Há 50 anos, em 14 de maio de 1976, ocorria a passagem de uma das figuras mais proeminentes do rock desbravador rock inglês dos anos 60, o homem que havia dado voz a um dos mais importantes grupos daquela geração, o "ninho de pássaros" de três estupendos guitarristas que saíram de lá para voar bem alto. Estamos falando da cultuada banda The Yardbirds (já abordada aqui, neste link), por onde passaram ninguém menos que Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. E estamos falando, principalmente, do seu vocalista, um baluarte daquela era de gênios que moldaram o som moderno: Keith Relf.
Figura mítica de uma época inovadora e de devaneios, possuía uma voz anasalada e rascante ao mesmo tempo, além de ser um exímio gaitista, banhado na tradição das raízes honestas do blues, o que imprimia um estilo característico e marcante às obras e projetos da qual fez parte. Mas que também teve um fim tão triste quanto misterioso, e que há até bem pouco ainda, despertava discussões e polêmicas a respeito de suas nebulosas circunstâncias.
Do início em 1963, substituindo os Rolling Stones no lendário Crawdaddy Club de Londres, até meados de 1967, os Yardbirds fariam história com um som inovador, calcado nos diferentes estilos da trinca mítica de mestres das seis cordas que tocaram na banda - primeiro, rebuscando as raízes do blues elétrico com o reverente Clapton; depois, entrando de cabeça no experimentalismo e na psicodelia vanguardista de distorções com Jeff Beck; e finalmente, com Page se juntando a ele e adicionando ainda mais peso na mistura, até que no final sobrasse apenas Page na guitarra, o que foi a deixa para o embrião do seu futuro projeto, chamado Led Zeppelin.
Julho de 1968: fadigados, os Yardbirds dão seus últimos suspiros. Em uma rápida reunião, o vocalista Keith Relf e o baterista Jim McCarty comunicam a Page e o baixista Chris Dreja que estão saindo do grupo, e pensam em iniciar um novo projeto, com uma tendência de som diferente, mais acentuada para o folk: o Together. Era basicamente apenas os dois tocando juntos, numa vibe acústica e de curtíssima duração, que resultou em um único compacto, lançado ainda em agosto daquele ano, com as músicas "Henry's Comin' Home" e "Love Mum and Dad". Era quase um projeto solo de Relf - ele já havia tentado uma carreira individual paralela aos Yardbirds em 1966, ao lançar o single "Mr. Zero", mas não teve grande repercussão. A importância do projeto Together agora, no entanto, seria decisiva, pois foi através dele que Relf e McCarty acabariam travando contato com outros músicos, para criar aquele que de fato seria o primeiro grande momento de projeção do cantor após os Yardbirds: o célebre grupo Renaissance.
Foi graças a uma ideia desenvolvida entre Keith e sua irmã, Jane Relf (se lançando como vocalista), mais o baixista Louis Cenammo e o pianista John Hawken, conhecidos de bastidores das gravações do Together - formar um combo que conseguisse juntar o vigor do rock ao lirismo e a sofisticação de vocalizações (trabalhadas em conjunto por Keith e Jane) mais a instrumentação folclórica e pastoral, produzindo um som refinadíssimo e de forte inspiração jazzística, que entraria para a história do rock progressivo. O primeiro e seminal registro do grupo, em disco homônimo lançado em 1969, se destaca por suítes e canções contemplativas, como as belíssimas "Island" e "Kings and Queens".
Essa formação, entretanto, duraria apenas mais um álbum, o também magistral Illusion, de 1971. Apesar de contar com uma boa qualidade e linha que seguia ainda o estilo do LP anterior, foi um trabalho conturbado, que acabaria determinando o fim dessa formação original do grupo, e dando origem ao line-up posterior do Renaissance que se tornaria o mais celebrado e conhecido pelos anos e décadas seguintes, com a cantora Annie Haslam assumindo a voz e o comando, junto com outros membros.
Durante um extenuante período de turnês entre 1969 e 1970, tanto Jim McCarty (que havia produzido o primeiro disco) quanto Keith Relf adoecem, em períodos consecutivos, sendo que a situação do vocalista sempre fora um pouco mais complicada: era notório que ele sempre fora vítima de uma bronquite asmática crônica, que quase tirara a sua vida ainda quando criança, e praticamente lhe deixara com apenas um pulmão funcionando. Um autêntico guerreiro sobrevivente, que lutando contra todos os prospectos, e as dificuldades até mesmo para ter fôlego para cantar durante certas épocas de crise, tinha uma paixão pela música e pelos blues que o levava a superar tudo, sempre seguindo adiante.
Eles também se desentendem quanto aos rumos do som do segundo álbum. Isso faz com que Keith Relf aproveite uma breve ausência de McCarty, e assuma sozinho a produção do disco - o que desagrada o baterista. O processo de desintegração do grupo é rápido. Quando Illusion foi efetivamente lançado, no início de 1971, Relf já estava fora do grupo.
O biênio 1971-1972 vê um Keith Relf buscando se concentrar mais no trabalho de produtor e compositor nos estúdios, convivendo com o mundo da música de uma forma mais tranquila. Por trás disso, estava não só o interesse em fugir um pouco do barulho e correria do dia a dia de uma banda, com o qual ele já havia convivido arduamente desde os dias de Yardbirds, como também a necessidade de desacelerar para cuidar um pouco mais da saúde. Nesse período, então, ele atua como produtor da banda inglesa Steamhammer, com quem o baixista Louis Cenammo passa a tocar, após também sair do Renaissance. O grupo lança um ultimo trabalho em 1972, produzido por Relf, mas a partir dele é que estão lançadas as sementes para o último grande projeto conhecido do cantor.
Estreitando uma forte amizade nos estúdios com o guitarrista do Steamhammer, o talentoso Martin Pugh, Relf e Cenammo passam a compor bastante com ele, e idealizar um novo conceito de grupo. Eram dias de ousadia e poder dos grupos que elevavam o blues às últimas consequências do peso e da intensidade sonora: vendendo milhares de discos, bandas como Deep Purple, Black Sabbath, Humble Pie e o mais monumental de todos, o Led Zeppelin (do ex-coleguinha de Relf, Jimmy Page) ditavam as regras do mercado de música jovem, ao lado das agremiações progressivas. Isso chamava a atenção de Relf e dos outros caras, que passaram a querer fazer parte desse filão também.
O nascimento idealizado da super banda então batizada por eles de Armageddon passa por duas decisões importantes: a primeira, como já foi dito, era fazer experimentações sonoras com o modelo de hard rock que era sensação na época. Mas a outra, pouco conhecida por muitos, dizia respeito à própria saúde de Relf, cada vez mais fragilizada devido a seus problemas respiratórios. De acordo com recomendações médicas, e procurando fugir do clima frio e úmido inglês que só piorava as suas crises, Relf propôs para todos se mudarem temporariamente para os EUA, na ensolarada Los Angeles, onde não só o clima mais temperado como também chances maiores para se estabelecerem artisticamente e conseguirem contratos seriam oportunidades mais benéficas. E como um bom grupo de rock pauleira tem na sua composição o baterista como peça fundamental, foi justamente lá que eles encontraram o seu: Bobby Caldwell, que havia feito parte do lendário Captain Beyond.
O ano era 1974, e durante a estadia deles em L.A., as portas vão se abrindo: primeiro, devido à amizade do baixista Louis Cenammo com o célebre cantor e guitarrista Peter Frampton, que já estava se tornando bem conhecido na América, o Armageddon estabelece boas relações com a gravadora do mesmo, a A&M Records, e daí para um contrato de gravação do que seria o primeiro disco deles foi um pulo. Uma fitinha demo com algumas das músicas que eles já haviam composto estava rolando nos bastidores do pessoal da música, e prenunciava e confirmava os burburinhos de todo mundo que ouvira o material: o Armageddon tinha uma qualidade excepcional, e estavam destinados a ser a próxima grande sensação do rock! Músicos exímios vindos de grupos lendários e já consagrados, e que tinham uma criatividade e inspiração invejáveis. Era um mega jato turbinado, e pronto para decolar.
As canções da demo são retrabalhadas e, gravado em sessões de estúdio entre a Inglaterra e EUA, o álbum de estreia dos caras, o autointitulado e magistral Armageddon é lançado em julho de 1975. Petardos como "Buzzard", "Last Stand Before" e a hipnótica "Silver Tightrope" comprovam que sim, agora Keith Relf - novamente segurando a gaita e os vocais, assim como em seus tempos áureos de Yardbirds - conseguira atingir seus intentos, e tinha uma banda poderosa, capaz de fazer frente ao Zeppelin, de Mr. Page e cia.
Mas então... vem a reviravolta que poucos esperavam. A expectativa por maiores vendagens do álbum nos EUA (apesar de um bom desempenho nas paradas europeias) não é atingida, ao mesmo tempo em que, durante a estadia em L.A., Pugh e Cenammo começam a ficar desleixados e vão se entregando a cada vez mais "festinhas" e substâncias inebriantes, chegando a faltar a compromissos de ensaios e pequenos shows, que tinham como intenção aquecer a banda para o que seria sua grande chance de fazer o nome: haviam sido anunciados como grupo de abertura da nova turnê americana de ninguém menos que Eric Clapton. A despeito disso, e de acordo com depoimentos que o baterista Bobby Caldwell daria anos depois, em 2008, outro contratempo passava a ameaçar o Armageddon: uma nova piora no quadro de saúde de Relf acontecia, aliada ao fato dele acabar acompanhando os outros membros em festas e eventos que não eram recomendados para alguém em sua condição. O último diagnóstico dado naquele ano indicava que a sua asma havia simplesmente evoluído para um enfisema pulmonar. Ele estava praticamente impossibilitado de seguir com o grupo em uma grande turnê.
Estávamos agora em 1976. E a grande promessa do Armageddon havia, infelizmente, morrido na praia. Esfacelado e com um sentimento geral de desinteresse, os seus integrantes se dispersam, e o grupo encerra as atividades.
No final do ano anterior, Relf e sua família - a esposa, April Liversidge, e os dois filhos, Daniel e Jason - haviam se mudado para Hounslow, distrito a oeste de Londres, para uma casa suburbana simples e no estilo dos imóveis do lugar, mas com um porão subterrâneo que o músico havia adaptado como um estúdio caseiro, onde pudesse continuar compondo e trabalhando com suas ideias. Apesar da saúde mais debilitada, Relf não se dava nunca por vencido: já havia estabelecido conversações com sua irmã Jane, para ensaiar uma possível volta daquela formação original deles do Renaissance (que agora passaria a se chamar Illusion), ainda que tivessem que se apresentar menos vezes e de forma mais comedida, e já estava compondo e criando novas músicas e arranjos, enquanto esperava melhoras à base de um novo tratamento que ele tinha começado, com o uso do medicamento teofilina.
No dia 14 de maio, Relf está trabalhando em uma nova composição com sua guitarra, plugada nos equipamentos de seu estúdio caseiro. Mentes malignas e detestáveis, dessas dignas de tabloides e noticiosos absurdos da imprensa sensacionalista - o mesmo tipo de gente que foi capaz de criar a lenda de que a cantora Mama Cass Elliot havia morrido engasgada com um sanduíche (leia aqui) - inventariam depois a história de que Relf, tal qual um rockstar drogado e enlouquecido, teria ligado a sua guitarra enquanto estava em uma banheira luxuosa, ideia tão esquizofrênica e típica do jornalismo marrom, que a gente fica pensando, como é que certos veículos já tiveram a coragem de um dia publicar esse tipo de disparate.
Ocorre que aqueles tipos de porão, das casas inglesas na época, não tinham um aterramento de energia adequado, assim como geralmente apresentavam grande parte da tubulação hidráulica da residência exposta. A umidade típica daquele ambiente muito provavelmente causou o contato entre alguma água dos canos e a fiação elétrica do local. Enquanto tocava, calmamente, e de forma desapercebida e sem grande ruído, Keith Relf foi eletrocutado por uma descarga que subiu pelo cabo de sua guitarra plugada, imediatamente o levando a óbito. Agravada era a sua condição cardíaca, devido ao uso da teofilina, que pode instantaneamente levar a episódios de taquicardia ou arritmia - visto que especialistas posteriormente constataram que o choque que o vitimou nem era tão forte.
O mais melancólico de tudo é que seu corpo fora encontrado pelo filho menor, Danny, então com apenas 8 anos de idade, e que num primeiro momento achou que o pai tivesse simplesmente adormecido de cansaço no estúdio, sentado, com sua guitarra nos braços.
Keith Relf está enterrado no Cemitério de Richmond, Inglaterra, e a sua alma e autenticidade artística admiráveis serão para sempre lembrados por todos os amantes da boa música e do rock clássico e vigoroso, de qualidade.
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