sábado, 14 de março de 2026

AS MARAVILHOSAS MULHERES DO ROCK

 

Dia 8 de março passado foi o Dia Internacional da Mulher. E como essa é uma data que seria imperdoável o blog deixar passar em branco, temos que é mais do que obrigatório render aqui uma bela homenagem às 'grandes mulheres da história do rock' - é uma delícia relembrar a trajetória dessas musas, divas e figuras femininas das mais variadas, que marcaram e ajudaram a moldar esse gênero musical que tanto apreciamos. Com graça, charme, beleza e um toque muito especial e característico, elas ajudaram a melhorar e dar um enfoque mais sensível e instintivo ao gênero. Realmente, a grande sonoridade não seria jamais a mesma sem algumas dessas ladies que vamos reverenciar aqui.

Suzi Quatro

Mas é preciso delimitar um recorte: são muitas mulheres admiráveis e artistas incríveis, o que torna a lista quilométrica, enorme pra valer. Então, para não tornar este um texto praticamente impossível de ser editado e publicado, tivemos que optar por um extrato temporal, que vai dos primórdios do rock n' roll, lá em meados da década de 1950, até início dos anos setenta, ou seja, abordando as rockers pioneiras mesmo, que ajudaram a desbravar o caminho para muitas outras que viriam adiante. Assim, acabaram ficando de fora nomes como as diversas rainhas cantoras e grupos vocais da soul music nos anos sessenta (Aretha Franklin, Nina Simone, The Shirelles, dentre outras), e artistas e grupos femininos notórios que surgiriam depois (como Fanny, Suzi Quatro, The Runaways, Girlschool etc.). Mas nada impede que façamos uma próxima postagem mais pra frente, dedicada a elas.

The Runaways

Dá-lhe homenagem então.


Sister Rosetta

Tida por muitos como "a mãe do rock and roll", 'Irmã' Rosetta Tharpe (1915 - 1973) foi a primeira grande artista feminina relevante do gospel e rythim n' blues norte-americano, tendo chamado a atenção também por, além do vozeirão, ter sido a primeira a empunhar e tocar de forma vigorosa uma guitarra elétrica, não fazendo feio frente a nenhum bluesman famoso da época, como Muddy Waters, John Lee Hooker ou B.B. King, e despontando com hits de sucesso e hinos baseados em spirituals de sua igreja, que formavam as bases para muito da música negra popular que se desenvolveria dali em diante. Para se ter uma ideia, Elvis era fanzaço dela. Dentre seus grandes sucessos estava "Strange Things Happening Every Day", gravada ainda em 1944, e considerada uma das canções precursoras do R n' B e do futuro gênero rock n' roll. Ao longo da década de 60, faria turnês internacionais de sucesso com artistas homens do blues, como a icônica série de shows na Inglaterra em 1964, ao lado de Waters. Parte em 1973, após complicações decorrentes da diabetes. 


Jackie DeShannon

Iniciando sua carreira na esteira da música country, e ainda no final daquela primeira grande geração do rock and roll, do final dos anos 50, DeShannon começa a se sobressair ainda em 1960, e ela se torna a primeira grande roqueira pop dos EUA por excelência, com hits que marcariam época, como "Needles and Pins" (regravada posteriormente por grupos como The Searchers e Ramones) e "When You Walk in the Room", grande sucesso em 1963. Belíssima e com uma voz marcante, seu nome ganharia ainda mais projeção a partir de uma turnê conjunta que fez com os Beatles, em 1964, e que a levaria a se integrar à turminha de novas bandas da segunda grande geração do rock, se tornando uma compositora de peso para grupos de folk rock (como The Byrds), e ficando popular também na Europa - onde, em 1965, conhece o jovem guitarrista Jimmy Page, com quem tem um romance e escreve as músicas do único compacto solo gravado por ele ("She Just Satisfies"). A explosão mundial e consagração definitiva viriam pra valer em 1969, quando grava e lança o single (e álbum de mesmo nome) "Put a Little Love in Your Heart", um tremendo êxito. Celebridade profícua do circuito rock/pop dos EUA e Inglaterra, Jackie ainda é viva (84 anos), e tem até hoje programas de rádio em que conta velhas histórias e ajuda a revelar novos talentos, mantendo uma firme amizade com gente como Paul McCartney e Ringo Starr, só para citar alguns... Curiosidade: reza a lenda que "Tangerine", futuro sucesso do Led Zeppelin de seu terceiro disco, foi composta por um magoado Jimmy Page e baseada no término do ainda jovem guitarrista com Jackie, ainda lá atrás nos anos 60. A moça marcou mesmo.






Joan Baez

Recentemente bastante relembrada em decorrência do filme sobre o início de carreira de Bob Dylan (A Complete Unknown, de 2024), com quem namorou naquele período de 1963-64, Baez é sempre reverenciada como a trovadora folk por excelência, com uma voz aveludada e pura, tão cristalina, que se tornaria referência para um sem número de cantoras pop e rock dali em diante. Figura habitual nos grandes festivais de música tradicional que reuniriam a juventude beatnik a partir dos anos sessenta, Baez foi se tornando uma parceira artística praticamente indissociável de Dylan no período inicial de sua carreira, regravando várias de suas músicas, bem como clássicos do cancioneiro americano e standards próprios, e daí para se tornar uma das principais vozes da contestação política e da contracultura da década, foi questão de pouquíssimos passos. A sua aparição no histórico festival de Woodstock, em 1969, entoando a bucólica "Joe Hill", numa alegoria sobre os protestos contra a vigente Guerra da Vietnam, singrou para a posteridade como uma das sequências mais mágicas do evento. E até hoje, para muitos, o seu momento máximo como intérprete é no hino pelos movimentos civis "We Shall Overcome", da histórica gravação ao vivo lançada em 1961. Está com 85 anos e já veio ao Brasil várias vezes, tanto para shows quanto para participar de eventos em prol das causas sociais. 




Tina Turner

Provavelmente a mais simbólica desta lista, quando o assunto é "roqueira mulher", Tina representa muito mais do que a música vibrante e poderosa que ela sempre soube entregar em vida (faleceu em maio de 2023, aos 83 anos de idade). A sua luta, na verdade, vai além disso - se encontra com o legítimo empoderamento, com a força da fênix que ressurge das cinzas, após anos de violência e abusos, e que se torna um marco muito mais social e de comportamento, que deveria servir de exemplo para todas, exatamente todas as mulheres deste mundo, que já passaram por episódios agressivos. Se você é mulher, e já assistiu o belo filme sobre a vida dela, feito em 1993 com a sensacional Angela Basset no papel principal: Tina - A Verdadeira História de Tina Turner (What's Love Got to Do With It), então sabe do que estou falando. Iniciando sua carreira bem novinha, no final dos anos 50, ainda como Little Ann, logo ela ganhou um papel de destaque na banda de seu futuro marido, o cantor e guitarrista Ike Turner, assumindo o nome artístico com o qual ganharia fama a partir de 1960. No boom dos grupos de doo woop e música soul, rock e pop que passariam a proliferar na nova década, Tina começa a fazer grande sucesso com suas performances explosivas, também complementadas com muita dança e coreografias de palco, e ganha a fama com a parceria do renomado produtor Phil Spector (matéria sobre o mesmo aqui), que joga o grupo lá em cima nas paradas com o mega hit "River Deep, Mountain High", de 1966. Se segue quase mais uma década de sucessos, até que, em 1975, o escândalo: Tina se divorcia de Ike, exausta depois de tantos anos de abusos, com drogas, espancamento, e inclusive financeiros (sendo explorada por ele, líder da banda, nos contratos). Ao mesmo tempo em que o ex fica doidão, roda legal e vai parar na cadeia (sendo até indiciado por tráfico), Tina dá uma das mais vitoriosas e icônicas voltas por cima da história da música: ela entra nos anos 80 com um novo pique, visual repaginado, e músicas vitaminadas nas mais novas tendências pop, que se tornam grandes êxitos ("Private Dancer", "The Best", "We Don't Need Another Hero", dentre outras), e dali em diante, não tem mais jeito: com suas perucas, caras, bocas, danças e trejeitos loucos no palco, ela se confirma como a eterna e definitiva "rainha do rock".






'Mama' Cass Elliot

No advento dos loucos anos do "flower power" californiano, os fãs de rock da época tinham o lendário quarteto The Mamas and the Papas como os mais fortes representantes de um estilo refinado, que juntava vocalizações soberbas de dois rapazes e duas moças com influências de música pop, vaudeville, e folk de qualidade. A trupe formada por John Philips (o líder), Danny Doherty, e as vocalistas Michelle Philips (esposa de John) e a super carismática Cass Elliot tinha tomado de assalto as paradas americanas e mundiais repentinamente em 1966, com músicas do seu primeiro LP, If You Believe in Your Eyes and Ears, os mega sucessos "Monday Monday", "California Dreaming" e "Straight Shooter", dentre outras. Os bastidores, no entanto, não eram flores, mas sim, caóticos e traumáticos até - com o arrogante John Philips humilhando constantemente Cass por causa de sua silhueta de quilos a mais, enquanto sua esposa Michelle o traía com o próprio outro companheiro de banda, Danny, e chamava mais a atenção da mídia por sua invejável beleza. Michelle era afinadinha, mas sua voz não tinha um enésimo da potência e da majestade vocal de Cass Elliot - essa sim, a verdadeira voz feminina dos Mamas & Papas, e que dava corpo e profundidade às canções da banda. Subjugada por sua aparência, Cass tentava dietas que não davam certo, às vezes se deprimia, em outras ligava pra valer a chavinha do "f...-se", mas no final das contas, compensava tudo e derrubava a cara de todo mundo no chão com suas interpretações maravilhosas, e cheias de alma. Cass se cansou de todas as tretas do grupo e, ao final de 1968, já estava em outra, se lançando em uma relativamente bem sucedida carreira solo, onde a canção "Make Your Own Kind of Music" (1969) seria um dos grandes destaques. Em 1974, infelizmente, se tornaria um dos grandes nomes do rock daqueles tempos a morrer precocemente, aos 32 anos, de um ataque cardíaco enquanto dormia - e não por "engasgamento com um sanduíche", como muitos tabloides da época maldosamente alardeariam, criando uma cruel situação fake que nada mais era do que um último e ruidoso ato de gordofobia, e que seria tristemente sustentado na mídia por muitos anos. 





Grace Slick

A icônica voz lisérgica/operística do grupo acid rock Jefferson Airplane em sua fase clássica, de muitas loucuras nos festivais de rock dos anos 60, ela foi a diva doidona que cantou a plenos pulmões sobre a "toca do coelho" ("White Rabbit") e sobre agarrar alguém para amar ("Somebody to Love"), ao mesmo tempo em que nos enterneceu com baladas lindas como "Today" (cantada em dueto com Marty Balin, do LP Surrealistic Pillow, de 1967), e "Lather", de 1968. Com aqueles olhos azuis arregalados e as letras psicodélicas unidas à batida intensa e guitarradas do rock hippie da Costa Oeste americana, não havia como não se render ao poder de Grace Slick nos vocais - depois, o Airplane se desmanchou, a banda se reuniu numa encarnação tosca que era pura baba pop cafona nos anos 80 (o Starship), e Grace continuou prestando seus serviços à banda, mas já sem o mesmo impacto e carisma dos dias de ouro. Hoje, essa autêntica sobrevivente de Woodstock colhe os louros da aposentadoria, do alto de seus bem (loucamente) vividos 86 anos.





Janis Joplin

Teve quem conseguiu atravessar a locomotiva insana dos rebeldes anos 60 e chegar aos dias atuais (como Grace Slick e Joan Baez). Teve quem foi além e se reinventou, conseguindo ir mais longe até um certo ponto (Cass, Tina Turner). E teve quem pegou a espaçonave sideral pra cair fora bem no auge de tudo: Janis Joplin. Impossível falar em mulheres no rock sem falar nela, que talvez seja a mais icônica e trágica de suas representantes. Uma voz rouca e regada de whiskey e blues, absurdamente sobrenatural e fora do comum, que cantava de forma rasgada e com um sentimento que parecia saído de algum canto obscuro e sofrido da alma, numa maturidade de interpretação vocal muito acima da pouca idade que ela tinha, como jovem menina sulista e tímida (com uma terrivelmente baixa auto-estima), saída lá dos cafundós do Texas. Vítima do bullying de colegas meninos e meninas durante a high school, logo tratou de curar suas dores e tristezas com muito goró, discos de blues, e bandas de garagem com aqueles garotos rebeldes e esquisitos do interior que sofriam discriminação assim como ela: já que falavam que ela era a "feiosa" e não se encaixava, ótimo, ela iria se juntar aos garotos feiosos e que não se encaixavam também, para tocarem e cantarem. Chegou a cantar, durante algum tempo, com os lendários 13th Floor Elevators, grupo do mítico Roky Erikson daquelas redondezas, mas não deu muito certo. Logo, se firmaria como crooner do Big Brother & Holding Company, e com estes sim: conseguiriam se destacar no circuito regional de bailes e shows, e em 1967 ganharam o passe para tocar no lendário festival de Monterey, na California. Ali, mediante as dramáticas e inesquecíveis rendições de "Ball and Chain" e do standard "Summertime" (cover de outra rainha da voz, Billie Holiday), pronto: Janis arrebentou, e o mundo nunca mais foi o mesmo depois de ouvi-la. Contratos milionários (gravadora Columbia, a mesma de Dylan), turnês uma atrás da outra, a troca, por imposição dos empresários, da bandinha simples por outra, mais profissa (o que, de certa forma, deixou Janis meio chateada e desnorteada, por se sentir traindo os velhos companheiros), e todos os arroubos que viriam com a fama. Foi meio demais para a cabeça da jovem e solitária Janis, se perdendo em casos amorosos fugazes e problemáticos, e ainda despreparada para aquilo tudo, muito rápido demais. Na noite de 4 de outubro de 1970, no quarto vazio de um hotel de Hollywood, alguns gramas de heroína e garrafas vazias de Southern Confort... e a voz inigualável se calou para nunca mais novamente ecoar. Mais uma integrante do famoso "clube dos 27" do rock.





Marianne Faithfull

A eterna musa dos Rolling Stones e ex-namoradinha de Mick Jagger, Marianne teve que provar ao longo do tempo, e a duras penas, que não era apenas isso. O seu talento e autenticidade como cantora, ciente de sua plenitude e de interpretações muito peculiares, a posicionariam como uma das grandes mulheres do rock, desde hits entre 1965 e 1968, como "As Tears Go By" (cover dos Stones), "Summer Nights", "Come Stay With Me", dentre outras, até esporádicas aparições no cinema, incluindo o cult movie A Garota da Motocicleta (com Alain Delon, 1968). Após o término com Jagger, em 1970, ela passaria ao longo da década tentando se reerguer dos seus vícios em álcool e drogas, e isso acabaria conferindo a ela uma voz mais rouca e grave, alterada pelos excessos, e que se tornaria extremamente marcante no seu retorno com tudo às paradas pop, em 1979, com aquele que talvez seja o seu disco de maior sucesso: o álbum Broken English. Uma outsider irreverente e rebelde por excelência, Marianne faleceu em 2025, aos 78 anos (veja post aqui).





Nico

Assim como Marianne, outra cantora rebelde, incompreendida, também dona de um estilo muito pessoal, e uma voz grave e marcante, sublinhada pelo seu característico sotaque germânico. Ela começou como modelo e atriz: estava entre as garotas da longa festa de La Dolce Vita, o célebre filme de Fellini (1963), depois cruzou o Atlântico, voou para os EUA, e foi badalar nos estúdios vanguardistas de Andy Warhol, em New York. Foi lá que o artista plástico se encantou por ela, e tratou de juntá-la a um grupo de rock experimental que ele estava pensando em empresariar: o Velvet Underground, com Lou Reed (voz, guitarra), John Cale (baixo, viola, voz), Sterling Morrison (guitarra) e Moe Tucker (bateria). Eis a formação que com ela, fazendo soturnos vocais adicionais e se juntando às cenas performáticas do grupo ao vivo, gravaria o mais que clássico "disco da banana", o lendário primeiro álbum da banda. E foi só: porque foi tanto arranca rabo e desentendimento com Lou Reed (que mantinha com Nico uma estranha relação de amor e ódio), que logo ela resolver cair fora e construir sua carreira solo, como cantora. Não faltaram empurrões de outros colegas artistas para ela engrenar, e até ruidosos casos amorosos com alguns deles: nessa espiral da loucura, passaram pela cama de Nico o vocalista e poeta Jim Morrison, dos Doors, e algum tempo depois, o mais aloprado ainda Iggy Pop (na época, ainda com os Stooges). As duas obras-primas de Nico como cantora, gravadas nesse período pós-Velvet, são: The Marble Index (1968), e Desertshore (1970) - álbuns fundamentais, exóticos, e riquíssimos em climas insanos e atmosferas além desse mundo, semi-tonais e muito à frente de seu tempo. Muito do que se ouviria depois, em termos de ambient rock, trance e música eletrônica e hipnótica, já era encontrado nesses discos, que revelavam uma mulher com uma visão sensorial e melódica particularmente espetacular, e que infelizmente nos deixou bem nova, após um acidente de bicicleta na Espanha, em 1988, com apenas 49 anos.





Mariska Veres

Continuando o quesito das cantoras de visual marcante e postura hipnótica, não há como deixar de falar de Mariska, a garota-símbolo do sucesso do grupo holandês Shocking Blue, que fascinou milhões de pessoas ao redor do globo na virada dos anos 60 para os 70, ao som de hits como "Venus" (impossível não conhecer), "Never Marry a Railroad Man" e a alucinada "Love Buzz" (famosa na regravação do Nirvana). Olhar penetrante, voz poderosa, e presença de palco inesquecível: ela foi um dos rostos mais icônicos da música pop daquele período. Nos deixou em 2006, aos 59 anos, devido a um câncer.





Joni Mitchell

Pertencente à segunda grande geração de cantoras folk "voz e violão" que viriam com a geração hippie, a partir do final dos anos 60 e início dos 70, e que tinham Joan Baez como grande inspiração, a loirinha Joni foi a eterna namorada de Graham Nash (do Crosby, Stills, Nash& Young) e musa de seu parceiro de banda, Neil Young, tendo arregimentado a ajuda da equipe toda para a gravação de seus primeiros álbuns. Com o seu terceiro álbum, o clássico Ladies of the Canyon (1970), Joni atinge o seu apogeu artístico, e estoura nas paradas com o hit "Big Yellow Taxi". Era a consagração com aquele jeito renovado e mais intimista de cantar, tendência dos grandes compositores e artistas do início dos anos 70 - e da qual Joni se tornava ponta de lança e principal porta-voz.






Carole King

Na mesma pegada de Joni Mitchell e outras artistas autorais e intimistas da década de 70, essa americana de New York veio de uma geração anterior que compunha para vários artistas desde o início de 1960, em parceria com o seu primeiro marido, Gerry Goffin. Isso até conseguir se lançar como artista solo, que alcançou o êxito comercial com o álbum Tapestry (1971), e estabelecendo hits eternos como "It's Too Late", "A Natural Woman" e "You've Got a Friend" (esta também regravada com grande sucesso por James Taylor). Tida como uma verdadeira "fábrica de hits" também para outros artistas, Carole seguiu adiante, e hoje, já com 84 anos, continua compondo e se apresentando esporadicamente - demonstrando ser uma legítima força da natureza feminina.






- Menções honrosas 'BR': Rita Lee e Vanusa

Rita Lee

Vanusa

E do nosso lado tupiniquim, temos duas representantes roqueiras que, cada uma a seu modo, desbravaram território, e colocaram a marca extravagante de seus batons nas guitarras ensandecidas e revolucionárias da terra brazuca, ainda tão dominada por sambas, sertanejos e bossa nova da vida! 

Uma, mais aclamada e eternizada, é inegavelmente a "rainha do rock brasileiro": a nossa icônica Rita Lee. Precursora, peça fundamental dos inovadores Mutantes (ao lado dos irmãos Batista), pioneira da psicodelia e do glam rock nacionais, e artesã pop rock da virada dos 70 para os 80, com sucesso de público e crítica irrepreensíveis, e uma vida toda marcada pela trangressão, irreverência e originalidade - Rita fez história com discos icônicos como Atrás do Porto Tem uma Cidade (1974), Fruto Proibido (1975), Babilônia (1978), e muitos e muitos hits incríveis, como "Doce Vampiro", "Arrombou a Festa", "Lança Perfume", e diversos outros. Faleceu em 2023, aos 75 anos.



Vanusa é a nossa musa roqueira mais de vanguarda - ainda não reconhecida por muitos, e lamentavelmente lembrada pelas gerações mais recentes apenas pelos seus problemas de saúde e de memória, que a levaram a um triste episódio de confusão durante uma execução pública para cantar o Hino Nacional, Vanusa aos poucos vai tendo o seu talento cada vez mais reconhecido, à medida que seu extenso e valioso trabalho musical vai sendo redescoberto. Essa ousada intérprete loira - belíssima, em seu esplendor nos anos 60 e 70, sua fase áurea - nos deixou alguns dos mais delirantes e efervescentes registros fonográficos do seu tempo, tendo chegado ao topo das paradas com o hino "Manhãs de Setembro", de seu famoso LP de 1973. O mesmo que, por sinal, tem a música que teria secretamente inspirado Tony Iommi, do Black Sabbath, a compor o seu "Sabbath Bloody Sabbath", para o disco de mesmo nome, naquele ano! - o sensacional rock pauleira "What to Do".




Vanusa é rock brasileiro da melhor qualidade. E na melhor voz. Nosso salve para mais esta maravilhosa mulher do rock, que nos deixou em 2020, aos 73 anos.






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sábado, 21 de fevereiro de 2026

ENTRE TIROS E CUSPARADAS

 

Tive a grata oportunidade de assistir novamente, dias atrás, a um filme sensacional que se torna cinquentão neste ano (foi originalmente lançado em junho de 1976), e que está prestes a sair de cartaz na HBO Max. Então para quem ainda não viu, e ficar interessado, corra para assistir, pois já anunciaram que está por lá só mais alguns dias...

(E não tem jeito, tenho aqui que abrir parênteses mesmo e fazer uma pequena observação sobre algo que me incomoda faz tempo: como é desastrada ainda a curadoria do streaming brasileiro em relação aos de outros países! Filmes excelentes que entram e saem dos catálogos sem a gente nem perceber às vezes, para dar espaço a outros filmes e séries ridículos, enfadonhos e de má qualidade, que ficam muito aquém dos grandes clássicos e obras de arte! Quem arruma VPN e dá uma sapeada nos canais de streaming do exterior, fica espantado ao se deparar com uma maior variedade de títulos, e a grande quantidade de filmes raros e difíceis de encontrar, que poderiam muito bem estar nos mesmos canais de streaming, mas do Brasil. Um exemplo é a própria HBO Max, que tem todo um catálogo precioso da Warner Bros em mãos, disponibiliza grandes filmes do estúdio lá fora, e quando chega aqui, nada da gente ver esses títulos. E a desculpinha de sempre é o tal 'algoritmo' rastreando as preferências do público - mas será que a culpa é só dele mesmo? Fico também até pensando o que será de todo esse acervo quando finalmente for resolvida essa "batalha" ruidosa que está se arrastando, da compra da Warner pela Netflix. Misericórdia.)

Mas muito bem, voltando ao foco: o filme em questão de que falaremos é o icônico western Josey Wales - O Fora da Lei, dirigido e protagonizado pelo igualmente icônico Clint Eastwood.

Após o êxito de O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), primeiro faroeste dirigido por Eastwood, este é o segundo exemplar do gênero que cimentaria a sua carreira comandando o estilo, após generosas aulas de técnica e narrativa que teve com diretores de seus icônicos filmes anteriores - Sergio Leone e Don Siegel. E ele já demonstra aqui um perfeito domínio do estilo, que o levaria a se consagrar anos depois com a renomada (e oscarizada) obra-prima Os Imperdoáveis (The Unforgiven), de 1992.

A trama é conduzida de forma ágil e segura, com excelentes atuações de todo o elenco, e as sequências de ação são estilizadas e instigantes, com muito impacto e emoção. Além disso, também traz um enfoque mais humano e realista sobre as figuras do Velho Oeste, especialmente os índios, sendo considerado um típico exemplar da safra dos 'faroestes outonais': aquele gênero que, após o advento dos westerns feitos na Itália, passou a revisar situações e eventos que levariam ao fim da era de ouro dos grandes cowboys e foras-da-lei. (Leia mais sobre faroestes outonais aqui).

Eastwood interpreta o personagem que dá nome ao filme, um desafortunado ex-fazendeiro que, após ter a sua família brutalmente assassinada durante os conflitos que deram início à Guerra Civil Americana, se embrenha na mesma ao lado dos sulistas, e acaba se tornando um lendário e sanguinário ás do gatilho, com a cabeça colocada a prêmio e incansavelmente perseguido por soldados do exército ianque e caçadores de recompensa. Inicialmente fugindo com um colega de armas rumo ao Texas, logo Josey cruza o caminho de diversos tipos humanos, dentre indígenas oprimidos e colonos imigrantes indefesos, e aos poucos formará com eles um exótico "comboio", rumo a um novo destino em suas vidas. 

Nessa sinuosa empreitada repleta de reviravoltas, nosso herói, antes amargurado e endurecido pela tragédia, vai aos poucos reconquistando a sua conexão com as pessoas, ao mesmo tempo em que encara seus inimigos entre tiros e cusparadas pretas (o bichão é mascador de fumo inveterado), em uma variedade de cenas infames e marcantes, hilárias até. Tudo isso graças ao engenhoso roteiro de Sonia Chernus e Philip Kaufman, que cria um arco dramático interessantíssimo para Josey e seus companheiros de viagem, no que pode ser considerado um curioso road movie adaptado dentro do estilo western, dadas as longas jornadas e situações transitórias vividas por personagens desiludidas e desgarradas de seus planos de vida, que se encontram ao acaso e se põem em busca de um novo lar, enfrentando toda sorte de violências nesse percurso.

Cabe aqui, aliás, falar sobre Kaufman, e sua polêmica participação na realização dessa obra - podemos dizer que, tão ou mais conturbada que a trama de Josey Wales, é a ruidosa história de tudo que se passou nos bastidores do filme que, originalmente, deveria ter sido dirigido não por Eastwood, mas pelo próprio Philip Kaufman! 

Eastwood e Sondra Locke já estavam tendo um romance em plenas filmagens

No que já se tornou um dos mais cabulosos episódios da história do cinema, após ter começado a trabalhar como diretor do filme, com apenas três semanas de filmagem, Kaufman foi destituído do cargo pela estrela do filme, Clint Eastwood, que como um lépido e destemido cowboy, tomou as rédeas do projeto para si. O motivo: a então jovem atriz Sondra Locke (que faz o papel de Laura Lee) começou a ser insistentemente cortejada por Kaufman, que mal sabia, entretanto, que ela já estava no radar de Eastwood, e começando a ter um caso com ele... Ou seja, o cowboy pode não ter puxado a arma do coldre para afastar a ameaça, mas soube muito bem mexer os pauzinhos com o estúdio e produtores para retirar Kaufman da direção. A coisa não ficou impune: um ultrajado Kaufman delatou todo o ocorrido ao Sindicato dos Diretores de Hollywood, que criou logo em seguida a famigerada "Eastwood Rule" - dispositivo legal que impediria, a partir de então, qualquer ator, atriz, produtor ou membro da equipe de um filme de promover a demissão de um diretor, sob a pena do pagamento de uma pesada multa contratual.

A despeito de todo esse bafafá, Josey Wales é considerado um dos últimos grandes exemplares do faroeste americano na década de setenta, reposicionando com justiça a história dos índios nas origens da civilização dos EUA (daí o seu caráter revisionista), e confirmando a imagem de Clint Eastwood como uma lenda do "bangue bangue", anos após a sua ascensão no gênero através dos spaghetti western de Sergio Leone. E depois de ter enfim consolidado a sua carreira de ator no cinema americano, com os filmes policiais de Dirty Harry, ele agora passava a desenvolver também o seu ofício de diretor, com extremo talento e devoção. O homem estava se preparando para chegar ao auge.

Eis aí então um programa imperdível para quem deseja voltar a cavalgar, com gosto, nas planícies espetaculares da sétima arte.




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sábado, 14 de fevereiro de 2026

ELVIS, U2 E METALLICA - A DIALÉTICA DA EVOLUÇÃO ARTÍSTICA

Ainda neste mês, sairá nos cinemas EPiC - Elvis Presley in Concert, documentário sobre o Rei do Rock dirigido por Baz Luhrmann, que já havia retratado a vida do cantor na prestigiada cinebiografia Elvis (2022), com Austin Butler no papel principal (tendo este concorrido ao Oscar), e que foi o resultado de uma valiosa pesquisa nos arquivos de vídeo e áudio do artista, enquanto estava preparando aquele filme.

O filme já é anunciado como um daqueles eventos épicos (olha o nome!) de recuperação midiática digital, retratando Elvis contando a sua própria trajetória (a partir de uma obscura entrevista com ele, realizada em 1972), trechos de vários momentos de sua carreira, desde o início, mas focando principalmente naquele período conturbado mundialmente conhecido como a 'fase Las Vegas' - em que o rei passou a se apresentar por mais da metade de uma década na famosa cidade, em espetáculos que se tornariam notórios por representar a reta final de sua carreira, antes de sua morte em 1977. Os shows recuperados com tecnologia de primeira, que coloca o som e a imagem como se tivessem sido realizados ontem, capturam principalmente o recorte de tempo entre 1969 (quando Elvis iniciou os ensaios para a sua estreia no Las Vegas International Hotel, a primeira parada do cantor no local), e 1972.

Elvis: de jovem rebelde precursor do rock and roll nos anos 50...


...a ídolo dos shows apoteóticos em hotéis de Las Vegas, nos anos 70

Foi uma etapa na carreira do ídolo que muitos rotulariam de forma pejorativa, como um período cafona, espalhafatoso, menos complexo musicalmente (por figurar um repertório mais romântico), ou até mesmo inestético, tendo sido a época em que Elvis começou a exagerar tanto no figurino pomposo e chamativo, com aquelas roupas e macacões brancos repletos de cintos, lenços e pedrarias, como também no peso corporal, ganhando quilinhos a mais que o distanciaram daquela imagem de roqueiro rebelde dos anos 50, que o eternizou.

Muito disso, é fato, entrou de forma amplificada e até caricata para a mitologia da música pop, em geral - e parece ser exatamente isso que Baz, em entrevistas mais recentes para divulgar o filme, se propõe a revisar (e demolir): não, realmente não era mais o mesmo Elvis das décadas de 60 e 50. Mas o "Elvis 3.0", que estava ali, praticamente iniciando a terceira (e última) fase de sua carreira, estava longe de ser tão tedioso ou execrável assim. 

A sua maturidade como intérprete vocal tinha evoluído de forma impressionante no final da década de 60, e a sua versatilidade como artista, que passeava com desenvoltura por diversos estilos (country, gospel, blues, ópera etc.), com uma potente e azeitada banda de acompanhamento, e num vigor e uma intimidade tão conexa com esses diversos gêneros, quebra qualquer ranço de preconceito ou antipatia que o fã e ouvinte da boa música possa ter: o Elvis dessa fase de Las Vegas canta, chacoalha e emociona, seja no rock ou com as baladas, e os registros que Baz Luhrmann mostra, nessa sua nova declaração de amor pela lenda, comprovam isso indubitavelmente.

A mancha da "fase brega de Elvis" é enfim apagada. Conforme cita o crítico Owen Gleiberman, em sua resenha para a Variety, de setembro de 2025:

"Na era das residências em Las Vegas (não apenas de Lady Gaga, mas também do Grateful Dead!), os shows de Elvis em Las Vegas agora parecem surpreendentemente à frente de seu tempo. A mácula de tudo aquilo se dissipou. (Las Vegas não é mais o lugar para onde vão os vulgares "americanos da classe média"; é o lugar para onde todos, incluindo os hipsters, vão.) E na era da moda como excesso pós-moderno, onde as estrelas agora são exibicionistas caros, os figurinos de Elvis, com seu estilo Liberace, em sua ostentação propositalmente chamativa e extravagante, não parecem mais algo que alguém pensaria em ridicularizar; eles têm a audácia glamorosa do verdadeiro... rock 'n' roll." (Retirado de: https://variety.com/2025/film/reviews/epic-elvis-presley-in-concert-review-baz-luhrmann-1236510843).

Tudo isso chama a atenção, principalmente, por nos rememorar uma tendência que predominou durante muito tempo, no rock e na música pop, de que "o que determinada banda ou artista faziam, em sua fase inicial, é que era bom e legítimo". O artista deu uma repaginada no seu visual e, principalmente, uma reformuladinha no som? "Ah pronto, fulano se vendeu!"... "Mais um escravo da indústria, mais um fantoche do sistema!", e por aí vai.

Parece que a coisa aos poucos vai mudando, e as novas gerações, menos preconceituosas e/ou "puristas", passam a aceitar mais as reformulações e mutações artísticas. Algo que, aliás, se chama evolução artística, para quem não sabe! Muito raro ou difícil um artista continuar se mantendo relevante, ou criando novas obras com força e evidência, sem uma certa reinvenção, adotando o mesmo estilo ou fazendo sempre um só estilo de música. Na seara do rock, eu poderia citar uns 2, ou 3 casos apenas, que conseguiram isso, com competência. AC/DC... ou Ramones e Motorhead (esses dois últimos grupos já acabaram) entram nessa categoria.

U2 nos anos 80

Durante uma certa época, uma das maiores bandas pop ainda em atividade, o U2, de Bono Vox e The Edge, eram tidos como uma das maiores sensações da década de 80, estavam no auge da MTV, dividindo spotlights com Dire Straits, Police, Bon Jovi, e outros medalhões da época. Chegaram incólumes aos anos 90, em que a sua fase de ruptura com a sonoridade anterior foi a mais festejada e intensa de sua carreira: era o lançamento do mega cultuado Achtung Baby (1991), disco que foi sucesso mundial e marcou uma virada para o grupo, diversificando em músicas como "The Fly", "Misterious Way", "One" e diversos outros hits, com novas influências que  bebiam na fonte de sons indie underground e bases techno dançantes europeias. 

A banda na turnê do álbum 'Achtung Baby' (1991)

Ao mesmo tempo, foi também o início do declínio do grupo no gosto popular dos admiradores mais antigos: a antiga postura messiânica do vocalista Bono passou a ser ridicularizada, muito devido a declarações mais polêmicas e atrapalhadas que fugiam de suas pretensas preocupações sociais e políticas, e passavam a ser vistas mais como pose e manias de estrela de rock mimada. A superexposição na mídia dessa nova fase, mais glam e festeira, chegando ao ápice com o lançamento do álbum Discothéque (1997), que também exagerava nas mudanças e na tentativa de se manter 'up' e da moda, desgastou a imagem da banda, que passou a lutar a partir de então para voltar às raízes mais roqueiras - mas agora já era. Essa foi uma tentativa de inovar e mudar artisticamente, que realmente não deu muito certo.

Metallica (1984)

Outro que é um dos casos mais notórios, dessa vez dentro da área do heavy metal, é o de um dos baluartes do gênero: o Metallica. A sua trajetória é um marco nessa famigerada dialética da evolução artística, no mundo do rock pesado.

Oriundos da Bay Area, de San Francisco (EUA), eles foram precursores de um gênero mais rápido e agressivo que logo dominou os anos 80 e 90, o thrash metal, seguidos por nomes como Slayer, Testament, Anthrax e vários outros. Mas a trupe tinha uma forte e leal legião de fãs, que formavam um culto grandioso à banda formada por James Hetfield (vocais e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammet (guitarra) e Cliff Burton (baixo) - este logo alçado a condição de lenda, como um dos mais notáveis e poderosos representantes do instrumento no som pesado, e tido como um grande responsável criativo pela distinção da pegada de músicas como "The Four Horsemen", "Seek and Destroy", "Creeping Death", "Fade to Black" e outras, dos primeiros álbuns do grupo. Em 1986, vem a consagração total, com o disco Master of Puppets, reverenciado como um dos mais perfeitos do estilo - e que chega aos dias atuais ecoando em produções famosas em todo o mundo pop como a série Stranger Things (Netflix), em seu famoso episódio com o metaleiro Eddie tocando a faixa-título na guitarra, e pagando tributo à banda.

 
Cliff Burton

No final daquele mesmo ano, entretanto, mais precisamente em 26 de setembro de 1986, um trágico acidente com o ônibus de turnê deles causa a morte de Cliff Burton, e isso propulsiona as primeiras grandes mudanças no direcionamento do Metallica. Decididos a continuar a carreira, recrutam um novo baixista (Jason Newsted) e lançam o álbum duplo And Justice for All (1988), ainda com resquícios da sonoridade de Burton com o grupo e algumas ideias deixadas pelo mesmo. Mas é no disco seguinte, de 1991, que as coisas mudam pra valer: o auto-intitulado Metallica, mais conhecido como o "álbum preto", representa uma mudança radical do grupo rumo a pretensões artísticas mais sérias e comerciais, abandonando um pouco a agressividade e velocidade do som em prol de composições diferenciadas, que envolviam influências folk, country, e até mesmo de música sinfônica - com a condução do maestro Michael Kamen no arranjo da clássica "Nothing Else Matters", uma das mais marcantes do disco - e tal virada inevitavelmente passa a ser vista pelos fãs antigos e mais radicais como uma "traição" do grupo ao seu velho estilo, com inclinações a uma linha mais pop.

Isso, aliado ao fato de que o Metallica passa a compor um grupo de artistas que se posicionam contra a então nascente onda de compartilhamento de áudio e diversas mídias digitais pela internet, com o movimento contra o famoso software p2p Napster, entre o final dos anos 90 e anos 2000, e os associando a uma aura de "conservadores", faz com que antigos fãs se afastem e passem até mesmo a detratar a banda, os rotulando de "vendidos" da indústria da música. Os ponteiros do reloginho artístico do Metallica passariam a rodar tresloucados desde então: lançam um par de álbuns com novas mudanças sonoras controversas (Load e Reload, de 1996 e 1997, respectivamente), e em 2003 chegam a gravar o disco que é considerado com um dos piores e mais estranhos sons de bateria na história do rock pesado, o polêmico St. Anger. Opção estética de Lars Ulrich, segundo eles... 

A verdade é que a banda estava ruindo com uma crise interna, que quase levou ao seu fim, causada por alcoolismo, brigas e exageros, ocasionando a saída do baixista Jason Newsted, e retratada no documentário/terapia Some Kind of Monster (2004).

O Metallica em sua fase atual

Apenas a partir de 2006, com o baixista Robert Trujillo já integrado ao grupo, é que eles se recompõem e voltam a conquistar a simpatia de velhos fãs e a integridade com o petardo sonoro que é o disco Death Magnetic, uma formidável volta às raízes sônicas do grupo, mas que também os projeta para um cenário mais confortável, em que suas músicas mais modernas são mais bem aceitas. 

A ele, se seguiriam Hardwired... To Self Destruct (2016) e 72 Seasons (2023), bons discos também onde, recuperados de um período conturbado de vícios e conflitos, o Metallica finalmente faz as pazes com o seu passado, e se estabelece com maturidade como uma lenda musical já consagrada.





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