sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SENSIBILIDADE E PRECISÃO TEM NOME: DAVID GILMOUR

 

Não é sempre que acontece o que ocorreu neste ano de 2026, principalmente em uma carreira tão acelerada e sinuosa que é a de uma estrela do rock - frequentemente, dada a muitos exageros, correria com shows e gravações, crises de ego e/ou criatividade, e uma eterna cobrança de fãs para que a "mágica da arte" esteja sempre à disposição.

Pois bem. Este ano, um dos gigantes do gigantesco, progressivo e lendário grupo Pink Floyd, o seu não menos lendário guitarrista e vocalista David Gilmour (nascido em 6 de março de 1946, Cambridge - Inglaterra), completou 80 anos.


Além dos demais predicados que vamos comentar mais adiante, podemos dizer que o octogenário Gilmour se tornou um desses caras privilegiados pelo fato de, como proclama o eterno dito popular, "ser o cara certo, e estar no lugar certo, na hora certa". Antigo colega de escola do primeiro vocalista, guitarrista e membro fundador do Pink Floyd, o genial Syd Barrett, calhou de Gilmour ser chamado às pressas para substituir o amigo em um momento bastante delicado, por volta do finalzinho de 1967, em que a banda mal tinha começado a fazer sucesso e já estava prestes a acabar devido aos sérios e cada vez mais graves problemas mentais de Barrett, induzidos por drogas e crises de esquizofrenia, que causavam sua inconstância em shows e gravações. 

Deveras mais disciplinado e dedicado a aprimorar seus dotes na guitarra do que Barrett, Gilmour acabou sendo o alívio (e porto seguro) de que o Floyd precisava, não só aprendendo rapidamente como tocar as partes de guitarra em todas as músicas, mas também desenvolvendo o seu próprio estilo, mais refinado e melódico do que o de Barrett, de uma forma que passaria a se tornar marca registrada no grupo, dali em diante. Com a saída definitiva de Barrett em meados de 1968, e a confiança adquirida de que poderia não só tocar como cantar em seu lugar - e que bela voz também! - Gilmour se firmaria como uma das figuras na linha de frente do Pink Floyd a partir de então, ao lado do baixista e vocalista Roger Waters, que de certa forma passaria a tomar as principais decisões no direcionamento da banda.



A mítica e polêmica parceria com Waters, aliás, foi a responsável tanto pelo auge como pela queda do Pink Floyd, na sua fase mais clássica: compondo e atuando juntos, atingiram ápices criativos e de extremo brilhantismo, em álbuns como Meddle (1971), o multi-mega-platinado The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977), e desceram ladeira abaixo com The Wall (1979) e o insípido The Final Cut (1983), quando o quebra-pau entre os dois (muito devido ao ego inflado de Waters) chegou a níveis tão críticos, que Waters foi para um lado, e o restante da banda seguiu indo para outro. Nunca mais voltaram a ser amigos, e até hoje, pasmem, ainda trocam farpas pela imprensa, por qualquer motivo que seja. "Brigam como duas velhas britânicas rabugentas", satiriza e ri o baterista Nick Mason, que sempre tentou apaziguar.

Pink Floyd

Velho e rabugento ou não, o fato que não dá para negar é que Gilmour já foi eleito, em sucessivas votações da Rolling Stone e de outras publicações dedicadas ao rock e música pop, como um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Nunca é demais lembrar de seu estilo único e timbre invejável, elegante, que faz com que a sua guitarra expresse uma sensibilidade e precisão incríveis, colocando cada nota em seu devido lugar da maneira mais perfeita, num feeling espetacular que muitos já tentaram imitar ou compreender, sem sucesso. E, assim como outro aluno da mesma escola da precisão melódica e sensibilidade - o latino Santana - Gilmour nos mostra que a melhor forma de fazer o instrumento "chorar" bonito em uma música é apelando não para a velocidade ou técnicas de centenas de notas por minuto, mas sim, encontrando a atmosfera ideal para as notas dentro do conjunto, degustando as mesmas com apenas alguns efeitos certeiros (delay, reverb, distorções não muito carregadas), e deixando elas ecoarem longe, para bem longe ("Echoes", coisa fina do Pink Floyd 71, não é mesmo?).

"Confortably Numb" (1979), clássico do Pink Floyd com solo de guitarra que é considerado um dos mais perfeitos de Gilmour e da história do rock


De 1978 em diante, à medida que foi sentindo que as tensões no Floyd se tornavam mais crescentes e intoleráveis, já começou a cultivar uma carreira solo em paralelo - seu álbum de estreia nesse mesmo ano, David Gilmour, é muito bom, e foi bastante elogiado. Ainda lançaria o também aclamado About Face, em 1984 (onde a letra da canção-título acabaria sendo inspirada em sua relação tortuosa com Roger Waters), e depois de um lapso de mais de mais de vinte anos, retornaria com On an Island (2006), e alguns registros ao vivo exitosos, em que retomava os grandes clássicos do Pink Floyd. O seu último disco com material original é Luck and Strange (2024), que acabou sendo um trabalho em família: tem a contribuição de sua esposa, a jornalista e escritora Polly Samson, nas letras, e participação em vocais e instrumentação adicional de seus filhos Gabriel e Charlie, e da filha, Romany.

Para ler ouvindo o mestre solar em suas guitarras Fender desvairadas, segue uma lista de pequenas curiosidades sobre a vida desse ícone, que talvez alguns conheçam, mas muitos não.


1 - JUVENTUDE NA DUREZA

Filho de professores da Waldorf School, na região de Grantchester Meadows, na Inglaterra, Gilmour desde novo mostrou uma natureza mais rebelde e contestadora do tradicional sistema educacional britânico. Tentando se emancipar mais cedo e ganhar a vida, o rapaz saiu de casa jovem ainda e foi tentar a sorte na França, onde trampou em vários serviços de cunho artístico para ganhar a vida, enquanto tentava se aprimorar e profissionalizar na sua grande paixão: o violão, que ganhou aos 13 anos. Passou dificuldade: ele não tem vergonha de contar que, em Paris, a falta de dinheiro e a fome apertaram, e ele chegou a furtar baguetes de um mercado próximo de onde morava, para se alimentar. Considerado um jovem muito bonito desde novo (basta olhar as fotos da época - Gilmour foi o crush de muitas moças nos anos 60 e 70!), ele trabalhou posando como modelo vivo para artistas plásticos, enquanto se aventurava como aspirante a guitarrista de várias pequenas bandas. A mais longeva delas foi a Joker's Wild, que mudou de nome e em 1965 passaria a se chamar The Flowers. Foi ali que ele começou a se firmar como instrumentista, também cantando ocasionalmente.


2 - DE ROLO COM UMA 'SEX SYMBOL' (E COM BRIGA TAMBÉM)

Brigitte Bardot

Foi durante uma pequena turnê do The Flowers, no verão de 1966, em Saint-Tropez, que um encontro inusitado marcaria o início de carreira de Gilmour, e só revelado muitos anos depois: ele e a atriz francesa Brigitte Bardot, grande musa e sex symbol do cinema europeu dos anos sessenta, tiveram um rápido envolvimento amoroso - mas não sem uma certa confusão. Durante a apresentação do grupo, Brigitte estava na plateia e de cara começou a demonstrar interesse pelo jovem guitarrista, então com apenas 19 anos, que também não desgrudava o olho dela (que já era super famosa). O namorado dela na época, o também célebre milionário e playboy alemão Gunter Sachs, estava junto, e começou a desconfiar do clima. Não demorou para que depois do show, durante uma festa, Bardot e Gilmour dessem um jeito de se encontrar. Sachs descobriu e, enfurecido, foi atrás do músico posteriormente para tirar satisfações. Reza a lenda que rolaram alguns sopapos, entrou a turma do deixa disso, e pronto, cada um para o seu lado... Mas o fato é que Gilmour faturou o orgulho de atrair uma das maiores beldades do mundo do cinema. E isso, senhoras e senhores, é mérito de se guardar pra sempre.


3 - GANHANDO UM 'IRMÃO' NA BANDA

Muita gente nutria uma imagem da parceria entre David Gilmour e o "chefe" Roger Waters, no Pink Floyd, como algo comparável a outras grandes e clássicas duplas de compositores do rock: Lennon/McCartney (Beatles), Jagger/Richards (Rolling Stones), Plant/Page (Led Zeppelin), dentre outros. A realidade, no entanto, era outra: era menos um entrosamento, e mais uma conveniência criativa para garantir composições para o Pink Floyd. A verdadeira parceria, chegando até a uma relação de profunda amizade (ou irmandade mesmo) era entre Gilmour e o eterno tecladista da banda, Richard Wright - que, convenhamos, era um dos verdadeiros arquitetos do som etéreo e espacial, repleto de climas, do grupo. Retire as camadas de teclados de Wright para ver o que vira. E apesar de muitas vezes não transparecer nos créditos, a parceria de ambos compondo e moldando a sonoridade do Pink Floyd foi essencial para as obras-primas da banda. Para se ter uma ideia, aquele que é considerado o primeiro grande clássico da fase áurea do grupo foi resultado de ideias dos dois para uma longa suíte, que é a famosa "Echoes", com seus quase 24 minutos delirantes, do álbum Meddle, de 1971. Gilmour a executou várias vezes em shows de sua carreira solo, a partir dos anos 2000, e sempre com a participação especial de Wright nos teclados. Essa é uma canção tão significativa para ele, que o guitarrista jurou nunca mais tocá-la depois da morte de Wright (por câncer de pulmão, em 2008). E hoje é sabido que um dos motivos para ter aumentado ainda mais a birra no acirrado e tempestuoso relacionamento entre Gilmour e Roger Waters foi o fato do baixista, num arroubo ego maníaco ocorrido durante a turnê do disco Animals (1977) ter simplesmente demitido Rick Wright da banda, passando a contratá-lo como um reles músico de aluguel para os projetos seguintes do grupo, incluindo o celebrado The Wall (1979). Isso enfureceu Gilmour sobremaneira ("Um absurdo! Ele estava lá no começo do Floyd, ele sempre foi um dos cabeças do grupo"). Wright participou de diversos momentos da carreira solo de Gilmour a partir de 2002, em discos e turnês, e passou a fazer parte da equipe de músicos dele nos shows, como membro fixo. Na ocasião do falecimento do tecladista, Gilmour declarou: "Ninguém jamais poderá substituí-lo, e eu nunca toquei com alguém que pudesse ao menos chegar aos pés dele como músico. Assim como ele, eu nunca achei fácil expressar os meus sentimentos em palavras, mas digo que ele era o meu grande parceiro musical e amigo, eu o amei muito e vou sentir falta dele enormemente."


4 - AR E MAR: GRANDES PAIXÕES

O Astoria Houseboat Studio, de Gilmour

Quando não estava tocando guitarra no Floyd ou em seus projetos solo, Gilmour estava... voando ou navegando por aí! São duas grandes paixões do músico. Ele é um exímio piloto, e nos anos 80, fundou em Londres a Intrepid Aviation, empresa que chegou a ter uma das melhores frotas de aeronaves do Reino Unido. No início dos anos 2000, acabou vendendo a empresa, declarando: "montei a Intrepid como uma forma de sustentar o meu próprio hobby de pilotar aviões, mas a partir do momento em que a coisa cresceu muito e vi que teria que gastar a maior parte do meu tempo administrando, resolvi vendê-la. Hoje, tenho apenas um bom e velho biplano para passear pelos céus quando dá vontade." Em relação ao hobby da navegação, Gilmour foi mais modesto - mas nem tanto: criou um estúdio caseiro sobre as águas, o Astoria Houseboat Studio, que já foi visto em alguns mares e rios da Europa (incluindo o Tâmisa em Londres, claro), onde ele pode tocar e mexer com algumas criações artísticas, enquanto curte os passeios.


5 - CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS


E quando não estava tocando guitarra, voando em seus aviões, ou navegando, Gilmour estava... fazendo filhos! O cara levou bem a sério a máxima bíblica. Do primeiro casamento com Ginger Hasenbein, que durou de 1975 a 1990, teve quatro filhos: Alice (1976), Clare (1980), Sara (1982) e Matthew (1985). Em 1994, ele se casa com a jornalista e escritora Polly Samson, adota um filho que ela já tinha, Charlie, mas manda ver com mais três filhos biológicos: Joe (1995), Gabriel (1997), e Romany (2002). Parece ser daqueles que gosta de ver a casa bem cheia mesmo no almoço de domingo.


6 - UMA FRUSTRAÇÃO: O SOLO PERDIDO PARA SEMPRE

O Pink Floyd na turnê de 1977 do álbum 'Animals'

Gilmour revelaria uma de suas grandes frustrações artísticas em uma entrevista mais recente: a perda da gravação daquele que, para ele, foi um dos melhores solos de guitarra que já havia conseguido criar para o Pink Floyd, durante a gravação do álbum Animals, de 1977, mais especificamente para a famosa música "Dogs". Apesar de conter toda uma sequência de solos fenomenais na gravação comum e já lançada, que todo fã conhece e reverencia, Gilmour revelou que, no início da segunda metade da longa canção (17:06), havia um trecho adicional que ele havia gravado com bastante feeling, que deveria ser incluído e que ele achou sensacional. Entretanto, por um erro do engenheiro de som do estúdio, o tape onde o mesmo estava foi marcado junto com trechos experimentais que deveriam ser descartados, e lá se foi o segundo grande solo de Gilmour para a música, apagado por engano. Uma outra sequência foi então criada, mas... "Eu tentei diversas vezes refazer aquilo, mas por mais que tentasse recriar com a máxima perfeição, nunca cheguei ao mesmo sentimento e intensidade daquela primeira gravação. Uma pena. Tem coisas que realmente são muito espontâneas, não dá para conseguir fazer repetidamente". Dali em diante, o músico passou a fazer cópias backup de suas gravações após todo término de sessões e levar para casa, de forma a evitar correr esses riscos novamente.


7 - PARÇAS E BICOS

Gilmour hoje anda mais sossegado, mas em boa parte de sua carreira, o cara parecia ser um tipo bem workaholic, tamanha a quantidade de bicos e participações dele nos trabalhos de um monte de gente do ramo. Pra começar, nem se ateve à guitarra: já citamos aqui no blog a curiosa passagem em que ele improvisou de técnico de som para a famosa apresentação ao vivo de Jimi Hendrix na Ilha de Wight, em 1970 (confira aqui). Acabaria desempenhando a mesma função alguns anos depois, para artistas amigos seus, tão díspares como Grace Jones, Roy Harper, Hawkwind e as bandas new wave Arcadia e Dream Academy. Colaborou com a banda de apoio de Brian Ferry (ex-Roxy Music), ao longo de toda a década de 80, até se apresentando com eles no mega evento Live Aid 1985. Com o ex-beatle Paul McCartney, parça de longa data, foram diversas colaborações: participações especiais em shows, tocando juntos no Festival de Knebworth de 1990 e em eventos beneficentes com grandes estrelas do rock, além de solar em hits de Paul, como a famosa "No More Lonely Nights" (1986) e "We Got Married" (1989). Tocou também com Pete Townshend, em alguns shows comemorativos do The Who, na década de 90. Com o Supertramp, colaborou compondo junto com eles o sucesso "Brother Where You Bound", de 1985. Além de ter sido praticamente o grande descobridor da performática estrela pop inglesa Kate Bush, após ter ouvido uma demo dela e a recomendado para um contrato com a gravadora de seu primeiro álbum (1978), também tocando em alguns de seus shows. 


8 - FENDER STRATOCASTER: A PARCERIA INESQUECÍVEL

"The Girl in the Yellow Dress"

É raro e difícil acontecer... Mas Gilmour, em alguns momentos da carreira, já tocou em guitarras de outros modelos que não fossem as suas famosas Fender Stratocaster. Uma dessas rápidas "traições" ocorreu nesse vídeo logo acima, onde ele se apresenta no programa de TV do seu amigo Jools Holland, em 2015, surpreendentemente debulhando uma Gibson Les Paul. A devoção às Stratocaster, entretanto, permeia toda a carreira de Gilmour, e não à toa, ele é o detentor do primeiro modelo dela, lançado em 1954, com o nº de série "#0001" - apesar de algumas controvérsias apontando que, na realidade, ela não teria sido a primeira desse modelo lançada. Polêmicas à parte, a verdade é que ela é o "xodó" da extensa coleção de Gilmour, e ele nunca escondeu que um dos segredos do som que ele consegue tirar são os timbres mais límpidos e cristalinos que ele encontra nos instrumentos dessa marca e modelo.





"Wish You Were Here"






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domingo, 2 de agosto de 2026

ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS PARA O CINEMA: UM TABU?

Neste momento, início de agosto de 2026, o mundo ainda vive o alarde em torno do novo épico dirigido por Christopher Nolan, que é mais uma adaptação (dentre outras já feitas para o cinema) da obra do grego Homero, a colossal A Odisseia. Dessa vez, quem interpreta o rei guerreiro Odisseu, em suas incríveis aventuras para voltar ao lar (a Ilha de Ítaca), após participar da famigerada Guerra de Troia, é Matt Damon, acompanhado de um elenco mega estelar: Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Charlize TheronRobert Pattinson etc. E não deu outra: o filme já é campeão de bilheteria e postulante a Oscar no ano que vem.

Como sempre faço e acho prudente, não sou dado a resenhar ou tecer críticas e comentários a respeito de obras do cinema, música ou literatura, assim que são lançadas. Habitualmente considero o tempo um "senhor da razão", que ajuda a guiar as melhores percepções acerca do gênio e atmosfera realmente preponderantes em uma concepção artística, gerando o distanciamento necessário para avaliar ou julgar bem qualquer título que seja, sem os calores (e clamores) da emoção do lançamento. É atitude que já fez até que eu fosse cobrado, em outras ocasiões, sobre o porquê de não fazer postagens aqui no blog, dando meu parecer sobre certos lançamentos. Raramente o fiz - e quando o fiz, acho que não ficou tão bom, o que me compele a certo revisionismo. 

Assim sendo, sobre o filme de Nolan, não irei me aprofundar, mas apenas dizer agora que, como obra cinematográfica, é um arroubo audiovisual. Tecnicamente falando. Sim, que espetáculo! Atendendo aos parâmetros de exigência e perfeccionismo, que já se tornaram uma referência na carreira do cineasta, simplesmente não há o que reclamar ou se repreender nesse aspecto - como disse alguém por aí esses dias, "cada geração de diretores tem o Stanley Kubrick que merece", e esse parece ser um tipo de comparação válida, ao menos no quesito de esmero com a cinematografia. Nolan é de fato um artesão de imagens, em uma época já por demais viciada em vícios de filtro, sons padronizados e CGI, onde os estúdios parecem não se preocupar muito com técnicas de filmagem reais, viscerais ou mais rebuscadas. O que vale é a economia, digitalizar tudo para gastar menos e faturar mais. E dá-lhe comércio: fast food de super-heróis e fitas de ação congêneres, pra encher os cinemas de efeitos visuais canhestros e baldes temáticos de pipoca bizarros! Nolan não se preocupa com isso. Gastar - com arte de verdade - não é problema para ele. É solução.

Mas existem outros aspectos artísticos a serem considerados em seu filme, mais no sentido de conteúdo do que de forma. E que vão desde a questão do trabalho de interpretação dos atores, o processo de desenvolvimento da narrativa (Nolan continua bem fiel à não linearidade em seus filmes), até o estilo de adaptação que foi utilizado para traduzir para as telonas o grandioso poema épico que é A Odisseia, influente para toda uma enorme parte da cultura mundial contemporânea. E esse ponto - o da adaptação - é o que mais incomoda os críticos da obra, desde a sua primeira exibição nos cinemas. Não é a questão de aspectos filosóficos, que também tem sido criticados por estudiosos da obra de Homero - sobre isso, se trata de uma discussão mais profunda, que é delicada devido ao fato dos roteiros de cinema, convenhamos, raramente serem realizados por acadêmicos do ramo.

Mas sobre a questão da adaptação em si, vamos lá então, dedo na ferida, doa a quem doer: aqui penso que este é o ponto onde, de fato, uma boa parte dessas críticas está me parecendo deveras enfadonha. Aqui sim, deveriam se privar de certas opiniões, e se afastar da obra, aguardar um certo tempo, voltar a ver, e apenas então, tecerem suas considerações. Com maior distanciamento. Pois o 'zeitgeist' domina e às vezes entorpece as nossas percepções, deturpando certos valores e critérios. E algumas críticas, revisitadas tempos depois, podem soar contaminadas, ou mesmo medíocres.

O ciclope Polifemo em 'A Odisseia', de Nolan - 
"ah, mas no livro Odisseu combate o ciclope na base da conversa"... Tá. E daí?

Tenho lido de tudo sobre os pretensos "erros da Odisseia de Nolan": desde capacetes que não deveriam estar lá, e gente que mudou de etnia, até como os deuses do Olimpo não interagem diretamente na trama - "que absurdo!", dizem. Como se existisse alguma lei ou decreto em Hollywood de que toda adaptação de um livro para os cinemas devesse seguir um checklist de atendimento aos itens histórico-culturais do original. Ora... valei-me! Desde quando é assim? Penso que a palavra já expressa bem, não? Estamos diante de uma... ADAPTAÇÃO. É apenas isso. Nem mais, e nem menos. 

Liberdade criativa. Licença poética... Já ouviram falar? Fazem parte do jogo.

As reações de parcela da mídia (e das, afff... "redes sociais"), de horror e descrédito ao trabalho de Nolan no filme, por meras questões de adaptação, soam para mim, em uma considerável parte das vezes, imbecis - e não consigo pensar em outro termo mais adequado para as mesmas. Acho que ficar indignado e detratar uma obra como essa, simplesmente por não ser fiel a um padrão desejado de que ela estivesse mais próxima do original, é a mesma coisa que estar caminhando por uma estrada, olhar para o céu, e começar a ficar perplexo ou estarrecido pelo fato das nuvens estarem se mexendo. Entendeu?

Adaptações de obra para o cinema são diferentes desde que a sétima arte nasceu, e não há nada de errado com isso. Quem faz muita questão de obra original, que me desculpe: mas vá se ater ao livro, não assista nada e pronto, vida que segue. Em algumas ocasiões - e não são muitas - tivemos produções cinematográficas que preferiram prezar ou estar mais próximas das obras que as originaram. Alguns exemplos clássicos: O Poderoso Chefão (1972), do Coppola, que é bem fiel ao texto do Mario Puzo, em muitos momentos, e quem leu o livro pode confirmar; 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), do Kubrick - e olha aí, mais uma odisseia - que o cineasta rodou praticamente junto com a história de Arthur C. Clarke, ombreando com ele e até complementando (melhorando) muito do texto original; e, mais recentemente, a saga de O Senhor dos Anéis (2001-2003), do Peter Jackson, que é bem reverente, em contexto e narrativa, à obra de J.R.R. Tolkien (ainda que destoe em algumas passagens). Mas são, como eu disse, alguns casos.

O Senhor dos Anéis

Só para complementar, de modo a justificar as questões sobre as quais falo, segue aqui uma listinha de 10 adaptações cinematográficas que passaram bem, mas beeem longe, do quesito "fidelidade à obra original". O engraçado é que dessas não se falou tanto, na época do lançamento, quanto da de Nolan, por que será? (Não tinha internet e nem crítico de rede social na época, né). E veja que não são apenas essas: os casos são tão numerosos, que daria para escrever um livro sobre isso, e não caberia, jamais, em uma mera postagem de blog como essa. Mas já serve para quebrar o galho.

Preferi usar nessa lista uma paleta de filmes mais notórios e populares, que inclusive tiveram a autorização legal de seus autores para a realização, também evitando os casos de adaptações muito extravagantes, e que se afastaram da obra original até no nome, como o célebre Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola - que é bem meramente baseado na obra de Joseph Conrad, Heart of Darkness (Coração das Trevas). Também preferi não considerar as várias versões de obras de terror clássicas, que já são tradicionalmente mutáveis por natureza, como Frankenstein (de Mary Shelley) e Drácula (de Bram Stoker) - invariavelmente incluindo aqui os Nosferatu da vida, que a cada versão e refilmagem (1922, 1979, 2023 e 2024), foram alterando mais aspectos ainda, de acordo com a visão criativa dos seus diretores. 

Sente só:

- O MÁGICO DE OZ (The Wizard of Oz - 1939, de Victor Fleming):

A famosíssima e mais clássica adaptação de Hollywood dessa obra, almejando fazer um filme de fantasia musical a partir do livro de L. Frank Baum, mas que passou longe da narrativa original, onde a jovem Dorothy vai não para uma outra dimensão, um mundo de sonho provavelmente induzido após uma pancada na cabeça (como no filme), mas sim, para uma terra estranha e de verdade, onde ocorrem até mesmo situações tenebrosas envolvendo bruxas do mal e feitiçaria, com criaturas monstruosas e decapitadas - passagens dignas de um bom filme de terror. Hoje, todos sabem que os momentos de tensão do livro se refletiram não na história exibida nos cinemas em si, mas sim, no que ocorria por trás das câmeras: a estrelinha Judy Garland e os seus companheiros de elenco (que interpretavam o espantalho, o homem de lata e o leão covarde) passaram por abusos e apuros agoniantes causados pelo diretor e a equipe de produção durante as filmagens, que seriam dificilmente aceitos hoje em dia. Caso não conheça, as histórias sobre os bastidores pavorosos do filme estão por aí, em um sem-número de sites e vídeos online, basta conferir.


- ROMEU + JULIETA (1996, de Baz Luhrmann):

Aqui a liberdade artística pulou alto mesmo, se configurando numa extravaganza audiovisual típica do diretor Luhrmann (mais conhecido recentemente por sua cinebiografia Elvis, 2022), que chega a alterar o nome da obra original, para dar um tom mais "moderninho": ao invés de "Romeu e Julieta", do William Shakespeare, fica "Romeu plus Julieta" (Romeu mais Julieta), sacou? (só faltou rolar um  título com "2.0" no final, kkk). O que ele faz aqui, colocando os jovenzinhos Leonardo DiCaprio e Claire Danes nos papeis dos protagonistas da clássica e trágica história de amor proibido, é um delírio pop e instigante, com clãs que são gangues  rivais brigando pelo poder numa trama suburbana muito doida, falas cantadas entoando os versos do livro original, música techno rap, tirombaço de pistola e fuzil comendo, e uma montagem frenética, acelerada, sem dar trégua nenhuma para o espectador. Foi de fazer Shakespeare revirar no túmulo.


- FLASH GORDON (1980, de Mike Hodges):

Dessa vez, não uma adaptação de livro, mas dos clássicos quadrinhos do herói espacial criado por Alex Raymond para as tirinhas de jornais norte-americanos, lá nos idos de 1934. Ocorre que Flash já havia sido adaptado para os cinemas, e com muito sucesso, num cine seriado que dominou as matinês de 1936, interpretado pelo astro da época Buster Crabbe. Com o êxito estrondoso das empreitadas de filmes e seriados de TV com super-heróis passando a inflamar a garotada novamente, no final da década de 1970 e início de 1980 (especialmente os da DC, como a série da Mulher Maravilha, com Lynda Carter, e o Superman de Christopher Reeve, nos cinemas), o sempre antenado produtor Dino De Laurentiis resolveu apostar num velho sonho de reviver Flash Gordon para os cinemas. Mas eis que deu nisso aqui: a história do jovem e valente jogador de futebol americano Gregory 'Flash' Gordon, que se converte em um herói espacial que vai parar no planeta Mongo, e luta contra a tirania do seu Imperador Ming, ao mesmo tempo em que visa defender a amada Dale Arden, acabou se transformando em uma epopeia deliberadamente kitsch, digna do visual mais cafona e espalhafatoso que a época disco poderia urdir. Com um roteiro repleto de ideias que invariavelmente apresentavam veia cômica, foi um passaporte malfadado para o estrelato do ator iniciante Sam J. Jones, com uma juba loira de meter arrepio na época, e que a despeito de certa canastrice, não foi tão mal assim no papel - ainda que tenha quebrado o pau com Laurentiis e abandonado as filmagens antes do fim, forçando a produção a criar uma dublagem de voz para o personagem. Quem rouba a cena interpretando o vilão Ming é o lendário Max Von Sydow, e para ajudar no clima de algazarra geral, ainda tem a trilha sonora vigorosa do Queen, que ajudou a dar uma moral pro filme. Entre mortos e feridos nesse festival de exageros e breguice, dá para dizer que salvaram-se quase todos: hoje, Flash Gordon tem uma notável aura de filme cult (mais sobre filmes cult aqui).



- MOBY DICK (1956, de John Huston):

Mais um exemplo de como o mundo do cinema sempre subverteu obras literárias aos seus caprichos, alterando certas narrativas: em Moby Dick não há tantas mudanças em relação aos personagens e suas perspectivas, mas sim, em relação ao ritmo e o modo como a história se desenvolve, desviando totalmente o foco para o que era o interesse dos produtores na época: um filme de ação mais centrado na obsessão do Capitão Ahab (desempenhado pelo grande Gregory Peck), em perseguir e se vingar da gigantesca baleia Moby Dick, que lhe causara a perda de uma perna anos antes. A despeito do diretor John Huston ter desejado, na época, jogar um pouco mais de luz nas outras passagens do livro, que focam nos perfis psicológicos de diversos personagens (incluindo o marujo Ishmael e outros tripulantes do navio), bem como em uma série de capítulos que abordavam os anseios, perigos e agruras diversas da vida em alto-mar, a decisão do estúdio em espelhar mais o embate entre o homem e a fera foi preponderante. É uma bela produção, mas com um espírito efetivamente diferente do apresentado no livro.


- O ILUMINADO (The Shining - 1980, de Stanley Kubrick):

Uma das grandes polêmicas sobre adaptações para o cinema, desde sempre. Se tornou folclórica a birra do autor do livro original, Stephen King, em relação à enorme série de mudanças que Kubrick resolveu fazer em relação à história - agora em modo totalmente oposto ao tom reverencial adotado anos antes com a obra 2001, de Arthur C. Clarke. Só para se ter uma ideia: na conclusão do livro, o desfecho se dá no meio do fogo, e não na neve. Isso, por si só, já mostra como Kubrick mexeu na narrativa do jeito que bem entendeu. As nuanças dos problemas pessoais do personagem Jack (magistralmente interpretado por Jack Nicholson), especialmente em relação à bebida e atos violentos no passado, são minimizados em prol de um maior destaque na sua relação obsessiva (e sobrenatural) com o amaldiçoado Hotel Overlook. Em suma: são duas grandes e fenomenais obras. Mas é recomendável que o leitor/espectador as encare como o que de fato são: uma história contada de dois jeitos, bem diferentes.


- 007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE (Moonraker - 1979, de Lewis Gilbert):

Já é consenso, e todos os fãs de carteirinha do agente secreto com licença para matar sabem disso faz tempo: nunca considere o James Bond das tramas originais do autor Ian Fleming como o mesmo James Bond da série de filmes feita para o cinema. Não são. Personagem e histórias muito diferentes, na esmagadora maioria das vezes. Em alguns casos, os roteiros para o cinema de filmes do 007 embolaram narrativas e características de mais de um livro, só para criar o que o produtor da época - o lendário Albert R. Broccoli - consideraria um bom filme de ação para as telonas. Para ilustrar: do livro original de Fleming Live and Let Die, lançado em 1956, foram extraídas ideias e personagens para nada menos que 3 filmes diferentes de 007, ao longo do tempo: o próprio 007 - Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die, 1973), 007 - Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only, 1980), e ainda 007 - Com Licença para Matar (Licence to Kill, 1989). Uma maçaroca danada. Mas um dos filmes que pegam mais pesado é este Moonraker - produção que, vejam só, causou frisson na época com a vinda do agente britânico mais famoso de Vossa Majestade (então vivido por Roger Moore) ao Brasil! Com várias cenas rodadas aqui, o filme acompanha o agente 007 tentando desmantelar a organização criminosa do vilão Hugo Drax, que almeja intoxicar o mundo com uma espécie de orquídeas negras, utilizando para isso até mesmo naves espaciais - o que leva Bond a viver uma aventura espacial, pegando carona no tremendo sucesso de Star Wars na época! A atmosfera é de galhofa geral: até hoje é considerado um dos filmes mais absurdos da era Moore no personagem, com muito exagero, sequências inacreditáveis e humor espalhafatoso. Mas no livro não tem nada de 007 fora de órbita: a história se concentra em uma simples ameaça de Drax em detonar uma ogiva nuclear em Londres mesmo, e nosso herói tem que dar conta do recado apenas em terra firme.


- FORREST GUMP (1996, de Robert Zemeckis):

Talvez um dos mais gritantes exemplos de adaptação cinematográfica que não tem quase nada a ver com a história original do livro, situação pouco difundida na época do lançamento e até hoje pouco conhecida por muitos - o filme dirigido por Robert Zemeckis, que faturou 6 estatuetas do Oscar, incluindo a de melhor filme e também para Tom Hanks como o carismático protagonista (elevando sua carreira a um outro patamar) parece, em alguns momentos, ter aproveitado apenas os nomes do livro e de alguns personagens, pois é uma história desenvolvida de um jeito absurdamente diferente: Forrest Gump é um sujeito com déficit mental e apaixonado desde novo pela sua amiga de infância Jenny, mas com falas e reações que, de alguma maneira, o conectam a outras pessoas (o famoso "estar no lugar certo e na hora certa"), e que acaba vivendo aventuras que poucos viveriam, figurando em importantes momentos da história sócio-política e cultural dos EUA. Isso está também no enredo original do livro de Winston Groom, mas logo começam as diferenças: na obra, Forrest é um cara alto e gordo, bem menos pacato do que o sujeito vivido por Hanks, e que fala muito, até fanfarrão e inconveniente em certos momentos. Ele tem uma presença constante que é o seu amigo orangotango Sue, com quem divide várias de suas proezas: uma delas é ir para o espaço, como astronauta da NASA! Além disso, ele ainda atua como lutador profissional de wrestling (devido seu porte físico avantajado), vira dublê de filmes de Hollywood, mestre de jogos de xadrez, e ainda interage com uma tribo de canibais a certa altura. Nada disso está no filme. A impressão que se tem é a de que o roteiro adaptado de Eric Roth, a pedido de Zemeckis, desejou retirar toda a sorte de absurdos e situações cômicas exageradas e bizarras do livro original, para criar uma obra mais emotiva e sentimental para o cinema, exatamente do jeito que a Academia gosta para dar um Oscar. Se o objetivo era esse, funcionou.




- ALMOÇO NU (Naked Lunch - 1991, de David Cronenberg):

Pense rápido: como fazer uma adaptação para o cinema de um clássico da literatura beat, notório por ser totalmente alucinado, de narrativa aleatória, anfetaminada, e não adaptável? Simples: não adapte! Crie, e faça do jeito que bem entender. E foi assim que o genial cineasta David Cronenberg fez, muito sabiamente. O autor William S. Burroughs foi um dos mais icônicos representantes daquela geração de escritores revolucionários, que incluía Jack Kerouac e Allen Ginsberg, dentre outros - um pessoal que, na década de 1950, desenvolveu um estilo de prosa e poesia livre e instintivo, baseado em longas sequências de palavras e frases para impactar o leitor, criando fluxos contínuos que contestavam a sociedade, as convenções, e o modo de vida americano. Isso foi a famosa geração beat. Viciado de carteirinha e "papa" dessa galera, Burroughs mais reúne um conjunto de imagens e sensações em Naked Lunch (originalmente lançado em 1959) do que propriamente conta uma história. O seu texto é um apanhado de passagens oníricas que situa o leitor em certos lugares e situações (como no meio da selva ou no pesadelo caótico e urbano de um grupo de junkies), mas pelo menos utiliza a imagem de seu "eu" protagonista, Bill Lee, como narrador desses delírios (induzidos por tudo quanto é substância). O que Cronenberg inventou, então? Ele pega esse mesmo personagem (aqui interpretado pelo ator Peter Weller, o Robocop original), e o joga em uma trama que alude à própria biografia de Burroughs, onde Bill Lee é um aspirante a escritor doidão, que trabalha com inseticidas, descobre que sua esposa está utilizando os mesmos como entorpecente, e topa experimentar a parada com ela, entrando num mundo de alucinações onde até as suas máquinas de escrever se tornam besouros falantes... Acredite: é isso. O filme foi um fracasso comercial na carreira de Cronenberg, mas provou uma coisa: a sua incrível capacidade de transformar uma loucura em outra maior ainda.


- A LIGA EXTRAORDINÁRIA (The League of Extraordinary Gentlemen - 2003, de Stephen Norrington):

Outra adaptação de uma HQ, outra produção controversa - mas não pelos mesmos motivos que Flash Gordon, comentada anteriormente. Aqui, ocorreram duas situações bem traumáticas, decorrentes de uma descaracterização da história em torno de um grupo de anti-heróis da Inglaterra do século XIX que se juntam para uma missão: o filme se tornou tristemente conhecido por não só bater o último prego no caixão da carreira de Sean Connery, traumatizado pelo fiasco de atuar numa bomba dessas, como também por fazer o autor, o renomado Alan Moore - o "bruxo" dos quadrinhos - prometer nunca mais autorizar qualquer adaptação de suas graphic novels e histórias para o cinema, tamanha a aberração que o diretor Stephen Norrington e asseclas cometeram com o material original. Profundidade psicológica e estudo de personagens, tão comuns na obra de Moore? No filme, zero! Nada de desconstruir e analisar os mitos da Era Vitoriana, mas sim, embalar tudo num pack genérico de 'filme com turminha de super-heróis', repleto de diálogos infantis e situações rasas, transformando tudo num pastiche de ação constrangedor. O séquito de admiradores da obra de Moore chiou feio, contribuindo para a má fama que o filme angariou - e que acabou se tornando, de fato, a lamentável despedida de Sir Sean Connery da sétima arte, antes de seu falecimento, em 2020.


- TROPAS ESTELARES (Starship Troopers - 1997, de Paul Verhoeven):

E se tem um cara que pode ser considerado genial por, mesmo dentro do esquemão comercial do cinema norte-americano, conseguir se manter bem autoral, e defender a sua visão artística nos mais variados projetos, esse alguém é Paul Verhoeven. O já veterano diretor holandês, que meteu o pé na porta de Hollywood com sucessos inesquecíveis como Instinto Selvagem (1992), Vingador do Futuro (1990), e o primeiro Robocop (1987), foi também o responsável pela proeza de pegar um livrinho basicamente insípido de ficção científica, lançado em 1959 (o tal Starship Troopers, de Robert A. Heinlein), e transformá-lo em uma sátira ultra violenta e acachapante de jovens dominados pela lavagem cerebral militarista governamental, dedicados a acabar com suas vidas enfrentando insetos gigantes espaciais! Diversão desvairada e garantida, com ritmo frenético do início ao fim, é uma verdadeira crítica de Verhoeven ao sistema bélico e genocida norte-americano, e que também serve como parábola sobre o fascismo travestida de filme de ação. "Li o livro original e achei de uma chatice sem tamanho, acho que nem consegui ir até o final. Mas ali estava um conto fascista que eu achei super interessante para se trabalhar num filme", disse o diretor em uma entrevista. Um trabalho e tanto, com a rara façanha de converter material original medíocre em algo excepcional.






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quinta-feira, 16 de julho de 2026

TERRA DAS DAMAS ELÉTRICAS: A GÊNESE DE UMA OBRA-PRIMA

 

Qualquer vivente que entenda ao menos um pouquinho de música com mais profundidade sabe reconhecer a tremenda e vital importância que um norte-americano de Washington, Seattle, chamado James Marshall Hendrix  - mais popularmente conhecido como Jimi Hendrix (1942 - 1970) teve, para a evolução da música popular contemporânea, como nós a conhecemos.

Não é simplesmente uma questão de, como sempre se faz, elevá-lo à condição de mestre ascensionado da guitarra elétrica, instrumento cuja forma revolucionária de tocar foi praticamente reinventada por ele, com todas as suas técnicas de progressões rápidas de notas e acordes, escalas desafiadoras e um casamento fantástico de miríades melódicas e tonais com uma ampla gama de efeitos conseguidos através de pedais inovadores. Não, isso seria simplista demais - antes, o correto seria afirmarmos que o jeito revolucionário de Hendrix traduzir a linguagem da guitarra para novos tempos arrastou consigo, e mudou, toda a forma ocidental de se fazer música pop (e mais especificamente rock), a partir de então. 

A guitarra em Hendrix é um elemento de transição tão poderoso e marcante quanto a introdução dos teclados e contrabaixos elétricos, a adoção dos samples e instrumentos digitais, e quaisquer outras inovações eletrônicas que porventura tenham mudado a face da música de uns 80 anos para cá. É o modo de se entender como funciona a dinâmica das seis cordas em uma música, como se encaixa uma guitarra nela, tanto rítmica quanto solada, e como ela conversa com todo o restante dos instrumentos. Basta comparar, muito singelamente, a maneira como a guitarra era tocada e gravada em gravações anteriores de rock nos anos 50 e 60, antes de Hendrix, de um modo bem mais básico e simples, e a maneira como ela passou a protagonizar gravações do gênero a partir dele. As diferenças são gritantes.

Isso se torna ainda mais claro quando falamos tanto do rock puro, clássico, simples e tradicional, quanto do seu patriarca severo (o blues), e todos os outros subgêneros que se desenvolveram a partir de então: em especial o rock pesado (hard rock) e o titânico e ensurdecedor heavy metal. Todos, sem exceção, em suas vertentes atuais, pagam tributo ao já eternizado estilo "hendrixiano" de tocar.

Em setembro deste ano, a morte de Hendrix completará 56 anos. Mas a sua passagem não afeta em nada o frescor e a potência de suas performances, tanto em palco quanto em estúdios - e há quem prefira essa última modalidade, não só devido a certas apresentações ao vivo que soavam mais caóticas, muito em decorrência da vida extremamente atribulada que ele vivia, mas também ao fato do músico poder trabalhar em um ambiente mais controlado e dado a experiências sonoras incríveis, onde ele podia reinventar, da maneira mais próxima do que estava desenhado em sua mente, os timbres, fraseados e formas de uma guitarra "voar livre" no som. E neste caso, não há nada melhor do que recomendarmos uma bela e atenta audição daquela que é considerada a obra-prima do artista, idealizada, produzida e totalmente executada pelo mestre ainda na plenitude de um de seus últimos anos de vida: o petardo chamado Electric Ladyland, álbum duplo originalmente lançando em vinil, em outubro de 1968.

A história do disco da "terra da dama elétrica" é tão conturbada quanto a própria vida de Hendrix, que parecia viver eternamente no olho de um furacão. 

Repassando bem rápido: após começar a fazer fama como um excelente músico de apoio de artistas já consagrados (Little Richard, Curtis Knight, Isley Brothers e outros), por volta de 1966, Hendrix monta a sua primeira banda própria (The Blue Flames), e com ela começa a fazer shows em pequenas casas de New York onde já se destaca pela sua habilidade. Ele então é descoberto por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, que havia saída do grupo recentemente com o propósito de se aprofundar na carreira de empresário de bandas. É Chandler que faz a cabeça de Hendrix para ele largar tudo e partir para a Inglaterra, onde uma nova banda e um contrato de gravação promissor já estavam praticamente o esperando: numa inversão do que ocorrera com a Invasão Britânica anos antes, quando bandas inglesas aportaram os EUA invadindo as paradas, Hendrix agora faria o contrário, indo para a Inglaterra conquistar primeiro a terra da rainha, para só depois retornar já com êxito para a sua terra natal. 

Da esquerda p/ direita: Noel Redding, Jimi Hendrix, Mitch Mitchell e Chas Chandler

Em Londres, Hendrix se junta a Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria), para montarem um dos mais avassaladores power trios da história: o Jimi Hendrix Experience. Shows vão se sucedendo sem parar, a fama com os primeiros e revolucionários singles ("Hey Joe", "Purple Haze" e "Fire"), e o primeiro disco, de 1967 (Are You Experienced), logo a seguir, a aclamação triunfal no Monterey Festival, no mesmo ano, quando Hendrix retorna aos EUA e põe fogo em sua guitarra no final da apresentação, constituindo um dos momentos mais icônicos do rock, com turnês mil que vem logo a seguir, mais um segundo álbum às pressas já saindo no final do ano (Axis: Bold As Love) - e tudo isso já é terreno preparado para a loucura que seria gravar Ladyland

The Jimi Hendrix Experience

Dito então que o ano de 1967 (da revelação de Hendrix para o mundo) foi como se 1000 anos tivessem se passado em um, tamanha a correria e agitação em torno do músico, o início de 1968 nos apresentaria um Hendrix que, além de estafado, começava já a clamar por um maior controle de sua vida artística. 

Primeiro, Hendrix vetou integralmente o comando de Chas Chandler sobre o que seria seu próximo trabalho de estúdio. Isso levaria ao rompimento total com o seu descobridor, que desapontado, também abandonaria o posto de empresário - o que infelizmente leva Hendrix a entregar tal atribuição a um mala assistente de Chandler chamado Mike Jeffery, resultando em consequências nefastas para o artista (mais detalhes sobre essa história aqui). De qualquer forma, assumindo o leme como produtor e monitorando de perto todas as mixagens, o guitarrista estava prestes a realizar o único projeto sobre o qual conseguiu manter 100% de liberdade e controle criativo, e que geraria, no final das contas, não um, mas dois discos de material inédito! - Electric Ladyland sairia como álbum duplo, uma excentricidade que só os artistas de maior cacife e produtividade na época tinham a primazia de conseguir realizar (como Beatles e Bob Dylan). 

As sessões de gravação, iniciadas em Londres mas logo remanejadas para os estúdios Record Plant, em New York, onde a maioria das gravações ocorreria, entraram para o terreno da lenda, tamanho o caos instaurado pela própria vontade de Hendrix. Vivendo loucamente como um relâmpago, sem tempo para dormir ou descansar direito, e acumulando shows e turnês que aconteciam simultaneamente por compromissos contratuais, Hendrix ainda mantinha uma rotina boêmia da qual não conseguia abrir mão, e isso fez com que a maioria das sessões de Ladyland fosse convertida em uma espécie de "confraternizações de amigos", em que o guitarrista simplesmente enchia o estúdio de conhecidos que entravam e saiam sem a menor cerimônia, para vê-lo performar e gravar diversas das futuras músicas do álbum. Não obstante, esse é o motivo pelo qual ouvimos, em alguns momentos das faixas registradas, alguns aplausos e vozes de pessoas falando: era o ambiente absurdo, festeiro e de atmosfera quase 'ao vivo' criado pelo próprio Hendrix, que queria uma certa espontaneidade e efervescência na execução das canções.

Isso se destaca principalmente no carro chefe do disco, uma de suas faixas mais longas: "Voodoo Chile", praticamente uma blues jam devastadora de 15 minutos, onde vislumbramos o casamento perfeito entre o Jimi Hendrix Experience e o fenomenal grupo Traffic - os dois manda-chuvas dessas bandas, Hendrix e o vocalista/tecladista Steve Winwood duelam com solos acachapantes de guitarra e órgão, levando esse hino à mais elevada estratosfera psicodélica da quinta dimensão, em crescendos que explodem com o refrão antológico onde Hendrix faz a imprecação da "criança vudu", o escolhido, o mago das seis cordas desvairado nas magias estupefacientes do blues cósmico. Dá-lhe solos alucinantes pra tudo quanto é lado.

Ladyland, aliás, é obra pródiga em participações de membros de outras bandas, e tamanha foi a orgia musical de colaborações, que outro que saiu bastante irritado da empreitada toda foi o baixista do Experience, Noel Redding, reclamando que o espaço dele estava sendo afetado pelas exigências de Hendrix para seus novos sons. Além de membros do Traffic (como Winwood e o guitarrista Dave Mason), também compareceriam Jack Casady (baixista do Jefferson Airplane) e Brian Jones (dos Rolling Stones), em participações pra lá de especiais. Pouco tempo depois o Experience acabaria... Apenas o baterista Mitch Mitchell continuaria trabalhando com Hendrix posteriormente, em novos projetos. Hendrix, também insatisfeito com certas linhas do baixista, as dispensou e passou a ele próprio gravar o baixo em algumas das músicas, o que só aumentou a animosidade entre ele e Redding: notadamente, isso aconteceu em "1983, A Merman I Should Turn To Be" e "All Along the Watchtower".



Por falar nessa última, este é um capítulo à parte: um dos maiores clássicos do repertório hendrixiano, "Watchtower" é um original de Bob Dylan, desde sempre um dos grandes ídolos de Hendrix, que o inspirou inclusive na forma iconoclasta de usar sua voz, e que foi autenticamente reinventada pelo artista no estúdio. É uma das mais perfeitas gravações da história do rock, e retrata o nível máximo de exigências e refinamento de Hendrix na produção do álbum: nada menos do que 19 takes de um violão gravado por Dave Mason (do Traffic) foram gravados, e que dá apenas um "toque" na mixagem final, encharcada com camadas e mais camadas de guitarras. A exótica percussão urdida por Hendrix eleva a faixa à condição de um petardo onírico e cigano, repleto de peso, distorção, e solos faiscantes com wah wah e outros efeitos. 

Enquanto "Have You Ever Been to Electric Ladyland" descamba para uma insólita balada soul, com falsetes e tudo mais, outros momentos como a esfuziante "Crowsstown Traffic", a épica "Burning of the Midnight Lamp" (anteriormente lançada como single) e pedradas como "Gypsy Eyes" e "House Burning Down" apenas reforçam a energia e atemporalidade do álbum, que fecha com outro standard do músico, sempre executado nos shows a partir de então: "Voodoo Child (Slight Return)", que faz referência à longa faixa anterior mas despeja tudo num rock lisérgico e funkeado, emoldurado com um dos mais clássicos riffs de guitarra da era moderna, referenciado e copiado à exaustão por uma infinidade de guitarristas contemporâneos (sendo Slash dos Guns N' Roses um dos mais frequentes, só para citar, nas versões ao vivo de "Civil War").

Apesar de ter sido o trabalho que mais saiu ao gosto de Hendrix durante a sua curta trajetória, houve um detalhe que não foi conforme ele havia idealizado, que o deixou muito insatisfeito, e com razão: a capa do álbum. Era para ter saído com uma foto de Linda Eastman da banda (futura Sra. Linda McCartney), registrada com crianças no Central Park, de acordo com expressas recomendações de Hendrix numa carta para a gravadora - entretanto, saiu em duas versões muito diferentes, sendo uma capa com uma foto berrante e desfocada da cabeça de Hendrix, em tons avermelhados, nos EUA, e a bizarra foto com um grupo de mulheres de aparência devassa, nuas em pelo e segurando capas dos discos anteriores do artista, no lançamento feito na Inglaterra. Apenas na reedição comemorativa de 50 anos do álbum em formato digital, já em 2018, é que o design original pretendido pelo músico foi finalmente utilizado.

É uma pena que Hendrix não tenha vivido muito adiante para presenciar a extensa e arrebatadora influência que o seu melhor e mais bem acabado trabalho, feito ainda em vida, teve sobre gerações e mais gerações de músicos que viriam a partir de então. O músico partiria, em circunstâncias ainda hoje discutidas e controversas envolvendo barbitúricos e bebida, no dia 18 de setembro de 1970, após uma noite com sua namorada em Londres.




Electric Ladyland permanece sendo um dos mais brilhantes e intensos itens da discografia desse gênio da música, e deve ser celebrado e relembrado como um dos momentos mais místicos e exuberantes da epopeia clássica do rock.




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