quarta-feira, 10 de junho de 2026

O GIGANTE HOLANDÊS RUTGER HAUER: 10 FILMES MEMORÁVEIS

 

Poucos atores marcaram tanto e tão bem o cinema de ação dos anos 80 como o lendário holandês Rutger Hauer (1944 - 2019), um gigante nórdico de 1,85m que conseguiu enfileirar uma sequência marcante de filmes de sucesso nas bilheterias, e com um magnetismo visual e artístico tão interessante, que não é errado falar que tem toda uma geração por aí, que cresceu curtindo o audiovisual naquela década e até o comecinho dos anos 90, que assistiu e curtiu muito, mas bastante mesmo, icônicas obras do cinema que foram eternizadas com a presença do cara.

Conforme veremos a seguir, Hauer era talentoso e versátil, e era dotado de um carisma incomum e repleto de trejeitos e maneirismos típicos de sua atuação, que lhe conferiam destaque em diversas interpretações. Mas seu porte físico imponente invariavelmente o relegou a um número maior do que o convencional de papeis de sujeitos barra pesada e figuras ameaçadoras - muitas vezes ele era o vilão, o antagonista da história, mas quando era preciso que desempenhasse também um tipo heroico, que ia com tudo pra cima da bandidagem (como no clássico Ladyhawke, ou no subestimado Fúria Cega), a briga era boa, e o "pau quebrava" pra valer. 

Hauer infelizmente nos deixou em julho de 2019, devido a um câncer no pâncreas - mas sua carreira dentro e fora das telas foi admirável e prolífica. Além de ter se estabelecido nos circuitos do cinema americano e europeu, ele foi um ferrenho defensor de causas ambientalistas e humanitárias, e um dos grandes patrocinadores do Greenpeace. Também fundara a ONG Rutger Hauer Starfish Association, dedicada a prestar apoio a vítimas da AIDS, ainda lá nos anos 80.

Vamos relembrar a partir de agora, imersos naquela nostalgia boa, 10 momentos marcantes do ator na história da sétima arte.


1 - LOUCA PAIXÃO (Turkish Delight, 1973)



Cinéfilos de mais longa data sabem muito bem que o início do sucesso de Hauer em sua carreira começa junto com o sucesso internacional do icônico diretor de Robocop (1987), o célebre Paul Verhoeven, também holandês. Vindos do êxito de algumas produções para a televisão do país, Hauer e Verhoeven despontaram para a fama internacional com este filme perturbador que conseguiu a façanha de concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1974. Turkish Delight é um drama erótico de alta voltagem, bastante voltado para o clima contracultural daquela década, em que um jovem e cabeludo Hauer interpreta o artista plástico Eric, um rebelde transgressor obcecado por seu trágico e volátil relacionamento com uma jovem descendente de família rica e mentalmente instável, Olga (interpretada pela bela atriz Monique van de Ven). Não é um filme fácil, e nem indicado a todos os tipos de plateia: tem certa escatologia, é feito para chocar em alguns momentos, mas carrega bem nas tintas da autenticidade dramática e tem excelentes atuações do casal central, mostrando que Hauer era um talento pronto para estourar. Junto a Soldado de Laranja, drama de guerra que também seria realizado por Hauer e Verhoeven em 1977, são produções ousadas ainda da fase holandesa de ambos, que os revelaram e colocaram seus nomes em voga para o Ocidente.


2 - FALCÕES DA NOITE (Nighthawks, 1981)



É onde começa pra valer a carreira de Hauer na América, e não poderia ser melhor do que nesse clássico de ação policial com um também ainda jovem (e barbado) Sylvester Stallone - em papel bastante atípico, como um tímido e contido tira que fica obcecado em caçar um renomado terrorista que passa a ameaçar a cidade de Nova Iorque com atentados cada vez mais arrojados. Os olhares psicóticos e o tom gélido de Hauer, como o vilão Wulfgar, seriam o seu cartão de visitas para aquele que seria um dos seus maiores papéis (veremos no tópico a seguir), e o seu embate ensandecido com o policial DaSilva (Stallone) mantém a nossa atenção presa do início ao fim da fita. Filmaço.


3 - BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

Segue o antológico monólogo que se tornaria conhecido como "Tears in the Rain" (Lágrimas na chuva): "Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." Essas são as linhas da fala de Rutger Hauer, como o assustador andróide replicante Roy Batty, que o imortalizariam na história do cinema. A atmosfera dessa cena é tão bela e cortante, que percebemos o próprio Harrison Ford (que interpreta o caçador de andróides Deckard), ao contracenar com Hauer, deslumbrado e embevecido com o momento. Hoje sabemos que a parte final (que fala de momentos perdidos no tempo, como lágrimas na chuva) foi puro improviso de Hauer, o que acentuou sobremaneira a capacidade emotiva desenvolvida pelos replicantes e o senso fatalista da consciência de seu desligamento, o adeus à existência, que os torna semelhantes aos humanos. Representa um dos momentos mais impactantes do cinema de ficção científica, e Ridley Scott (o diretor) não tinha outra opção a não ser deixar a cena rolar, do jeito que foi (tinha ouro nas mãos). A trama do filme, basicamente, todo mundo já sabe - Deckard é um tira da Los Angeles do futuro escalado para caçar androides (os replicantes) que se revoltaram contra seu criador, o Dr. Tyrell, e buscam saber a sua data de validade antes de morrerem, agindo violentamente e a todo custo por isso. Hauer faz Roy Batty, o líder deles, e rouba a cena em toda hora que aparece. Obra-prima cult obrigatória e irrepreensível, que a gente é capaz de rever quantas vezes for só pra chegar no incrível e surpreendente final com o monólogo. 



4 - O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983)

Uma obra não tão conhecida ou festejada de Hauer, mas nem por isso menos interessante, por dois relevantes motivos: é o último filme de um mestre do cinema americano de ação e violência, o lendário Sam Peckinpah (The Wild Bunch - Meu Ódio Será a sua Herança), e é o primeiro filme que mostra Hauer desenvolvendo um tipo comum e pacato, o jornalista e apresentador de TV John Tanner, que se vê enredado numa perigosa trama de espionagem envolvendo a CIA e agentes soviéticos, que colocam em risco a sua própria família. Grande elenco (John Hurt, Craig T. Nelson, Dennis Hopper), e um clima de tensão crescente que explode em cenas de matança como só o bom e velho Peckinpah sabia fazer. Infelizmente, não fez tanto sucesso quando foi lançado nos cinemas, se popularizando bastante depois, no mercado de home video. Mostrou ao mundo do showbiz americano que Hauer poderia se dar bem onde quisesse, bastando um roteiro bom e uma direção firme para isso.


5 - LADYHAWKE - O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

Esse sim foi um dos mais aclamados e lembrados filmes da carreira de Hauer até hoje. Sob a batuta do genial Richard Donner (A Profecia, Superman, Máquina Mortífera), temos um dos melhores e mais marcantes contos modernos de capa e espada já realizados, ambientado na era medieval, onde o apaixonado casal Etienne Navarre (Hauer) e Isabeau d'Anjou (Michelle Pfeiffer, no auge da beleza) sofre com uma maldição lançada sobre eles, em que cada um se transforma em animal em um período diferente do dia (ela vira falcão de dia, e ele vira lobo durante a noite), impedindo que se encontrem em suas formas humanas. Quem terá a árdua missão de ajudá-los a quebrar o cruel encanto é um apavorado e gozadíssimo Matthew Broderick (nosso eterno Ferris Buller, de Curtindo a Vida Adoidado), no papel de Philipe, um ladrãozinho de vilarejos e castelos, que se compadece do sofrimento de ambos. Campeão de exibições nas 'sessões da tarde' da vida na TV, e diversão nostálgica e envolvente como não se produz mais, Ladyhawke cravou Hauer como um grande herói do cinema também, desempenhando o capitão Etienne com muita força e carisma. Estava comprovado que não havia nascido só para interpretar vilão.



6 - CONQUISTA SANGRENTA (Flesh + Blood, 1985)

Já bem ambientado no cinema norte-americano, Hauer retoma a sua parceria com o velho amigo holandês Paul Verhoeven, e perpetram aqui, também, uma aventura de capa e espada medieval - mas o total oposto de Ladyhawke, onde bem ao estilo Verhoeven, rola muito sangue, violência, e sexo bruto com obscenidades pra tudo quanto é lado. Flesh + Blood nos apresenta um grupo de guerreiros mercenários (liderados por Martin, papel de Hauer), que resolvem se vingar de um nobre que não os pagou por um serviço realizado, saqueando uma de suas caravanas e levando como refém a jovem noiva de seu filho, Agnes (interpretada por Jennifer Jason Leigh). Martin é um anti-herói, mas que obedece a um estrito código de honra - situação que gerou um ponto de discórdia entre ele e Verhoeven em relação ao roteiro, por terem visões diferentes de como deveria ser desenvolvido o personagem, e que causaria pela primeira vez uma séria briga entre ambos, inflamando o clima das filmagens e causando um rompimento entre ator e diretor, que ficariam anos sem se falar depois disso. Apesar do ambiente tenso da produção, bem como de problemas com a censura norte-americana (que empombou com o forte conteúdo do filme, chegando a cortar várias de suas cenas), foi bem recebido na época por público e crítica, solidificando ainda mais a carreira de Hauer (assim como a de Verhoeven, nos EUA).


7 - A MORTE PEDE CARONA (The Hitcher, 1986)

Chegamos a um dos papéis mais icônicos da carreira de Hauer, como o implacável e sanguinário psicopata John Ryder, que inferniza a vida de um pobre Jim Halsey (C. Thomas Howell), que cai na bobeira de dar carona ao indivíduo para se distrair do tédio de uma longa viagem para entregar um carro. É um dos mais tensos e eletrizantes road movies da década, e já demos uma pincelada nele aqui. Mais uma vez, a imagem emblemática de Hauer traz uma presença magnética incrível para a caracterização de um assassino frio e calculista, que executa suas vítimas pelo mais singelo prazer de matar. E há uma história curiosa de bastidores que o ator C. Thomas Howell sempre adorava contar: durante um bom tempo já, após o início das filmagens, Rutger Hauer mantinha um ar calado e distante do restante do elenco e produção. Até que um belo dia, Howell convida o ator para almoçarem juntos durante uma pausa nas gravações. Tentando quebrar o gelo, e fascinado pela postura de Hauer, ele não se contém e manda essa: "Qual é o seu segredo para fazer papeis de caras maus?". Hauer olhou incisivamente para Howell, fitou ele bem sério, e disse: "Eu não faço caras maus". O então jovem ator cascou fora, engolindo seco. Hoje ele ri ao se lembrar do momento, refletindo que Hauer disse tudo: ele possuía a nuance de sempre injetar alma e ambiguidade em todas as suas atuações, então não eram vilões em sua visão, apenas seres humanos.


8 - A LENDA DO SANTO BEBERRÃO (La Leggenda del Santo Bevitore, 1988)

Nunca vou me esquecer da grata surpresa que foi assistir esse filme melancólico e encantador, há muitos anos, numa insólita madrugada na TV Bandeirantes, em que eles tinham uma sessão nos finais de semana onde exibiam apenas filmes clássicos e de arte, em cópias legendadas, e isso foi por volta de 1990 (era Carlton Cine? Não me recordo, talvez). Havia pouco tempo, essa produção franco-italiana do grande diretor Ermano Olmi havia vencido o Festival de Cinema de Veneza, e além de contar a história (com fortes tons religiosos) de um mendigo alcoólatra que recebe uma quantia em dinheiro que deve ser restituída à igreja da santa de sua devoção (Santa Teresa), acaba servindo como um exercício pleno de atuação dramática para Hauer, fugindo totalmente de todos os estereótipos de ator de ação que vinham dominando a sua carreira, e se concentrando na cinematografia sutil de um simples drama de vanguarda europeia, para compor uma de suas mais bonitas atuações. Andreas, seu personagem, é um sujeito que se amoldou à vida na sarjeta, mas que repentinamente acaba se tornando, das formas mais inesperadas, uma prova viva de que milagres existem - por mais que as dores da existência sejam necessárias para essa certeza e para a reafirmação da fé. Uma joia rara e valiosíssima, oculta na filmografia de Hauer.


9 - FÚRIA CEGA (Blind Fury, 1989)

Muitos consideram esse o último grande papel de herói de ação de Hauer em sua carreira, visto que após ele, a partir de um longo período, entre todos os anos 90 e 2000, o ator iria passar a participar cada vez mais de produções menores e de menor apelo comercial, uma grande parte delas sendo "caça-níqueis" concebidos a toque de caixa, e um ou outro filme realmente mais significativo. É de se lamentar, mas as escolhas de Hauer após este Blind Fury demonstraram uma queda considerável de qualidade artística - posteriormente, foram poucos os destaques que conseguiram aliar vigor estético e artístico a sucessos relevantes e com reconhecimento, tanto por parte de público quanto de crítica. A partir de então, muitas gerações mais recentes perderam o trabalho do ator como um referencial de bons lançamentos, e seu nome foi sendo escanteado para segundo plano. Aqui, Hauer faz o papel de um veterano que perde a visão na Guerra do Vietnam, e com a ajuda de nativos passa a dominar os sentidos e se torna um mestre da espada e das artes marciais (ele é praticamente uma versão do Demolidor da Marvel, sem máscara!). Anos depois, ele acaba se tornando o guardião do filho de um ex-colega de tropa, e também se envolvendo em uma perigosa trama para resgatá-lo de uma violenta quadrilha. O ator se esbaldou, mostrando raça na sua última atuação realmente marcante como nice guy: fez questão de coreografar e treinar várias das cenas de ação do filme com uma venda nos olhos, de forma a imprimir todo o realismo necessário para a sua atuação como cego. Filme de ação muito bom, que não foi um êxito de bilheteria, mas recuperou bem a grana no mercado de home video, e vem sendo cada vez mais redescoberto ao longo dos anos.



10 - BATMAN BEGINS (2005)

Podemos dizer que, na reta final de sua carreira, Hauer já estava mais acomodado à condição de coadjuvante de luxo em várias produções, e com uma carreira internacional notória e já estabelecida, era aquele tipo de astro que já ocupava muito do seu tempo com outros empreendimentos (conforme citado lá no começo), estava vivendo bem com sua segunda esposa, em uma região campestre que ele amava (Frísia, uma província das Nederlands), e vez ou outra aparecia em algum filme que lhe interessava. Foi então que topou participar da épica nova saga cinematográfica do Batman de Christopher Nolan, fazendo o papel do inescrupuloso William Earle, executivo corrupto das Empresas Wayne, no que seria o último vilão memorável que ele interpretaria, mais lembrado por uma galera nova que ainda não conhecia o ator. E mandou bem, mais uma vez.





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