domingo, 2 de agosto de 2026

ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS PARA O CINEMA: UM TABU?

Neste momento, início de agosto de 2026, o mundo ainda vive o alarde em torno do novo épico dirigido por Christopher Nolan, que é mais uma adaptação (dentre outras já feitas para o cinema) da obra do grego Homero, a colossal A Odisseia. Dessa vez, quem interpreta o rei guerreiro Odisseu, em suas incríveis aventuras para voltar ao lar (a Ilha de Ítaca), após participar da famigerada Guerra de Troia, é Matt Damon, acompanhado de um elenco mega estelar: Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Charlize TheronRobert Pattinson etc. E não deu outra: o filme já é campeão de bilheteria e postulante a Oscar no ano que vem.

Como sempre faço e acho prudente, não sou dado a resenhar ou tecer críticas e comentários a respeito de obras do cinema, música ou literatura, assim que são lançadas. Habitualmente considero o tempo um "senhor da razão", que ajuda a guiar as melhores percepções acerca do gênio e atmosfera realmente preponderantes em uma concepção artística, gerando o distanciamento necessário para avaliar ou julgar bem qualquer título que seja, sem os calores (e clamores) da emoção do lançamento. É atitude que já fez até que eu fosse cobrado, em outras ocasiões, sobre o porquê de não fazer postagens aqui no blog, dando meu parecer sobre certos lançamentos. Raramente o fiz - e quando o fiz, acho que não ficou tão bom, o que me compele a certo revisionismo. 

Assim sendo, sobre o filme de Nolan, não irei me aprofundar, mas apenas dizer agora que, como obra cinematográfica, é um arroubo audiovisual. Tecnicamente falando. Sim, que espetáculo! Atendendo aos parâmetros de exigência e perfeccionismo, que já se tornaram uma referência na carreira do cineasta, simplesmente não há o que reclamar ou se repreender nesse aspecto - como disse alguém por aí esses dias, "cada geração de diretores tem o Stanley Kubrick que merece", e esse parece ser um tipo de comparação válida, ao menos no quesito de esmero com a cinematografia. Nolan é de fato um artesão de imagens, em uma época já por demais viciada em vícios de filtro, sons padronizados e CGI, onde os estúdios parecem não se preocupar muito com técnicas de filmagem reais, viscerais ou mais rebuscadas. O que vale é a economia, digitalizar tudo para gastar menos e faturar mais. E dá-lhe comércio: fast food de super-heróis e fitas de ação congêneres, pra encher os cinemas de efeitos visuais canhestros e baldes temáticos de pipoca bizarros! Nolan não se preocupa com isso. Gastar - com arte de verdade - não é problema para ele. É solução.

Mas existem outros aspectos artísticos a serem considerados em seu filme, mais no sentido de conteúdo do que de forma. E que vão desde a questão do trabalho de interpretação dos atores, o processo de desenvolvimento da narrativa (Nolan continua bem fiel à não linearidade em seus filmes), até o estilo de adaptação que foi utilizado para traduzir para as telonas o grandioso poema épico que é A Odisseia, influente para toda uma enorme parte da cultura mundial contemporânea. E esse ponto - o da adaptação - é o que mais incomoda os críticos da obra, desde a sua primeira exibição nos cinemas. Não é a questão de aspectos filosóficos, que também tem sido criticados por estudiosos da obra de Homero - sobre isso, se trata de uma discussão mais profunda, que é delicada devido ao fato dos roteiros de cinema, convenhamos, raramente serem realizados por acadêmicos do ramo.

Mas sobre a questão da adaptação em si, vamos lá então, dedo na ferida, doa a quem doer: aqui penso que este é o ponto onde, de fato, uma boa parte dessas críticas está me parecendo deveras enfadonha. Aqui sim, deveriam se privar de certas opiniões, e se afastar da obra, aguardar um certo tempo, voltar a ver, e apenas então, tecerem suas considerações. Com maior distanciamento. Pois o 'zeitgeist' domina e às vezes entorpece as nossas percepções, deturpando certos valores e critérios. E algumas críticas, revisitadas tempos depois, podem soar contaminadas, ou mesmo medíocres.

O ciclope Polifemo em 'A Odisseia', de Nolan - 
"ah, mas no livro Odisseu combate o ciclope na base da conversa"... Tá. E daí?

Tenho lido de tudo sobre os pretensos "erros da Odisseia de Nolan": desde capacetes que não deveriam estar lá, e gente que mudou de etnia, até como os deuses do Olimpo não interagem diretamente na trama - "que absurdo!", dizem. Como se existisse alguma lei ou decreto em Hollywood de que toda adaptação de um livro para os cinemas devesse seguir um checklist de atendimento aos itens histórico-culturais do original. Ora... valei-me! Desde quando é assim? Penso que a palavra já expressa bem, não? Estamos diante de uma... ADAPTAÇÃO. É apenas isso. Nem mais, e nem menos. 

Liberdade criativa. Licença poética... Já ouviram falar? Fazem parte do jogo.

As reações de parcela da mídia (e das, afff... "redes sociais"), de horror e descrédito ao trabalho de Nolan no filme, por meras questões de adaptação, soam para mim, em uma considerável parte das vezes, imbecis - e não consigo pensar em outro termo mais adequado para as mesmas. Acho que ficar indignado e detratar uma obra como essa, simplesmente por não ser fiel a um padrão desejado de que ela estivesse mais próxima do original, é a mesma coisa que estar caminhando por uma estrada, olhar para o céu, e começar a ficar perplexo ou estarrecido pelo fato das nuvens estarem se mexendo. Entendeu?

Adaptações de obra para o cinema são diferentes desde que a sétima arte nasceu, e não há nada de errado com isso. Quem faz muita questão de obra original, que me desculpe: mas vá se ater ao livro, não assista nada e pronto, vida que segue. Em algumas ocasiões - e não são muitas - tivemos produções cinematográficas que preferiram prezar ou estar mais próximas das obras que as originaram. Alguns exemplos clássicos: O Poderoso Chefão (1972), do Coppola, que é bem fiel ao texto do Mario Puzo, em muitos momentos, e quem leu o livro pode confirmar; 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), do Kubrick - e olha aí, mais uma odisseia - que o cineasta rodou praticamente junto com a história de Arthur C. Clarke, ombreando com ele e até complementando (melhorando) muito do texto original; e, mais recentemente, a saga de O Senhor dos Anéis (2001-2003), do Peter Jackson, que é bem reverente, em contexto e narrativa, à obra de J.R.R. Tolkien (ainda que destoe em algumas passagens). Mas são, como eu disse, alguns casos.

O Senhor dos Anéis

Só para complementar, de modo a justificar as questões sobre as quais falo, segue aqui uma listinha de 10 adaptações cinematográficas que passaram bem, mas beeem longe, do quesito "fidelidade à obra original". O engraçado é que dessas não se falou tanto, na época do lançamento, quanto da de Nolan, por que será? (Não tinha internet e nem crítico de rede social na época, né). E veja que não são apenas essas: os casos são tão numerosos, que daria para escrever um livro sobre isso, e não caberia, jamais, em uma mera postagem de blog como essa. Mas já serve para quebrar o galho.

Preferi usar nessa lista uma paleta de filmes mais notórios e populares, que inclusive tiveram a autorização legal de seus autores para a realização, também evitando os casos de adaptações muito extravagantes, e que se afastaram da obra original até no nome, como o célebre Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola - que é bem meramente baseado na obra de Joseph Conrad, Heart of Darkness (Coração das Trevas). Também preferi não considerar as várias versões de obras de terror clássicas, que já são tradicionalmente mutáveis por natureza, como Frankenstein (de Mary Shelley) e Drácula (de Bram Stoker) - invariavelmente incluindo aqui os Nosferatu da vida, que a cada versão e refilmagem (1922, 1979, 2023 e 2024), foram alterando mais aspectos ainda, de acordo com a visão criativa dos seus diretores. 

Sente só:

- O MÁGICO DE OZ (The Wizard of Oz - 1939, de Victor Fleming):

A famosíssima e mais clássica adaptação de Hollywood dessa obra, almejando fazer um filme de fantasia musical a partir do livro de L. Frank Baum, mas que passou longe da narrativa original, onde a jovem Dorothy vai não para uma outra dimensão, um mundo de sonho provavelmente induzido após uma pancada na cabeça (como no filme), mas sim, para uma terra estranha e de verdade, onde ocorrem até mesmo situações tenebrosas envolvendo bruxas do mal e feitiçaria, com criaturas monstruosas e decapitadas - passagens dignas de um bom filme de terror. Hoje, todos sabem que os momentos de tensão do livro se refletiram não na história exibida nos cinemas em si, mas sim, no que ocorria por trás das câmeras: a estrelinha Judy Garland e os seus companheiros de elenco (que interpretavam o espantalho, o homem de lata e o leão covarde) passaram por abusos e apuros agoniantes causados pelo diretor e a equipe de produção durante as filmagens, que seriam dificilmente aceitos hoje em dia. Caso não conheça, as histórias sobre os bastidores pavorosos do filme estão por aí, em um sem-número de sites e vídeos online, basta conferir.


- ROMEU + JULIETA (1996, de Baz Luhrmann):

Aqui a liberdade artística pulou alto mesmo, se configurando numa extravaganza audiovisual típica do diretor Luhrmann (mais conhecido recentemente por sua cinebiografia Elvis, 2022), que chega a alterar o nome da obra original, para dar um tom mais "moderninho": ao invés de "Romeu e Julieta", do William Shakespeare, fica "Romeu plus Julieta" (Romeu mais Julieta), sacou? (só faltou rolar um  título com "2.0" no final, kkk). O que ele faz aqui, colocando os jovenzinhos Leonardo DiCaprio e Claire Danes nos papeis dos protagonistas da clássica e trágica história de amor proibido, é um delírio pop e instigante, com clãs que são gangues  rivais brigando pelo poder numa trama suburbana muito doida, falas cantadas entoando os versos do livro original, música techno rap, tirombaço de pistola e fuzil comendo, e uma montagem frenética, acelerada, sem dar trégua nenhuma para o espectador. Foi de fazer Shakespeare revirar no túmulo.


- FLASH GORDON (1980, de Mike Hodges):

Dessa vez, não uma adaptação de livro, mas dos clássicos quadrinhos do herói espacial criado por Alex Raymond para as tirinhas de jornais norte-americanos, lá nos idos de 1934. Ocorre que Flash já havia sido adaptado para os cinemas, e com muito sucesso, num cine seriado que dominou as matinês de 1936, interpretado pelo astro da época Buster Crabbe. Com o êxito estrondoso das empreitadas de filmes e seriados de TV com super-heróis passando a inflamar a garotada novamente, no final da década de 1970 e início de 1980 (especialmente os da DC, como a série da Mulher Maravilha, com Lynda Carter, e o Superman de Christopher Reeve, nos cinemas), o sempre antenado produtor Dino De Laurentiis resolveu apostar num velho sonho de reviver Flash Gordon para os cinemas. Mas eis que deu nisso aqui: a história do jovem e valente jogador de futebol americano Gregory 'Flash' Gordon, que se converte em um herói espacial que vai parar no planeta Mongo, e luta contra a tirania do seu Imperador Ming, ao mesmo tempo em que visa defender a amada Dale Arden, acabou se transformando em uma epopeia deliberadamente kitsch, digna do visual mais cafona e espalhafatoso que a época disco poderia urdir. Com um roteiro repleto de ideias que invariavelmente apresentavam veia cômica, foi um passaporte malfadado para o estrelato do ator iniciante Sam J. Jones, com uma juba loira de meter arrepio na época, e que a despeito de certa canastrice, não foi tão mal assim no papel - ainda que tenha quebrado o pau com Laurentiis e abandonado as filmagens antes do fim, forçando a produção a criar uma dublagem de voz para o personagem. Quem rouba a cena interpretando o vilão Ming é o lendário Max Von Sydow, e para ajudar no clima de algazarra geral, ainda tem a trilha sonora vigorosa do Queen, que ajudou a dar uma moral pro filme. Entre mortos e feridos nesse festival de exageros e breguice, dá para dizer que salvaram-se quase todos: hoje, Flash Gordon tem uma notável aura de filme cult (mais sobre filmes cult aqui).



- MOBY DICK (1956, de John Huston):

Mais um exemplo de como o mundo do cinema sempre subverteu obras literárias aos seus caprichos, alterando certas narrativas: em Moby Dick não há tantas mudanças em relação aos personagens e suas perspectivas, mas sim, em relação ao ritmo e o modo como a história se desenvolve, desviando totalmente o foco para o que era o interesse dos produtores na época: um filme de ação mais centrado na obsessão do Capitão Ahab (desempenhado pelo grande Gregory Peck), em perseguir e se vingar da gigantesca baleia Moby Dick, que lhe causara a perda de uma perna anos antes. A despeito do diretor John Huston ter desejado, na época, jogar um pouco mais de luz nas outras passagens do livro, que focam nos perfis psicológicos de diversos personagens (incluindo o marujo Ishmael e outros tripulantes do navio), bem como em uma série de capítulos que abordavam os anseios, perigos e agruras diversas da vida em alto-mar, a decisão do estúdio em espelhar mais o embate entre o homem e a fera foi preponderante. É uma bela produção, mas com um espírito efetivamente diferente do apresentado no livro.


- O ILUMINADO (The Shining - 1980, de Stanley Kubrick):

Uma das grandes polêmicas sobre adaptações para o cinema, desde sempre. Se tornou folclórica a birra do autor do livro original, Stephen King, em relação à enorme série de mudanças que Kubrick resolveu fazer em relação à história - agora em modo totalmente oposto ao tom reverencial adotado anos antes com a obra 2001, de Arthur C. Clarke. Só para se ter uma ideia: na conclusão do livro, o desfecho se dá no meio do fogo, e não na neve. Isso, por si só, já mostra como Kubrick mexeu na narrativa do jeito que bem entendeu. As nuanças dos problemas pessoais do personagem Jack (magistralmente interpretado por Jack Nicholson), especialmente em relação à bebida e atos violentos no passado, são minimizados em prol de um maior destaque na sua relação obsessiva (e sobrenatural) com o amaldiçoado Hotel Overlook. Em suma: são duas grandes e fenomenais obras. Mas é recomendável que o leitor/espectador as encare como o que de fato são: uma história contada de dois jeitos, bem diferentes.


- 007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE (Moonraker - 1979, de Lewis Gilbert):

Já é consenso, e todos os fãs de carteirinha do agente secreto com licença para matar sabem disso faz tempo: nunca considere o James Bond das tramas originais do autor Ian Fleming como o mesmo James Bond da série de filmes feita para o cinema. Não são. Personagem e histórias muito diferentes, na esmagadora maioria das vezes. Em alguns casos, os roteiros para o cinema de filmes do 007 embolaram narrativas e características de mais de um livro, só para criar o que o produtor da época - o lendário Albert R. Broccoli - consideraria um bom filme de ação para as telonas. Para ilustrar: do livro original de Fleming Live and Let Die, lançado em 1956, foram extraídas ideias e personagens para nada menos que 3 filmes diferentes de 007, ao longo do tempo: o próprio 007 - Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die, 1973), 007 - Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only, 1980), e ainda 007 - Com Licença para Matar (Licence to Kill, 1989). Uma maçaroca danada. Mas um dos filmes que pegam mais pesado é este Moonraker - produção que, vejam só, causou frisson na época com a vinda do agente britânico mais famoso de Vossa Majestade (então vivido por Roger Moore) ao Brasil! Com várias cenas rodadas aqui, o filme acompanha o agente 007 tentando desmantelar a organização criminosa do vilão Hugo Drax, que almeja intoxicar o mundo com uma espécie de orquídeas negras, utilizando para isso até mesmo naves espaciais - o que leva Bond a viver uma aventura espacial, pegando carona no tremendo sucesso de Star Wars na época! A atmosfera é de galhofa geral: até hoje é considerado um dos filmes mais absurdos da era Moore no personagem, com muito exagero, sequências inacreditáveis e humor espalhafatoso. Mas no livro não tem nada de 007 fora de órbita: a história se concentra em uma simples ameaça de Drax em detonar uma ogiva nuclear em Londres mesmo, e nosso herói tem que dar conta do recado apenas em terra firme.


- FORREST GUMP (1996, de Robert Zemeckis):

Talvez um dos mais gritantes exemplos de adaptação cinematográfica que não tem quase nada a ver com a história original do livro, situação pouco difundida na época do lançamento e até hoje pouco conhecida por muitos - o filme dirigido por Robert Zemeckis, que faturou 6 estatuetas do Oscar, incluindo a de melhor filme e também para Tom Hanks como o carismático protagonista (elevando sua carreira a um outro patamar) parece, em alguns momentos, ter aproveitado apenas os nomes do livro e de alguns personagens, pois é uma história desenvolvida de um jeito absurdamente diferente: Forrest Gump é um sujeito com déficit mental e apaixonado desde novo pela sua amiga de infância Jenny, mas com falas e reações que, de alguma maneira, o conectam a outras pessoas (o famoso "estar no lugar certo e na hora certa"), e que acaba vivendo aventuras que poucos viveriam, figurando em importantes momentos da história sócio-política e cultural dos EUA. Isso está também no enredo original do livro de Winston Groom, mas logo começam as diferenças: na obra, Forrest é um cara alto e gordo, bem menos pacato do que o sujeito vivido por Hanks, e que fala muito, até fanfarrão e inconveniente em certos momentos. Ele tem uma presença constante que é o seu amigo orangotango Sue, com quem divide várias de suas proezas: uma delas é ir para o espaço, como astronauta da NASA! Além disso, ele ainda atua como lutador profissional de wrestling (devido seu porte físico avantajado), vira dublê de filmes de Hollywood, mestre de jogos de xadrez, e ainda interage com uma tribo de canibais a certa altura. Nada disso está no filme. A impressão que se tem é a de que o roteiro adaptado de Eric Roth, a pedido de Zemeckis, desejou retirar toda a sorte de absurdos e situações cômicas exageradas e bizarras do livro original, para criar uma obra mais emotiva e sentimental para o cinema, exatamente do jeito que a Academia gosta para dar um Oscar. Se o objetivo era esse, funcionou.




- ALMOÇO NU (Naked Lunch - 1991, de David Cronenberg):

Pense rápido: como fazer uma adaptação para o cinema de um clássico da literatura beat, notório por ser totalmente alucinado, de narrativa aleatória, anfetaminada, e não adaptável? Simples: não adapte! Crie, e faça do jeito que bem entender. E foi assim que o genial cineasta David Cronenberg fez, muito sabiamente. O autor William S. Burroughs foi um dos mais icônicos representantes daquela geração de escritores revolucionários, que incluía Jack Kerouac e Allen Ginsberg, dentre outros - um pessoal que, na década de 1950, desenvolveu um estilo de prosa e poesia livre e instintivo, baseado em longas sequências de palavras e frases para impactar o leitor, criando fluxos contínuos que contestavam a sociedade, as convenções, e o modo de vida americano. Isso foi a famosa geração beat. Viciado de carteirinha e "papa" dessa galera, Burroughs mais reúne um conjunto de imagens e sensações em Naked Lunch (originalmente lançado em 1959) do que propriamente conta uma história. O seu texto é um apanhado de passagens oníricas que situa o leitor em certos lugares e situações (como no meio da selva ou no pesadelo caótico e urbano de um grupo de junkies), mas pelo menos utiliza a imagem de seu "eu" protagonista, Bill Lee, como narrador desses delírios (induzidos por tudo quanto é substância). O que Cronenberg inventou, então? Ele pega esse mesmo personagem (aqui interpretado pelo ator Peter Weller, o Robocop original), e o joga em uma trama que alude à própria biografia de Burroughs, onde Bill Lee é um aspirante a escritor doidão, que trabalha com inseticidas, descobre que sua esposa está utilizando os mesmos como entorpecente, e topa experimentar a parada com ela, entrando num mundo de alucinações onde até as suas máquinas de escrever se tornam besouros falantes... Acredite: é isso. O filme foi um fracasso comercial na carreira de Cronenberg, mas provou uma coisa: a sua incrível capacidade de transformar uma loucura em outra maior ainda.


- A LIGA EXTRAORDINÁRIA (The League of Extraordinary Gentlemen - 2003, de Stephen Norrington):

Outra adaptação de uma HQ, outra produção controversa - mas não pelos mesmos motivos que Flash Gordon, comentada anteriormente. Aqui, ocorreram duas situações bem traumáticas, decorrentes de uma descaracterização da história em torno de um grupo de anti-heróis da Inglaterra do século XIX que se juntam para uma missão: o filme se tornou tristemente conhecido por não só bater o último prego no caixão da carreira de Sean Connery, traumatizado pelo fiasco de atuar numa bomba dessas, como também por fazer o autor, o renomado Alan Moore - o "bruxo" dos quadrinhos - prometer nunca mais autorizar qualquer adaptação de suas graphic novels e histórias para o cinema, tamanha a aberração que o diretor Stephen Norrington e asseclas cometeram com o material original. Profundidade psicológica e estudo de personagens, tão comuns na obra de Moore? No filme, zero! Nada de desconstruir e analisar os mitos da Era Vitoriana, mas sim, embalar tudo num pack genérico de 'filme com turminha de super-heróis', repleto de diálogos infantis e situações rasas, transformando tudo num pastiche de ação constrangedor. O séquito de admiradores da obra de Moore chiou feio, contribuindo para a má fama que o filme angariou - e que acabou se tornando, de fato, a lamentável despedida de Sir Sean Connery da sétima arte, antes de seu falecimento, em 2020.


- TROPAS ESTELARES (Starship Troopers - 1997, de Paul Verhoeven):

E se tem um cara que pode ser considerado genial por, mesmo dentro do esquemão comercial do cinema norte-americano, conseguir se manter bem autoral, e defender a sua visão artística nos mais variados projetos, esse alguém é Paul Verhoeven. O já veterano diretor holandês, que meteu o pé na porta de Hollywood com sucessos inesquecíveis como Instinto Selvagem (1992), Vingador do Futuro (1990), e o primeiro Robocop (1987), foi também o responsável pela proeza de pegar um livrinho basicamente insípido de ficção científica, lançado em 1959 (o tal Starship Troopers, de Robert A. Heinlein), e transformá-lo em uma sátira ultra violenta e acachapante de jovens dominados pela lavagem cerebral militarista governamental, dedicados a acabar com suas vidas enfrentando insetos gigantes espaciais! Diversão desvairada e garantida, com ritmo frenético do início ao fim, é uma verdadeira crítica de Verhoeven ao sistema bélico e genocida norte-americano, e que também serve como parábola sobre o fascismo travestida de filme de ação. "Li o livro original e achei de uma chatice sem tamanho, acho que nem consegui ir até o final. Mas ali estava um conto fascista que eu achei super interessante para se trabalhar num filme", disse o diretor em uma entrevista. Um trabalho e tanto, com a rara façanha de converter material original medíocre em algo excepcional.






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quinta-feira, 16 de julho de 2026

TERRA DAS DAMAS ELÉTRICAS: A GÊNESE DE UMA OBRA-PRIMA

 

Qualquer vivente que entenda ao menos um pouquinho de música com mais profundidade sabe reconhecer a tremenda e vital importância que um norte-americano de Washington, Seattle, chamado James Marshall Hendrix  - mais popularmente conhecido como Jimi Hendrix (1942 - 1970) teve, para a evolução da música popular contemporânea, como nós a conhecemos.

Não é simplesmente uma questão de, como sempre se faz, elevá-lo à condição de mestre ascensionado da guitarra elétrica, instrumento cuja forma revolucionária de tocar foi praticamente reinventada por ele, com todas as suas técnicas de progressões rápidas de notas e acordes, escalas desafiadoras e um casamento fantástico de miríades melódicas e tonais com uma ampla gama de efeitos conseguidos através de pedais inovadores. Não, isso seria simplista demais - antes, o correto seria afirmarmos que o jeito revolucionário de Hendrix traduzir a linguagem da guitarra para novos tempos arrastou consigo, e mudou, toda a forma ocidental de se fazer música pop (e mais especificamente rock), a partir de então. 

A guitarra em Hendrix é um elemento de transição tão poderoso e marcante quanto a introdução dos teclados e contrabaixos elétricos, a adoção dos samples e instrumentos digitais, e quaisquer outras inovações eletrônicas que porventura tenham mudado a face da música de uns 80 anos para cá. É o modo de se entender como funciona a dinâmica das seis cordas em uma música, como se encaixa uma guitarra nela, tanto rítmica quanto solada, e como ela conversa com todo o restante dos instrumentos. Basta comparar, muito singelamente, a maneira como a guitarra era tocada e gravada em gravações anteriores de rock nos anos 50 e 60, antes de Hendrix, de um modo bem mais básico e simples, e a maneira como ela passou a protagonizar gravações do gênero a partir dele. As diferenças são gritantes.

Isso se torna ainda mais claro quando falamos tanto do rock puro, clássico, simples e tradicional, quanto do seu patriarca severo (o blues), e todos os outros subgêneros que se desenvolveram a partir de então: em especial o rock pesado (hard rock) e o titânico e ensurdecedor heavy metal. Todos, sem exceção, em suas vertentes atuais, pagam tributo ao já eternizado estilo "hendrixiano" de tocar.

Em setembro deste ano, a morte de Hendrix completará 56 anos. Mas a sua passagem não afeta em nada o frescor e a potência de suas performances, tanto em palco quanto em estúdios - e há quem prefira essa última modalidade, não só devido a certas apresentações ao vivo que soavam mais caóticas, muito em decorrência da vida extremamente atribulada que ele vivia, mas também ao fato do músico poder trabalhar em um ambiente mais controlado e dado a experiências sonoras incríveis, onde ele podia reinventar, da maneira mais próxima do que estava desenhado em sua mente, os timbres, fraseados e formas de uma guitarra "voar livre" no som. E neste caso, não há nada melhor do que recomendarmos uma bela e atenta audição daquela que é considerada a obra-prima do artista, idealizada, produzida e totalmente executada pelo mestre ainda na plenitude de um de seus últimos anos de vida: o petardo chamado Electric Ladyland, álbum duplo originalmente lançando em vinil, em outubro de 1968.

A história do disco da "terra da dama elétrica" é tão conturbada quanto a própria vida de Hendrix, que parecia viver eternamente no olho de um furacão. 

Repassando bem rápido: após começar a fazer fama como um excelente músico de apoio de artistas já consagrados (Little Richard, Curtis Knight, Isley Brothers e outros), por volta de 1966, Hendrix monta a sua primeira banda própria (The Blue Flames), e com ela começa a fazer shows em pequenas casas de New York onde já se destaca pela sua habilidade. Ele então é descoberto por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, que havia saída do grupo recentemente com o propósito de se aprofundar na carreira de empresário de bandas. É Chandler que faz a cabeça de Hendrix para ele largar tudo e partir para a Inglaterra, onde uma nova banda e um contrato de gravação promissor já estavam praticamente o esperando: numa inversão do que ocorrera com a Invasão Britânica anos antes, quando bandas inglesas aportaram os EUA invadindo as paradas, Hendrix agora faria o contrário, indo para a Inglaterra conquistar primeiro a terra da rainha, para só depois retornar já com êxito para a sua terra natal. 

Da esquerda p/ direita: Noel Redding, Jimi Hendrix, Mitch Mitchell e Chas Chandler

Em Londres, Hendrix se junta a Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria), para montarem um dos mais avassaladores power trios da história: o Jimi Hendrix Experience. Shows vão se sucedendo sem parar, a fama com os primeiros e revolucionários singles ("Hey Joe", "Purple Haze" e "Fire"), e o primeiro disco, de 1967 (Are You Experienced), logo a seguir, a aclamação triunfal no Monterey Festival, no mesmo ano, quando Hendrix retorna aos EUA e põe fogo em sua guitarra no final da apresentação, constituindo um dos momentos mais icônicos do rock, com turnês mil que vem logo a seguir, mais um segundo álbum às pressas já saindo no final do ano (Axis: Bold As Love) - e tudo isso já é terreno preparado para a loucura que seria gravar Ladyland

The Jimi Hendrix Experience

Dito então que o ano de 1967 (da revelação de Hendrix para o mundo) foi como se 1000 anos tivessem se passado em um, tamanha a correria e agitação em torno do músico, o início de 1968 nos apresentaria um Hendrix que, além de estafado, começava já a clamar por um maior controle de sua vida artística. 

Primeiro, Hendrix vetou integralmente o comando de Chas Chandler sobre o que seria seu próximo trabalho de estúdio. Isso levaria ao rompimento total com o seu descobridor, que desapontado, também abandonaria o posto de empresário - o que infelizmente leva Hendrix a entregar tal atribuição a um mala assistente de Chandler chamado Mike Jeffery, resultando em consequências nefastas para o artista (mais detalhes sobre essa história aqui). De qualquer forma, assumindo o leme como produtor e monitorando de perto todas as mixagens, o guitarrista estava prestes a realizar o único projeto sobre o qual conseguiu manter 100% de liberdade e controle criativo, e que geraria, no final das contas, não um, mas dois discos de material inédito! - Electric Ladyland sairia como álbum duplo, uma excentricidade que só os artistas de maior cacife e produtividade na época tinham a primazia de conseguir realizar (como Beatles e Bob Dylan). 

As sessões de gravação, iniciadas em Londres mas logo remanejadas para os estúdios Record Plant, em New York, onde a maioria das gravações ocorreria, entraram para o terreno da lenda, tamanho o caos instaurado pela própria vontade de Hendrix. Vivendo loucamente como um relâmpago, sem tempo para dormir ou descansar direito, e acumulando shows e turnês que aconteciam simultaneamente por compromissos contratuais, Hendrix ainda mantinha uma rotina boêmia da qual não conseguia abrir mão, e isso fez com que a maioria das sessões de Ladyland fosse convertida em uma espécie de "confraternizações de amigos", em que o guitarrista simplesmente enchia o estúdio de conhecidos que entravam e saiam sem a menor cerimônia, para vê-lo performar e gravar diversas das futuras músicas do álbum. Não obstante, esse é o motivo pelo qual ouvimos, em alguns momentos das faixas registradas, alguns aplausos e vozes de pessoas falando: era o ambiente absurdo, festeiro e de atmosfera quase 'ao vivo' criado pelo próprio Hendrix, que queria uma certa espontaneidade e efervescência na execução das canções.

Isso se destaca principalmente no carro chefe do disco, uma de suas faixas mais longas: "Voodoo Chile", praticamente uma blues jam devastadora de 15 minutos, onde vislumbramos o casamento perfeito entre o Jimi Hendrix Experience e o fenomenal grupo Traffic - os dois manda-chuvas dessas bandas, Hendrix e o vocalista/tecladista Steve Winwood duelam com solos acachapantes de guitarra e órgão, levando esse hino à mais elevada estratosfera psicodélica da quinta dimensão, em crescendos que explodem com o refrão antológico onde Hendrix faz a imprecação da "criança vudu", o escolhido, o mago das seis cordas desvairado nas magias estupefacientes do blues cósmico. Dá-lhe solos alucinantes pra tudo quanto é lado.

Ladyland, aliás, é obra pródiga em participações de membros de outras bandas, e tamanha foi a orgia musical de colaborações, que outro que saiu bastante irritado da empreitada toda foi o baixista do Experience, Noel Redding, reclamando que o espaço dele estava sendo afetado pelas exigências de Hendrix para seus novos sons. Além de membros do Traffic (como Winwood e o guitarrista Dave Mason), também compareceriam Jack Casady (baixista do Jefferson Airplane) e Brian Jones (dos Rolling Stones), em participações pra lá de especiais. Pouco tempo depois o Experience acabaria... Apenas o baterista Mitch Mitchell continuaria trabalhando com Hendrix posteriormente, em novos projetos. Hendrix, também insatisfeito com certas linhas do baixista, as dispensou e passou a ele próprio gravar o baixo em algumas das músicas, o que só aumentou a animosidade entre ele e Redding: notadamente, isso aconteceu em "1983, A Merman I Should Turn To Be" e "All Along the Watchtower".



Por falar nessa última, este é um capítulo à parte: um dos maiores clássicos do repertório hendrixiano, "Watchtower" é um original de Bob Dylan, desde sempre um dos grandes ídolos de Hendrix, que o inspirou inclusive na forma iconoclasta de usar sua voz, e que foi autenticamente reinventada pelo artista no estúdio. É uma das mais perfeitas gravações da história do rock, e retrata o nível máximo de exigências e refinamento de Hendrix na produção do álbum: nada menos do que 19 takes de um violão gravado por Dave Mason (do Traffic) foram gravados, e que dá apenas um "toque" na mixagem final, encharcada com camadas e mais camadas de guitarras. A exótica percussão urdida por Hendrix eleva a faixa à condição de um petardo onírico e cigano, repleto de peso, distorção, e solos faiscantes com wah wah e outros efeitos. 

Enquanto "Have You Ever Been to Electric Ladyland" descamba para uma insólita balada soul, com falsetes e tudo mais, outros momentos como a esfuziante "Crowsstown Traffic", a épica "Burning of the Midnight Lamp" (anteriormente lançada como single) e pedradas como "Gypsy Eyes" e "House Burning Down" apenas reforçam a energia e atemporalidade do álbum, que fecha com outro standard do músico, sempre executado nos shows a partir de então: "Voodoo Child (Slight Return)", que faz referência à longa faixa anterior mas despeja tudo num rock lisérgico e funkeado, emoldurado com um dos mais clássicos riffs de guitarra da era moderna, referenciado e copiado à exaustão por uma infinidade de guitarristas contemporâneos (sendo Slash dos Guns N' Roses um dos mais frequentes, só para citar, nas versões ao vivo de "Civil War").

Apesar de ter sido o trabalho que mais saiu ao gosto de Hendrix durante a sua curta trajetória, houve um detalhe que não foi conforme ele havia idealizado, que o deixou muito insatisfeito, e com razão: a capa do álbum. Era para ter saído com uma foto de Linda Eastman da banda (futura Sra. Linda McCartney), registrada com crianças no Central Park, de acordo com expressas recomendações de Hendrix numa carta para a gravadora - entretanto, saiu em duas versões muito diferentes, sendo uma capa com uma foto berrante e desfocada da cabeça de Hendrix, em tons avermelhados, nos EUA, e a bizarra foto com um grupo de mulheres de aparência devassa, nuas em pelo e segurando capas dos discos anteriores do artista, no lançamento feito na Inglaterra. Apenas na reedição comemorativa de 50 anos do álbum em formato digital, já em 2018, é que o design original pretendido pelo músico foi finalmente utilizado.

É uma pena que Hendrix não tenha vivido muito adiante para presenciar a extensa e arrebatadora influência que o seu melhor e mais bem acabado trabalho, feito ainda em vida, teve sobre gerações e mais gerações de músicos que viriam a partir de então. O músico partiria, em circunstâncias ainda hoje discutidas e controversas envolvendo barbitúricos e bebida, no dia 18 de setembro de 1970, após uma noite com sua namorada em Londres.




Electric Ladyland permanece sendo um dos mais brilhantes e intensos itens da discografia desse gênio da música, e deve ser celebrado e relembrado como um dos momentos mais místicos e exuberantes da epopeia clássica do rock.




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quinta-feira, 2 de julho de 2026

CLINT EASTWOOD: CÉU E INFERNO NO VELHO OESTE

 

A declaração de aposentadoria definitiva, através do filho Kyle Eastwood, dada a uma rádio francesa (France Info), algumas semanas antes mas só divulgada no dia do aniversário do ator/diretor Clint Eastwood, em 31 de maio último, causou sensações controversas em fãs e admiradores: se não de preocupação acerca de seu atual estado de saúde (Eastwood é um idoso que completou 96 anos), por outro lado, de certa desolação, em relação a tudo que essa lendária figura já fez e produziu em sua longa carreira, e do que ele talvez ainda poderia realizar (nem que fosse só mais um pouquinho).

Com tal anúncio partido não dele, mas de um familiar, a trajetória de Eastwood se considera como oficialmente encerrada com o último filme dirigido (e não estrelado por ele) Jurado nº 2, de 2024, um atípico e bem conciso drama de tribunal, protagonizado por Nicholas Hoult, e lamentavelmente lançado de forma bem modesta pelos estúdios Warner, quase que diretamente no streaming. Já como ator, a última aparição atuando foi em Cry Macho (2021), que ele também dirigiu, outro drama com toques de suspense e melancólica nostalgia, ambientado na fronteira com o México, onde ele interpreta um sagaz ex-peão de rodeios, Mike Milo.

Nunca é demais dizer o quão relevante é a imagem e contribuição de Clint Eastwood para o cinema. O homem é simplesmente uma instituição viva da sétima arte norte-americana, figura mítica que representa valores caros à arte audiovisual ianque, e tão icônico quanto outros símbolos pop emblemáticos para se entender o que é a cultura dos EUA. 

Mickey Mouse, Elvis Presley, John Wayne, cheeseburger McDonald's e Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças)... eis que Clint Eastwood está lá em pé de igualdade, lado a lado de todos eles, de poncho e chapéu cobrindo parte da face carrancuda em cima de um cavalo, ou simplesmente de terno policial, também mal encarado como sempre, apontando a Magnum 44 na cara de alguém enquanto fala num assustador tom de voz suave: "go ahead, make my day... punk!" (vá em frente, faça meu dia... vagabundo).

Eastwood é tão pop que já virou até nome de hit do Gorillaz, em seu single de estreia (2001).

De orientação política fortemente voltada para a corrente republicana dos EUA (Eastwood é membro do Partido Republicano desde 1951), o artista no entanto destoa de certas linhas de pensamento mais conservadoras ao longo de toda a sua carreira, inclusive abordando temas sensíveis em relação à representatividade do Estado e das camadas de esferas do poder em Washington, notadamente em obras mais pessoais e nas quais foi também o diretor (Poder Absoluto e Sniper Americano, por exemplo) - em diversas entrevistas, Eastwood já disse ser um adepto do libertarismocorrente ideológica que defende a liberdade acima de tudo como um eixo fundamental para a sociedade, mais do que os papéis representados pelas autoridades e classes políticas, e nisso é curioso observar, como tal pensamento o aproxima de anarquistas ou socialistas clássicos (como Joseph Déjacque), a despeito de suas convicções mais tradicionais. 

Isso é essencial para compreender melhor as nuanças de certos filmes notabilizados em sua filmografia, e como eles representam visões de mundo que acabam ecoando em suas tramas, sobretudo nas áridas paisagens ainda não civilizadas e organizadas em torno do "contrato social", como as planícies do western. Foi ali, no Velho Oeste sem lei, território da barbárie e da supremacia dos gatilhos mais rápidos, que muitas das mais espetaculares parábolas que emolduraram a imagem impassível do cowboy Eastwood (e sua filosofia oculta) o conduziram à senda da eternidade.

Antes de sua derradeira e mais celebrada (além de condecorada com o Oscar) incursão por esse gênero clássico - o fabuloso Os Imperdoáveis (The Unforgiven, 1992) - Eastwood realizou, com um espaço de doze anos os separando, dois faroestes antológicos e também muito festejados pelos fãs, que representam uma dicotomia interessantíssima em sua abordagem dos mitos e mazelas do Oeste americano, ambos dirigidos e atuados por ele: O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), e Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985).


Em Estranho Sem Nome, uma de suas primeiras incursões pelo terreno da direção, Eastwood desempenha novamente o papel do forasteiro calado e taciturno, que chega de sopetão na pequena cidade de Lago, e demonstra um incomum talento nas armas. Acuados pela iminente chegada de três facínoras que estão prestes a aparecer para um acerto de contas com algumas das autoridades de Lago, os moradores não veem outra opção a não ser contratar o estranho pistoleiro para defendê-los - o que ele topa fazer, mas sob as suas bizarras condições! Já num sinal de estar do lado das sombras e dos marginalizados, faz amizade com um anão, um dos mais estigmatizados e humilhados habitantes do lugar... para logo adiante torná-lo prefeito do lugarejo. Logo em seguida, ele manda pintarem todas as casas de vermelho, e trocarem o nome da cidade para "Inferno". O que se desenha na trama a partir de então é uma verdadeira alegoria do mal irrompendo da terra, para tragar aqueles que se acham piores que ele. Sim, temos a firme intuição, a partir de certa altura, que o pistoleiro desconhecido é o próprio diabo.

Eastwood consegue a proeza de realizar um filme que pode ser considerado um autêntico crossover entre o western e o terror, tamanha a atmosfera sinistra e assombrosa que permeia a sua violenta meia hora final. Ao descobrirmos que a trama termina se baseando em uma saga de pura vingança - a "vendetta" tão cara aos bangue-bangues italianos, de Leone e cia., onde Eastwood despontou para afama mundial - percebe-se o despudor de Eastwood em desembarcar no território do sobrenatural, sugerindo uma "volta do mundo dos mortos", o que revela mais uma vez um caráter de ineditismo nessa lendária e inovadora produção. Falar mais do que isso por aqui já é estragar as surpresas dessa sombria trama com spoilers desnecessários - quem ainda não viu, tem o dever de conferir essa pequena obra-prima.

Por outro lado, Cavaleiro Solitário é considerado pela maioria dos cinéfilos, e com razão, a total antítese do filme anterior.

Se antes, o tom era de horror e trevas, nesse outro western de 1985 a fotografia é clara e límpida, alude a um cenário mais pastoral (até bíblico), saboreando várias paisagens brancas de neve montanhosa, e abordando a chegada de um forasteiro - dessa vez, simplesmente chamado de "pastor" - ao vilarejo de Lahood, onde um grupo de mineradores sofre nas mãos do inescrupuloso dono de uma empresa local que quer expulsá-los para dominar a exploração de ouro. O personagem de Eastwood, um suposto e misterioso líder religioso, vindo do nada e indo para lugar nenhum, com um colarinho branco que indica o seu ofício, não se roga a utilizar da força e de uma habilidade também fenomenal com as armas para defender o grupo de pobres mineradores - e, mais uma vez com um tom sobrenatural permeando a obra, ele aparece justamente após a enteada de um dos mineradores, a mocinha Megan, pedir ajuda aos céus para enviar alguém para protegê-los. Se em Estranho Sem Nome o pistoleiro defensor parecia o capeta, aqui ele é praticamente um anjo enviado pela providência divina.

Com uma trama livremente inspirada no eterno e clássico western Shane - Os Brutos Também Amam (1953), em que até mesmo o amor velado das personagens femininas e indefesas pelo estranho forasteiro desperta reações incautas, este é um dos mais belos e fascinantes trabalhos de Eastwood, que exercita todo o refinamento estético e visual das sequências de ação, e dos closes e takes caprichados, no que representaria um verdadeiro treino para o seu premiado faroeste seguinte.

Com esses dois faroestes espetaculares, esse icônico artista do 'libertário espírito americano' provaria que, a despeito do que muitos poderiam falar na época de seus lançamentos, ainda havia muito a se fazer e inovar nas grandes pradarias e tiroteios do Velho Oeste, bastava apenas olhar e executar de uma forma diferente. E isso, senhoras e senhores, é coisa que só mesmo pelas mãos dos virtuosos da sétima arte. 

Como o grande Clint Eastwood.



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