sábado, 4 de abril de 2026

PRIMÓRDIOS DO ROCK NACIONAL

 
Grupo A Bolha, em show de 1972

Abram alas hoje para a 'grande geração oculta' do rock brasileiro.

Muitos consideram a geração dos anos 80 como o melhor momento que o rock brazuca já teve. Aquela, de Blitz, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje a Rigor etc. Outros levam em consideração toda aquela primeira geração, surgida lá nos primórdios (finalzinho dos anos 50) e que se estendeu até o movimento da Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos, dos anos 60, mas que eu, pessoalmente, acho que era muito calcada em versões de músicas estrangeiras e com uma estética por demais conservadora, sem de fato inovar ou conseguirem ser mais criativos e originais.

Secos e Molhados


O Terço

Então, o que eu considero como o primeiro autêntico e expressivo levante de roqueiros brasileiros, efetivamente, é a geração que surgiu ali no apagar das luzes da década de 60 - basicamente rompendo alguns laços com a turma da Jovem Guarda, e ousando mais com todas as influências do rock psicodélico de garagem e o Tropicalismo - e toda a geração que seguiria ao longo dos anos 70, já encharcada de hard rock e sons progressivos. 

Mas não vamos falar aqui do "arroz com feijão", não! Nada disso... Mutantes, Raul Seixas, O Terço, Secos e Molhados e tal - esses todo mundo já conhece e tá cansado de saber das histórias. O negócio aqui é tratar de quem foram os 'heróis da resistência', bandas e artistas quase anônimos e muitas vezes esquecidos, aqueles que insistiram e bateram o pé para gravar, fazer shows, e seguir adiante com muita gana e teimosia, numa época sem dinheiro, sem público ou divulgação, sem nenhuma estrutura mais profissional e de apoio das grandes gravadoras e mídias em geral, na raça e na pirraça mesmo. 

Alguns deles, dá pra encontrar com coisas bem interessantes no Spotify e demais streamings de áudio da vida, por aí. Outros, não - é raridade que precisa de um bom garimpo para experimentar.

Com vocês, um monte de guerreiros precursores do rock BR!


Serguei

Um dos mais lembrados (e aloprados) precursores do rock psicodélico e de garagem na época áurea do gênero, e infelizmente lembrado por muitos apenas pelo burburinho, muito divulgado pela imprensa durante vários anos, de seu suposto romance com a cantora Janis Joplin (ver post aqui), quando da vinda dela ao Brasil, em 1969 (na verdade, foi mais um flerte, ou caso rápido). Mas bem para além disso, essa figura folclórica radicada em Saquarema, no Rio de Janeiro, fez história como o primeiro roqueiro andrógino do Brasil, pioneiro nesse tipo de visual ainda antes do glam rock, e lançando compactos eternizados na cena underground do rock brasileiro, como "Alfa Centauro" (1968), "Maria Antonieta sem Bolinhos" (1969), e o icônico "Ouriço / Burro Cor de Rosa" (1970), sob a produção de Nelson Motta, lançado e vetado pela Censura do Governo Militar, por ter sido considerado subversivo demais. Depois, Serguei passaria praticamente duas décadas no ostracismo, vindo a ser redescoberto só em 1991, com a sua participação lendária no Rock in Rio daquele ano. Faleceu em 7 de junho de 2019, aos 85 anos.



Loyce e os Gnomos

Banda bem obscura do interior de São Paulo (cogita-se até hoje se seriam de Ribeirão Preto ou de Limeira), mas que gravou em 1969 um compacto duplo com algumas das músicas mais pesadas e lisérgicas daquele ano, com um nível caprichado de guitarras distorcidas que remetiam diretamente a grupos internacionais como Steppenwolf e Blue Cheer: O Despertar dos Mágicos. Destaque para os petardos "Que é Isso" e "Era uma Nota de 50 Cruzeiros".


Os Baobás

Banda com clássica estética de garagem sessentista, formada por Ricardo Contins (guitarra rítmica), Renato (guitarra solo), Carlos (baixo) e Jorge Pagura (bateria), que se especializou como grupo de apoio em vários programas de TV da época na capital paulista, e logo estaria acompanhando e fazendo parte de gravações para medalhões como Caetano Veloso e Ronnie Von. Foram precursores no lançamento de versões inovadoras para clássicos do rock no Brasil daquela época, mesmo antes deles saírem por aqui nas versões originais, como é o caso de "Light My Fire" (do The Doors). Lançam o seu único LP com algum êxito em 1968, já com o grande Liminha no baixo (que posteriormente integraria os Mutantes), mas finalizariam a sua trajetória no ano seguinte, com seus integrantes partindo para diversos projetos paralelos. 


Beat Boys

Grupo que também serviu de banda de apoio a vários artistas na época da Tropicália, especialmente Caetano Veloso (são eles que o acompanham na gravação de "Alegria, Alegria", e na sensacional apresentação dela no Festival de Música da TV Record, em 1967). Na verdade, eram argentinos, mas se radicaram em São Paulo capital, e desenvolveriam uma prolífica carreira por aqui como uma das mais notáveis bandas de rock da virada 60/70, tendo seus integrantes colaborado com artistas notórios dos mais diversos, nos anos seguintes - de Raul Seixas (o guitarrista e vocalista, Tony Osanah) a Secos e Molhados (Willy Verdaguer no baixo, e Marcelo Frias, na bateria). Ganhou destaque o seu único e homónimo LP, lançado em 1968.

Beat Boys com Caetano Veloso, em 1967


Os Brazões

Originados no Rio de Janeiro, e partindo para uma pegada psicodélica bem vinculada ao pop e soul music da época, esse grupo já era mais da área tropicalista intensa e experimental de Gal Costa e Tom Zé, tendo acompanhado esses figurões em shows históricos e marcados por muita viagem e desbunde (termo quente da época!). Tais filiações levariam os Brazões a gravar o disco homônimo de 1969, hoje considerado um clássico contracultural brasileiro, e calcado em faixas revolucionárias como "Gotham City" e "Pega a Voga, Cabeludo". 


Fábio

Cantor paraguaio apadrinhado por ninguém menos que Tim Maia e Carlos Imperial, ele aportou no Brasil em 1965 e, três anos depois, lançaria a icônica "Lindo Sonho Delirante", popularizada pelas polêmicas iniciais 'L.S.D.', e elevado à condição de muso da psicodelia tupiniquim, ainda lançaria dois hits em 1969: "Em Busca das Canções Perdidas" e a romântica "Stella", seu maior sucesso. Caiu no esquecimento durante a década seguinte, só vindo a ser resgatado por suas contribuições para a música pop brasileira muitos anos depois, graças à sua redescoberta por pesquisadores e colecionadores do rock brasileiro dos anos 60.



Liverpool

Espetacular banda gaúcha originada no bairro operário IAPI, de Porto Alegre, em meados de 1966, começaram no tradicional circuito de bailinhos com covers de Beatles e demais grupos da época, mas logo evoluíram para um material próprio e autoral, demonstrando muita originalidade e preciosismo técnico, incomuns para os grupos da época. Graças a isso, conseguiram um contrato para gravar aquele que é considerado um dos melhores discos de rock brasileiro daquela década: o lendário Por Favor, Sucesso (1969), onde fundiam como ninguém influências do rock inglês com tropicalismo, ritmos latinos e altas doses de lisergia. Tinham, em sua formação, Fughetti Luz (vocais), Marcos e Mimi Lessa (guitarras), Pekos (baixo) e Edinho Espíndola (bateria). Com o êxito de sua participação em festivais da época, ainda gravam com essa mesma formação canções para a trilha sonora do filme Marcelo Zona Sul, de 1970, onde também fazem uma ponta. Apesar do aparente sucesso, acabam fracassando em conseguir melhores oportunidades ao tentar emplacar no então obrigatório eixo Rio-São Paulo, e o grupo encerra atividades em 1972. Mas a história não acaba por aí, pois logo iriam se reunir novamente na forma de outra banda histórica dos anos 70: o Bixo da Seda - sobre o qual falaremos logo adiante.


Spectrum

Atenção: não confundir com um recente grupo de K-Pop dos anos 2000, e nem com outra banda de mesmo nome, australiana e de rock progressivo, do final dos anos 60! Este Spectrum é uma cultuada banda de jovens de Nova Friburgo (RJ), que tiveram o feito de participar da elaboração e gravação da trilha sonora de uma raridade do cinema brasileiro dos anos 70, o mítico Geração Bendita (1971), o "primeiro filme hippie 100% brasileiro", censurado pela ditadura militar, devido a suas cenas de comunas subversivas e amor livre. O único registro dos caras, cujas cópias originais em vinil são hoje disputadas a tapa por colecionadores estrangeiros e valem ouro, é o disco com as músicas do filme, e que demonstra uma sonoridade roqueira incrível e bastante influenciada por Cream, Santana e grandes avatares psicodélicos da época. Os integrantes eram José Luiz Caetano, Nando Teixeira e Serginho (guitarras e vocais), Toby Rocha (baixo) e Fernando Gomes (bateria), e é uma pena que eles não tenham gravado mais e nem seguido carreira após toda a polêmica do filme.

Spectrum em cena do filme 'Geração Bendita' (1971)


Módulo 1000

Mais uma prova de que o rock brasileiro, nos nascentes anos 70, tinha muita lenha pra queimar e competência criativa, não ficando nada a dever no terreno do hard rock e experiências progressivas a feras lá de fora, como Black Sabbath e Pink Floyd. A sonoridade dos caras do Módulo 1000 era incrivelmente pesada e psicodélica, o que fez com que os caras tivessem que praticamente brigar com toda a equipe de produção e técnicas de mixagem no estúdio onde gravaram o seu antológico (e único) registro de 1972, para que o som pudesse soar o mais próximo da pancadaria que promoviam ao vivo: o lendário álbum Não Fale com Paredes. Em sua formação estavam: Luiz Paulo Simas (órgão e vocal), Daniel Cardona (guitarras e vocal), Eduardo Leal (baixo), e Candinho (bateria). Essa era uma das maiores dificuldades para os grupos brasileiros da época, além do esquema mambembe para conseguir fazer shows: ninguém tinha as manhas (e os bons equipamentos) para gravar rock no Brasil. Devido à falta de reconhecimento, o Módulo 1000 acabou em 1974, mas não sem deixar marcas: Simas se tornou um dos mais renomados tecladistas e produtores nos anos seguintes, indo trabalhar na Rede Globo e se tornando ninguém menos que o responsável pela criação do célebre som que acompanhava a logomarca da emissora, o "plim plim". E o baterista Candinho iria juntar uma turma muito louca, para formar um dos mais icônicos grupos do rock progressivo brasileiro, o Vímana (do qual também falaremos aqui).



A Bolha

Capitaneados pelos irmãos Ricardo e César Ladeira (vocais, guitarras e teclados), começaram a carreira como The Bubbles, também no circuito de bailinhos do Rio de Janeiro, onde todo mundo tocava covers de Beatles e Rolling Stones, e logo foram contratados para acompanhar e gravar com medalhões da jovem guarda e da música pop - como Erasmo Carlos, Márcio Greyck, Leno e Raul Seixas. Com Leno, e sob a produção de Raul Seixas aliás, gravaram o fantástico e mega cultuado disco Vida e Obra de Johnny McCartney (1970), censurado e só lançado muitos anos depois. A essa altura, já tinham mudado o nome da banda para A Bolha, e influenciados pelos grandes grupos estrangeiros de rock pauleira e progressivo, tinham se decidido a tocar apenas músicas próprias, desenvolvendo um trabalho autoral e tão preciosamente técnico e bem feito quanto o do Liverpool, de quem eram amigos. É assim que gravam e lançam aquela que é considerada a sua obra-prima, em 1973: o perfeito Um Passo à Frente, LP fundamental do rock BR anos 70, infelizmente pouquíssimo compreendido pelo público e de baixa vendagem na época. Levaria muitos anos para que músicas como "Razão de Existir", "A Esfera" ou a própria faixa-título fossem reconhecidas e apreciadas como o que realmente são: incríveis pérolas do hard rock progressivo brazuca. A Bolha ainda resistiria alguns anos, conseguindo gravar em 1977 outro álbum excelente, É Proibido Fumar, contendo a cover de Erasmo Carlos e com uma orientação mais voltada ao rock clássico e tradicional, e depois disso, encerram atividades em 1978. Mas eis que estão aí, redescobertos e bastante admirados pelas novas gerações - tanto é que, em 2018, tem lançado um disco ao vivo inédito, com as gravações raríssimas de um show de 1971 em Guarapari (ES), e que é a prova cabal do som estrondoso do grupo: A Bolha ao Vivo




Bango

Originados a partir de uma banda de relativo sucesso na época da Jovem Guarda (Os Canibais), o Bango era formado por Fernando e Aramis Barros (guitarras e vocais), Elydio (baixo), Roosevelt (piano e órgão) e Max Pierre (bateria), e conseguiram lançar, em 1971, apenas um disco, autointitulado, mas que é uma paulada no ouvinte: faixas como "Motor Maravilha" e "Inferno no Mundo" carregam bonito nas fuzz guitars e órgãos Farfisa, e figuram em diversas coletâneas mundo afora como alguns dos mais perfeitos exemplos do rock brasileiro psicodélico e pesado dos anos 70, e as edições originais do LP são também disputadas a chutes e pontapés por colecionadores. Infelizmente, gravaram apenas esse registro.


Som Imaginário

Combo de magistrais músicos, inicialmente criado com o propósito de ser a banda de suporte nos shows de um ainda jovem Milton Nascimento, em 1970, logo o grupo se notabilizou por acompanhar outros artistas de renome na MPB, e participou de festivais de música da época com composições próprias. Tiveram destaque com as canções "Feira Moderna" (1970) e "Sábado" (1971), lançando 3 discos de destaque no início daquela década, antes de separarem em 1975. A sua mescla de rock progressivo de alto quilate, com MPB e sons regionais, é uma forte influência que pode ser sentida em diversos outros grupos que surgiriam a partir de então, inclusive no célebre projeto do Clube da Esquina, de Nascimento e Lô Borges. De suas fileiras, saíram os famosos Wagner Tiso e Zé Rodrix, que fariam enorme sucesso posteriormente com bandas próprias e acompanhando outros artistas. 



Ave Sangria

Direto de Recife, no Nordeste, este foi um dos grupos de maior impacto regional da época, com polêmicas envolvendo músicas censuradas pelos militares, shows performáticos e transgressores, e uma postura de palco andrógina e provocativa, que rivalizava com os então famosos Secos e Molhados, em muito graças ao transgressor vocalista Marco Polo. O seu LP de estreia de 1974, auto-intitulado, é um marco na história do rock nacional setentista, e faz parte de um movimento amalucado da psicodelia nordestina que envolveu muita gente boa, de Zé Ramalho e Alceu Valença a Lula Cortes e muitos mais.



Som Nosso de Cada Dia

Aqui entramos em um dos mais vigorosos capítulos da história do prog rock nacional, pois o Som Nosso é uma de suas bandas mais emblemáticas. Eternizada com o lançamento do LP Snegs, de 1974, que continha algumas das mais fortes composições do gênero, centradas em arranjos revolucionários de teclados e baixo, o grupo havia nascido em 1971, a partir de uma dissidência no popular grupo da jovem guarda Os Incríveis, quando o tecladista deste, Manito, saiu com o propósito de formar uma banda com uma proposta mais moderna e ousada, assim como o baterista Netinho sairia para montar o também famoso conjunto Casa das Máquinas. Manito se juntou a Pedro Baldanza (guitarra e baixo) e Pedrinho (bateria e vocais), e como um trio mesmo, montaram o Som Nosso, com muita vontade de inovar e participar de shows e festivais - um dos grandes momentos para a banda foi quando foram chamados para fazer a abertura da histórica apresentação de Alice Cooper no Brasil, em São Paulo, no Anhembi, para um público de mais de 150.000 pessoas: não fizeram feio, e ainda arrancaram elogios do próprio Alice. Mesmo assim, não tiveram grande sucesso comercial, e após a saída da principal figura do grupo (Manito), ainda tentaram reformular o som da banda, com uma nova formação, contando ainda com Pedrão no baixo e Pedrinho na batera, Dino Vicente e Tuca Camargo nos teclados, Egídio Conde na guitarra, mais a adição de Tony Osanah (aquele mesmo dos Beat Boys, já citados), nos vocais. Com esse line-up, lançam em 1977 o LP Som Nosso - também conhecido como 'Sábado/Domingo' - com uma orientação bem diferente e que surpreendeu a galera que os acompanhava: bem mais pop, com um lado do disco totalmente dedicado ao som negro funk no estilo James Brown, que agitava os bailes do Rio na época, e o outro lado dedicado a um som progressivo mais soft. De qualquer forma, não deu, e em 1978 encerram as atividades.



A Barca do Sol

Outra grande banda do progressivo nacional, se esmeraram no som com influências folk e regionais, com muita instrumentação acústica e erudita, e melodias e letras calcadas em cultura medieval e literatura fantástica. Lançaram A Barca do Sol (1974), Durante o Verão (1976), e Pirata (1979) - discos considerados a trindade sagrada do casamento entre prog rock e MPB.



Terreno Baldio

Ainda na seara do progressivo, o Terreno Baldio se tornou um dos grupos mais cultuados, pois o seu virtuosismo técnico era tão grande, que em certas composições rivalizavam com grupos estrangeiros de renome no gênero, como o Yes e Gentle Giant. Deixaram dois fortes registros clássicos: Terreno Baldio (1975), e Além das Lendas Brasileiras (1976), antes de se separarem. Dos anos 2000 para cá, no entanto, tem se reunido para bem sucedidas turnês esporádicas em comemoração ao seu período lendário.



Pão com Manteiga

O mais obscuro dos grupos brasileiros de rock progressivo redescobertos depois do advento do garimpo de raridades na web, este grupo tem apenas um registro de 1976, o auto-intitulado LP que é considerado um dos mais psicodélicos e desvairados registros da época, beirando muito as letras surrealistas dos Mutantes, mas também trazendo um preciosismo instrumental que vai do folk ao space rock de modo sutil, às vezes lembrando bastante as viagens do Pink Floyd em seus primórdios. Grande banda, pena que gravou tão pouco.

Raríssima foto do Pão com Manteiga ao vivo, em 1976


Veludo

Grupo lendário formado em 1973, para acompanhar alguns shows de Zé Rodrix, e que tinha em sua proposta original uma pegada voltada para o blues e hard rock, com influências de Rolling Stones e Deep Purple, mas aos poucos foi se distanciando disso e evoluindo para uma fase mais no estilo progressivo. Tinha em sua formação Elias Mizhari (teclados), Pedro Jaguaribe (baixo), Gustavo Schoeter (bateria) e Paulo de Castro (guitarra), considerado um dos melhores no seu instrumento, na época. Quase não existe registro deles, tocavam muito em festivais e acabaram não deixando nenhum disco oficialmente gravado - mas nos anos 90, surgiu um sensacional registro do show deles no mitológico festival Banana Progressiva de 1975, Veludo ao Vivo, em que dá para ter um vislumbre do grande som que essa galera cometia.



Bixo da Seda

Foram a continuação da saga do grupo Liverpool, comentado lá no início, mas com um dedinho de ajuda do Renato Ladeira nos teclados - aquele do também comentado grupo A Bolha - que se juntaria a eles durante o período 1973 a 1978, para ajudar a trupe a tirar aquele som. A proposta do Bixo da Seda era um prolongamento natural do som do Liverpool, só que com mais blues, peso, e influências progressivas. Para nossa infelicidade, gravaram só um disco, o Bixo da Seda de 1976, pois realmente o público da época não dava muita bola para o rock e só queriam saber de samba e som de discoteca dançante, lá onde o grupo tinha sede (Rio de Janeiro). Mas é um álbum fantástico, quem gosta de rock setentista com garra e bem feito tem que ouvir pedradas como "Já Brilhou", "Carrocel" e "Sete de Ouro". 


Vímana

Para terminar, o último grande grupo de rock progressivo nacional dos anos 70, e de onde saíram 3 feras que arrebentariam em carreiras solo depois: Lulu Santos, Lobão e Ritchie. O Vímana era uma proposta inicial do ex-baterista do já citado Módulo 1000, Candinho, que chamou Lulu e o baixista Fernando Gama (vindos da banda Veludo Elétrico) para montar uma nova formação. Logo, Luiz Paulo Simas (também ex-Módulo 1000) passou a tocar com o grupo também. No final de 1975, entretanto, Candinho desiste do projeto, e para seu lugar, resolvem convocar um rapaz que nem havia atingido a maioridade ainda, mas era conhecido de vários músicos do Rio como um exímio e precoce talento na bateria: João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão. Um pouco mais adiante, para incrementar o som do grupo com um melhor trabalho vocal e uso de flautas, Lulu chama um conhecido seu que havia chegado da Inglaterra em 1973, a convite de Rita Lee, e acabara de sair de outro grupo progressivo (o Scaladácida), Richard David Court, mais conhecido como Ritchie. E pronto: estava aí a formação clássica do Vímana, que chegou a se apresentar na lendária versão do festival Hollywood Rock, de 1975 (um show pra lá de caótico, e registrado no filme do evento), e que ainda gravou, no final de 1976, o seu único material oficial lançado, o compacto com as músicas "Zebra" e "Masquerade", e um LP inédito, guardado nos cofres secretos da gravadora Som Livre até hoje. A trajetória conturbada do Vímana teve fim em 1978, quando o grupo ruiu após uma mal sucedida parceria com o músico suíço Patrick Moraz, ex-tecladista do Yes, que envolveu cachês prometidos e não pagos, briga de egos entre Patrick e Lulu nos shows e, pra completar, um caso extraconjugal da esposa de Patrick com o jovem Lobão. Que bagunça, tinha que acabar mesmo.






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sexta-feira, 20 de março de 2026

NA SENDA DA LOUCURA

 

Nos últimos dias, uma imagem bem antiga tomou conta das redes sociais de vídeos, como volta e meia acontece com trechos de grandes clássicos da sétima arte. Ela pertence aos primórdios do cinema falado, e é bem impressionante pois mostra, com efeitos visuais práticos bem rudimentares, apenas de maquiagem e iluminação, a assustadora transformação do comportado cientista Mr. Jekyll no maníaco Dr. Hyde, na histórica adaptação cinematográfica de O Médico e o Monstro (1931), dirigida por Rouben Mamoulian, e com Fredric March (vencedor do Oscar de melhor ator na época por esse filme) no papel principal. Veja só:


Sempre foi característica do cinema a especialidade em fazer surgirem grandes atuações a partir de histórias em que as personagens principais rompem os grilhões mentais do comportamento padrão, e das ditas convenções sociais, para se revelarem sociopatas (ou psicopatas) de grande insanidade, que passam a trilhar a senda da loucura.

Quer fazer com que um ator brilhante vá até o fundo da sua alma, buscando uma interpretação incrível, com uma entrega que possa realmente surpreender? Ótimo, dê a ele um papel de psicopata, onde ele possa explorar a perda total das amarras morais: se ele for bom mesmo, geralmente isso funciona.

Robert Mitchum, no eletrizante 'O Mensageiro do Diabo' (1955)

Ainda na época de ouro do cinema americano, um ator que se eternizou em um desses papéis, que o marcaria por toda a carreira, foi Robert Mitchum, como o perverso Harry Powell em O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter, 1955), clássico inesquecível e eletrizante de suspense. Ele era o assassino cruel de viúvas ricas que saía da prisão com as palavras "love" (amor) e "hate (ódio) tatuadas nos dedos das duas mãos, e que se fingindo de homem bom e religioso, vai ao encalço da família de um ex-companheiro de cela, que revelara que o dinheiro de um assalto estava escondido na boneca de sua filha pequena. 

Leitura obrigatória para os fãs de suspense e terror

A interpretação de Mitchum é de arrepiar, e os trejeitos desenvolvidos pelo mesmo, que se transforma em uma autêntica "assombração" para as crianças indefesas que ele passa a perseguir, entraram para a história como uma das primeiras grandes e autênticas atuações de um bandido realmente sádico. Esse clássico, repleto de uma atmosfera muito lúgubre e sinistra, incomum para filmes norte-americanos da época, é referenciado como um dos melhores 'thrillers' de todos os tempos, no extenso e sensacional ensaio sobre obras-primas do suspense e terror do grande escritor Stephen King, transformado em seu livro não ficcional de 1981, o fundamental Dança Macabra

Psicose (1960)

E falando em suspense, que é o gênero por excelência dos filmes de maníacos, apenas cinco anos depois, em 1960, aquele que se tornaria o mestre do estilo, o renomado Alfred Hitchcock, lança uma de suas obras-primas, Psicose, que aborda a história de Norman Bates - interpretado com todos os maneirismos possíveis por Anthony Perkins, numa performance da qual ele nunca mais conseguiria se desvincular. 

Bates é o jovem gerente de um hotel onde encontra refúgio, em uma noite de fuga, a jovem Marion Crane (interpretada por Janet Leigh, mãe da atriz Jamie Lee Curtis), que afanara uma razoável quantia de dinheiro em seu trabalho, visando se casar com seu namorado. Os modos educados mas ao mesmo tempo tensos de Bates logo revelam uma personalidade exótica e insegura, que sofre uma pesada influência da mãe dominadora... e que logo começará a demonstrar atitudes aterrorizantes. Daqui saiu uma das mais citadas e imitadas sequências homicidas de toda a história do cinema, a icônica "cena do chuveiro" - amplificada pelas notas agudas do violino intenso e obsessivo da trilha sonora monumental de Bernard Herrmann - e o psicótico Norman Bates seria o primeiro de uma sequência de assassinos em série que fariam parte da história do cinema, todos direta ou indiretamente inspirados no terrível Ed Gein: na vida real, conhecido como o "açougueiro de Plainfield", e que inspirou a recente série Monstro - A História de Ed Gein, da Netflix, com Charlie Hunnan no papel principal.

O Massacre da Serra Elétrica (1974)

As práticas sanguinárias de mutilação de Ed Gein também inspirariam outro grande clássico do cinema de horror, não com apenas um psicopata, mas dessa vez uma família inteira deles! Em 1974, o diretor Tobe Hooper perpetra o impagável O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre), onde o clã do enlouquecido Leatherface, viciado em matar com a sua motosserra, toca um terror absurdo em um grupo de jovens perdidos nos confins do Texas, em um espetáculo tão tenebroso e agonizante, na autenticidade de suas cenas de pavor, que o mesmo fenômeno de gente sair passando mal do cinema ocorrido um ano antes, com O Exorcista, se repetiu na ocasião. 

O filme popularizou de forma irreversível a onda dos filmes de loucos assassinos bestiais e lacônicos, praticamente sem fala, no que se tornou o gênero slasher - os filmes em que um psicopata sai matando todo mundo - e daí viria uma safra de exemplares onde o mesmo adquire contornos sobrenaturais, com séries que exploram o personagem à exaustão, fazendo com que ele nunca morra definitivamente, e volte várias vezes para saciar a sua sede de sangue.

Halloween (1978)

Em 1978, o lendário Michael Myers aparece pela primeira vez em Halloween, do diretor John Carpenter - e o seu principal alvo é a então novinha Jamie Lee Curtis, que leva adiante o cetro de sofrimento da mãe Janet Leigh, que havia sido atacada no chuveiro em Psicose, e se torna a nova e emblemática scream queen (rainha do grito) dos filmes de terror. Pobre coitada. E na esteira de Myers, com nítida inspiração nele, nasce o famigerado Jason Voorhees, uma aberração sanguinária por trás de uma máscara de hóquei, da série Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980), que atingiria dez filmes de muita matança e desespero.

Jason, de Sexta-Feira 13

Mas é no mesmo ano do primeiro Sexta-Feira 13, em 1980, que é lançado um filme que retoma o conceito original do "assassino entre nós", que pode estar escondido no homem comum, um cara qualquer do cotidiano, e que vai aos poucos se revelando, à medida em que vai se entregando às raias da insanidade... Baseado na obra do já citado Stephen King (e realmente "baseado", já que o filme muda muitas coisas), o clássico e controverso O Iluminado (The Shining), mais uma das grandes e inegáveis obras-primas do gênio Stanley Kubrick, traz no papel principal Jack Nicholson, como um escritor que, enfrentando um interminável bloqueio criativo para escrever seu próximo livro, resolve aceitar o trabalho de zelador em um imenso e distante hotel nas montanhas do Colorado, o Overlook, até como uma forma de conseguir isolamento e tranquilidade para ter alguma inspiração, levando consigo a sua esposa e o filho, o pequeno Danny - que, no lugar, se revela um sensitivo que passa a ter visões e contatos medonhos e sobrenaturais com o passado do local, à medida em que seu pai vai gradualmente perdendo a sanidade, e se tornando cada vez mais ameaçador. 

O Iluminado (1980)

A atuação de Nicholson nesse filme (como um escritor homônimo seu, também chamado Jack) chega a se tornar um 'estudo de caso', de tão magnética e assombrosa que é. A descida aos infernos de Jack, gradativamente enlouquecendo e se entregando aos demônios do hotel (e de sua alma também) representa um dos grandes momentos do cinema de suspense e horror. A sua imersão no papel, e nas mãos de um diretor talentoso e exigente como Kubrick, foi uma coisa tão alucinada, e tão escabrosa, que realmente parece se tratar de momentos de possessão, em algumas das cenas mais assustadoras da película, quando ele passa a definitivamente perseguir a sua família. É uma vergonha histórica ele não ter sido nem ao menos indicado ao Oscar por essa interpretação, que o deixaria marcado pelo resto de sua carreira.

Alguns anos depois, já em 1986, um outro ator chamaria a atenção por sua atuação realista e calculada como psicopata, alguém que começa a trama com sorrisos e trejeitos gentis, para depois deixar cair a máscara e se tornar frio e sanguinário: o gigante nórdico Rutger Hauer, que já havia chamado a atenção de muita gente como o replicante Roy, no clássico da ficção científica Blade Runner (1982), tem um dos seus grandes momentos em A Morte Pede Carona (The Hitcher), onde ele é o caronista que se torna o pesadelo do casal C. Thomas Howell e Jennifer Jason Leigh, em uma longa perseguição pelas estradas. O filme, por sinal, teve o roteiro inspirado em uma canção que foi um dos grandes sucessos do grupo The Doors, de Jim Morrison - a instigante "Riders on the Storm", de 1971.

Rutger Hauer, assustador em 'A Morte Pede Carona' (1986)

Outro grande ator que tinha que passar pelo teste da interpretação genial de um psicopata era o renomado Robert De Niro. E isso aconteceria em 1991, pelas mãos do aclamado Martin Scorsese, dando a chance a seu amigo De Niro de cumprir essa missão, na refilmagem de um antigo suspense de 1962, O Cabo do Medo (Cape Fear), onde ele interpreta um ex-detento que faz de tudo para infernizar a vida do defensor público (papel de Nick Nolte), que não conseguiu impedir que ele cumprisse 14 anos de prisão, passando a ameaçar a sua vida e de sua família. O filme é um brilhante exercício de nuanças do personagem de De Niro: Max Cady, um homem que, inicialmente simplório e ignorante, vai se aprimorando intelectual e fisicamente na prisão, passa a trabalhar seu corpo e mente, chega a se formar em Direito e efetuar a sua própria defesa para ganhar a liberdade, e se torna uma máquina fria, inteligente e imparável na sua busca por vingança contra o advogado que não fez uma boa defesa de sua causa. 

Cabo do Medo (1991)

Se formos falar, no entanto, em um caso publicamente reconhecido, por vários profissionais na área jurídica e da psiquiatria, como o mais bem retratado enfoque de um psicopata na história do cinema, é consenso geral chegarmos ao já histórico Anthon Chigurh, desempenho louvável de Javier Bardem no filme dos irmãos Coen, Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Men, 2007). Ele não expressa emoção alguma, não tem reações, é praticamente um robô programado e ciente de seu ofício, que o realiza de forma gélida e matemática, milimetricamente calculada e racionalizada sem traço algum de humanidade ou hesitação. Chigurh é o retrato perfeito do executor sem empatia, o psicopata por excelência que faz disso a sua profissão e o mais singular motivo de sua própria existência. Na busca incessante de uma mala de dinheiro subtraída por um cowboy, após uma negociação malsucedida de traficantes no deserto, ele passa por cima de tudo e de todos, apenas revelando uma interessantíssima fixação pela aleatoriedade da sorte em um jogar de moeda no "cara e coroa", onde decide quem vai viver, e quem vai morrer.

Onde os Fracos Não tem Vez (2007)

E também na base do cara e coroa, chegamos ao ano seguinte com o próximo filme que melhor relatou a vivência impiedosa de psicopatas no cinema: em Batman, O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), de Christopher Nolan, nossas atenções se concentram, na maioria das vezes, não no herói encapuzado da trama, mas sim, nos seus dois antagonistas, que expõem de forma visceral a insanidade humana. O promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart), convertido no vilão Duas Caras, assim como Chigurh, também aposta na moeda o destino das pessoas. Mas quem o "cria", subvertendo a razão em loucura, e faz isso a todo momento durante o enredo, é o inesquecível Coringa - um desempenho genial e sem erros de Heath Ledger, o seu último antes de morrer, e postumamente contemplado com um Oscar (esse sim, com justiça). 

O Cavaleiro das Trevas (2008)


Heath Ledger, como o Coringa

Ele personifica a antítese do Batman - e como sua nêmesis, o coloca diante do espelho, defronte as próprias sombras de sua angústia, violência, e desejos de vingança. Ambos reflexos torpes de sujeitos distorcidos pela sociedade, destruídos e ambíguos, separados apenas por uma linha muito, mas muito tênue, que se constitui a partir da crença em uma salvação (ou redenção) moral coletiva, que fica muito clara na importantíssima sequência dos tripulantes dos dois navios com detonadores de bombas, essa sem dúvida, uma das mais belas e profundas, sociologicamente, da filmografia de Nolan.

O Farol (2019)



Como se tudo isso tivesse que efetivamente terminar na água do mar, eis que chegamos ao filme de um mestre do terror moderno, Robert Eggers, com seu O Farol (The Lighthouse), de 2019, onde a loucura e insensatez de dois personagens rivais, interpretados brilhantemente por Willem Dafoe (como o velho guardião de um inóspito farol) e Robert Pattison (como o seu impaciente e nervoso aprendiz), joga em nossa cara toda a desolação e insanidade que podem surgir a partir da solidão de duas pessoas, totalmente longe e segregadas da civilização, de suas convenções e regras. Ali, onde o pavor da perda de noção do tempo, o abandono, e a convivência com horrores lovecraftianos se misturam à fauna opressora e aos terríveis desastres naturais do oceano, mais uma vez somos magnificamente apresentados à total perda de razão e noção do ser humano insignificante, essa pobre criatura complexa e quebrada. 

Obra perturbadora, absolutamente apavorante. E imperdível.



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