quinta-feira, 28 de maio de 2026

'MUITO ALÉM DO JARDIM' E OS PARADIGMAS DA COMUNICAÇÃO

 

Obra impagável continua sendo Muito Além do Jardim (Being There, 1979), brilhante filme de Hal Ashby (um dos últimos grandes mestres do movimento 'New Hollywood'), e com a inesquecível e tocante interpretação de Peter Sellers no papel principal, de Chance, o jardineiro. Seria a atuação mais celebrada do final de sua vida (ele morreria no ano seguinte, em 1980), e a última pela qual concorreu ao Oscar de melhor ator - ele já havia sido indicado em 1964, pelo fenomenal Dr. Fantástico, de Kubrick (leia sobre aqui). Infelizmente, em nenhuma das ocasiões, Sellers levou a estatueta. Mas pelo menos por essa derradeira nomeação, merecia. Belíssima homenagem que teria sido, para coroar sua carreira.

Peter Sellers, em 'Muito Além do Jardim' (1979)

O filme, com roteiro do renomado escritor Jerzy Kosinski, foi baseado no livro homônimo do mesmo, Being There (no Brasil, O Vidiota), lançado com sucesso em 1971, e ambos se estabelecem como uma das mais veementes e concisas críticas aos absurdos da distorção de comunicação e suas consequências, no mundo moderno cada vez mais aloprado. 

A trama explora a história de Chance, um jardineiro/caseiro de meia idade que nasceu e passou a vida inteira na mansão de um ricaço em Washington D.C., mas que então falece, e não deixa nenhuma herança ou instrução para o pobre coitado continuar morando ali. Importante frisar que Chance nunca pôs os pés pra fora daquele lugar e não tem experiência de vida ou instrução educacional nenhuma, é praticamente um retardado cujas únicas informações a respeito do mundo vieram de sua existência inteira assistindo e retendo tudo o que passava no seu único mentor e companheiro até ali: o aparelho de TV. Então, quando a equipe de advogados do espólio do patrão morto consegue pôr ele pra fora da mansão, ele, em sua absoluta ingenuidade misturada com ignorância, sai andando pela cidade carregando uma mala com seus pouquíssimos pertences, e o controle remoto da televisão - acreditando que através daquele simples utensílio, ele conseguirá "mudar o canal" e alterar a realidade que o cerca.

O que aparentemente salva esse sujeito errante, sem eira nem beira ou ideia nenhuma, é aquilo que inicialmente pode ser considerado um pequeno acidente, mas que irá mudar a sua vida, e todos os rumos da história do filme: a esposa de um empresário ricaço e extremamente influente, Eve Rand (interpretada por uma Shirley MacLaine muito bela, em fase iluminada de sua carreira) esbarra o carro em Chance, e sentindo remorso pelo ocorrido, se predispõe a ajudá-lo, levando o mesmo para casa ao invés de um hospital. É aí que o plot dá aquela virada.

Peter Sellers e Shirley MacLaine

Uma certa candura e leveza no jeito de Chance se comportar e se expressar, aliadas à sua grande calma e silêncio ao se relacionar com as pessoas de um círculo social mais elevado, dali em diante, passa a ser encarada por todos ao seu redor, como uma fascinante atitude reflexiva e analítica - mas isso simplesmente por ele não ter nada mesmo o que expressar, devido à sua estupidez! E o grande achado de tudo: quando finalmente Chance abre a boca para falar ou dar suas opiniões sobre alguma coisa, ele simplesmente usa citações de alguns dos incontáveis e imbecis programas de TV que ele acompanhou a vida toda. Mas que, no contexto em que são usadas, acabam se encaixando exatamente no assunto que é abordado (e muitas das vezes, muito mais por uma forçada de barra de quem está interpretando o que ele disse, do que por qualquer coerência aparente).

Assim, o marido de Eve, o magnata Benjamin Rand (Melvyn Douglas, fantástico) - que logo veremos, ficará moribundo - se torna também um grande fã e admirador de Chance, assim como várias pessoas, chegando a apresentá-lo ao presidente dos EUA (Jack Warden)... que também se rende aos seus "pensamentos". Alguns jornalistas mais sagazes chegam a desconfiar da farsa que Chance é, tentam revirar e descobrir o seu passado, saber de onde veio. Mas já é tarde demais. De repente, ali já está nascendo um novo guru existencial e midiático, do qual todos esperam algum conselho, algum pensamento ou citação "iluminada". E a quem os Rand logo tratarão de reservar um grande lugar no futuro.

É um enredo sensacional, na forma como se desenvolve e disseca as terríveis armadilhas dos paradigmas da comunicação - o que ela é realmente, e como se subverte de formas tão imperfeitas e bizarras, a ponto de transformar tolos em gênios, ordinários em ídolos (mitos)? As delicadas e intrincadas engrenagens do poder, também bastante explicitadas no roteiro de Kosinski e na excepcional direção de Ashby - um iconoclasta e crítico social dos mais ácidos, por natureza - fazem parte aqui de uma brilhante análise sobre como também as conveniências moldam figuras que devem servir a propósitos muito maiores do que se pode imaginar. Em outras palavras: como de fato temos "vidiotas" (o termo na época se aplicava a vídeo ou TV, hoje poderíamos dizer internet), pessoas com conteúdo zero ou quase nenhum, mas que podem passar por uma manipulação ou interpretação social, para assumirem um lugar de destaque no meio. Se parar pra pensar, acontece muito, hoje em dia. O filme e livro Being There anteviu tudo isso, sagazmente.

O icônico desfecho, em que Ashby peitou e entregou, muito a contragosto do estúdio, um dos mais enigmáticos finais da história do cinema (representado na foto que abre essa postagem) parece querer nos dizer, atrevidamente, que até mesmo figuras messiânicas podem ser avatares da manipulação e dos jogos de interesses. Há uma mensagem muito interessante decodificada ali, que pressupõe diversas teorias, e de que até mesmo o oculto funciona melhor trabalhando com a confusão da informação.

Nunca é demais lembrar a outra grande ironia do texto, que é o nome do protagonista: Chance, ou seja, "chance" ou "oportunidade", esse cara realmente tem tudo para ir longe, apesar de todas as suas limitações. E quando vemos em uma cena, ocorrida um pouco antes do final, uma referência à possibilidade dele assumir a mais alta liderança de tudo, no país e no mundo, cercado por um cenário fúnebre, que mais lembra templos típicos de sociedades secretas, com os seus símbolos e rituais, e os diversos grupos de interesses a adular e projetar sobre ele os seus planos, é realmente de se pensar: mas que raio de filme profético e atual é esse.




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domingo, 24 de maio de 2026

O MISTERIOSO FIM DE UM BALUARTE DO ROCK

Há 50 anos, em 14 de maio de 1976, ocorria a passagem de uma das figuras mais proeminentes do rock desbravador rock inglês dos anos 60, o homem que havia dado voz a um dos mais importantes grupos daquela geração, o "ninho de pássaros" de três estupendos guitarristas que saíram de lá para voar bem alto. Estamos falando da cultuada banda The Yardbirds (já abordada aqui, neste link), por onde passaram ninguém menos que Eric ClaptonJeff Beck e Jimmy Page. E estamos falando, principalmente, do seu vocalista, um baluarte daquela era de gênios que moldaram o som moderno: Keith Relf.

 

Figura mítica de uma época inovadora e de devaneios, possuía uma voz anasalada e rascante ao mesmo tempo, além de ser um exímio gaitista, banhado na tradição das raízes honestas do blues, o que imprimia um estilo característico e marcante às obras e projetos da qual fez parte. Mas que também teve um fim tão triste quanto misterioso, e que há até bem pouco ainda, despertava discussões e polêmicas a respeito de suas nebulosas circunstâncias.

Do início em 1963, substituindo os Rolling Stones no lendário Crawdaddy Club de Londres, até meados de 1967, os Yardbirds fariam história com um som inovador, calcado nos diferentes estilos da trinca mítica de mestres das seis cordas que tocaram na banda - primeiro, rebuscando as raízes do blues elétrico com o reverente Clapton; depois, entrando de cabeça no experimentalismo e na psicodelia vanguardista de distorções com Jeff Beck; e finalmente, com Page se juntando a ele e adicionando ainda mais peso na mistura, até que no final sobrasse apenas Page na guitarra, o que foi a deixa para o embrião do seu futuro projeto, chamado Led Zeppelin.

Os Yardbirds de 1966, em sua mais clássica formação: de pé, da esquerda para a direita, Jim McCarty (bateria), Jeff Beck (guitarra), e Chris Dreja (baixo). No chão, Jimmy Page (guitarra), e recostado na cadeira, Keith Relf (vocais)


Julho de 1968: fadigados, os Yardbirds dão seus últimos suspiros. Em uma rápida reunião, o vocalista Keith Relf e o baterista Jim McCarty comunicam a Page e o baixista Chris Dreja que estão saindo do grupo, e pensam em iniciar um novo projeto, com uma tendência de som diferente, mais acentuada para o folk: o Together. Era basicamente apenas os dois tocando juntos, numa vibe acústica e de curtíssima duração, que resultou em um único compacto, lançado ainda em agosto daquele ano, com as músicas "Henry's Comin' Home" e "Love Mum and Dad". Era quase um projeto solo de Relf - ele já havia tentado uma carreira individual paralela aos Yardbirds em 1966, ao lançar o single "Mr. Zero", mas não teve grande repercussão. A importância do projeto Together agora, no entanto, seria decisiva, pois foi através dele que Relf e McCarty acabariam travando contato com outros músicos, para criar aquele que de fato seria o primeiro grande momento de projeção do cantor após os Yardbirds: o célebre grupo Renaissance.

Keith e sua irmã Jane Relf, em 1969: mentores da formação original do Renaissance

Foi graças a uma ideia desenvolvida entre Keith e sua irmã, Jane Relf (se lançando como vocalista), mais o baixista Louis Cenammo e o pianista John Hawken, conhecidos de bastidores das gravações do Together - formar um combo que conseguisse juntar o vigor do rock ao lirismo e a sofisticação de vocalizações (trabalhadas em conjunto por Keith e Jane) mais a instrumentação folclórica e pastoral, produzindo um som refinadíssimo e de forte inspiração jazzística, que entraria para a história do rock progressivo. O primeiro e seminal registro do grupo, em disco homônimo lançado em 1969, se destaca por suítes e canções contemplativas, como as belíssimas "Island" e "Kings and Queens".

Essa formação, entretanto, duraria apenas mais um álbum, o também magistral Illusion, de 1971. Apesar de contar com uma boa qualidade e linha que seguia ainda o estilo do LP anterior, foi um trabalho conturbado, que acabaria determinando o fim dessa formação original do grupo, e dando origem ao line-up posterior do Renaissance que se tornaria o mais celebrado e conhecido pelos anos e décadas seguintes, com a cantora Annie Haslam assumindo a voz e o comando, junto com outros membros. 

Durante um extenuante período de turnês entre 1969 e 1970, tanto Jim McCarty (que havia produzido o primeiro disco) quanto Keith Relf adoecem, em períodos consecutivos, sendo que a situação do vocalista sempre fora um pouco mais complicada: era notório que ele sempre fora vítima de uma bronquite asmática crônica, que quase tirara a sua vida ainda quando criança, e praticamente lhe deixara com apenas um pulmão funcionando. Um autêntico guerreiro  sobrevivente, que lutando contra todos os prospectos, e as dificuldades até mesmo para ter fôlego para cantar durante certas épocas de crise, tinha uma paixão pela música e pelos blues que o levava a superar tudo, sempre seguindo adiante.

Eles também se desentendem quanto aos rumos do som do segundo álbum. Isso faz com que Keith Relf aproveite uma breve ausência de McCarty, e assuma sozinho a produção do disco - o que desagrada o baterista. O processo de desintegração do grupo é rápido. Quando Illusion foi efetivamente lançado, no início de 1971, Relf já estava fora do grupo.

"Island", com o Renaissance, ao vivo

O biênio 1971-1972 vê um Keith Relf buscando se concentrar mais no trabalho de produtor e compositor nos estúdios, convivendo com o mundo da música de uma forma mais tranquila. Por trás disso, estava não só o interesse em fugir um pouco do barulho e correria do dia a dia de uma banda, com o qual ele já havia convivido arduamente desde os dias de Yardbirds, como também a necessidade de desacelerar para cuidar um pouco mais da saúde. Nesse período, então, ele atua como produtor da banda inglesa Steamhammer, com quem o baixista Louis Cenammo passa a tocar, após também sair do Renaissance. O grupo lança um ultimo trabalho em 1972, produzido por Relf, mas a partir dele é que estão lançadas as sementes para o último grande projeto conhecido do cantor. 

Estreitando uma forte amizade nos estúdios com o guitarrista do Steamhammer, o talentoso Martin Pugh, Relf e Cenammo passam a compor bastante com ele, e idealizar um novo conceito de grupo. Eram dias de ousadia e poder dos grupos que elevavam o blues às últimas consequências do peso e da intensidade sonora: vendendo milhares de discos, bandas como Deep Purple, Black Sabbath, Humble Pie e o mais monumental de todos, o Led Zeppelin (do ex-coleguinha de Relf, Jimmy Page) ditavam as regras do mercado de música jovem, ao lado das agremiações progressivas. Isso chamava a atenção de Relf e dos outros caras, que passaram a querer fazer parte desse filão também.

Rara foto de Keith Relf com o Armageddon (1975)

O nascimento idealizado da super banda então batizada por eles de Armageddon passa por duas decisões importantes: a primeira, como já foi dito, era fazer experimentações sonoras com o modelo de hard rock que era sensação na época. Mas a outra, pouco conhecida por muitos, dizia respeito à própria saúde de Relf, cada vez mais fragilizada devido a seus problemas respiratórios. De acordo com recomendações médicas, e procurando fugir do clima frio e úmido inglês que só piorava as suas crises, Relf propôs para todos se mudarem temporariamente para os EUA, na ensolarada Los Angeles, onde não só o clima mais temperado como também chances maiores para se estabelecerem artisticamente e conseguirem contratos seriam oportunidades mais benéficas. E como um bom grupo de rock pauleira tem na sua composição o baterista como peça fundamental, foi justamente lá que eles encontraram o seu: Bobby Caldwell, que havia feito parte do lendário Captain Beyond.

O ano era 1974, e durante a estadia deles em L.A., as portas vão se abrindo: primeiro, devido à amizade do baixista Louis Cenammo com o célebre cantor e guitarrista Peter Frampton, que já estava se tornando bem conhecido na América, o Armageddon estabelece boas relações com a gravadora do mesmo, a A&M Records, e daí para um contrato de gravação do que seria o primeiro disco deles foi um pulo. Uma fitinha demo com algumas das músicas que eles já haviam composto estava rolando nos bastidores do pessoal da música, e prenunciava e confirmava os burburinhos de todo mundo que ouvira o material: o Armageddon tinha uma qualidade excepcional, e estavam destinados a ser a próxima grande sensação do rock! Músicos exímios vindos de grupos lendários e já consagrados, e que tinham uma criatividade e inspiração invejáveis. Era um mega jato turbinado, e pronto para decolar. 

"Silver Tightrope" (1975 - Armageddon

As canções da demo são retrabalhadas e, gravado em sessões de estúdio entre a Inglaterra e EUA, o álbum de estreia dos caras, o autointitulado e magistral Armageddon é lançado em julho de 1975. Petardos como "Buzzard", "Last Stand Before" e a hipnótica "Silver Tightrope" comprovam que sim, agora Keith Relf - novamente segurando a gaita e os vocais, assim como em seus tempos áureos de Yardbirds - conseguira atingir seus intentos, e tinha uma banda poderosa, capaz de fazer frente ao Zeppelin, de Mr. Page e cia.

Mas então... vem a reviravolta que poucos esperavam. A expectativa por maiores vendagens do álbum nos EUA (apesar de um bom desempenho nas paradas europeias) não é atingida, ao mesmo tempo em que, durante a estadia em L.A., Pugh e Cenammo começam a ficar desleixados e vão se entregando a cada vez mais "festinhas" e substâncias inebriantes, chegando a faltar a compromissos de ensaios e pequenos shows, que tinham como intenção aquecer a banda para o que seria sua grande chance de fazer o nome: haviam sido anunciados como grupo de abertura da nova turnê americana de ninguém menos que Eric Clapton. A despeito disso, e de acordo com depoimentos que o baterista Bobby Caldwell daria anos depois, em 2008, outro contratempo passava a ameaçar o Armageddon: uma nova piora no quadro de saúde de Relf acontecia, aliada ao fato dele acabar acompanhando os outros membros em festas e eventos que não eram recomendados para alguém em sua condição. O último diagnóstico dado naquele ano indicava que a sua asma havia simplesmente evoluído para um enfisema pulmonar. Ele estava praticamente impossibilitado de seguir com o grupo em uma grande turnê.

Relf e Pugh em show em West Hollywood, 1975

Estávamos agora em 1976. E a grande promessa do Armageddon havia, infelizmente, morrido na praia. Esfacelado e com um sentimento geral de desinteresse, os seus integrantes se dispersam, e o grupo encerra as atividades.

No final do ano anterior, Relf e sua família - a esposa, April Liversidge, e os dois filhos, Daniel e Jason - haviam se mudado para Hounslow, distrito a oeste de Londres, para uma casa suburbana simples e no estilo dos imóveis do lugar, mas com um porão subterrâneo que o músico havia adaptado como um estúdio caseiro, onde pudesse continuar compondo e trabalhando com suas ideias. Apesar da saúde mais debilitada, Relf não se dava nunca por vencido: já havia estabelecido conversações com sua irmã Jane, para ensaiar uma possível volta daquela formação original deles do Renaissance (que agora passaria a se chamar Illusion), ainda que tivessem que se apresentar menos vezes e de forma mais comedida, e já estava compondo e criando novas músicas e arranjos, enquanto esperava melhoras à base de um novo tratamento que ele tinha começado, com o uso do medicamento teofilina.

No dia 14 de maio, Relf está trabalhando em uma nova composição com sua guitarra, plugada nos equipamentos de seu estúdio caseiro. Mentes malignas e detestáveis, dessas dignas de tabloides e noticiosos absurdos da imprensa sensacionalista - o mesmo tipo de gente que foi capaz de criar a lenda de que a cantora Mama Cass Elliot havia morrido engasgada com um sanduíche (leia aqui) - inventariam depois a história de que Relf, tal qual um rockstar drogado e enlouquecido, teria ligado a sua guitarra enquanto estava em uma banheira luxuosa, ideia tão esquizofrênica e típica do jornalismo marrom, que a gente fica pensando, como é que certos veículos já tiveram a coragem de um dia publicar esse tipo de disparate.

Ocorre que aqueles tipos de porão, das casas inglesas na época, não tinham um aterramento de energia adequado, assim como geralmente apresentavam grande parte da tubulação hidráulica da residência exposta. A umidade típica daquele ambiente muito provavelmente causou o contato entre alguma água dos canos e a fiação elétrica do local. Enquanto tocava, calmamente, e de forma desapercebida e sem grande ruído, Keith Relf foi eletrocutado por uma descarga que subiu pelo cabo de sua guitarra plugada, imediatamente o levando a óbito. Agravada era a sua condição cardíaca, devido ao uso da teofilina, que pode instantaneamente levar a episódios de taquicardia ou arritmia - visto que especialistas posteriormente constataram que o choque que o vitimou nem era tão forte. 

O mais melancólico de tudo é que seu corpo fora encontrado pelo filho menor, Danny, então com apenas 8 anos de idade, e que num primeiro momento achou que o pai tivesse simplesmente adormecido de cansaço no estúdio, sentado, com sua guitarra nos braços.

Keith Relf está enterrado no Cemitério de Richmond, Inglaterra, e a sua alma e autenticidade artística admiráveis serão para sempre lembrados por todos os amantes da boa música e do rock clássico e vigoroso, de qualidade.




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