylan (um artista desafiando e confrontando o seu próprio público, sendo um punk antes dos punks!), que ele saiu dali plenamente decidido a seguir aquela orientação sonora em suas próximas obras, e não voltar atrás.

Dylan em Newport '65

Tudo isso confluiu para o som orgânico de banda e cheio de atitude de Highway 61, que o levou a se tornar o que é - o disco foi lançado em 30 de agosto de 1965, e se tornou um dos maiores sucessos de Dylan, alavancado pelo revolucionário single de "Like a Rolling Stone" nas paradas, com seus longos 6 minutos e 30, e consagrado como uma obra-prima na carreira do músico. 

Seguem alguns fatos importantes para a gênese do disco:

  • O título da obra, bem como a música que lhe dá o nome, são uma reflexão e homenagem de Dylan para a célebre 'rodovia 61', que tem ligação com vários pontos e cidades dos EUA onde nasceram artistas famosos do blues, country e rock and roll, como Muddy Waters, Charley Patton, Elvis Presley, e o próprio Dylan (em Minesotta). A highway 61 também cruza, em determinada altura, com a highway 49 - formando a encruzilhada que seria o lugar onde, mitologicamente, o lendário bluesman Robert Johnson teria feito o seu pacto com o diabo, para se tornar um mestre do blues.
  • "Like a Rolling Stone" foi testada em diferentes ritmos antes de chegar ao seu vigoroso andamento final, incluindo uma versão em estilo de valsa, que poderia ser posteriormente encontrada em discos piratas e coletâneas com curiosidades e outtakes de Dylan. E para o próprio autor, o que definiria o seu som e se tornaria a marca registrada daquela icônica gravação foi um improviso de estúdio totalmente inesperado, gerado pela insatisfação do grande músico Al Kooper em ficar parado, vendo todos tocarem e sem fazer nada, no maior tédio. Convidado especial para as sessões por ser amigo do produtor Tom Wilson, ele discretamente se sentou em um órgão presente no recinto, e pediu para só deixarem ele ficar "brincando" ali, criando riffs e notas, acompanhando instintivamente Dylan e os músicos enquanto tocavam a música. Wilson acidentalmente captou o som do órgão, e gravou junto. Quando Dylan foi ouvir o resultado final na sala de mixagem, ele ficou fascinado por aquele som que Kooper tirara do instrumento, e falou para aumentarem e darem destaque imediatamente ao órgão. Hoje seria impossível imaginar "Like" sem a despretensiosa participação de Al Kooper.
Al Kooper

  • Outra contribuição marota de Kooper para o disco: ao longo de toda a faixa "Highway 61", pode ser ouvido um estridente apito, típico daqueles utilizados por policiais de rua. Travessura trazida por ele para o estúdio também, e que Dylan gostou tanto, que fez questão de usar pontuando partes da música.

  • O excepcional guitarrista Mike Bloomfield (egresso da Paul Butterfly Blues Band), e que estava acompanhando Dylan na época, foi uma das mais valiosas contribuições para o som do álbum. Outros músicos de estúdio e amigos de Dylan ficavam surpresos com a facilidade e criatividade que Bloomfield tinha para imediatamente gerar riffs e camadas inteiras de acordes, para músicas como "Just Like Tom Thumb's Blues" e "From a Buick 6", muitas vezes acertando e gravando de primeira.
Mike Bloomfield

  • Ao longo de todo o disco, Dylan também exercita suas habilidades no piano: "It Takes a Lot to Laugh, it Takes a Train to Cry" e a irônica "Ballad of a Thin Man", que estabelece a contracultura como a nova realidade daqueles alucinados anos 60, foram compostas com total direcionamento para o instrumento, demonstrando a versatilidade de Dylan.

  • Duas canções acabariam se desgarrando das sessões de gravação realizadas entre 29/07 e 04/08, e seriam lançadas somente como singles (compacto), não chegando a fazer parte do álbum: a sensacional "Positively 4th Street", em setembro de 1965, e "Can You Please Crawl Out Your Window", mas essa em uma outra versão, regravada por Dylan com a nova banda que passaria a acompanhá-lo, The Hawks - que logo seria rebatizada, passando a ser conhecida como a lendária The Band.

  • A épica e belamente imagética "Desolation Row", que termina o álbum com seus 11 minutos acústicos, quase como se Dylan quisesse render uma homenagem aos seus tempos folk que ele havia abandonado, se tornaria o outro grande destaque do disco, pois era um longo poema musicado por Dylan onde ele brincava com figuras históricas e fazia várias referências a elas, citando situações e passagens bíblicas - aparecem figuras tão díspares como Cinderela, Bette Davis, Robin Hood e o Corcunda de Notre Dame. Fora a marcante letra (que seria citada e reverenciada em várias antologias poéticas sobre músicas de rock e literatura), o que definia a sonoridade envolvente da faixa eram os acordes de violão tocado em estilo flamenco, cortesia de uma visita do guitarrista Charlie McCoy, notório músico de estúdio de diversas bandas country de Nashville, e que comparecera por acaso, para cobrar ingressos para um show que o produtor do álbum devia a ele.





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OS DEMÔNIOS... E O DEMONÍACO OLIVER REED!

  Um dos mais lendários beberrões da história da sétima arte desde sempre, o ator britânico Oliver Reed (1938 - 1999) vai finalmente voltar...