sexta-feira, 20 de março de 2026

NA SENDA DA LOUCURA

 

Nos últimos dias, uma imagem bem antiga tomou conta das redes sociais de vídeos, como volta e meia acontece com trechos de grandes clássicos da sétima arte. Ela pertence aos primórdios do cinema falado, e é bem impressionante pois mostra, com efeitos visuais práticos bem rudimentares, apenas de maquiagem e iluminação, a assustadora transformação do comportado cientista Mr. Jekyll no maníaco Dr. Hyde, na histórica adaptação cinematográfica de O Médico e o Monstro (1931), dirigida por Rouben Mamoulian, e com Fredric March (vencedor do Oscar de melhor ator na época por esse filme) no papel principal. Veja só:


Sempre foi característica do cinema a especialidade em fazer surgirem grandes atuações a partir de histórias em que as personagens principais rompem os grilhões mentais do comportamento padrão, e das ditas convenções sociais, para se revelarem sociopatas (ou psicopatas) de grande insanidade, que passam a trilhar a senda da loucura.

Quer fazer com que um ator brilhante vá até o fundo da sua alma, buscando uma interpretação incrível, com uma entrega que possa realmente surpreender? Ótimo, dê a ele um papel de psicopata, onde ele possa explorar a perda total das amarras morais: se ele for bom mesmo, geralmente isso funciona.

Robert Mitchum, no eletrizante 'O Mensageiro do Diabo' (1955)

Ainda na época de ouro do cinema americano, um ator que se eternizou em um desses papéis, que o marcaria por toda a carreira, foi Robert Mitchum, como o perverso Harry Powell em O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter, 1955), clássico inesquecível e eletrizante de suspense. Ele era o assassino cruel de viúvas ricas que saía da prisão com as palavras "love" (amor) e "hate (ódio) tatuadas nos dedos das duas mãos, e que se fingindo de homem bom e religioso, vai ao encalço da família de um ex-companheiro de cela, que revelara que o dinheiro de um assalto estava escondido na boneca de sua filha pequena. 

Leitura obrigatória para os fãs de suspense e terror

A interpretação de Mitchum é de arrepiar, e os trejeitos desenvolvidos pelo mesmo, que se transforma em uma autêntica "assombração" para as crianças indefesas que ele passa a perseguir, entraram para a história como uma das primeiras grandes e autênticas atuações de um bandido realmente sádico. Esse clássico, repleto de uma atmosfera muito lúgubre e sinistra, incomum para filmes norte-americanos da época, é referenciado como um dos melhores 'thrillers' de todos os tempos, no extenso e sensacional ensaio sobre obras-primas do suspense e terror do grande escritor Stephen King, transformado em seu livro não ficcional de 1981, o fundamental Dança Macabra

Psicose (1960)

E falando em suspense, que é o gênero por excelência dos filmes de maníacos, apenas cinco anos depois, em 1960, aquele que se tornaria o mestre do estilo, o renomado Alfred Hitchcock, lança uma de suas obras-primas, Psicose, que aborda a história de Norman Bates - interpretado com todos os maneirismos possíveis por Anthony Perkins, numa performance da qual ele nunca mais conseguiria se desvincular. 

Bates é o jovem gerente de um hotel onde encontra refúgio, em uma noite de fuga, a jovem Marion Crane (interpretada por Janet Leigh, mãe da atriz Jamie Lee Curtis), que afanara uma razoável quantia de dinheiro em seu trabalho, visando se casar com seu namorado. Os modos educados mas ao mesmo tempo tensos de Bates logo revelam uma personalidade exótica e insegura, que sofre uma pesada influência da mãe dominadora... e que logo começará a demonstrar atitudes aterrorizantes. Daqui saiu uma das mais citadas e imitadas sequências homicidas de toda a história do cinema, a icônica "cena do chuveiro" - amplificada pelas notas agudas do violino intenso e obsessivo da trilha sonora monumental de Bernard Herrmann - e o psicótico Norman Bates seria o primeiro de uma sequência de assassinos em série que fariam parte da história do cinema, todos direta ou indiretamente inspirados no terrível Ed Gein: na vida real, conhecido como o "açougueiro de Plainfield", e que inspirou a recente série Monstro - A História de Ed Gein, da Netflix, com Charlie Hunnan no papel principal.

O Massacre da Serra Elétrica (1974)

As práticas sanguinárias de mutilação de Ed Gein também inspirariam outro grande clássico do cinema de horror, não com apenas um psicopata, mas dessa vez uma família inteira deles! Em 1974, o diretor Tobe Hooper perpetra o impagável O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre), onde o clã do enlouquecido Leatherface, viciado em matar com a sua motosserra, toca um terror absurdo em um grupo de jovens perdidos nos confins do Texas, em um espetáculo tão tenebroso e agonizante, na autenticidade de suas cenas de pavor, que o mesmo fenômeno de gente sair passando mal do cinema ocorrido um ano antes, com O Exorcista, se repetiu na ocasião. 

O filme popularizou de forma irreversível a onda dos filmes de loucos assassinos bestiais e lacônicos, praticamente sem fala, no que se tornou o gênero slasher - os filmes em que um psicopata sai matando todo mundo - e daí viria uma safra de exemplares onde o mesmo adquire contornos sobrenaturais, com séries que exploram o personagem à exaustão, fazendo com que ele nunca morra definitivamente, e volte várias vezes para saciar a sua sede de sangue.

Halloween (1978)

Em 1978, o lendário Michael Myers aparece pela primeira vez em Halloween, do diretor John Carpenter - e o seu principal alvo é a então novinha Jamie Lee Curtis, que leva adiante o cetro de sofrimento da mãe Janet Leigh, que havia sido atacada no chuveiro em Psicose, e se torna a nova e emblemática scream queen (rainha do grito) dos filmes de terror. Pobre coitada. E na esteira de Myers, com nítida inspiração nele, nasce o famigerado Jason Voorhees, uma aberração sanguinária por trás de uma máscara de hóquei, da série Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980), que atingiria dez filmes de muita matança e desespero.

Jason, de Sexta-Feira 13

Mas é no mesmo ano do primeiro Sexta-Feira 13, em 1980, que é lançado um filme que retoma o conceito original do "assassino entre nós", que pode estar escondido no homem comum, um cara qualquer do cotidiano, e que vai aos poucos se revelando, à medida em que vai se entregando às raias da insanidade... Baseado na obra do já citado Stephen King (e realmente "baseado", já que o filme muda muitas coisas), o clássico e controverso O Iluminado (The Shining), mais uma das grandes e inegáveis obras-primas do gênio Stanley Kubrick, traz no papel principal Jack Nicholson, como um escritor que, enfrentando um interminável bloqueio criativo para escrever seu próximo livro, resolve aceitar o trabalho de zelador em um imenso e distante hotel nas montanhas do Colorado, o Overlook, até como uma forma de conseguir isolamento e tranquilidade para ter alguma inspiração, levando consigo a sua esposa e o filho, o pequeno Danny - que, no lugar, se revela um sensitivo que passa a ter visões e contatos medonhos e sobrenaturais com o passado do local, à medida em que seu pai vai gradualmente perdendo a sanidade, e se tornando cada vez mais ameaçador. 

O Iluminado (1980)

A atuação de Nicholson nesse filme (como um escritor homônimo seu, também chamado Jack) chega a se tornar um 'estudo de caso', de tão magnética e assombrosa que é. A descida aos infernos de Jack, gradativamente enlouquecendo e se entregando aos demônios do hotel (e de sua alma também) representa um dos grandes momentos do cinema de suspense e horror. A sua imersão no papel, e nas mãos de um diretor talentoso e exigente como Kubrick, foi uma coisa tão alucinada, e tão escabrosa, que realmente parece se tratar de momentos de possessão, em algumas das cenas mais assustadoras da película, quando ele passa a definitivamente perseguir a sua família. É uma vergonha histórica ele não ter sido nem ao menos indicado ao Oscar por essa interpretação, que o deixaria marcado pelo resto de sua carreira.

Alguns anos depois, já em 1986, um outro ator chamaria a atenção por sua atuação realista e calculada como psicopata, alguém que começa a trama com sorrisos e trejeitos gentis, para depois deixar cair a máscara e se tornar frio e sanguinário: o gigante nórdico Rutger Hauer, que já havia chamado a atenção de muita gente como o replicante Roy, no clássico da ficção científica Blade Runner (1982), tem um dos seus grandes momentos em A Morte Pede Carona (The Hitcher), onde ele é o caronista que se torna o pesadelo do casal C. Thomas Howell e Jennifer Jason Leigh, em uma longa perseguição pelas estradas. O filme, por sinal, teve o roteiro inspirado em uma canção que foi um dos grandes sucessos do grupo The Doors, de Jim Morrison - a instigante "Riders on the Storm", de 1971.

Rutger Hauer, assustador em 'A Morte Pede Carona' (1986)

Outro grande ator que tinha que passar pelo teste da interpretação genial de um psicopata era o renomado Robert De Niro. E isso aconteceria em 1991, pelas mãos do aclamado Martin Scorsese, dando a chance a seu amigo De Niro de cumprir essa missão, na refilmagem de um antigo suspense de 1962, O Cabo do Medo (Cape Fear), onde ele interpreta um ex-detento que faz de tudo para infernizar a vida do defensor público (papel de Nick Nolte), que não conseguiu impedir que ele cumprisse 14 anos de prisão, passando a ameaçar a sua vida e de sua família. O filme é um brilhante exercício de nuanças do personagem de De Niro: Max Cady, um homem que, inicialmente simplório e ignorante, vai se aprimorando intelectual e fisicamente na prisão, passa a trabalhar seu corpo e mente, chega a se formar em Direito e efetuar a sua própria defesa para ganhar a liberdade, e se torna uma máquina fria, inteligente e imparável na sua busca por vingança contra o advogado que não fez uma boa defesa de sua causa. 

Cabo do Medo (1991)

Se formos falar, no entanto, em um caso publicamente reconhecido, por vários profissionais na área jurídica e da psiquiatria, como o mais bem retratado enfoque de um psicopata na história do cinema, é consenso geral chegarmos ao já histórico Anthon Chigurh, desempenho louvável de Javier Bardem no filme dos irmãos Coen, Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Men, 2007). Ele não expressa emoção alguma, não tem reações, é praticamente um robô programado e ciente de seu ofício, que o realiza de forma gélida e matemática, milimetricamente calculada e racionalizada sem traço algum de humanidade ou hesitação. Chigurh é o retrato perfeito do executor sem empatia, o psicopata por excelência que faz disso a sua profissão e o mais singular motivo de sua própria existência. Na busca incessante de uma mala de dinheiro subtraída por um cowboy, após uma negociação malsucedida de traficantes no deserto, ele passa por cima de tudo e de todos, apenas revelando uma interessantíssima fixação pela aleatoriedade da sorte em um jogar de moeda no "cara e coroa", onde decide quem vai viver, e quem vai morrer.

Onde os Fracos Não tem Vez (2007)

E também na base do cara e coroa, chegamos ao ano seguinte com o próximo filme que melhor relatou a vivência impiedosa de psicopatas no cinema: em Batman, O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), de Christopher Nolan, nossas atenções se concentram, na maioria das vezes, não no herói encapuzado da trama, mas sim, nos seus dois antagonistas, que expõem de forma visceral a insanidade humana. O promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart), convertido no vilão Duas Caras, assim como Chigurh, também aposta na moeda o destino das pessoas. Mas quem o "cria", subvertendo a razão em loucura, e faz isso a todo momento durante o enredo, é o inesquecível Coringa - um desempenho genial e sem erros de Heath Ledger, o seu último antes de morrer, e postumamente contemplado com um Oscar (esse sim, com justiça). 

O Cavaleiro das Trevas (2008)


Heath Ledger, como o Coringa

Ele personifica a antítese do Batman - e como sua nêmesis, o coloca diante do espelho, defronte as próprias sombras de sua angústia, violência, e desejos de vingança. Ambos reflexos torpes de sujeitos distorcidos pela sociedade, destruídos e ambíguos, separados apenas por uma linha muito, mas muito tênue, que se constitui a partir da crença em uma salvação (ou redenção) moral coletiva, que fica muito clara na importantíssima sequência dos tripulantes dos dois navios com detonadores de bombas, essa sem dúvida, uma das mais belas e profundas, sociologicamente, da filmografia de Nolan.

O Farol (2019)



Como se tudo isso tivesse que efetivamente terminar na água do mar, eis que chegamos ao filme de um mestre do terror moderno, Robert Eggers, com seu O Farol (The Lighthouse), de 2019, onde a loucura e insensatez de dois personagens rivais, interpretados brilhantemente por Willem Dafoe (como o velho guardião de um inóspito farol) e Robert Pattison (como o seu impaciente e nervoso aprendiz), joga em nossa cara toda a desolação e insanidade que podem surgir a partir da solidão de duas pessoas, totalmente longe e segregadas da civilização, de suas convenções e regras. Ali, onde o pavor da perda de noção do tempo, o abandono, e a convivência com horrores lovecraftianos se misturam à fauna opressora e aos terríveis desastres naturais do oceano, mais uma vez somos magnificamente apresentados à total perda de razão e noção do ser humano insignificante, essa pobre criatura complexa e quebrada. 

Obra perturbadora, absolutamente apavorante. E imperdível.



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sábado, 14 de março de 2026

AS MARAVILHOSAS MULHERES DO ROCK

 

Dia 8 de março passado foi o Dia Internacional da Mulher. E como essa é uma data que seria imperdoável o blog deixar passar em branco, temos que é mais do que obrigatório render aqui uma bela homenagem às 'grandes mulheres da história do rock' - é uma delícia relembrar a trajetória dessas musas, divas e figuras femininas das mais variadas, que marcaram e ajudaram a moldar esse gênero musical que tanto apreciamos. Com graça, charme, beleza e um toque muito especial e característico, elas ajudaram a melhorar e dar um enfoque mais sensível e instintivo ao gênero. Realmente, a grande sonoridade não seria jamais a mesma sem algumas dessas ladies que vamos reverenciar aqui.

Suzi Quatro

Mas é preciso delimitar um recorte: são muitas mulheres admiráveis e artistas incríveis, o que torna a lista quilométrica, enorme pra valer. Então, para não tornar este um texto praticamente impossível de ser editado e publicado, tivemos que optar por um extrato temporal, que vai dos primórdios do rock n' roll, lá em meados da década de 1950, até início dos anos setenta, ou seja, abordando as rockers pioneiras mesmo, que ajudaram a desbravar o caminho para muitas outras que viriam adiante. Assim, acabaram ficando de fora nomes como as diversas rainhas cantoras e grupos vocais da soul music nos anos sessenta (Aretha Franklin, Nina Simone, The Shirelles, dentre outras), e artistas e grupos femininos notórios que surgiriam depois (como Fanny, Suzi Quatro, The Runaways, Girlschool etc.). Mas nada impede que façamos uma próxima postagem mais pra frente, dedicada a elas.

The Runaways

Dá-lhe homenagem então.


Sister Rosetta

Tida por muitos como "a mãe do rock and roll", 'Irmã' Rosetta Tharpe (1915 - 1973) foi a primeira grande artista feminina relevante do gospel e rythim n' blues norte-americano, tendo chamado a atenção também por, além do vozeirão, ter sido a primeira a empunhar e tocar de forma vigorosa uma guitarra elétrica, não fazendo feio frente a nenhum bluesman famoso da época, como Muddy Waters, John Lee Hooker ou B.B. King, e despontando com hits de sucesso e hinos baseados em spirituals de sua igreja, que formavam as bases para muito da música negra popular que se desenvolveria dali em diante. Para se ter uma ideia, Elvis era fanzaço dela. Dentre seus grandes sucessos estava "Strange Things Happening Every Day", gravada ainda em 1944, e considerada uma das canções precursoras do R n' B e do futuro gênero rock n' roll. Ao longo da década de 60, faria turnês internacionais de sucesso com artistas homens do blues, como a icônica série de shows na Inglaterra em 1964, ao lado de Waters. Parte em 1973, após complicações decorrentes da diabetes. 


Jackie DeShannon

Iniciando sua carreira na esteira da música country, e ainda no final daquela primeira grande geração do rock and roll, do final dos anos 50, DeShannon começa a se sobressair ainda em 1960, e ela se torna a primeira grande roqueira pop dos EUA por excelência, com hits que marcariam época, como "Needles and Pins" (regravada posteriormente por grupos como The Searchers e Ramones) e "When You Walk in the Room", grande sucesso em 1963. Belíssima e com uma voz marcante, seu nome ganharia ainda mais projeção a partir de uma turnê conjunta que fez com os Beatles, em 1964, e que a levaria a se integrar à turminha de novas bandas da segunda grande geração do rock, se tornando uma compositora de peso para grupos de folk rock (como The Byrds), e ficando popular também na Europa - onde, em 1965, conhece o jovem guitarrista Jimmy Page, com quem tem um romance e escreve as músicas do único compacto solo gravado por ele ("She Just Satisfies"). A explosão mundial e consagração definitiva viriam pra valer em 1969, quando grava e lança o single (e álbum de mesmo nome) "Put a Little Love in Your Heart", um tremendo êxito. Celebridade profícua do circuito rock/pop dos EUA e Inglaterra, Jackie ainda é viva (84 anos), e tem até hoje programas de rádio em que conta velhas histórias e ajuda a revelar novos talentos, mantendo uma firme amizade com gente como Paul McCartney e Ringo Starr, só para citar alguns... Curiosidade: reza a lenda que "Tangerine", futuro sucesso do Led Zeppelin de seu terceiro disco, foi composta por um magoado Jimmy Page e baseada no término do ainda jovem guitarrista com Jackie, ainda lá atrás nos anos 60. A moça marcou mesmo.






Joan Baez

Recentemente bastante relembrada em decorrência do filme sobre o início de carreira de Bob Dylan (A Complete Unknown, de 2024), com quem namorou naquele período de 1963-64, Baez é sempre reverenciada como a trovadora folk por excelência, com uma voz aveludada e pura, tão cristalina, que se tornaria referência para um sem número de cantoras pop e rock dali em diante. Figura habitual nos grandes festivais de música tradicional que reuniriam a juventude beatnik a partir dos anos sessenta, Baez foi se tornando uma parceira artística praticamente indissociável de Dylan no período inicial de sua carreira, regravando várias de suas músicas, bem como clássicos do cancioneiro americano e standards próprios, e daí para se tornar uma das principais vozes da contestação política e da contracultura da década, foi questão de pouquíssimos passos. A sua aparição no histórico festival de Woodstock, em 1969, entoando a bucólica "Joe Hill", numa alegoria sobre os protestos contra a vigente Guerra da Vietnam, singrou para a posteridade como uma das sequências mais mágicas do evento. E até hoje, para muitos, o seu momento máximo como intérprete é no hino pelos movimentos civis "We Shall Overcome", da histórica gravação ao vivo lançada em 1961. Está com 85 anos e já veio ao Brasil várias vezes, tanto para shows quanto para participar de eventos em prol das causas sociais. 




Tina Turner

Provavelmente a mais simbólica desta lista, quando o assunto é "roqueira mulher", Tina representa muito mais do que a música vibrante e poderosa que ela sempre soube entregar em vida (faleceu em maio de 2023, aos 83 anos de idade). A sua luta, na verdade, vai além disso - se encontra com o legítimo empoderamento, com a força da fênix que ressurge das cinzas, após anos de violência e abusos, e que se torna um marco muito mais social e de comportamento, que deveria servir de exemplo para todas, exatamente todas as mulheres deste mundo, que já passaram por episódios agressivos. Se você é mulher, e já assistiu o belo filme sobre a vida dela, feito em 1993 com a sensacional Angela Basset no papel principal: Tina - A Verdadeira História de Tina Turner (What's Love Got to Do With It), então sabe do que estou falando. Iniciando sua carreira bem novinha, no final dos anos 50, ainda como Little Ann, logo ela ganhou um papel de destaque na banda de seu futuro marido, o cantor e guitarrista Ike Turner, assumindo o nome artístico com o qual ganharia fama a partir de 1960. No boom dos grupos de doo woop e música soul, rock e pop que passariam a proliferar na nova década, Tina começa a fazer grande sucesso com suas performances explosivas, também complementadas com muita dança e coreografias de palco, e ganha a fama com a parceria do renomado produtor Phil Spector (matéria sobre o mesmo aqui), que joga o grupo lá em cima nas paradas com o mega hit "River Deep, Mountain High", de 1966. Se segue quase mais uma década de sucessos, até que, em 1975, o escândalo: Tina se divorcia de Ike, exausta depois de tantos anos de abusos, com drogas, espancamento, e inclusive financeiros (sendo explorada por ele, líder da banda, nos contratos). Ao mesmo tempo em que o ex fica doidão, roda legal e vai parar na cadeia (sendo até indiciado por tráfico), Tina dá uma das mais vitoriosas e icônicas voltas por cima da história da música: ela entra nos anos 80 com um novo pique, visual repaginado, e músicas vitaminadas nas mais novas tendências pop, que se tornam grandes êxitos ("Private Dancer", "The Best", "We Don't Need Another Hero", dentre outras), e dali em diante, não tem mais jeito: com suas perucas, caras, bocas, danças e trejeitos loucos no palco, ela se confirma como a eterna e definitiva "rainha do rock".






'Mama' Cass Elliot

No advento dos loucos anos do "flower power" californiano, os fãs de rock da época tinham o lendário quarteto The Mamas and the Papas como os mais fortes representantes de um estilo refinado, que juntava vocalizações soberbas de dois rapazes e duas moças com influências de música pop, vaudeville, e folk de qualidade. A trupe formada por John Philips (o líder), Danny Doherty, e as vocalistas Michelle Philips (esposa de John) e a super carismática Cass Elliot tinha tomado de assalto as paradas americanas e mundiais repentinamente em 1966, com músicas do seu primeiro LP, If You Believe in Your Eyes and Ears, os mega sucessos "Monday Monday", "California Dreaming" e "Straight Shooter", dentre outras. Os bastidores, no entanto, não eram flores, mas sim, caóticos e traumáticos até - com o arrogante John Philips humilhando constantemente Cass por causa de sua silhueta de quilos a mais, enquanto sua esposa Michelle o traía com o próprio outro companheiro de banda, Danny, e chamava mais a atenção da mídia por sua invejável beleza. Michelle era afinadinha, mas sua voz não tinha um enésimo da potência e da majestade vocal de Cass Elliot - essa sim, a verdadeira voz feminina dos Mamas & Papas, e que dava corpo e profundidade às canções da banda. Subjugada por sua aparência, Cass tentava dietas que não davam certo, às vezes se deprimia, em outras ligava pra valer a chavinha do "f...-se", mas no final das contas, compensava tudo e derrubava a cara de todo mundo no chão com suas interpretações maravilhosas, e cheias de alma. Cass se cansou de todas as tretas do grupo e, ao final de 1968, já estava em outra, se lançando em uma relativamente bem sucedida carreira solo, onde a canção "Make Your Own Kind of Music" (1969) seria um dos grandes destaques. Em 1974, infelizmente, se tornaria um dos grandes nomes do rock daqueles tempos a morrer precocemente, aos 32 anos, de um ataque cardíaco enquanto dormia - e não por "engasgamento com um sanduíche", como muitos tabloides da época maldosamente alardeariam, criando uma cruel situação fake que nada mais era do que um último e ruidoso ato de gordofobia, e que seria tristemente sustentado na mídia por muitos anos. 





Grace Slick

A icônica voz lisérgica/operística do grupo acid rock Jefferson Airplane em sua fase clássica, de muitas loucuras nos festivais de rock dos anos 60, ela foi a diva doidona que cantou a plenos pulmões sobre a "toca do coelho" ("White Rabbit") e sobre agarrar alguém para amar ("Somebody to Love"), ao mesmo tempo em que nos enterneceu com baladas lindas como "Today" (cantada em dueto com Marty Balin, do LP Surrealistic Pillow, de 1967), e "Lather", de 1968. Com aqueles olhos azuis arregalados e as letras psicodélicas unidas à batida intensa e guitarradas do rock hippie da Costa Oeste americana, não havia como não se render ao poder de Grace Slick nos vocais - depois, o Airplane se desmanchou, a banda se reuniu numa encarnação tosca que era pura baba pop cafona nos anos 80 (o Starship), e Grace continuou prestando seus serviços à banda, mas já sem o mesmo impacto e carisma dos dias de ouro. Hoje, essa autêntica sobrevivente de Woodstock colhe os louros da aposentadoria, do alto de seus bem (loucamente) vividos 86 anos.





Janis Joplin

Teve quem conseguiu atravessar a locomotiva insana dos rebeldes anos 60 e chegar aos dias atuais (como Grace Slick e Joan Baez). Teve quem foi além e se reinventou, conseguindo ir mais longe até um certo ponto (Cass, Tina Turner). E teve quem pegou a espaçonave sideral pra cair fora bem no auge de tudo: Janis Joplin. Impossível falar em mulheres no rock sem falar nela, que talvez seja a mais icônica e trágica de suas representantes. Uma voz rouca e regada de whiskey e blues, absurdamente sobrenatural e fora do comum, que cantava de forma rasgada e com um sentimento que parecia saído de algum canto obscuro e sofrido da alma, numa maturidade de interpretação vocal muito acima da pouca idade que ela tinha, como jovem menina sulista e tímida (com uma terrivelmente baixa auto-estima), saída lá dos cafundós do Texas. Vítima do bullying de colegas meninos e meninas durante a high school, logo tratou de curar suas dores e tristezas com muito goró, discos de blues, e bandas de garagem com aqueles garotos rebeldes e esquisitos do interior que sofriam discriminação assim como ela: já que falavam que ela era a "feiosa" e não se encaixava, ótimo, ela iria se juntar aos garotos feiosos e que não se encaixavam também, para tocarem e cantarem. Chegou a cantar, durante algum tempo, com os lendários 13th Floor Elevators, grupo do mítico Roky Erikson daquelas redondezas, mas não deu muito certo. Logo, se firmaria como crooner do Big Brother & Holding Company, e com estes sim: conseguiriam se destacar no circuito regional de bailes e shows, e em 1967 ganharam o passe para tocar no lendário festival de Monterey, na California. Ali, mediante as dramáticas e inesquecíveis rendições de "Ball and Chain" e do standard "Summertime" (cover de outra rainha da voz, Billie Holiday), pronto: Janis arrebentou, e o mundo nunca mais foi o mesmo depois de ouvi-la. Contratos milionários (gravadora Columbia, a mesma de Dylan), turnês uma atrás da outra, a troca, por imposição dos empresários, da bandinha simples por outra, mais profissa (o que, de certa forma, deixou Janis meio chateada e desnorteada, por se sentir traindo os velhos companheiros), e todos os arroubos que viriam com a fama. Foi meio demais para a cabeça da jovem e solitária Janis, se perdendo em casos amorosos fugazes e problemáticos, e ainda despreparada para aquilo tudo, muito rápido demais. Na noite de 4 de outubro de 1970, no quarto vazio de um hotel de Hollywood, alguns gramas de heroína e garrafas vazias de Southern Confort... e a voz inigualável se calou para nunca mais novamente ecoar. Mais uma integrante do famoso "clube dos 27" do rock.





Marianne Faithfull

A eterna musa dos Rolling Stones e ex-namoradinha de Mick Jagger, Marianne teve que provar ao longo do tempo, e a duras penas, que não era apenas isso. O seu talento e autenticidade como cantora, ciente de sua plenitude e de interpretações muito peculiares, a posicionariam como uma das grandes mulheres do rock, desde hits entre 1965 e 1968, como "As Tears Go By" (cover dos Stones), "Summer Nights", "Come Stay With Me", dentre outras, até esporádicas aparições no cinema, incluindo o cult movie A Garota da Motocicleta (com Alain Delon, 1968). Após o término com Jagger, em 1970, ela passaria ao longo da década tentando se reerguer dos seus vícios em álcool e drogas, e isso acabaria conferindo a ela uma voz mais rouca e grave, alterada pelos excessos, e que se tornaria extremamente marcante no seu retorno com tudo às paradas pop, em 1979, com aquele que talvez seja o seu disco de maior sucesso: o álbum Broken English. Uma outsider irreverente e rebelde por excelência, Marianne faleceu em 2025, aos 78 anos (veja post aqui).





Nico

Assim como Marianne, outra cantora rebelde, incompreendida, também dona de um estilo muito pessoal, e uma voz grave e marcante, sublinhada pelo seu característico sotaque germânico. Ela começou como modelo e atriz: estava entre as garotas da longa festa de La Dolce Vita, o célebre filme de Fellini (1963), depois cruzou o Atlântico, voou para os EUA, e foi badalar nos estúdios vanguardistas de Andy Warhol, em New York. Foi lá que o artista plástico se encantou por ela, e tratou de juntá-la a um grupo de rock experimental que ele estava pensando em empresariar: o Velvet Underground, com Lou Reed (voz, guitarra), John Cale (baixo, viola, voz), Sterling Morrison (guitarra) e Moe Tucker (bateria). Eis a formação que com ela, fazendo soturnos vocais adicionais e se juntando às cenas performáticas do grupo ao vivo, gravaria o mais que clássico "disco da banana", o lendário primeiro álbum da banda. E foi só: porque foi tanto arranca rabo e desentendimento com Lou Reed (que mantinha com Nico uma estranha relação de amor e ódio), que logo ela resolver cair fora e construir sua carreira solo, como cantora. Não faltaram empurrões de outros colegas artistas para ela engrenar, e até ruidosos casos amorosos com alguns deles: nessa espiral da loucura, passaram pela cama de Nico o vocalista e poeta Jim Morrison, dos Doors, e algum tempo depois, o mais aloprado ainda Iggy Pop (na época, ainda com os Stooges). As duas obras-primas de Nico como cantora, gravadas nesse período pós-Velvet, são: The Marble Index (1968), e Desertshore (1970) - álbuns fundamentais, exóticos, e riquíssimos em climas insanos e atmosferas além desse mundo, semi-tonais e muito à frente de seu tempo. Muito do que se ouviria depois, em termos de ambient rock, trance e música eletrônica e hipnótica, já era encontrado nesses discos, que revelavam uma mulher com uma visão sensorial e melódica particularmente espetacular, e que infelizmente nos deixou bem nova, após um acidente de bicicleta na Espanha, em 1988, com apenas 49 anos.





Mariska Veres

Continuando o quesito das cantoras de visual marcante e postura hipnótica, não há como deixar de falar de Mariska, a garota-símbolo do sucesso do grupo holandês Shocking Blue, que fascinou milhões de pessoas ao redor do globo na virada dos anos 60 para os 70, ao som de hits como "Venus" (impossível não conhecer), "Never Marry a Railroad Man" e a alucinada "Love Buzz" (famosa na regravação do Nirvana). Olhar penetrante, voz poderosa, e presença de palco inesquecível: ela foi um dos rostos mais icônicos da música pop daquele período. Nos deixou em 2006, aos 59 anos, devido a um câncer.





Joni Mitchell

Pertencente à segunda grande geração de cantoras folk "voz e violão" que viriam com a geração hippie, a partir do final dos anos 60 e início dos 70, e que tinham Joan Baez como grande inspiração, a loirinha Joni foi a eterna namorada de Graham Nash (do Crosby, Stills, Nash& Young) e musa de seu parceiro de banda, Neil Young, tendo arregimentado a ajuda da equipe toda para a gravação de seus primeiros álbuns. Com o seu terceiro álbum, o clássico Ladies of the Canyon (1970), Joni atinge o seu apogeu artístico, e estoura nas paradas com o hit "Big Yellow Taxi". Era a consagração com aquele jeito renovado e mais intimista de cantar, tendência dos grandes compositores e artistas do início dos anos 70 - e da qual Joni se tornava ponta de lança e principal porta-voz.






Carole King

Na mesma pegada de Joni Mitchell e outras artistas autorais e intimistas da década de 70, essa americana de New York veio de uma geração anterior que compunha para vários artistas desde o início de 1960, em parceria com o seu primeiro marido, Gerry Goffin. Isso até conseguir se lançar como artista solo, que alcançou o êxito comercial com o álbum Tapestry (1971), e estabelecendo hits eternos como "It's Too Late", "A Natural Woman" e "You've Got a Friend" (esta também regravada com grande sucesso por James Taylor). Tida como uma verdadeira "fábrica de hits" também para outros artistas, Carole seguiu adiante, e hoje, já com 84 anos, continua compondo e se apresentando esporadicamente - demonstrando ser uma legítima força da natureza feminina.






- Menções honrosas 'BR': Rita Lee e Vanusa

Rita Lee

Vanusa

E do nosso lado tupiniquim, temos duas representantes roqueiras que, cada uma a seu modo, desbravaram território, e colocaram a marca extravagante de seus batons nas guitarras ensandecidas e revolucionárias da terra brazuca, ainda tão dominada por sambas, sertanejos e bossa nova da vida! 

Uma, mais aclamada e eternizada, é inegavelmente a "rainha do rock brasileiro": a nossa icônica Rita Lee. Precursora, peça fundamental dos inovadores Mutantes (ao lado dos irmãos Batista), pioneira da psicodelia e do glam rock nacionais, e artesã pop rock da virada dos 70 para os 80, com sucesso de público e crítica irrepreensíveis, e uma vida toda marcada pela trangressão, irreverência e originalidade - Rita fez história com discos icônicos como Atrás do Porto Tem uma Cidade (1974), Fruto Proibido (1975), Babilônia (1978), e muitos e muitos hits incríveis, como "Doce Vampiro", "Arrombou a Festa", "Lança Perfume", e diversos outros. Faleceu em 2023, aos 75 anos.



Vanusa é a nossa musa roqueira mais de vanguarda - ainda não reconhecida por muitos, e lamentavelmente lembrada pelas gerações mais recentes apenas pelos seus problemas de saúde e de memória, que a levaram a um triste episódio de confusão durante uma execução pública para cantar o Hino Nacional, Vanusa aos poucos vai tendo o seu talento cada vez mais reconhecido, à medida que seu extenso e valioso trabalho musical vai sendo redescoberto. Essa ousada intérprete loira - belíssima, em seu esplendor nos anos 60 e 70, sua fase áurea - nos deixou alguns dos mais delirantes e efervescentes registros fonográficos do seu tempo, tendo chegado ao topo das paradas com o hino "Manhãs de Setembro", de seu famoso LP de 1973. O mesmo que, por sinal, tem a música que teria secretamente inspirado Tony Iommi, do Black Sabbath, a compor o seu "Sabbath Bloody Sabbath", para o disco de mesmo nome, naquele ano! - o sensacional rock pauleira "What to Do".




Vanusa é rock brasileiro da melhor qualidade. E na melhor voz. Nosso salve para mais esta maravilhosa mulher do rock, que nos deixou em 2020, aos 73 anos.






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