quinta-feira, 16 de julho de 2026

TERRA DAS DAMAS ELÉTRICAS: A GÊNESE DE UMA OBRA-PRIMA

 

Qualquer vivente que entenda ao menos um pouquinho de música com mais profundidade sabe reconhecer a tremenda e vital importância que um norte-americano de Washington, Seattle, chamado James Marshall Hendrix  - mais popularmente conhecido como Jimi Hendrix (1942 - 1970) teve, para a evolução da música popular contemporânea, como nós a conhecemos.

Não é simplesmente uma questão de, como sempre se faz, elevá-lo à condição de mestre ascensionado da guitarra elétrica, instrumento cuja forma revolucionária de tocar foi praticamente reinventada por ele, com todas as suas técnicas de progressões rápidas de notas e acordes, escalas desafiadoras e um casamento fantástico de miríades melódicas e tonais com uma ampla gama de efeitos conseguidos através de pedais inovadores. Não, isso seria simplista demais - antes, o correto seria afirmarmos que o jeito revolucionário de Hendrix traduzir a linguagem da guitarra para novos tempos arrastou consigo, e mudou, toda a forma ocidental de se fazer música pop (e mais especificamente rock), a partir de então. 

A guitarra em Hendrix é um elemento de transição tão poderoso e marcante quanto a introdução dos teclados e contrabaixos elétricos, a adoção dos samples e instrumentos digitais, e quaisquer outras inovações eletrônicas que porventura tenham mudado a face da música de uns 80 anos para cá. É o modo de se entender como funciona a dinâmica das seis cordas em uma música, como se encaixa uma guitarra nela, tanto rítmica quanto solada, e como ela conversa com todo o restante dos instrumentos. Basta comparar, muito singelamente, a maneira como a guitarra era tocada e gravada em gravações anteriores de rock nos anos 50 e 60, antes de Hendrix, de um modo bem mais básico e simples, e a maneira como ela passou a protagonizar gravações do gênero a partir dele. As diferenças são gritantes.

Isso se torna ainda mais claro quando falamos tanto do rock puro, clássico, simples e tradicional, quanto do seu patriarca severo (o blues), e todos os outros subgêneros que se desenvolveram a partir de então: em especial o rock pesado (hard rock) e o titânico e ensurdecedor heavy metal. Todos, sem exceção, em suas vertentes atuais, pagam tributo ao já eternizado estilo "hendrixiano" de tocar.

Em setembro deste ano, a morte de Hendrix completará 56 anos. Mas a sua passagem não afeta em nada o frescor e a potência de suas performances, tanto em palco quanto em estúdios - e há quem prefira essa última modalidade, não só devido a certas apresentações ao vivo que soavam mais caóticas, muito em decorrência da vida extremamente atribulada que ele vivia, mas também ao fato do músico poder trabalhar em um ambiente mais controlado e dado a experiências sonoras incríveis, onde ele podia reinventar, da maneira mais próxima do que estava desenhado em sua mente, os timbres, fraseados e formas de uma guitarra "voar livre" no som. E neste caso, não há nada melhor do que recomendarmos uma bela e atenta audição daquela que é considerada a obra-prima do artista, idealizada, produzida e totalmente executada pelo mestre ainda na plenitude de um de seus últimos anos de vida: o petardo chamado Electric Ladyland, álbum duplo originalmente lançando em vinil, em outubro de 1968.

A história do disco da "terra da dama elétrica" é tão conturbada quanto a própria vida de Hendrix, que parecia viver eternamente no olho de um furacão. 

Repassando bem rápido: após começar a fazer fama como um excelente músico de apoio de artistas já consagrados (Little Richard, Curtis Knight, Isley Brothers e outros), por volta de 1966, Hendrix monta a sua primeira banda própria (The Blue Flames), e com ela começa a fazer shows em pequenas casas de New York onde já se destaca pela sua habilidade. Ele então é descoberto por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, que havia saída do grupo recentemente com o propósito de se aprofundar na carreira de empresário de bandas. É Chandler que faz a cabeça de Hendrix para ele largar tudo e partir para a Inglaterra, onde uma nova banda e um contrato de gravação promissor já estavam praticamente o esperando: numa inversão do que ocorrera com a Invasão Britânica anos antes, quando bandas inglesas aportaram os EUA invadindo as paradas, Hendrix agora faria o contrário, indo para a Inglaterra conquistar primeiro a terra da rainha, para só depois retornar já com êxito para a sua terra natal. 

Da esquerda p/ direita: Noel Redding, Jimi Hendrix, Mitch Mitchell e Chas Chandler

Em Londres, Hendrix se junta a Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria), para montarem um dos mais avassaladores power trios da história: o Jimi Hendrix Experience. Shows vão se sucedendo sem parar, a fama com os primeiros e revolucionários singles ("Hey Joe", "Purple Haze" e "Fire"), e o primeiro disco, de 1967 (Are You Experienced), logo a seguir, a aclamação triunfal no Monterey Festival, no mesmo ano, quando Hendrix retorna aos EUA e põe fogo em sua guitarra no final da apresentação, constituindo um dos momentos mais icônicos do rock, com turnês mil que vem logo a seguir, mais um segundo álbum às pressas já saindo no final do ano (Axis: Bold As Love) - e tudo isso já é terreno preparado para a loucura que seria gravar Ladyland

The Jimi Hendrix Experience

Dito então que o ano de 1967 (da revelação de Hendrix para o mundo) foi como se 1000 anos tivessem se passado em um, tamanha a correria e agitação em torno do músico, o início de 1968 nos apresentaria um Hendrix que, além de estafado, começava já a clamar por um maior controle de sua vida artística. 

Primeiro, Hendrix vetou integralmente o comando de Chas Chandler sobre o que seria seu próximo trabalho de estúdio. Isso levaria ao rompimento total com o seu descobridor, que desapontado, também abandonaria o posto de empresário - o que infelizmente leva Hendrix a entregar tal atribuição a um mala assistente de Chandler chamado Mike Jeffery, resultando em consequências nefastas para o artista (mais detalhes sobre essa história aqui). De qualquer forma, assumindo o leme como produtor e monitorando de perto todas as mixagens, o guitarrista estava prestes a realizar o único projeto sobre o qual conseguiu manter 100% de liberdade e controle criativo, e que geraria, no final das contas, não um, mas dois discos de material inédito! - Electric Ladyland sairia como álbum duplo, uma excentricidade que só os artistas de maior cacife e produtividade na época tinham a primazia de conseguir realizar (como Beatles e Bob Dylan). 

As sessões de gravação, iniciadas em Londres mas logo remanejadas para os estúdios Record Plant, em New York, onde a maioria das gravações ocorreria, entraram para o terreno da lenda, tamanho o caos instaurado pela própria vontade de Hendrix. Vivendo loucamente como um relâmpago, sem tempo para dormir ou descansar direito, e acumulando shows e turnês que aconteciam simultaneamente por compromissos contratuais, Hendrix ainda mantinha uma rotina boêmia da qual não conseguia abrir mão, e isso fez com que a maioria das sessões de Ladyland fosse convertida em uma espécie de "confraternizações de amigos", em que o guitarrista simplesmente enchia o estúdio de conhecidos que entravam e saiam sem a menor cerimônia, para vê-lo performar e gravar diversas das futuras músicas do álbum. Não obstante, esse é o motivo pelo qual ouvimos, em alguns momentos das faixas registradas, alguns aplausos e vozes de pessoas falando: era o ambiente absurdo, festeiro e de atmosfera quase 'ao vivo' criado pelo próprio Hendrix, que queria uma certa espontaneidade e efervescência na execução das canções.

Isso se destaca principalmente no carro chefe do disco, uma de suas faixas mais longas: "Voodoo Chile", praticamente uma blues jam devastadora de 15 minutos, onde vislumbramos o casamento perfeito entre o Jimi Hendrix Experience e o fenomenal grupo Traffic - os dois manda-chuvas dessas bandas, Hendrix e o vocalista/tecladista Steve Winwood duelam com solos acachapantes de guitarra e órgão, levando esse hino à mais elevada estratosfera psicodélica da quinta dimensão, em crescendos que explodem com o refrão antológico onde Hendrix faz a imprecação da "criança vudu", o escolhido, o mago das seis cordas desvairado nas magias estupefacientes do blues cósmico. Dá-lhe solos alucinantes pra tudo quanto é lado.

Ladyland, aliás, é obra pródiga em participações de membros de outras bandas, e tamanha foi a orgia musical de colaborações, que outro que saiu bastante irritado da empreitada toda foi o baixista do Experience, Noel Redding, reclamando que o espaço dele estava sendo afetado pelas exigências de Hendrix para seus novos sons. Além de membros do Traffic (como Winwood e o guitarrista Dave Mason), também compareceriam Jack Casady (baixista do Jefferson Airplane) e Brian Jones (dos Rolling Stones), em participações pra lá de especiais. Pouco tempo depois o Experience acabaria... Apenas o baterista Mitch Mitchell continuaria trabalhando com Hendrix posteriormente, em novos projetos. Hendrix, também insatisfeito com certas linhas do baixista, as dispensou e passou a ele próprio gravar o baixo em algumas das músicas, o que só aumentou a animosidade entre ele e Redding: notadamente, isso aconteceu em "1983, A Merman I Should Turn To Be" e "All Along the Watchtower".



Por falar nessa última, este é um capítulo à parte: um dos maiores clássicos do repertório hendrixiano, "Watchtower" é um original de Bob Dylan, desde sempre um dos grandes ídolos de Hendrix, que o inspirou inclusive na forma iconoclasta de usar sua voz, e que foi autenticamente reinventada pelo artista no estúdio. É uma das mais perfeitas gravações da história do rock, e retrata o nível máximo de exigências e refinamento de Hendrix na produção do álbum: nada menos do que 19 takes de um violão gravado por Dave Mason (do Traffic) foram gravados, e que dá apenas um "toque" na mixagem final, encharcada com camadas e mais camadas de guitarras. A exótica percussão urdida por Hendrix eleva a faixa à condição de um petardo onírico e cigano, repleto de peso, distorção, e solos faiscantes com wah wah e outros efeitos. 

Enquanto "Have You Ever Been to Electric Ladyland" descamba para uma insólita balada soul, com falsetes e tudo mais, outros momentos como a esfuziante "Crowsstown Traffic", a épica "Burning of the Midnight Lamp" (anteriormente lançada como single) e pedradas como "Gypsy Eyes" e "House Burning Down" apenas reforçam a energia e atemporalidade do álbum, que fecha com outro standard do músico, sempre executado nos shows a partir de então: "Voodoo Child (Slight Return)", que faz referência à longa faixa anterior mas despeja tudo num rock lisérgico e funkeado, emoldurado com um dos mais clássicos riffs de guitarra da era moderna, referenciado e copiado à exaustão por uma infinidade de guitarristas contemporâneos (sendo Slash dos Guns N' Roses um dos mais frequentes, só para citar, nas versões ao vivo de "Civil War").

Apesar de ter sido o trabalho que mais saiu ao gosto de Hendrix durante a sua curta trajetória, houve um detalhe que não foi conforme ele havia idealizado, que o deixou muito insatisfeito, e com razão: a capa do álbum. Era para ter saído com uma foto de Linda Eastman da banda (futura Sra. Linda McCartney), registrada com crianças no Central Park, de acordo com expressas recomendações de Hendrix numa carta para a gravadora - entretanto, saiu em duas versões muito diferentes, sendo uma capa com uma foto berrante e desfocada da cabeça de Hendrix, em tons avermelhados, nos EUA, e a bizarra foto com um grupo de mulheres de aparência devassa, nuas em pelo e segurando capas dos discos anteriores do artista, no lançamento feito na Inglaterra. Apenas na reedição comemorativa de 50 anos do álbum em formato digital, já em 2018, é que o design original pretendido pelo músico foi finalmente utilizado.

É uma pena que Hendrix não tenha vivido muito adiante para presenciar a extensa e arrebatadora influência que o seu melhor e mais bem acabado trabalho, feito ainda em vida, teve sobre gerações e mais gerações de músicos que viriam a partir de então. O músico partiria, em circunstâncias ainda hoje discutidas e controversas envolvendo barbitúricos e bebida, no dia 18 de setembro de 1970, após uma noite com sua namorada em Londres.




Electric Ladyland permanece sendo um dos mais brilhantes e intensos itens da discografia desse gênio da música, e deve ser celebrado e relembrado como um dos momentos mais místicos e exuberantes da epopeia clássica do rock.




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quinta-feira, 2 de julho de 2026

CLINT EASTWOOD: CÉU E INFERNO NO VELHO OESTE

 

A declaração de aposentadoria definitiva, através do filho Kyle Eastwood, dada a uma rádio francesa (France Info), algumas semanas antes mas só divulgada no dia do aniversário do ator/diretor Clint Eastwood, em 31 de maio último, causou sensações controversas em fãs e admiradores: se não de preocupação acerca de seu atual estado de saúde (Eastwood é um idoso que completou 96 anos), por outro lado, de certa desolação, em relação a tudo que essa lendária figura já fez e produziu em sua longa carreira, e do que ele talvez ainda poderia realizar (nem que fosse só mais um pouquinho).

Com tal anúncio partido não dele, mas de um familiar, a trajetória de Eastwood se considera como oficialmente encerrada com o último filme dirigido (e não estrelado por ele) Jurado nº 2, de 2024, um atípico e bem conciso drama de tribunal, protagonizado por Nicholas Hoult, e lamentavelmente lançado de forma bem modesta pelos estúdios Warner, quase que diretamente no streaming. Já como ator, a última aparição atuando foi em Cry Macho (2021), que ele também dirigiu, outro drama com toques de suspense e melancólica nostalgia, ambientado na fronteira com o México, onde ele interpreta um sagaz ex-peão de rodeios, Mike Milo.

Nunca é demais dizer o quão relevante é a imagem e contribuição de Clint Eastwood para o cinema. O homem é simplesmente uma instituição viva da sétima arte norte-americana, figura mítica que representa valores caros à arte audiovisual ianque, e tão icônico quanto outros símbolos pop emblemáticos para se entender o que é a cultura dos EUA. 

Mickey Mouse, Elvis Presley, John Wayne, cheeseburger McDonald's e Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças)... eis que Clint Eastwood está lá em pé de igualdade, lado a lado de todos eles, de poncho e chapéu cobrindo parte da face carrancuda em cima de um cavalo, ou simplesmente de terno policial, também mal encarado como sempre, apontando a Magnum 44 na cara de alguém enquanto fala num assustador tom de voz suave: "go ahead, make my day... punk!" (vá em frente, faça meu dia... vagabundo).

Eastwood é tão pop que já virou até nome de hit do Gorillaz, em seu single de estreia (2001).

De orientação política fortemente voltada para a corrente republicana dos EUA (Eastwood é membro do Partido Republicano desde 1951), o artista no entanto destoa de certas linhas de pensamento mais conservadoras ao longo de toda a sua carreira, inclusive abordando temas sensíveis em relação à representatividade do Estado e das camadas de esferas do poder em Washington, notadamente em obras mais pessoais e nas quais foi também o diretor (Poder Absoluto e Sniper Americano, por exemplo) - em diversas entrevistas, Eastwood já disse ser um adepto do libertarismocorrente ideológica que defende a liberdade acima de tudo como um eixo fundamental para a sociedade, mais do que os papéis representados pelas autoridades e classes políticas, e nisso é curioso observar, como tal pensamento o aproxima de anarquistas ou socialistas clássicos (como Joseph Déjacque), a despeito de suas convicções mais tradicionais. 

Isso é essencial para compreender melhor as nuanças de certos filmes notabilizados em sua filmografia, e como eles representam visões de mundo que acabam ecoando em suas tramas, sobretudo nas áridas paisagens ainda não civilizadas e organizadas em torno do "contrato social", como as planícies do western. Foi ali, no Velho Oeste sem lei, território da barbárie e da supremacia dos gatilhos mais rápidos, que muitas das mais espetaculares parábolas que emolduraram a imagem impassível do cowboy Eastwood (e sua filosofia oculta) o conduziram à senda da eternidade.

Antes de sua derradeira e mais celebrada (além de condecorada com o Oscar) incursão por esse gênero clássico - o fabuloso Os Imperdoáveis (The Unforgiven, 1992) - Eastwood realizou, com um espaço de doze anos os separando, dois faroestes antológicos e também muito festejados pelos fãs, que representam uma dicotomia interessantíssima em sua abordagem dos mitos e mazelas do Oeste americano, ambos dirigidos e atuados por ele: O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), e Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985).


Em Estranho Sem Nome, uma de suas primeiras incursões pelo terreno da direção, Eastwood desempenha novamente o papel do forasteiro calado e taciturno, que chega de sopetão na pequena cidade de Lago, e demonstra um incomum talento nas armas. Acuados pela iminente chegada de três facínoras que estão prestes a aparecer para um acerto de contas com algumas das autoridades de Lago, os moradores não veem outra opção a não ser contratar o estranho pistoleiro para defendê-los - o que ele topa fazer, mas sob as suas bizarras condições! Já num sinal de estar do lado das sombras e dos marginalizados, faz amizade com um anão, um dos mais estigmatizados e humilhados habitantes do lugar... para logo adiante torná-lo prefeito do lugarejo. Logo em seguida, ele manda pintarem todas as casas de vermelho, e trocarem o nome da cidade para "Inferno". O que se desenha na trama a partir de então é uma verdadeira alegoria do mal irrompendo da terra, para tragar aqueles que se acham piores que ele. Sim, temos a firme intuição, a partir de certa altura, que o pistoleiro desconhecido é o próprio diabo.

Eastwood consegue a proeza de realizar um filme que pode ser considerado um autêntico crossover entre o western e o terror, tamanha a atmosfera sinistra e assombrosa que permeia a sua violenta meia hora final. Ao descobrirmos que a trama termina se baseando em uma saga de pura vingança - a "vendetta" tão cara aos bangue-bangues italianos, de Leone e cia., onde Eastwood despontou para afama mundial - percebe-se o despudor de Eastwood em desembarcar no território do sobrenatural, sugerindo uma "volta do mundo dos mortos", o que revela mais uma vez um caráter de ineditismo nessa lendária e inovadora produção. Falar mais do que isso por aqui já é estragar as surpresas dessa sombria trama com spoilers desnecessários - quem ainda não viu, tem o dever de conferir essa pequena obra-prima.

Por outro lado, Cavaleiro Solitário é considerado pela maioria dos cinéfilos, e com razão, a total antítese do filme anterior.

Se antes, o tom era de horror e trevas, nesse outro western de 1985 a fotografia é clara e límpida, alude a um cenário mais pastoral (até bíblico), saboreando várias paisagens brancas de neve montanhosa, e abordando a chegada de um forasteiro - dessa vez, simplesmente chamado de "pastor" - ao vilarejo de Lahood, onde um grupo de mineradores sofre nas mãos do inescrupuloso dono de uma empresa local que quer expulsá-los para dominar a exploração de ouro. O personagem de Eastwood, um suposto e misterioso líder religioso, vindo do nada e indo para lugar nenhum, com um colarinho branco que indica o seu ofício, não se roga a utilizar da força e de uma habilidade também fenomenal com as armas para defender o grupo de pobres mineradores - e, mais uma vez com um tom sobrenatural permeando a obra, ele aparece justamente após a enteada de um dos mineradores, a mocinha Megan, pedir ajuda aos céus para enviar alguém para protegê-los. Se em Estranho Sem Nome o pistoleiro defensor parecia o capeta, aqui ele é praticamente um anjo enviado pela providência divina.

Com uma trama livremente inspirada no eterno e clássico western Shane - Os Brutos Também Amam (1953), em que até mesmo o amor velado das personagens femininas e indefesas pelo estranho forasteiro desperta reações incautas, este é um dos mais belos e fascinantes trabalhos de Eastwood, que exercita todo o refinamento estético e visual das sequências de ação, e dos closes e takes caprichados, no que representaria um verdadeiro treino para o seu premiado faroeste seguinte.

Com esses dois faroestes espetaculares, esse icônico artista do 'libertário espírito americano' provaria que, a despeito do que muitos poderiam falar na época de seus lançamentos, ainda havia muito a se fazer e inovar nas grandes pradarias e tiroteios do Velho Oeste, bastava apenas olhar e executar de uma forma diferente. E isso, senhoras e senhores, é coisa que só mesmo pelas mãos dos virtuosos da sétima arte. 

Como o grande Clint Eastwood.



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