quinta-feira, 2 de julho de 2026

CLINT EASTWOOD: CÉU E INFERNO NO VELHO OESTE

 

A declaração de aposentadoria definitiva, através do filho Kyle Eastwood, dada a uma rádio francesa (France Info), algumas semanas antes mas só divulgada no dia do aniversário do ator/diretor Clint Eastwood, em 31 de maio último, causou sensações controversas em fãs e admiradores: se não de preocupação acerca de seu atual estado de saúde (Eastwood é um idoso que completou 96 anos), por outro lado, de certa desolação, em relação a tudo que essa lendária figura já fez e produziu em sua longa carreira, e do que ele talvez ainda poderia realizar (nem que fosse só mais um pouquinho).

Com tal anúncio partido não dele, mas de um familiar, a trajetória de Eastwood se considera como oficialmente encerrada com o último filme dirigido (e não estrelado por ele) Jurado nº 2, de 2024, um atípico e bem conciso drama de tribunal, protagonizado por Nicholas Hoult, e lamentavelmente lançado de forma bem modesta pelos estúdios Warner, quase que diretamente no streaming. Já como ator, a última aparição atuando foi em Cry Macho (2021), que ele também dirigiu, outro drama com toques de suspense e melancólica nostalgia, ambientado na fronteira com o México, onde ele interpreta um sagaz ex-peão de rodeios, Mike Milo.

Nunca é demais dizer o quão relevante é a imagem e contribuição de Clint Eastwood para o cinema. O homem é simplesmente uma instituição viva da sétima arte norte-americana, figura mítica que representa valores caros à arte audiovisual ianque, e tão icônico quanto outros símbolos pop emblemáticos para se entender o que é a cultura dos EUA. 

Mickey Mouse, Elvis Presley, John Wayne, cheeseburger McDonald's e Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças)... eis que Clint Eastwood está lá em pé de igualdade, lado a lado de todos eles, de poncho e chapéu cobrindo parte da face carrancuda em cima de um cavalo, ou simplesmente de terno policial, também mal encarado como sempre, apontando a Magnum 44 na cara de alguém enquanto fala num assustador tom de voz suave: "go ahead, make my day... punk!" (vá em frente, faça meu dia... vagabundo).

Eastwood é tão pop que já virou até nome de hit do Gorillaz, em seu single de estreia (2001).

De orientação política fortemente voltada para a corrente republicana dos EUA (Eastwood é membro do Partido Republicano desde 1951), o artista no entanto destoa de certas linhas de pensamento mais conservadoras ao longo de toda a sua carreira, inclusive abordando temas sensíveis em relação à representatividade do Estado e das camadas de esferas do poder em Washington, notadamente em obras mais pessoais e nas quais foi também o diretor (Poder Absoluto e Sniper Americano, por exemplo) - em diversas entrevistas, Eastwood já disse ser um adepto do libertarismocorrente ideológica que defende a liberdade acima de tudo como um eixo fundamental para a sociedade, mais do que os papéis representados pelas autoridades e classes políticas, e nisso é curioso observar, como tal pensamento o aproxima de anarquistas ou socialistas clássicos (como Joseph Déjacque), a despeito de suas convicções mais tradicionais. 

Isso é essencial para compreender melhor as nuanças de certos filmes notabilizados em sua filmografia, e como eles representam visões de mundo que acabam ecoando em suas tramas, sobretudo nas áridas paisagens ainda não civilizadas e organizadas em torno do "contrato social", como as planícies do western. Foi ali, no Velho Oeste sem lei, território da barbárie e da supremacia dos gatilhos mais rápidos, que muitas das mais espetaculares parábolas que emolduraram a imagem impassível do cowboy Eastwood (e sua filosofia oculta) o conduziram à senda da eternidade.

Antes de sua derradeira e mais celebrada (além de condecorada com o Oscar) incursão por esse gênero clássico - o fabuloso Os Imperdoáveis (The Unforgiven, 1992) - Eastwood realizou, com um espaço de doze anos os separando, dois faroestes antológicos e também muito festejados pelos fãs, que representam uma dicotomia interessantíssima em sua abordagem dos mitos e mazelas do Oeste americano, ambos dirigidos e atuados por ele: O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), e Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985).


Em Estranho Sem Nome, uma de suas primeiras incursões pelo terreno da direção, Eastwood desempenha novamente o papel do forasteiro calado e taciturno, que chega de sopetão na pequena cidade de Lago, e demonstra um incomum talento nas armas. Acuados pela iminente chegada de três facínoras que estão prestes a aparecer para um acerto de contas com algumas das autoridades de Lago, os moradores não veem outra opção a não ser contratar o estranho pistoleiro para defendê-los - o que ele topa fazer, mas sob as suas bizarras condições! Já num sinal de estar do lado das sombras e dos marginalizados, faz amizade com um anão, um dos mais estigmatizados e humilhados habitantes do lugar... para logo adiante torná-lo prefeito do lugarejo. Logo em seguida, ele manda pintarem todas as casas de vermelho, e trocarem o nome da cidade para "Inferno". O que se desenha na trama a partir de então é uma verdadeira alegoria do mal irrompendo da terra, para tragar aqueles que se acham piores que ele. Sim, temos a firme intuição, a partir de certa altura, que o pistoleiro desconhecido é o próprio diabo.

Eastwood consegue a proeza de realizar um filme que pode ser considerado um autêntico crossover entre o western e o terror, tamanha a atmosfera sinistra e assombrosa que permeia a sua violenta meia hora final. Ao descobrirmos que a trama termina se baseando em uma saga de pura vingança - a "vendetta" tão cara aos bangue-bangues italianos, de Leone e cia., onde Eastwood despontou para afama mundial - percebe-se o despudor de Eastwood em desembarcar no território do sobrenatural, sugerindo uma "volta do mundo dos mortos", o que revela mais uma vez um caráter de ineditismo nessa lendária e inovadora produção. Falar mais do que isso por aqui já é estragar as surpresas dessa sombria trama com spoilers desnecessários - quem ainda não viu, tem o dever de conferir essa pequena obra-prima.

Por outro lado, Cavaleiro Solitário é considerado pela maioria dos cinéfilos, e com razão, a total antítese do filme anterior.

Se antes, o tom era de horror e trevas, nesse outro western de 1985 a fotografia é clara e límpida, alude a um cenário mais pastoral (até bíblico), saboreando várias paisagens brancas de neve montanhosa, e abordando a chegada de um forasteiro - dessa vez, simplesmente chamado de "pastor" - ao vilarejo de Lahood, onde um grupo de mineradores sofre nas mãos do inescrupuloso dono de uma empresa local que quer expulsá-los para dominar a exploração de ouro. O personagem de Eastwood, um suposto e misterioso líder religioso, vindo do nada e indo para lugar nenhum, com um colarinho branco que indica o seu ofício, não se roga a utilizar da força e de uma habilidade também fenomenal com as armas para defender o grupo de pobres mineradores - e, mais uma vez com um tom sobrenatural permeando a obra, ele aparece justamente após a enteada de um dos mineradores, a mocinha Megan, pedir ajuda aos céus para enviar alguém para protegê-los. Se em Estranho Sem Nome o pistoleiro defensor parecia o capeta, aqui ele é praticamente um anjo enviado pela providência divina.

Com uma trama livremente inspirada no eterno e clássico western Shane - Os Brutos Também Amam (1953), em que até mesmo o amor velado das personagens femininas e indefesas pelo estranho forasteiro desperta reações incautas, este é um dos mais belos e fascinantes trabalhos de Eastwood, que exercita todo o refinamento estético e visual das sequências de ação, e dos closes e takes caprichados, no que representaria um verdadeiro treino para o seu premiado faroeste seguinte.

Com esses dois faroestes espetaculares, esse icônico artista do 'libertário espírito americano' provaria que, a despeito do que muitos poderiam falar na época de seus lançamentos, ainda havia muito a se fazer e inovar nas grandes pradarias e tiroteios do Velho Oeste, bastava apenas olhar e executar de uma forma diferente. E isso, senhoras e senhores, é coisa que só mesmo pelas mãos dos virtuosos da sétima arte. 

Como o grande Clint Eastwood.



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