quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

UM CLÁSSICO MODERNO SOBRE A DECADÊNCIA AMERICANA

 

O já falecido cineasta norte-americano Joel Schumacher (1939 - 2020) teve uma carreira irregular. Ao mesmo tempo em que era aclamado por filmes que marcaram gerações entre os anos 80 e 90 do século passado - Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987) e Tempo de Matar (A Time to Kill, 1996) são bons exemplos - ele também era capaz de cometer atrocidades, como a desconstrução total do super-herói Batman, nas destrambelhadas sequências da versão inicialmente feita por Tim Burton, resultando nas fanfarronices de Batman Eternamente (Batman Forever, 1995) e Batman e Robin (1997 - aquele com os famosos closes na bunda e peitos do homem-morcego com seu uniforme), que mais se pareciam com uma tentativa de desconstrução total da persona dark gótica do herói tão apreciada pelos fãs, para devolvê-lo à aura kitsch e debochada do famoso seriado de TV de 1966.

Mas houve uma vez em que Schumacher realmente se esmerou, e criou, na minha opinião, aquele que ainda é um dos melhores e mais subestimados clássicos do cinema de ação e suspense, com várias camadas de crítica social, que não fica devendo nada a exemplares do gênero feitos em décadas anteriores, e que é o retrato perfeito de uma era, de um momento de caos e revelação, em que o cinema americano voltava novamente a afundar o dedo - sem medo do sangue - nas horrendas feridas do seu pesadelo moral. E este momento, essa oportunidade, se chamou Um Dia de Fúria (Falling Down, 1993), filmaço com Michael Douglas e Robert Duvall nos papeis principais.

Douglas é William Foster, um aparentemente normal cidadão norte-americano que se vê preso num engarrafamento de trânsito de Los Angeles em um dos dias mais quentes do ano, doido de pressa de ir ver a sua filha que está fazendo aniversário. Mas o seu carro apresenta defeitos nos vidros e no ar condicionado, os barulhos e reações dos outros motoristas são infernais, o suor está escorrendo pra valer, e de repente começamos a perceber que o plot nos revelará que Foster não é um cara tão normal assim, e que à medida que as coisas ficam mais tensas e opressoras em volta dele, ele não continuará simplesmente sentado, esperando a situação melhorar e passar. Assim que ele começar a realmente perder a paciência, ele vai abandonar o seu veículo sem dar a mínima para os outros, e vai passar a atravessar a cidade a pé mesmo, em busca de seu destino, e passando por cima de tudo e de todos, se necessário, para cumprir o seu propósito.

A sua peregrinação dantesca e violenta vai levá-lo a ter contato com toda a fauna de tipos que afloram e o confrontam com as mazelas, agressões, hipocrisias e neuroses da moderna sociedade americana. Gangues de imigrantes latinos, mendigos e pedintes, uma rede de fast food matreira (a cena dele criticando o tamanho dos cheeseburgers diante das fotos na parede entrou pra história, e nos faz sentir o que já passamos na pele!), o comerciante psicótico neonazista, os velhos grã-finos do campo de golfe... 

O roteiro de Ebbe Roe Smith é incrível, encapsulando as mais diversas situações no trajeto de Foster, que explicitam como estamos vivendo em uma sociedade cada vez mais doente. Apesar da propalada estética "anos 90" que o filme apresenta (sem menções a internet, celulares, ou nada de redes sociais), ainda assim é uma obra que consegue permanecer atual, por focar em aspectos da crise urbana e da realidade que persistem em existir, e jogá-los brutalmente na cara do espectador.

Robert Duvall

Há um outro núcleo paralelo que vai se desenvolvendo em torno do personagem de Duvall, Martin Prendergast, um tira da divisão de roubos que está justamente em seu último dia de trabalho, prestes a se aposentar, quando a ação do filme se inicia. Através de ganchos rápidos do roteiro sabemos que ele é o típico cara boa praça e de índole passiva, que "abaixa a cabeça" para a esposa, e está se retirando do serviço antes do tempo para cuidar dela, que sofre de transtornos depressivos. Mas é justamente esse paradoxo - entre a loucura crescente de Foster e a reviravolta de Prendergast, voltando a curtir a adrenalina da vida policial, à medida que os fatos acontecem - que adiciona ainda mais tempero à trama, e nos encaminha para um final explosivo e cheio de tensão. Chegará Prendergast vivo ao seu último dia de trabalho? Até onde o caótico rastro de insanidade deixado por Foster em sua empreitada vai impactar a vida do pacato policial? É um suspense que vai se criando de forma muito bem elaborada, nas mãos da edição e da direção precisa de Schumacher.

A expressão "Falling Down" (decaindo), do título original, talvez seja mais propícia para delinear toda a sensação de queda das estruturas sociais que o filme pretende transmitir. Em um dado momento, tudo parece estar fora de ordem e ruir - e é justamente devido a isso que conseguimos ter sentimentos tão dúbios pelo personagem de Douglas no marcante desfecho, quando a própria fala dele inquire nossas consciências com uma questão crucial: ele é o mocinho, ou o bandido, afinal?

Nenhum dos dois. É apenas uma vítima. 

Assim como todos nós, reféns de um complexo turbilhão de coisas do cotidiano.



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domingo, 4 de janeiro de 2026

A CAÓTICA QUEDA PUNK DOS SEX PISTOLS

 

Recentemente, temos visto algumas aparições na mídia do lendário John Lydon - o eterno frontman dos Sex Pistols, na época ainda nominado Johnny Rotten - se desdobrando em anunciar e promover, em várias entrevistas podcasts afora, sobre a próxima turnê de sua banda PiL (o Public Image Limited), bem como dar as costumeiras patadas em seus ex-companheiros do lendário grupo punk que turbinou o gênero no mundo inteiro, lá pelos idos de 1976/77.

A questão é que Lydon diz que não entende - repleto de um mordaz ressentimento irônico - porque Steve Jones (guitarrista), Paul Cook (baterista) e Glen Matlock (baixista original, antes da chegada de Sid Vicious) nunca mais quiseram conversar com ele... sendo que o último contato mais próximo que tiveram foi nos tribunais britânicos, numa ruidosa pendenga acerca dos direitos de uso das músicas da banda, na qual Lydon estava metendo o ferro em todos os outros num pesado e milionário processo.

Da esquerda p/ direita: Sid Vicious, Johnny Rotten, Steve Jones e Paul Cook - os Sex Pistols

Lydon - ou o velho 'Johnny Rotten', como preferir - tem lá suas razões birrentas para agir assim, dadas as suas condições derradeiras na história sempre caótica e nada moderada ou complacente que o nome Sex Pistols sempre carregou. Era um grupo que, pelo seu início errático e conturbado, cheio de embates e rebeldia com todo o cenário pop/rock de Londres da época, e tendo a frente na maior parte do tempo um mala midiático como empresário (Malcolm McLaren), não teria nunca mesmo como terminar bem. A seguir, uma cronologia simples e concisa dos momentos finais do grupo, uma verdadeira epopeia da agonia punk:

- 5 de janeiro de 1978: Após um ano de absoluto sucesso, barulho e polêmicas, em que dão pontapé na revolução punk e vendem milhões de cópias do seu disco Never Mind the Bollocks, na Inglaterra e restante do globo, os Sex Pistols, por decisão de seu empresário Malcolm McLaren, iniciam 1978 com a famigerada turnê pelos EUA. Detalhe: a intenção de Malcolm com essas digressões, ao invés de levá-los para tocar em grandes centros e capitais norte-americanas (como New York e Los Angeles), onde o punk rock já era entendido e popularizado, era por os garotos para se apresentar em localidades menores e mais interioranas, justamente para "causar" e incitar a revolta e a agressividade punk onde o pessoal nem entendia aquilo direito, numa autêntica tentativa de gerar eventos conturbados. E dá certo: o primeiro show em Atlanta, na Georgia, é um festival de cusparadas entre banda e plateia, xingamentos, garrafas quebrando e cacos voando.

John Lydon (a.k.a. Johnny Rotten)

- 8 a 12 de janeiro de 1978: O grupo chega ao Texas para algumas apresentações. O clima interno na banda vai só piorando: o extremo tédio que os Pistols encaram durante os momentos de folga entre os shows, em lugares conservadores onde os únicos passatempos eram parques de diversão infantis, exposições agropecuárias, e butecos com música country, acabam se tornando regados a muita bebida e drogas (conseguidas com demora devido às poucas "conexões" com traficas americanos), e tudo isso vai elevando cada vez mais as tensões entre os membros, especialmente Sid Vicious, o mais alucinado de todos. Nos shows de Dallas e San Antonio, ele chega doidão para tocar, com a frase "gimme a fix" (me dá uma consertada, gíria para os viciados que pedem drogas) escrita a pincel no peito - mas que, com o clima alucinado de cacos jogados no palco e giletes utilizadas por Sid, acaba se misturando ao próprio sangue do mesmo, num verdadeiro festival de horror e automutilação, feito para chocar as audiências. 

"Gimme a fix"


Sid sangrando, no show de Dallas (janeiro de 1978)

- 14 de janeiro de 1978: Este é o dia do lendário último show da banda, em sua fase clássica. Ocorreu em San Francisco, no Winterland Ballroom, para um público estimado em 5000 pessoas - na verdade, o maior até então naquela turnê, pois nas apresentações anteriores, os relatos aterrorizados da imprensa sobre o grupo tinham afugentado um grande número de possíveis espectadores, e não eram poucos os lugares vazios na audiência. Ocorrido de forma mais contida e com uma boa execução das músicas da banda - incluindo uma performance supreendentemente competente de Sid no baixo, apesar de sua fama de não saber tocar direito - o show termina de forma irreverente, com Johnny Rotten vociferando para a plateia: "Ever get the feeling you've been cheated?" (Alguma vez vocês já se sentiram trapaceados?), antes de entrarem na execução de "No Fun", uma das covers do The Stooges mais executadas pelo grupo. Era uma clara alusão à revolta que a banda, e ele (Rotten/Lydon), particularmente, sentiam em relação ao modo como vinham sendo tratados por Malcolm, como produtos sendo utilizados e ridicularizados por ele e pela mídia ianque, numa das turnês mais fuleiras e cínicas de que se tem notícia na história do rock.

- 17 de janeiro de 1978: O dia da separação oficial da banda. Após um arranca-rabo federal entre Johnny Rotten e Malcolm, que passam a discordar em grau e número sobre a continuidade da turnê e os próximos passos do grupo, o empresário chama o restante da banda para o acompanhar, garantindo que não precisam daquele "pestinha vagabundo do Johnny", e que os Sex Pistols podem se virar com qualquer outro vocalista. Ocorre a cisão: Steve Jones e Paul Cook topam seguir com Malcolm, e num primeiro instante, Sid fica em cima do muro - mas logo decide continuar com Johnny nos EUA (amigos de infância que eram). Malcolm  parte para comprar passagens de avião para cair fora dali, com a equipe e os outros integrantes. E assim, Johnny e Sid são largados em San Francisco, praticamente sem nenhum dinheiro ou passagens de volta, enquanto Malcolm e os outros rapazes vão embora, já com planos de ir para o Brasil, devido a um "documentário" que o empresário tinha a intenção de fazer.

Sid Vicious e Nancy Spungen

- 20 de janeiro de 1978: Após uma série de contratempos para conseguir alguns trocados e zarpar de San Francisco, Johnny e Sid chegam a New York. Johnny já decide de cara que o apelido artístico "Joãozinho Podre" é coisa do passado, o renega publicamente, e retoma o seu nome de batismo, John Lydon. Ele está doente, bastante gripado, e ainda vai passar alguns dias na cidade, antes de conseguir o dinheiro para comprar passagens de volta para a Inglaterra. Quem vai afinal ajuda-lo é o empresário Richard Branson, o excêntrico dono da Virgin Records, que passara a lançar os discos da banda. Lydon insiste para Sid ir com ele, mas nesta altura, o baixista/vocalista já está por demais envolvido com os planos da sua perigosa tiete e namorada, Nancy Spungen, em continuarem por ali, morando no decadente Chelsea Hotel. São também dissuadidos pelas ideias de Malcolm, que acha a imagem de Sid o máximo da postura e iconografia punk, e telefona para eles sem parar, afirmando que tem planos para fazer de Sid um "astro", o novo e verdadeiro frontman dos Sex Pistols, e que sequências com ele para o documentário da banda já estão planejadas. Óbvio que isso envolverá muito dinheiro, coisa que arregala os olhinhos de Sid e Nancy, verdadeiros junkies que estão sempre precisando de grana para comprar o "material". Assim sendo, Malcolm entra na mente deles, e acabam recusando a oferta de voltarem com Lydon para Londres.

Malcolm McLaren

- Início de fevereiro de 1978: De volta à Inglaterra, Lydon começa a bolar o seu renascimento artístico, que se dará com um grupo de sonoridade diferente, fora das estruturas do punk e utilizando elementos experimentais de música vanguardista, reggae, dub, e da futura new wave - é o PiL (Public Image Limited). Enquanto isso, Malcolm, Jones e Cook aterrissam no Brasil, com o objetivo de "tirar umas férias", mas também aproveitar contatos de Malcolm para começar as filmagens de algumas sequências do anárquico The Great Rock n' Roll Swindle.

- Fevereiro e março de 1978: Talvez uma das mais intensas galhofas do casamento entre música pop e cinema tenha sido essa iniciativa de Malcolm McLaren: o documentário fake "A Grande Trapaça do Rock n' Roll" - título que o filme ganhou no Brasil - já começou errado, e sua história tem muito a ver com a nossa terrinha aqui. Conforme já comentado, os contatos bizarros de McLaren o levaram a travar acordos com riquinhos e grã-finos da high society carioca do final dos anos 70 (gente ligada a figuras como o playboy Jorginho Guinle, empresários do grupo Garnero, e diretores da Rede Globo), e calhou dele trazer os dissidentes Steve Jones e Paul Cook para filmarem cenas nas praias escaldantes do Rio de Janeiro e - escândalo máximo para alfinetar a Coroa britânica - gravar uma música e videoclipe com o lendário ladrão do assalto ao trem pagador britânico dos anos sessenta, o inglês Ronald Biggs, um verdadeiro mala que veio se refugiar no Brasil para fugir da prisão na Europa, e se tornou um bon vivant e figurinha oportunista do jet set por aqui. Gravaram "No One is Innocent", picaretagem travestida de punk que foi incluída no filme e sua trilha sonora, e além disso, rodaram as "naites cariocas", de festa em festa, enchendo a cara de pinga e feijoada, e aprontando os maiores exageros possíveis. 

Histórica foto do ladrão 'pop' Ronald Biggs, com Paul Cook e Steve Jones, nas praias do Rio

Era o último e decadente suspiro de uma banda que começara até autêntica, mas afundou na canalhice de seu empresário oportunista e interesseiro, disposto a espremer o suco envolvendo o nome "Sex Pistols" até o fim, no último bagaço. "Rock n' Roll Swindle" não conta nada da verdadeira história do grupo, é um mockumentary (falso documentário), e tem, além de tudo, aquele clima de produção camp e barata, com cenas sem grande acabamento: apresenta um fiapo de roteiro e uma trama absurda e sem pé nem cabeça, idealizada por McLaren, com várias sequências toscas de animação, personagens bizarras e figuras sadomasoquistas tentando dar golpe nos Sex Pistols, tudo feito num pretenso amadorismo e desleixo desde que o projeto começou sob a tutela de Russ Meyer, lendário diretor americano de filmes B, mas que brigou com McLaren e jogou a toalha assim que descobriu que a conta de eletricistas e cameramen do estúdio não foi paga, causando um boicote da equipe no set já no primeiro dia de filmagem. Sobrou para o conhecido diretor dos primeiros videoclipes dos Pistols, Julien Temple, assumir a direção e tocar o desastre adiante. As filmagens em que John Lydon aparece cantando, bem como as que o baixista original do grupo Glen Matlock toca no palco, são todas cenas de arquivo, utilizadas sem o consentimento dos mesmos - que obviamente entraram com processos depois em cima de McLaren e da produtura do filme, para receber o que lhes era devido.

Mas a cena fundamental e mais lembrada dessa obra-prima da sem vergonhice é a antológica sequência de Sid Vicious cantando a versão punk de "My Way", do Frank Sinatra.

- Abril e maio de 1978: Este é o período que Sid Vicious passa em Paris, na França, para onde foi enviado por McLaren para gravar as suas cenas de participação no filme. Foi alugado um grande salão com plateia contratada, para rodar a cena em que ele entra no palco com uma voz zombeteira, tal qual um crooner decadente, fazendo as suas famosas caretas com a boca puxada e cantando as primeiras linhas de "My Way" sobre um fundo orquestral suntuoso, para logo em seguida entrar o acompanhamento punk rock dos Pistols e tudo descambar pro relaxo, com Sid cantando no melhor estilo Johnny Rotten, e encerrando tudo com um aloprado tiroteio contra o próprio público do show, numa performance que se tornou emblemática: era a síntese do punk, atacando e matando seus próprios fãs. A voz de Sid era boa - melhor ainda do que ele no baixo - e caso ele não fosse tão "vida loka", é provável que tivesse conseguido seguir mais algum tempo adiante com o teatro de McLaren e os Sex Pistols restantes. 

A famosa cena de Sid metendo tiro, depois de cantar "My Way"

Mais algumas cenas foram rodadas com Sid: dele no seu quarto de hotel, passeando pelas ruas de Paris e roubando croissants para comer, e pilotando uma motona, e seriam utilizadas em clipes de algumas músicas que ele gravaria para um pretenso futuro disco solo, como "C'mon Everybody", cover de Eddie Cochran, ídolo da geração pioneira do rock dos anos 50, que Sid venerava. No final de maio, ele e Nancy voltam para os EUA, onde ele passaria um temporada no bar Max's Kansas, de New York, fazendo erráticos shows com músicos convidados, como Mick Jones (The Clash) e Jerry Nolan (ex-New York Dolls), onde terminava invariavelmente cambaleando e caindo do palco, de tão chapado. Isso aconteceu apenas alguns poucos meses antes do episódio fatal com Nancy.

- Junho de 1978: O compacto contendo "No One is Innocent" e "My Way" é lançado na Inglaterra sob o nome Sex Pistols, e vai bem nas paradas, obrigado, mantendo o nome da banda em evidência, e saciando um pouco a fome da geração punk que ainda esperava mais material do grupo - haviam lançado apenas um único LP antes do seu fim! McLaren festeja, e John Lydon xinga e detesta, preparando o seu retorno de vingança.

O PiL (Public Image Limited), de John Lydon

- Setembro de 1978: No final do mês, Lydon enfim lança o single "Public Image", resultado do seu novo projeto - o PiL. Com um som totalmente diferente do que os Sex Pistols faziam, é bastante elogiado pela crítica, e Lydon tem a sua revanche e sobrevida afinal, ganhando novos fãs a partir de então. Mesmo após várias reformulações, ele segue até hoje com o grupo.

- Outubro de 1978: No dia 12, o corpo de Nancy Spungen é encontrado sem vida, e ensanguentado, no banheiro do quarto em que ela e Sid estavam morando, no Chelsea de New York. Tudo indicava que fora homicídio, com cortes feitos por uma grande faca de caça. Sid ligou para a polícia pedindo ajuda, por volta das 10 horas da manhã, e disse que não entendia o que aconteceu, possivelmente grogue pelo uso de substâncias na noite anterior. Se enrolando em seu controverso depoimento, alegando não se lembrar de muita coisa da noite passada, disse que eles brigaram, e que ele poderia supostamente ter a esfaqueado, mas não a matou. Sid complica sua vida e vai preso, tido como o principal suspeito pela polícia, que colhe depoimentos de testemunhas que falaram ter ouvido muitos gritos do casal, em fortes discussões no dia anterior durante uma festa que deram para amigos no quarto do hotel, e também os gemidos de Nancy de madrugada, como se estivesse pedindo socorro - o que era uma constante, dado o atribulado relacionamento deles. 

A 'mugshot' de Sid Vicious

Logo, no entanto, a pedido de Malcolm McLaren junto à gravadora Virgin (e também com uma ajudinha de Mick Jagger, dos Rolling Stones, que se disponibilizou a pagar parte da fiança), advogados entraram com uma defesa para Sid e conseguiram soltá-lo. A tese passou a apontar que Nancy poderia ter sido morta não por Sid, mas sim por algum traficante a quem ela devia dinheiro, ou algum ladrão que entrou no apartamento deles sorrateiramente após a festa, para roubar o dinheiro que eles guardavam em uma cômoda, e que poderia ter sido flagrado por Nancy. 

Sid e John, em foto de 1977

- Novembro de 1978 a janeiro de 1979: Apesar de estar em liberdade novamente, a vida de Sid é um calvário sinuoso de situações típicas de um junkie irrecuperável: enquanto aguarda o julgamento em liberdade, obrigado a comparecer periodicamente na unidade de homicídios da polícia de New York, bem como a visitar centros de aplicação de metadona para recuperação de drogados, ele tenta inutilmente concentrar esforços para ensaiar material a ser gravado para o seu tão esperado primeiro disco solo (que deveria sair no natal de 1978), não consegue, e ainda arranja confusão com o irmão da cantora Patti Smith, Todd, em uma noite na boate Hurray, cortando seu rosto com uma garrafa quebrada após tentar flertar com a namorada de Todd. Mais encrencas com a justiça, mais audiências de tribunal, até que...

- Fevereiro de 1979: No dia primeiro deste mês, Sid Vicious é encontrado morto, ao lado de uma seringa antes repleta de heroína, que ele injetara na noite anterior. Morreu sem ser julgado, e levando consigo o mistério da morte de Nancy, que nunca será resolvido. Era a afronta derradeira do cara eleito por muitos como o "símbolo" máximo do punk rock. Sendo ele e o ex-Rotten John Lydon as figuras centrais daquela hecatombe sonora e comportamental que pôs abaixo todas as estruturas e convenções do rock de então, agora era caminho sem volta mesmo: Sex Pistols nunca mais.

- Prólogo: Todo o ano de 1979 se passou, e a "grande última trapaça" de Malcolm McLaren, o tão alardeado filme dos Sex Pistols produzido por ele, não fora lançado! Problemas de pós-produção e distribuição atrasaram muito a estreia de 'The Great Rock n' Roll Swindle', que só foi chegar mesmo nas salas de cinema no ano seguinte, em abril de 1980.

Aí o mundo já era outro, o punk rock e a disco music já tinham dobrado a esquina, sensações novas como a new wave de bandas como Talking Heads, Blondie, Joy Division e outras já tinha jogado a pá de terra na cara do pessoal da década passada, e o "movimento rebelde" daquela galera de couro, tachinhas e cabelo espetado já se encontrava devidamente digerido, empacotado e domesticado pela mídia mundial, não era sensação e não surpreendia mais ninguém. Resultado: o filme de McLaren foi um fiasco nas bilheterias, e se tornou uma mera curiosidade, cápsula do tempo pitoresca e cult de mais uma revolução jovem que ficou pra trás.











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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

GRANDES MOMENTOS INESPERADOS DO ROCK

  
Keith Emerson e Greg Lake, do supergrupo Emerson, Lake & Palmer


Não é de hoje que o rock é conhecido como um gênero de música rebelde, mais "doidão", apesar de muito do impacto das loucuras de suas lendárias figuras já ter sido bastante absorvido pelo mainstream e a mídia, em geral, tratá-lo hoje com um respeito similar ao já tipicamente dispensado a outros gêneros, como o jazz, o reggae, a música clássica, e até mesmo o samba. 

Existem os limites extremos da violência e agressividade social, que nunca serão  bem digeridos, como nos radicais casos do mítico punk americano (já falecido) G.G. Allin, e nos episódios de vandalismo e assassinato das bandas norueguesas de black metal, o caso Burzum / Mayhem, mas são fatos categorizados noutro patamar, que tem mais a ver com distúrbios psicóticos e de natureza realmente dissociativa e criminal.

O que vamos explorar aqui hoje são 10 momentos - inóspitos, bizarros, surpreendentes, e engraçados até - em que grandes estrelas dessa música que amamos foram um pouquinho longe demais, na tentativa de conseguirem êxito, atingirem seus objetivos, ou se darem bem em suas carreiras. Algumas vezes funcionou... Mas em outras, simplesmente causaram perplexidade, espanto, ou apenas algumas risadas.


1 - A falsa separação do Genesis

Genesis: a banda que acabou, mas não acabou

Um dos baluartes do rock progressivo teve um início de carreira bem complicado: os britânicos do Genesis, tendo o icônico Peter Gabriel à frente como vocalista, se reuniram lá no final dos anos 60 e, ainda meio sem saber que rumo tomar na carreira, e também meio presos ao estilo pop comercial e meio barroco que a maioria dos grupos ingleses com algum sucesso nas paradas faziam naqueles dias, topou um agenciamento (com contrato para gravação) com Jonathan King, cantor que tinha alguns êxitos no hit parade inglês e que estava começando a se firmar como empresário. Graças a ele, o Genesis gravou em 1968 o seu primeiro LP, o hoje cultuado From Genesis to Revelation, deveras diferente do estilo super progressivo que desenvolveriam depois, e bastante calcado em melodias simples e suaves, quase como se fossem uma sucursal dos Bee Gees

Jonathan King

No entanto, além de não terem gostado muito do resultado final, o disco foi um fracasso de vendas, o que irritou profundamente o pessoal do Genesis e todo aquele direcionamento que King queria dar à banda, insistindo para que continuassem e gravassem mais material naquele estilo. Resultado: o Genesis se revelou um dos grupos mais "malas" do rock em seu início, e conseguiu a primazia de se tornar uma das únicas bandas na história do rock a passar a perna no seu empresário, ao invés do contrário - eles fingiram que estavam se separando e mentiram para King, desmarcando várias datas, e arrumando desculpas de outros compromissos e atividades diversas, com outros músicos e pessoas. Assim, conseguiram uma rescisão de contrato, e se viram livres das exigências de King. E qual não foi a surpresa do cara ao ver, algum tempo depois, o grupo tocando novamente e se tornando um dos maiores representantes do gênero progressivo? Até hoje, King reclama da situação, reivindicando para si direitos sobre o nome da banda, e que não teria recebido devidamente por todos os seus serviços enquanto manager do grupo.


2 - A pirraça de Neil Young em Woodstock

Crosby, Stills, Nash & Young, em Woodstock (1969): 
Young é o cara de óculos escuros, na lateral direita

A banda Crosby, Stills, Nash & Young, formada só por feras que já vinham de outros grupos famosos dos anos 60, estava iniciando suas atividades quando foi chamada para subir ao palco do lendário Festival de Woodstock, que ocorreria em agosto de 1969. Um dos seus maiores destaques era justamente o último nome que se juntou à formação, o guitarrista e cantor canadense Neil Young, egresso do bem sucedido grupo Buffalo Springfield. Entretanto, a fama de nervoso que Young já carregava desde seu outro conjunto comprovou ser totalmente verdadeira em Woodstock: como o evento todo seria filmado para ser lançado como um mega-filme documentário que correria o mundo logo depois (inclusive ganhando o Oscar), todo o palco estava repleto de câmeras e equipamentos de filmagem, o que irritou o músico de cara, assim que ele chegou. 


Enquanto os outros membros, ainda que acanhados e meio sem jeito com toda a situação, tentavam relaxar e fazer a sua apresentação normalmente - nunca tinham encarado uma estrutura de filmagem tão grandiosa e tão próxima dos músicos, enquanto tocavam - Young simplesmente ficou virado no jiraya, deu um esporro federal em toda a equipe de filmagem, dizendo que aquilo era uma "ofensa" contra a arte, que intimidava a banda e estragava o contato dela com o público, e ainda ameaçou um dos câmeras mais insistentes com uma "violãozada" nas ideias, caso ele ousasse se aproximar. Resultado: a performance do CSN&Y que aparece no filme Woodstock mostra todos os músicos performando na legendária noite do show deles no festival, exceto Young. Curiosidade: até hoje se especula se um dos cameramen ameaçados não seria o grande cineasta Martin Scorcese, que ainda bem jovem e começando carreira, trabalhou ativamente em quase todas as filmagens dos concertos e da plateia de Woodstock, bem como na montagem do filme.


3 - David Gilmour: técnico de som de Jimi Hendrix na Ilha de Wight

David Gilmour

Essa pouca gente sabia: David Gilmour, o guitarrista do Pink Floyd, fez um bico como técnico de som improvisado para ninguém menos que o lendário Jimi Hendrix, nos idos de 1970. Durante uma folguinha do Pink, Gilmour foi até o Festival da Ilha de Wight para curtir alguns dos concertos, incluindo o de Hendrix, que ocorreria em 31 de agosto daquele ano - infelizmente, uma das últimas e mais lembradas apresentações de Hendrix, quer morreria no mês seguinte. Evento portentoso e repleto de atrações, o Isle of Wight era a versão inglesa do festival de Woodstock, e um dos técnicos de som contratados para o show de Hendrix era Peter Watts, figura que trabalhava para o Pink Floyd como assistente, mas que era meio louco, e encarava qualquer trampo para faturar um extra. Naquela noite, apavorado e vendo que Gilmour estava por perto para ver o show, Watts foi correndo até ele, e implorou por sua ajuda: "Dave, vem cá. Precisamos da tua ajuda, cara! A mixagem para o Hendrix não tá dando certo, dá umas dicas pra gente." 

Jimi Hendrix

De repente, Gilmour se depara com uma mesa e um set enorme de controles de P.A. da WEM Soundmasters, tido como o único na época capaz de dar conta da barulheira e microfonia que envolviam o show do maior guitarrista de todos os tempos. "Eu sempre fui interessado por tecnologia de som, e como eu já tinha alguma experiência mexendo naquilo para os shows do Pink Floyd, fui ajudar Pete e os outros caras, que estavam terrivelmente confusos para equalizar tudo", disse Gilmour lembrando daquela loucura, alguns anos depois. "Fiz o que pude, mas no início foi uma confusão até ajustarmos o console, não foi fácil". E assim, Gilmour atuou como técnico do som de palco para Jimi Hendrix naquela noite, e ainda teve a chance de conhecer pessoalmente a lenda, pouquíssimo tempo antes de Hendrix partir dessa para outra.


4 - Os "erros agradáveis" de Brian Wilson

Já é amplamente sabido que o mais prestigiado álbum gravado pelo grupo americano Beach Boys, até hoje, o quintessencial Pet Sounds (1966) foi, na verdade, muito mais uma ideia solo, central e revolucionária, do verdadeiro gênio da banda, o seu excêntrico líder, compositor, vocalista e baixista Brian Wilson. E também que, confuso num turbilhão de substâncias químicas, esquizofrenia e paranoia, ele deixou de excursionar com a banda, para se concentrar apenas nas gravações e obras de estúdio. Assim Wilson resolveu comandar integralmente o registro do disco com a participação de outros músicos, cabendo aos outros Beach Boys apenas comparecer para dar contribuições vocais posteriormente, e completar um ou outro trecho com instrumentos. 

O resultado foi que quem gravou praticamente 98% do álbum, tirando as partes de vozes, foi o pessoal do Wrecking Crew - uma renomada equipe de músicos profissionais de estúdio, que nunca apareciam, ficavam só nos bastidores e nem eram creditados na maioria das vezes, mas eram contratados para gravar praticamente TUDO e com todo mundo que aparecia na cena pop dos EUA durante todos os anos 60 e boa parte dos 70. Pirando a batatinha direto, e livre das amarras de estilo e palpites dos companheiros dos Beach Boys, Wilson se entregou a uma total imersão no estúdio com o Wrecking Crew, dando vazão a suas ideias mais exóticas e arrojadas, na intenção de tentar reproduzir em canções a "música diretamente vinda do Universo" que a sua tresloucada mente captava. Nesse sentido, o que se viu foi uma autêntica ruptura com os padrões do rock e do pop da época, utilizando nuanças eruditas, colagens sonoras, dissonâncias, acordes inusitados, instrumentos incomuns, e jogando tudo isso num balaio considerado desafiador pelos próprios Beatles, embasbacados com o que ouviram assim que Pet Sounds saiu: Paul McCartney, o mais impactado pela experiência, puxaria o nível de seus colegas para elevar artisticamente os Beatles em obras como Revolver (1966) e Sgt. Pepper's (1967), discos seguintes dos rapazes de Liverpool. 

Brian Wilson em 1966, comandando as sessões de 'Pet Sounds'

Mas o que poucos sabem é que, na miríade de inspirações que Wilson tinha no estúdio enquanto criava as músicas do Pet Sounds, os próprios equívocos, ensaios ou escorregadelas da galera do Wrecking Crew, enquanto testavam as músicas, serviam de estopim para novas ideias. Um sequência de notas tocadas por Larry Knechtel (tecladista) no piano, enquanto se aquecia, chamou tanto a atenção de Wilson, que ele insistiu para que o músico a repetisse diversas vezes, e foi utilizada na criação de "I Know There's an Answer" - a despeito de Larry afirmar que ele estava procurando um determinado acorde e não estava acertando, Wilson bateu o pé para ele manter e tocar daquele jeito, pois era um "erro agradável". Além disso, a tendência da lendária baixista do grupo, Carol Kaye, de gravar seu instrumento sempre utilizando uma palheta, apesar da mesma comentar que isso não soaria muito bem em algumas faixas, foi encorajada por Wilson (colega de instrumento), visto que ele queria um som mais forte e pulsante, como o "som de um coração". 

O pessoal do Wrecking Crew nas gravações do disco - em destaque, a exímia baixista Carol Kaye



5 - A fita misteriosa dos supostos Beatles

Era maio de 1968 quando um dos acontecimentos mais inusitados da história do rock aconteceu: fitas master de uma música recentemente gravada foram deixados dentro do guarda-volumes de uma estação ferroviária em Londres. A chave e uma carta misteriosa foram enviados para a redação do Daily Mirror, um dos jornais britânicos de maior circulação na época. A carta continha instruções para buscar as fitas, e dizia que, caso a música atingisse a parada das 10 mais no Reino Unido, o nome da banda que a tocava seria revelado. O nome da canção em questão era "We Are the Moles", e o som era muito, mas muito parecido com o dos Beatles.

The Beatles 

Durante um bom tempo, portanto, se acreditou que aquela era uma gravação da banda de Liverpool lançada de um jeito diferente, para causar hype, mas o problema era que, após tocar algumas vezes nas rádios, a música não foi tão bem aceita, não entrou nas paradas, e logo a tal estratégia de divulgação se tornou um verdadeiro fiasco. Com o tempo, jornalistas mais espertos descobriram que os tais "The Moles", responsáveis pela gravação, foram o grupo pop inglês Simon Dupree & The Big Sound - de relativo sucesso na época, e que alguns anos depois, se transformariam na banda progressiva Gentle Giant, com a troca de alguns integrantes. A descoberta se deu com o fato de que junto das fitas foi encontrado um selo da Parlophone, mesma gravadora que lançara os primeiros discos dos Beatles na Inglaterra, mas que tinha agora vários outros grupos contratados que tentavam emular e repetir o sucesso de John, Paul, George e Ringo - sendo que o Simon Dupree era um deles.

Foi uma interessante tentativa de golpe publicitário, mas não deu certo.

Gentle Giant


6 - As balinhas M&M do Van Halen

Van Halen

Durante a sua fase de ouro inicial, com Dave Lee Roth como vocalista, o famoso grupo Van Halen se tornou conhecido por uma exigência nada comum em suas listas contratuais de pedidos para realizar shows - dentre os itens de camarim, estava "um jarro de M&M mas sem M&M de cor marrom"... Mas por que, cargas d'água, a famosa balinha de chocolate, uma verdadeira mania norte-americana, não podia ser oferecida à banda na cor marrom? Alguma espécie de superstição, ao estilo do cantor brasileiro Roberto Carlos? Nada disso: a exigência das balinhas M&M era um dos artifícios mais matreiros do Van Halen para saber se a equipe de produção que havia os contratado estava realmente lendo, prestando atenção e seguindo à risca todas as demandas da banda para realizar seus concertos, visto que eram perfeccionistas e atentos a todos os detalhes para garantir que tudo ocorresse bem. Junto aos itens de camarim, estavam outros importantes inclusive para a segurança dos artistas: na cláusula de nº 148, por exemplo, estava a descrição do tamanho e peso de montagem do palco, o que dependendo das condições do local onde fossem realizar o show, poderia comprometer toda a estrutura e até mesmo desabar. E isso de fato aconteceu em pelo menos uma célebre ocasião: um um show na University of Colorado, em 1980, os caras da banda viram nos camarins que a jarra de M&M estava lá, mas não haviam sido retiradas as balinhas da cor marrom. Se recusaram a subir no palco para fazer a apresentação. Algumas horas depois, a estrutura toda cedeu e o palco desceu, com caixas de som e tudo, causando um prejuízo adicional de 85 mil dólares. Quem diria - Van Halen, salvos pelas balinhas M&M.

M&M


7 - Metallovers: o "amor" no metal

Essa aconteceu em 1981, numa turnê conjunta entre as icônicas bandas britânicas de heavy metal Judas Priest e Iron Maiden (ainda com o seu primeiro vocalista, o saudoso Paul Di'Anno). O vocalista do Judas, o lendário Rob Halford, ainda não tinha se assumido homossexual - os tempos eram outros, o preconceito ainda era intenso, e Halford ia se ajeitando nessa condição como podia, discretamente e bem na surdina. Em uma das noites após um show em Glasgow, os músicos de ambos os grupos foram dar aquela relaxada em um pub, e óbvio, rolaram aquelas 'pints of beer' a mais que deixam todo mundo mais solto e animado. Os vocalistas de ambos os grupos engataram uma conversa que foi rolando até mais tarde, e na hora de voltarem para o hotel, ops... Di'Anno convidou Halford para ir até seu quarto, para mostrar alguns itens e presentes de fãs que ele havia ganho. E Halford até pensou que ele iria mostrar algo mais. Mas, como Halford contaria recentemente: "oh dear, não, eu me enganei, pois quando sugeri algo e tentei, ele não gostou muito e tivemos um pequeno desentendimento. Acho que não era a praia dele mesmo!". Depois, fizeram as pazes e continuaram sendo bons amigos, pelo restante da turnê. Mas o amor... esse teve que ficar concentrado só no heavy metal mesmo.

Paul Di'Anno


8 - As demissões furiosas dos Byrds

The Byrds

Uma das respostas americanas aos Beatles (assim como os Beach Boys), o grupo de grande sucesso nos anos 60 The Byrds teve alguns episódios conturbados em sua época de maior sucesso, em que enfrentou a baixa de alguns de seus membros mais importantes. Gerenciado com mão de ferro pelo guitarrista e vocalista Roger McGuinn, que ditava as regras da banda em termos de sonoridade folk rock, em gravações e turnês, teve a sua primeira dissidência com a partida do genial vocalista e compositor Gene Clark, até hoje lembrado como uma das peças essenciais no som deles em sua fase inicial. A demissão de Clark é tida até hoje como uma das mais cruéis da história do rock: na turnê de 1966 da banda, eles estavam prestes a embarcar em um avião em Los Angeles, mas Clark, que passara a desenvolver uma grande fobia (na época, a síndrome do pânico ainda não era diagnosticada), com crises de ansiedade e um medo terrível de voar, estava titubeando e não conseguia subir a bordo. Ele chegou para McGuinn e disse: "É, eu acho que não consigo ser um 'pássaro' (a palavra bird, em inglês, que havia sido adaptada para o nome da banda), pois estou com medo de voar". Ao que McGuinn respondeu, da maneira mais fria possível: "Ora, então você não é." E deu a ordem para o grupo inteiro embarcar e deixar Clark lá, para trás. Gene Clark foi então dispensado do grupo.

Gene Clark

A outra baixa ocorreu no ano seguinte, em 1967, logo após a participação do grupo em um dos mais famosos festivais de todos os tempos, o Monterey, na California. Na noite em que os Byrds tocaram, o popular e carismático David Crosby, com quem McGuinn dividia as guitarras e harmonizações vocais no grupo, estava tão chapado e doido com conspirações políticas envolvendo a morte de John Kennedy, a guerra fria, e outros lances sobre a revolução juvenil de "paz e amor" que pairava no ar, que ele simplesmente não parava de falar e discursar entre as músicas. O cara estava simplesmente alucinado, rindo e falando sem parar entre cada canção, basta dar uma olhada na gravação do show deles, hoje já disponível digitalmente! Sentindo o seu protagonismo ser ameaçado, e não gostando nem um pouco da vibe em que Crosby estava, transformando os shows dos Byrds em eventos políticos e panfletários (isso aconteceria em mais duas outras apresentações depois), McGuinn conversou com o empresário do grupo, e as negociações foram feitas para desligá-lo dos Byrds. Mas Crosby não ficou só na conversa hippie, e nem pensar que caiu fora de mãos abanando, de modo algum: se tornou notória a indenização que ele exigiu dos Byrds, mais royalties atrasados, o que gerou uma gorda soma em dinheiro com a qual ele comprou o famoso barco veleiro que ele adaptou como uma "residência sobre as águas", e no qual ele ficou morando durante os próximos anos. Logo em seguida, ele formaria o supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young (já citado no início desta postagem - ele é o Crosby do título), de grande sucesso. E o resto é história. Para ele foi lucro vazar dos Byrds, se saiu melhor do que Gene Clark nessa.

David Crosby


9 - O ferrorama gigantesco de Rod Stewart

Rod Stewart

Grandes astros devem ter grandes excentricidades. Esta é praticamente uma lei não escrita. Assim sendo, o que Rod Stewart passou a fazer assim que atingiu um certo patamar de sua carreira, nos anos 70, é uma daquelas coisas com a intenção de realmente deixar todo mundo meio que, digamos, boquiaberto. Para quem é da época dos idos de 1970-1980, se lembra bem que, naquele período, ficaram muito populares entre a criançada aqueles brinquedos de montar pistas de automobilismo com carros de corrida (os autoramas) bem como ferrovias com trenzinhos (os ferroramas), kits que aqui no Brasil eram fabricados e comercializados pela Estrela, e se tornaram bem famosos. 

O velho Ferrorama, da Estrela

Eu mesmo era apaixonado naquilo e vivia querendo ganhar um Autorama - ao que nunca consegui, mas também graças a Deus que foi assim, pois aquilo era um dinheirão na época, e me conhecendo hoje, muito provavelmente eu iria montar e logo me enjoar daquilo para em seguida ficar largado, jogado num canto. A questão é que, lá nos domínios nórdicos/escoceses de Mr. Stewart, havia uma empresa que a pedido dele, passou a disponibilizar peças para ele realizar seu grande desejo: montar um ferrorama gigante, talvez o maior que já havia existido até então. Entre turnês e shows, e transportando partes da coisa para se divertir montando nos quartos de hotéis, Rod Stewart foi aos poucos criando o que ele posteriormente batizou de "Grand Street and Three Rivers City" - não um simples ferrorama, mas uma obra que levou mais de 26 anos sendo construída, e que formava um grande cenário, nos moldes de uma cidade no estilo dos anos 40, por onde o trenzinho passava e tudo mais. Essa grande maquete, adornada por miniaturas adicionais de paisagens com vegetação, fiação de casas e prédios, e diversos detalhes meticulosos, passou a ocupar 370 metros quadrados da casa do cantor em Los Angeles, e posteriormente seria transportada para a Inglaterra, onde chegou a ficar algum tempo em exposição. Stewart alegava, em entrevistas, que o seu megalomaníaco hobby era a única coisa que conseguia fazê-lo realmente se concentrar e ocupar o seu tempo de maneira saudável, durante as turnês.

Rod Stewart e sua espetacular obra de ferromodelismo


10 - A extravagância nos shows do Emerson, Lake & Palmer

Emerson, Lake & Palmer

E falando em exageros, nesse quesito provavelmente ninguém poderia chegar na altura de um dos grandes combos do rock progressivo nos anos 70, que era o famigerado trio Emerson, Lake and Palmer. Em certo momento, passaram a ser apelidados de "os imperadores romanos do rock" - tamanhas pompa e circunstâncias suntuosas que cercavam todas as suas produções, fossem os caros discos de estúdio ou as turnês nababescas que produziam. Alguns episódios pitorescos que marcaram a história deles: 

1) Durante a sua primeira grande turnê europeia, de 1971, o tecladista e líder do grupo Keith Emerson, acostumado a fazer malabarismos e pirotecnias no seu instrumento, certas vezes ateando fogo nele como se fosse um Jimi Hendrix dos teclados, alongando e criando efeitos nas notas com sonoridades densas e assustadoras, inventou de carregar consigo facas alemãs nazistas que ele costumava fincar entre algumas das teclas para segurar o som das notas, enquanto dava tempo dele percorrer o palco para tocar outro teclado ou praticar alguma sandice qualquer. Detalhe: ele havia comprado esses artefatos legítimos de ninguém menos que Lemmy Kilminster, o futuro frontman da banda Motorhead, um eterno aficionado pela cultura da Segunda Guerra Mundial, e que na época era ainda baixista do grupo inglês Hawkwind. 

Greg Lake

2) Na turnê americana de 1973, o vocalista e baixista Greg Lake inventou de exigir da produção dos shows que, aonde quer que fossem tocar, um imenso e luxuoso tapete persa vermelho do século 19, de sua propriedade, fosse colocado na parte do palco onde ele se posicionava. Ou seja, deveriam literalmente estender o tapete vermelho por onde ele passasse. Com o tempo, incomodado com os comentários alheios de gente chamando ele de "fresco" sem parar, ele passou a argumentar que era a melhor forma de esconder todo o cabeamento dos equipamentos de som que a banda utilizava.

Teclado pegando fogo no palco: resultado de uma das proezas de Keith Emerson

3) Essa foi de literalmente virar a cabeça: na mesma turnê de 1973, Emerson inventou um momento cenográfico em que o set do teclado dele simplesmente flutuava, sendo suspenso por cabos no ar, com ele junto tocando. Como a probabilidade dessa loucura de dar ruim era alta, obviamente deu - em um dos shows, um dos cabos se soltou, deixando parte do teclado despencada de um lado, enquanto Emerson ficou agarrado a ele e balançando no ar, tendo machucado o seu ombro direito no incidente. Por pouco não foi tudo para o chão, desabando ele com o teclado encima dele, e depois disso não se teve mais notícias da execução desse número absurdo no palco. Provavelmente, uma vingança dos deuses do rock por Emerson ter barbarizado e queimado tanta tecladeira nos anos anteriores a essa arriscada peripécia...


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Bom, pessoal, então é isso aí... Mais um Natal que se avizinha, mais um ano que chega ao fim. O blog aqui gostaria de agradecer toda a atenção e força que você, que nos prestigia sempre, com sua valiosa visita e leitura por aqui, nos concedeu durante todo este 2025, que está na reta final. Não poderíamos desejar nada de mais importante a você do que todas as bênçãos e felicidades do mundo, muita paz, amor, momentos bons com as pessoas que você curte e realizações gratificantes, com muita prosperidade para o ano que vem, e acima de tudo, SAÚDE - o bem mais precioso que temos além de nossas próprias vidas, sem ela a gente não é nada. 

Tudo de bom, um excelente final de ano, e nos vemos em 2026! 





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