sábado, 12 de setembro de 2026

TEMPOS DE ROCK = PROTESTOS SOCIAIS



Durante o período em que escrevo este texto, ocorre o famoso Rock in Rio 2026, entre os dias 4 e 13 de setembro deste ano, no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro, com uma escalação dos mais variados artistas (muitos não-rock, como todos sabem), transmitido e comentado por diversos canais midiáticos, e que ao longo de todo o evento, traz uma inevitável constatação: rock se tornou só um nome, um motivo, uma lembrança de algo que já foi. Quem se recorda das edições antigas, aquelas primeiras, sabe muito bem do que estou falando. Essas mais recentes viraram produto de comércio pasteurizado, domesticado, evento de shopping center generation que se perfaz em pastiche digital pra selfies e sites de trivialidades, com muito playback no palco e apresentações absolutamente pífias e esquecíveis. E tudo numa carestia só de dar medo. 

Estou sendo radical? Talvez. Mas não sou o único a enxergar dessa forma. Assim como não sou o único a sustentar que, um dia, "esse tal roquenrou" já foi mais autêntico, mais nervoso e revoltado, de chão poeirento e proximidade com as massas, e bem mais ligado em situações que clamavam por grito e impacto. O rock, quem diria, já ofereceu perigo e já foi símbolo de rebeldia. Já foi arma de protesto social.

A seguir, só pra relembrar, 10 hinos históricos desses momentos em que empunhar uma guitarra era como levantar uma bandeira, ou carregar uma metralhadora. Tempos em que abrir a boca para cantar algumas letras equivalia a conclamar a galera para arregaçar as mangas, e ir pra rua lutar por alguns direitos.


- BLOWIN' IN THE WIND (Bob Dylan, 1962)

O grande hino que fez Dylan estourar de popularidade, lançada em seu segundo LP e depois regravada por vários artistas à exaustão, foi a primeira de várias composições próprias dele que surgiu num instante de epifania, em que ele jorrou as palavras sobre o papel com o violão ao lado, envolto por um clima opressivo em que a Guerra Fria entre EUA e a antiga União Soviética (hoje Rússia) estavam à beira de um conflito nuclear, com a crise dos mísseis na Baía dos Porcos de Cuba, e o globo terrestre todo com a sensação de que tudo podia ir pelos ares. Foi nesse contexto abrasivo que o cantor/compositor, egresso de uma tradição cara aos antigos menestréis folk norte-americanos (como Leadbelly e Woody Guthrie) surgiu com essa bela mensagem de tom pacifista, sobre a incerteza e passividade da humanidade diante das guerras. Fica na memória o marcante trecho dos versos finais: "How many years must one man have / Before he can hear people cry? / How many deaths will it take till he knows / Too many people have died?" (Quantas orelhas um homem precisará ter / Antes que possa ouvir as pessoas chorarem? / Quantas mortes ele causará até saber / Que pessoas demais morreram?).




- MR. YOU' RE A BETTER MAN THAN I (The Yardbirds,1965)

Composta pela dupla de músicos e compositores britânicos Mike e Brian Hugg (participantes do grupo Manfred Mann), e originalmente gravada pela banda The Yardbirds (com Jeff Beck) como faixa de abertura de seu álbum Having a Rave Up (1965), esta é uma das primeiras e mais contundentes canções pop da década de 60 a escancarar questões como o racismo, hipocrisia a respeito das roupas e aparências, e diferenças de cor e religião na sociedade consumista da época. Com uma abordagem pesada, que elevava os arranjos dos Yardbirds como uma das mais inovadoras bandas de seu tempo, com os solos fuzz distorcidos de Beck, e o andamento ora lento, ora agressivo da música, se tornou um dos maiores sucessos do grupo, e cravou na eternidade versos como: "Could you condemn a man / If your faith he doesn't hold? / Say the colour of his skin / Is the colour of his soul?" (Você poderia condenar um cara / Se a sua fé não é a que ele professa? / Dizer que a cor de sua pele / É a cor de sua alma?).




- I FEEL LIKE I'M FIXIN' TO DIE RAG (Country Joe & The Fish, 1967)

Joseph Allen McDonald, mais conhecido como Country Joe, formou a banda The Fish em meados dos anos 60, que a partir de temporadas de shows universitários em lugares como Berkeley, na California, e demais palcos da época, se tornou uma queridinha dos protestos juvenis em prol dos direitos sociais e, como se tornaria febre na época, contra o envolvimento dos EUA no conflito do Vietnam. Em seu segundo disco, lançado em 1967, a icônica faixa de abertura (que também dava nome ao vinil) se transformou em uma espécie de hino dessa revolta, e seria cantada em uníssono por ele e uma multidão hippie no lendário festival de Woodstock, de 1969: "Feel Like I'm Fixin' to Die" é uma ode irônica e sombria ao espírito patriótico dos pobres coitados que iam dar sua vida pelo Tio Sam nos matos do Camboja. 




- UNKNOWN SOLDIER (The Doors, 1968)

A Guerra do Vietnam, como pode ser visto, foi o fermento para aquele que seja talvez o maior número de canções de protesto do rock, por alguma causa - não menos do que quatro delas estão aqui, nesta lista. E a soturna contribuição dos Doors, de Jim Morrison, como não poderia deixar de ser - uma banda que tinha intimidade com temas obscuros e relacionados a medo, morte e paranoia - é uma amarga elegia aos soldados que perdiam sua vida nos campos de batalha, sem ao menos terem seus nomes reconhecidos. Um polêmico videoclipe foi produzido pelo grupo quando do lançamento na época, prontamente censurado na televisão norte-americana. Mas a mensagem era clara, e o protesto já estava ali, feito, ao que a música se tornou um inevitável sucesso entre os fãs da banda. A simulação de fuzilamento, encenada por Morrison no vídeo, chegava a ser reproduzida ao vivo por eles em algumas de suas famosas apresentações (como no Hollywood Bowl, em 1968).




- STREET FIGHTING MAN (The Rolling Stones, 1968)

Maio de 68. As revoltas estudantis em Paris. Os protestos raciais nos EUA, com Panteras Negras e o caramba. Nos países da América Latina as ditaduras comendo, AI-5 com prisão e pancadaria pra tudo quanto é lado. Morte, tortura, sangue nas ruas... Foi nesse contexto caótico que os Rolling Stones, sempre antenados em seu tempo, urdiram aquela que é a canção anarquista por natureza do rock: "Street Fighting Man" simplesmente joga na cara do ouvinte a desilusão jovem com a sociedade, aquele sentimento puro de rebeldia e contestação de quem percebe que é tudo um jogo de cartas marcadas, e que nada do que os políticos pregam ou fazem melhora a realidade social, muito pelo contrário. E aí vem aquele refrão venenoso, resmungado com a habitual displicência por Mick Jagger: "But what can a poor boy do / Except to sing for a rock 'n roll band / 'Cause in sleepy London town / There's just no place for  a street fightin' man" (Mas o que um rapaz pobre pode fazer / A não ser cantar numa banda de rock / Pois na Londres sonolenta / Simplesmente não tem lugar para um lutador das ruas). Clássico. 




- MACHINE GUN (Jimi Hendrix, 1970)

O maior guitarrista de todos os tempos já havia feito da sua rendição ao hino nacional norte-americano ("Star Spangled Banner"), ao vivo em Woodstock 1969, uma eloquente forma de protesto contra a Guerra do Vietnam. Mas alguns meses depois, ele efetivaria, com o suporte de seu novo grupo de apoio Band of Gypsys, aquela que seria considerada, talvez, o seu magnum opus a respeito do conflito: "Machine Gun", quase um stoner rock monolítico puxado por um riff sombrio e hipnótico, onde Hendrix e sua guitarra também emulavam sons psicodélicos de gritos, tiros de metralhadoras, ruídos de helicópteros e rugidos assombrosos da selva vietcongue, em longas jams que às vezes atingiam os vinte minutos de duração nos shows. É um protesto tenebroso e assustador, uma das melhores traduções, em forma de música, dos horrores vividos na guerra.




- WAR PIGS (Black Sabbath, 1970)

E os pais do heavy metal também aderiram aos protestos contra a Guerra do Vietnam! Em seu segundo e celebrado disco, que traria a consagração definitiva ao grupo (Paranoid, 1970), o mítico combo formado por Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward elevava à condição de obra-prima uma pedrada semi-progressiva, baseada em ritmo marcial e várias mudanças de andamento, com uma das letras mais cruas e agressivas já feitas sobre a hipocrisia da guerra, criticando os generais que mandam jovens para morrerem nos campos de batalha, enquanto ficam manipulando tudo confortáveis em seus escritórios, como se estivessem jogando com peças num tabuleiro de xadrez. Além dos vocais sorumbáticos de Ozzy, lá estavam os solos viajantes e diabólicos de Iommi para deixar tudo ainda mais tétrico e marcante. Uma das peças fundamentais da banda em sua fase mais épica, até hoje relembrada, reproduzida e reverenciada diversas vezes.




- ANARCHY IN THE UK (Sex Pistols, 1976)

Final da década de 70, e no mundo inteiro a crise do petróleo e uma recessão econômica braba assolavam as economias de todos os países. Na Europa, e especialmente no Reino Unido, não foi diferente: cenário depressivo, desemprego e inflação, o caldeirão fervente ideal para a eclosão de um movimento caótico de jovens revoltosos, cheios de indignação contra o establishment, a família real britânica, os políticos, a TV, a música pop, e os astros já bem estabelecidos da época, enfim, aquela revolta básica contra tudo quanto há. Atmosfera perfeita para o surgimento da gangue de Johnny Rotten (o Joãozinho Podre), uma molecada magricela e decadente, cheia de alfinetes nas roupas, cabelos arrepiados e jaquetas de couro, com dentes sujos e berrando impropérios contra a Rainha Elizabeth. Eram os Sex Pistols, com o seu single de estreia. Eis que, direto do submundo de Londres, explodiu nas paradas essa "Anarchy in the UK", que pregava o apocalipse em plena capital inglesa, e tirava sarro da monarquia e da burguesia. O punk tomou o mundo, e o rock nunca mais foi o mesmo.




- WHITE RIOT (The Clash, 1977)

Na esteira dos Sex Pistols e inúmeras outras bandas punk, veio a mais politizada, e mais bem concatenada musicalmente, também. Capitaneados pelos vocalistas e guitarristas Joe Strummer e Mick Jones, o Clash foi a voz mais ativa do proselitismo punk, com álbuns clássicos e ferozes (como London  Calling, de 1979, e Sandinista, 1980), que atiravam para todos os lados, reclamando de tudo e tocando o dedo na ferida dos programas políticos ingleses e europeus (sobretudo episódios como os conflitos contra a Irlanda e a Guerra das Malvinas). A primeira música deles lançada em compacto, a nervosa "White Riot", já chegava metendo o pé na porta com polêmica: tida como racialmente controversa por alguns, era uma conclamação sem reservas de Strummer e cia. para que os jovens ingleses brancos e acomodados criassem vergonha na cara, pegassem em armas, e fossem pra rua, assim como os Panteras Negras e outros movimentos já haviam feito na América.



- CALIFORNIA ÜBER ALLES (Dead Kennedys, 1979)

Já na onda do punk americanizado do final dos 70 e início dos anos 80, os Dead Kennedys do lendário Jello Biafra foram os que mais abalaram as estruturas da era Reagan e políticos conservadores republicanos nos EUA da época. Com o seu lendário single "California Über Alles", que faria parte de seu álbum de estreia, Biafra cantava uma alegoria zombeteira sobre as ideias do então governador da California, Jerry Brown, a respeito dos Estados Unidos - e idealizando um bizarro cenário neonazista, onde ele se torna uma espécie de novo führer da nação no ano de 1984 - justamente numa conexão paralela com o romance de George Orwell sobre o totalitarismo do Big Brother, 1984. Foi farpa e tentativa de boicote contra os Dead Kennedys pra tudo quanto é lado. Mas junto com a polêmica, vem a aclamação geral: eles instantaneamente se tornaram uma das maiores e mais celebradas bandas punk rock de todos os tempos.






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domingo, 6 de setembro de 2026

O SONHO (Cara, que onda...)

Eu tenho um sonho. Um sonho de ver as coisas boas do Senhor povoando os corações das pessoas que ainda não sentiram ou reconheceram isso. Como se a chuva fina e suave que cai em dias como hoje molhasse da forma de amor mais linda os sentimentos e pensamentos daqueles que ainda não enxergam a VERDADE do TUDO, e o Tudo como forma de expressão da alma e do Universo em expansão, que se forma, se destrói, morre e revive, se regenera da forma que todas as coisas neste mundo são, do que está embaixo e que é o que está encima, do que está encima e é o que está embaixo. E para aqueles que ainda duvidam das coisas que existem no mais íntimo e sombrio lado oculto do Ser infinito, e que está em contato estreito e direto com o âmago da ETERNIDADE, lhes digo: não há UM MINUTO SEQUER em que a sabedoria poderosa do Criador deixa escapar ilesos esses pensamentos, medos, desejos, amores, anseios, aflições e imprecações das almas de todos. Há luz sobre tudo. Há sombras sobre tudo. Porque simplesmente não existe luz sem escuridão, e não existe escuridão sem luz. Aqui é o resumo das coisas, e da sabedoria. Ama o teu próximo como a ti mesmo, persevera, e tenha consciência de que tudo se resolve com pensamentos calmos, nenhuma pressa ou correria, boa respiração e boas noites de sono.

Ele está no comando inafastável de Tudo.










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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

OS 60 ANOS DE UM CLÁSSICO DO SPAGHETTI WESTERN

 

Quando foi lançado, há 60 anos atrás, Django, de Sergio Corbucci, chocou muita gente. Era a primeira vez que o Velho Oeste era mostrado de uma forma tão crua e miserável. O protagonista era sujo e esquisito, o cenário era todo barrento e desolador, e havia estrume por todo o lugar. O protagonista andava por aí arrastando um caixão, com um clima estranhamente lúgubre desde o início do filme, havia um bando de prostitutas decadentes de um saloon pra lá de fuleiro onde ele dava as caras, uma delas insistia em acompanhar ele depois que ele fez uma graça pra ela, e os bandidões da trama eram os piores que poderia haver, um bando de meliantes que o próprio capeta teria medo de encarar.

Escalado para o trabalho sujo, estava o cara perfeito: Franco Nero, ainda novinho e rumo ao estrelato, com um par de olhos azuis e cara de mau pra marcar presença firme na tela e arrepiar a gurizada dos bangue-bangues à italiana da época. Falava pouco e tinha barba por fazer, além de carregar naquele caixão maldito uma surpresinha desagradável para os desafetos, prestes a mandar meio mundo de gente para a 'terra-dos-pé-junto'.

Na trama do filme, tão típica do gênero, tudo gira em torno de uma carga de ouro roubada de um forte no México e que é cobiçada por todos, sendo que o protagonista Django (Nero) é um audacioso ex-soldado da União (Guerra da Secessão), que se envolve com a meretriz Maria e, ao chegar em um vilarejo quase fantasma, participa da disputa entre os camisas vermelhas do general Jackson e bandidos mexicanos liderados pelo general Hugo Rodriguez - todos pretendem dizimar uns aos outros para ficar com o ouro. Há ainda, no meio de tudo, a famosa vendetta, uma situação de vingança pessoal entre Django e Jackson, já que este matara algum tempo antes a sua namorada, e isso vai influenciar nos acontecimentos seguintes, até o explosivo e decisivo final do filme, uma conclusão épica e sempre lembrada como uma das mais tensas e angustiantes cenas de tiroteio em um cemitério do faroeste.

O filme guarda algumas curiosidades hoje pouco lembradas por quem é mais novo.

Corbucci, um dos mais renomados diretores do gênero spaghetti western, foi convocado pelo produtor Manolo Bolognini para aproveitar o filão de fitas de sucesso inaugurado dois anos antes por Sergio Leone, com o seu também clássico Por Uns Dólares a Mais, estrelando o pistoleiro sem nome de Clint Eastwood. Corbucci, fã do clássico filme japonês Yojimbo, de Akira Kurosawa, que também havia inspirado a produção de Leone, já tinha em mente um argumento baseado em pistoleiros passando a perna uns nos outros para ficar com um carregamento de ouro, ao mesmo tempo em que sempre tinha em mente um personagem que ele vira uma vez em uma história em quadrinhos de uma banca de jornal na Via Veneto, em Roma, que arrastava um caixão consigo onde guardava um terrível segredo. Ele passou a desenvolver o roteiro em parceria com seu irmão, Bruno Corbucci, até chegar ao desenvolvimento do personagem.

É interessante saber que a trama foi desenvolvida pelos dois sendo escrita de trás para frente: ou seja, o argumento original começa justamente com a famosa cena do tiroteio no cemitério. Como quem já viu o filme sabe - e aqui vamos evitar muitos detalhes para não entregar spoilers a quem ainda pretende ver o filme - o problema que Django apresenta nas mãos na tal sequência foi o que inspirou Sergio e seu irmão a batizarem o personagem com esse nome, visto que Django Reinhardt era um guitarrista muito celebrado e de grande sucesso na época, apesar de conseguir tocar mesmo tendo um problema de paralisia permanente nos dedos de sua mão esquerda. 

Outro detalhe curioso é que as máscaras utilizadas pelo bando dos camisas vermelhas de Jackson tem o seu visual inspirado em reportagens sobre a Ku Klux Klan, que Sergio lera em jornais da época.

A trilha sonora do filme é outro ponto marcante, tendo sido composta pelo maestro Luis Bacalov - sempre considerado como um dos grandes a fazer frente ao compositor Ennio Morricone que trabalhava com Leone. Além das melodias melancólicas que dão um tom ainda mais pessimista à trama do filme, ele recomendou o uso de uma canção-tema, que dá título ao filme e ao personagem, que seria composta por Franco Miggiacci e Robert Mellin, e cantada em inglês por Rocky Roberts.

46 anos depois, essa mesma canção, na mesma gravação, surgiria novamente de forma retumbante, em um filme que, apesar de não ter nada a ver com a trama original de Corbucci, aproveitaria o nome de seu grande personagem como uma forma exótica de render tributo ao gênero dos faroestes espaguete: Django Livre (2012), do fã e cineasta Quentin Tarantino, trazia não só o tema tocando em sua abertura, como também uma ponta de Franco Nero em uma das cenas, contracenando com o "Django contemporâneo", um ex-escravo convertido em pistoleiro brutal, papel de Jamie Foxx.

Django Livre

Mas um dos maiores êxitos dos westerns produzidos na Itália em todos os tempos, o Django original de 1966 continua sendo uma epopeia incrível de sangue, tiros e morte, rendeu diversas imitações e falsas continuações (que nada tem a ver com o original), faturou cerca de 1 bilhão de libras só na Europa, e permanece como uma das maiores obras-primas do gênero, absurda de violenta, e daquelas que sempre dá vontade de reassistir.




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sábado, 22 de agosto de 2026

OS DEMÔNIOS... E O DEMONÍACO OLIVER REED!

 

Um dos mais lendários beberrões da história da sétima arte desde sempre, o ator britânico Oliver Reed (1938 - 1999) vai finalmente voltar a ganhar notoriedade com o relançamento nos cinemas do eternamente polêmico filme de seu grande amigo Ken Russell, que ele protagonizou em 1971, Os Demônios (The Devils), inspirado na obra The Devils of Loudun, de Aldous Huxley, que por sua vez, narrava o controverso caso real de um surto coletivo ocorrido em um convento de freiras na França, em 1634, que teria sido atribuído a uma série de possessões demoníacas, mas estava diretamente ligado à influência de um padre que visitava o local na época, Urbain Grandier - o papel desempenhado por Reed no filme. O relançamento do filme está previsto para o dia 16 de outubro deste ano.

Obra extremamente polêmica e célebre, por ter sido censurada e banida em diversos países em seu lançamento, e repleto de cenas de grande violência e nudez, Os Demônios volta em uma versão caprichada, restaurada em 4K e com todas as suas cenas infames originalmente cortadas recolocadas no filme, como uma homenagem ao diretor Russell, falecido em 2011, e sempre lembrado por seus filmes repletos de grandes delírios visuais e excessos. Com Os Demônios não é diferente, pelo que pode ser conferido no trailer de relançamento do filme, logo abaixo - essa nova versão foi exibida e aclamada, com grande frisson, no Festival de Cannes desse ano, e joga luz sobre a carreira já um tanto esquecida de Oliver Reed.

Reed foi um dos grandes atores de seu tempo. Filho de um jornalista esportivo e neto de um dos melhores atores do teatro shakespeariano do Reino Unido (Herbert Beerbohm Tree), ele cresceu em um ambiente cultural rico, e quando jovem, foi considerado um grande galã do cinema britânico dos anos 60, estrelando sucessos como Capitão Clegg (1962), A Armadilha (1966) e o clássico Oliver! (1968), dirigido por seu tio, o também famoso diretor de cinema Carol Reed.

O grande problema de Reed, e que causaria uma derrocada séria e sucessivas crises em sua carreira, a partir dos anos 70, era a sua descomunal propensão ao álcool, que o levou a períodos de intenso ganho de peso, inúmeros desvarios durante as produções de que participava, e descontrole com mulheres e jogos de toda natureza, que invariavelmente o levavam à bancarrota diversas vezes. A partir de certa época, "fanfarrão" e "Oliver Reed" passaram a ser vistos como sinônimos.

"Ele era insano, mas espirituoso. Um dos melhores colegas de copo que já tive. Extremamente mal humorado quando sóbrio, mas o melhor cara do mundo depois de umas oito canecas de cerveja.", dizia Richard Harris, outro notório bebum e lenda do cinema inglês.


Outro lunático de carteirinha, mas do mundo musical, e da mesma forma mundialmente famoso pelos excessos, o falecido "príncipe das trevas" Ozzy Osbourne, também era amigo de Reed, e comentava a respeito dele: "É de dar medo, parece um gigante bêbado do tamanho de um urso frequentador de academia". Se Ozzy, sendo Ozzy, tinha receios dessa natureza, é de se imaginar a loucura que era estar por perto de Reed quando ele encharcava.

Em 1973, Reed estrela a famosa adaptação de Richard Lester da clássica história de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, no papel de um deles, o espadachim Athos. Quase arruinou sua participação na produção, quando sumia por longos períodos em que estava pulando de um bar para outro. O cara, entretanto, era magnético: sua atuação foi bastante elogiada como uma das melhores coisas do filme (que acabou se revelando um pastiche de ação e comédia pastelão bastante irregular), e acabou tendo que voltar para a sequência, A Vingança de Milady, que sairia no ano seguinte.

Uma de suas próximas empreitadas o colocaria em contato com uma das outras grandes (e mais perigosas) figuras do rock, o completamente despirocado baterista do The Who, o mitológico Keith Moon. Moon, no entanto, é que passaria apuros devido a Reed... Em 1975, a banda havia contratado o diretor Ken Russell para realizar o filme adaptado de sua famosa ópera rock Tommy, e ele fez questão de chamar Oliver Reed para o elenco, em um dos papéis principais, de padrasto do garoto Tommy. Curioso para tomar umas com o cara e testar seus limites, Moon, que todos sabem, não era certo da cabeça, decidiu pegar um helicóptero com um de seus assessores e ir até a propriedade rural inglesa onde o ator morava na época, para conhecê-lo e encarar uns goles.

Reed estava se recuperando de uma de suas últimas ressacas em sua enorme banheira da mansão, quando ouvir o barulho espetacular e cada vez mais crescente do helicóptero se aproximando de sua casa, sem nenhum prévio aviso. Tal qual estivesse em uma de suas películas de aventura, Reed saltou da banheira, rapidamente pegou o rifle que mantinha em seu quarto, e correu até o terraço da mansão, praticamente seminu. 

Como Athos, em Os Três Mosqueteiros (1973)

A cena dantesca que se seguiu confirmou a todos que loucura, ali, era mato: o ator prontamente passou a mirar e atirar no helicóptero de Moon e seus asseclas que, apavorados e incrédulos com a situação de um cara pelado no topo de uma casa, disparando uma espingarda contra eles sem parar, passaram a manobrar a aeronave das formas mais mirabolantes para escapar dos projéteis e conseguir pouso seguro. Peter Butler, amigo de Moon que estava nesse rolê maluco, lembraria anos depois: “Tudo o que eu consigo lembrar é estar voando de helicóptero e ver Oliver Reed no telhado de sua casa com uma espingarda calibre 12 mirando na gente, enquanto eu escutava os tiros: 'Blam! Blam!' Estávamos todos com medo, Keith estava com medo e eu também".

Com o baterista Keith Moon, do The Who, em 1975: só bebedeira e palhaçada

Butler continua: “O piloto do helicóptero se cagou todo! Tivemos que dar a volta e pousar num terreno qualquer ali por perto, pois estávamos numa zona rural. Saímos do helicóptero e fomos até a casa de Oliver Reed com uma certa apreensão. Especialmente comigo, porque eu iria apresenta-los um ao outro e fiquei pensando: 'Eu vou apresentar Keith Moon a Oliver Reed e com a fama de travessuras que Moon possui, esses dois pirados podem acabar se explodindo juntos'".

O mais insano de tudo é que Reed, ao ver aquele pessoal se aproximando e reconhecer de quem se tratava, nem perguntou nada sobre o helicóptero, ou porque haviam resolvido sobrevoar e pousar por ali sem avisar antes - ele simplesmente abriu um belo sorriso, estendeu sua mão a eles, e disse: "Olá, pessoal! Bem-vindos à minha casa, vamos entrar!". O que se seguiu a essa introdução medonha de Keith Moon ao mundo de Oliver Reed foram 3 dias de bebedeira e farra direto ali mesmo, na casa dele, até que não sobrasse mais nenhum ml de whisky ou breja em qualquer copo ou taça do lugar.

Com a atriz Diana Rigg, com quem namorou, em 1968

A passagem de Reed para o outro lado foi sintomática de todos os exageros que marcaram a vida do ator: muitos com certeza se lembram dele em seu último papel, no clássico filme Gladiador (2000), de Ridley Scott, como o icônico e veterano treinador de gladiadores Próximo, que acaba ajudando o personagem de Russel Crowe, Maximus, a conseguir sua vingança. Pois bem, foi justamente durante as filmagens de Gladiador, ocorridas em Valetta, Malta, que Reed morreu: com seu tipo bonachão, ele foi fazendo amizade com toda a equipe dos bastidores da produção, e sempre chamava o pessoal para se divertir num pub próximo, após as cenas do dia.

Mais velho, em seu derradeiro papel, no filme Gladiador (2000)

Com a firme expectativa de que aquele seria o papel que iria levantar novamente a sua carreira, Reed resolveu comemorar pra valer em uma dessas incursões, e acabou passando um pouco da conta: ele amanheceu no local, e após muita festa e barulho, algumas apostas e quedas de braço com os locais, e ainda o que contabilizaram como algo próximo a 20 rodadas de uma das mais poderosas cervejas alemãs servidas no lugar, o ator não resistiu e caiu. Ali mesmo ficou, e não se levantou mais.

Oliver Reed, 61 anos, falecia de parada cardíaca.









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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SENSIBILIDADE E PRECISÃO TEM NOME: DAVID GILMOUR

 

Não é sempre que acontece o que ocorreu neste ano de 2026, principalmente em uma carreira tão acelerada e sinuosa que é a de uma estrela do rock - frequentemente, dada a muitos exageros, correria com shows e gravações, crises de ego e/ou criatividade, e uma eterna cobrança de fãs para que a "mágica da arte" esteja sempre à disposição.

Pois bem. Este ano, um dos gigantes do gigantesco, progressivo e lendário grupo Pink Floyd, o seu não menos lendário guitarrista e vocalista David Gilmour (nascido em 6 de março de 1946, Cambridge - Inglaterra), completou 80 anos.


Além dos demais predicados que vamos comentar mais adiante, podemos dizer que o octogenário Gilmour se tornou um desses caras privilegiados pelo fato de, como proclama o eterno dito popular, "ser o cara certo, e estar no lugar certo, na hora certa". Antigo colega de escola do primeiro vocalista, guitarrista e membro fundador do Pink Floyd, o genial Syd Barrett, calhou de Gilmour ser chamado às pressas para substituir o amigo em um momento bastante delicado, por volta do finalzinho de 1967, em que a banda mal tinha começado a fazer sucesso e já estava prestes a acabar devido aos sérios e cada vez mais graves problemas mentais de Barrett, induzidos por drogas e crises de esquizofrenia, que causavam sua inconstância em shows e gravações. 

Deveras mais disciplinado e dedicado a aprimorar seus dotes na guitarra do que Barrett, Gilmour acabou sendo o alívio (e porto seguro) de que o Floyd precisava, não só aprendendo rapidamente como tocar as partes de guitarra em todas as músicas, mas também desenvolvendo o seu próprio estilo, mais refinado e melódico do que o de Barrett, de uma forma que passaria a se tornar marca registrada no grupo, dali em diante. Com a saída definitiva de Barrett em meados de 1968, e a confiança adquirida de que poderia não só tocar como cantar em seu lugar - e que bela voz também! - Gilmour se firmaria como uma das figuras na linha de frente do Pink Floyd a partir de então, ao lado do baixista e vocalista Roger Waters, que de certa forma passaria a tomar as principais decisões no direcionamento da banda.



A mítica e polêmica parceria com Waters, aliás, foi a responsável tanto pelo auge como pela queda do Pink Floyd, na sua fase mais clássica: compondo e atuando juntos, atingiram ápices criativos e de extremo brilhantismo, em álbuns como Meddle (1971), o multi-mega-platinado The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977), e desceram ladeira abaixo com The Wall (1979) e o insípido The Final Cut (1983), quando o quebra-pau entre os dois (muito devido ao ego inflado de Waters) chegou a níveis tão críticos, que Waters foi para um lado, e o restante da banda seguiu indo para outro. Nunca mais voltaram a ser amigos, e até hoje, pasmem, ainda trocam farpas pela imprensa, por qualquer motivo que seja. "Brigam como duas velhas britânicas rabugentas", satiriza e ri o baterista Nick Mason, que sempre tentou apaziguar.

Pink Floyd

Velho e rabugento ou não, o fato que não dá para negar é que Gilmour já foi eleito, em sucessivas votações da Rolling Stone e de outras publicações dedicadas ao rock e música pop, como um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Nunca é demais lembrar de seu estilo único e timbre invejável, elegante, que faz com que a sua guitarra expresse uma sensibilidade e precisão incríveis, colocando cada nota em seu devido lugar da maneira mais perfeita, num feeling espetacular que muitos já tentaram imitar ou compreender, sem sucesso. E, assim como outro aluno da mesma escola da precisão melódica e sensibilidade - o latino Santana - Gilmour nos mostra que a melhor forma de fazer o instrumento "chorar" bonito em uma música é apelando não para a velocidade ou técnicas de centenas de notas por minuto, mas sim, encontrando a atmosfera ideal para as notas dentro do conjunto, degustando as mesmas com apenas alguns efeitos certeiros (delay, reverb, distorções não muito carregadas), e deixando elas ecoarem longe, para bem longe ("Echoes", coisa fina do Pink Floyd 71, não é mesmo?).

"Confortably Numb" (1979), clássico do Pink Floyd com solo de guitarra que é considerado um dos mais perfeitos de Gilmour e da história do rock


De 1978 em diante, à medida que foi sentindo que as tensões no Floyd se tornavam mais crescentes e intoleráveis, já começou a cultivar uma carreira solo em paralelo - seu álbum de estreia nesse mesmo ano, David Gilmour, é muito bom, e foi bastante elogiado. Ainda lançaria o também aclamado About Face, em 1984 (onde a letra da canção-título acabaria sendo inspirada em sua relação tortuosa com Roger Waters), e depois de um lapso de mais de mais de vinte anos, retornaria com On an Island (2006), e alguns registros ao vivo exitosos, em que retomava os grandes clássicos do Pink Floyd. O seu último disco com material original é Luck and Strange (2024), que acabou sendo um trabalho em família: tem a contribuição de sua esposa, a jornalista e escritora Polly Samson, nas letras, e participação em vocais e instrumentação adicional de seus filhos Gabriel e Charlie, e da filha, Romany.

Para ler ouvindo o mestre solar em suas guitarras Fender desvairadas, segue uma lista de pequenas curiosidades sobre a vida desse ícone, que talvez alguns conheçam, mas muitos não.


1 - JUVENTUDE NA DUREZA

Filho de professores da Waldorf School, na região de Grantchester Meadows, na Inglaterra, Gilmour desde novo mostrou uma natureza mais rebelde e contestadora do tradicional sistema educacional britânico. Tentando se emancipar mais cedo e ganhar a vida, o rapaz saiu de casa jovem ainda e foi tentar a sorte na França, onde trampou em vários serviços de cunho artístico para ganhar a vida, enquanto tentava se aprimorar e profissionalizar na sua grande paixão: o violão, que ganhou aos 13 anos. Passou dificuldade: ele não tem vergonha de contar que, em Paris, a falta de dinheiro e a fome apertaram, e ele chegou a furtar baguetes de um mercado próximo de onde morava, para se alimentar. Considerado um jovem muito bonito desde novo (basta olhar as fotos da época - Gilmour foi o crush de muitas moças nos anos 60 e 70!), ele trabalhou posando como modelo vivo para artistas plásticos, enquanto se aventurava como aspirante a guitarrista de várias pequenas bandas. A mais longeva delas foi a Joker's Wild, que mudou de nome e em 1965 passaria a se chamar The Flowers. Foi ali que ele começou a se firmar como instrumentista, também cantando ocasionalmente.


2 - DE ROLO COM UMA 'SEX SYMBOL' (E COM BRIGA TAMBÉM)

Brigitte Bardot

Foi durante uma pequena turnê do The Flowers, no verão de 1966, em Saint-Tropez, que um encontro inusitado marcaria o início de carreira de Gilmour, e só revelado muitos anos depois: ele e a atriz francesa Brigitte Bardot, grande musa e sex symbol do cinema europeu dos anos sessenta, tiveram um rápido envolvimento amoroso - mas não sem uma certa confusão. Durante a apresentação do grupo, Brigitte estava na plateia e de cara começou a demonstrar interesse pelo jovem guitarrista, então com apenas 19 anos, que também não desgrudava o olho dela (que já era super famosa). O namorado dela na época, o também célebre milionário e playboy alemão Gunter Sachs, estava junto, e começou a desconfiar do clima. Não demorou para que depois do show, durante uma festa, Bardot e Gilmour dessem um jeito de se encontrar. Sachs descobriu e, enfurecido, foi atrás do músico posteriormente para tirar satisfações. Reza a lenda que rolaram alguns sopapos, entrou a turma do deixa disso, e pronto, cada um para o seu lado... Mas o fato é que Gilmour faturou o orgulho de atrair uma das maiores beldades do mundo do cinema. E isso, senhoras e senhores, é mérito de se guardar pra sempre.


3 - GANHANDO UM 'IRMÃO' NA BANDA

Muita gente nutria uma imagem da parceria entre David Gilmour e o "chefe" Roger Waters, no Pink Floyd, como algo comparável a outras grandes e clássicas duplas de compositores do rock: Lennon/McCartney (Beatles), Jagger/Richards (Rolling Stones), Plant/Page (Led Zeppelin), dentre outros. A realidade, no entanto, era outra: era menos um entrosamento, e mais uma conveniência criativa para garantir composições para o Pink Floyd. A verdadeira parceria, chegando até a uma relação de profunda amizade (ou irmandade mesmo) era entre Gilmour e o eterno tecladista da banda, Richard Wright - que, convenhamos, era um dos verdadeiros arquitetos do som etéreo e espacial, repleto de climas, do grupo. Retire as camadas de teclados de Wright para ver o que vira. E apesar de muitas vezes não transparecer nos créditos, a parceria de ambos compondo e moldando a sonoridade do Pink Floyd foi essencial para as obras-primas da banda. Para se ter uma ideia, aquele que é considerado o primeiro grande clássico da fase áurea do grupo foi resultado de ideias dos dois para uma longa suíte, que é a famosa "Echoes", com seus quase 24 minutos delirantes, do álbum Meddle, de 1971. Gilmour a executou várias vezes em shows de sua carreira solo, a partir dos anos 2000, e sempre com a participação especial de Wright nos teclados. Essa é uma canção tão significativa para ele, que o guitarrista jurou nunca mais tocá-la depois da morte de Wright (por câncer de pulmão, em 2008). E hoje é sabido que um dos motivos para ter aumentado ainda mais a birra no acirrado e tempestuoso relacionamento entre Gilmour e Roger Waters foi o fato do baixista, num arroubo ego maníaco ocorrido durante a turnê do disco Animals (1977) ter simplesmente demitido Rick Wright da banda, passando a contratá-lo como um reles músico de aluguel para os projetos seguintes do grupo, incluindo o celebrado The Wall (1979). Isso enfureceu Gilmour sobremaneira ("Um absurdo! Ele estava lá no começo do Floyd, ele sempre foi um dos cabeças do grupo"). Wright participou de diversos momentos da carreira solo de Gilmour a partir de 2002, em discos e turnês, e passou a fazer parte da equipe de músicos dele nos shows, como membro fixo. Na ocasião do falecimento do tecladista, Gilmour declarou: "Ninguém jamais poderá substituí-lo, e eu nunca toquei com alguém que pudesse ao menos chegar aos pés dele como músico. Assim como ele, eu nunca achei fácil expressar os meus sentimentos em palavras, mas digo que ele era o meu grande parceiro musical e amigo, eu o amei muito e vou sentir falta dele enormemente."


4 - AR E MAR: GRANDES PAIXÕES

O Astoria Houseboat Studio, de Gilmour

Quando não estava tocando guitarra no Floyd ou em seus projetos solo, Gilmour estava... voando ou navegando por aí! São duas grandes paixões do músico. Ele é um exímio piloto, e nos anos 80, fundou em Londres a Intrepid Aviation, empresa que chegou a ter uma das melhores frotas de aeronaves do Reino Unido. No início dos anos 2000, acabou vendendo a empresa, declarando: "montei a Intrepid como uma forma de sustentar o meu próprio hobby de pilotar aviões, mas a partir do momento em que a coisa cresceu muito e vi que teria que gastar a maior parte do meu tempo administrando, resolvi vendê-la. Hoje, tenho apenas um bom e velho biplano para passear pelos céus quando dá vontade." Em relação ao hobby da navegação, Gilmour foi mais modesto - mas nem tanto: criou um estúdio caseiro sobre as águas, o Astoria Houseboat Studio, que já foi visto em alguns mares e rios da Europa (incluindo o Tâmisa em Londres, claro), onde ele pode tocar e mexer com algumas criações artísticas, enquanto curte os passeios.


5 - CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS


E quando não estava tocando guitarra, voando em seus aviões, ou navegando, Gilmour estava... fazendo filhos! O cara levou bem a sério a máxima bíblica. Do primeiro casamento com Ginger Hasenbein, que durou de 1975 a 1990, teve quatro filhos: Alice (1976), Clare (1980), Sara (1982) e Matthew (1985). Em 1994, ele se casa com a jornalista e escritora Polly Samson, adota um filho que ela já tinha, Charlie, mas manda ver com mais três filhos biológicos: Joe (1995), Gabriel (1997), e Romany (2002). Parece ser daqueles que gosta de ver a casa bem cheia mesmo no almoço de domingo.


6 - UMA FRUSTRAÇÃO: O SOLO PERDIDO PARA SEMPRE

O Pink Floyd na turnê de 1977 do álbum 'Animals'

Gilmour revelaria uma de suas grandes frustrações artísticas em uma entrevista mais recente: a perda da gravação daquele que, para ele, foi um dos melhores solos de guitarra que já havia conseguido criar para o Pink Floyd, durante a gravação do álbum Animals, de 1977, mais especificamente para a famosa música "Dogs". Apesar de conter toda uma sequência de solos fenomenais na gravação comum e já lançada, que todo fã conhece e reverencia, Gilmour revelou que, no início da segunda metade da longa canção (17:06), havia um trecho adicional que ele havia gravado com bastante feeling, que deveria ser incluído e que ele achou sensacional. Entretanto, por um erro do engenheiro de som do estúdio, o tape onde o mesmo estava foi marcado junto com trechos experimentais que deveriam ser descartados, e lá se foi o segundo grande solo de Gilmour para a música, apagado por engano. Uma outra sequência foi então criada, mas... "Eu tentei diversas vezes refazer aquilo, mas por mais que tentasse recriar com a máxima perfeição, nunca cheguei ao mesmo sentimento e intensidade daquela primeira gravação. Uma pena. Tem coisas que realmente são muito espontâneas, não dá para conseguir fazer repetidamente". Dali em diante, o músico passou a fazer cópias backup de suas gravações após todo término de sessões e levar para casa, de forma a evitar correr esses riscos novamente.


7 - PARÇAS E BICOS

Gilmour hoje anda mais sossegado, mas em boa parte de sua carreira, o cara parecia ser um tipo bem workaholic, tamanha a quantidade de bicos e participações dele nos trabalhos de um monte de gente do ramo. Pra começar, nem se ateve à guitarra: já citamos aqui no blog a curiosa passagem em que ele improvisou de técnico de som para a famosa apresentação ao vivo de Jimi Hendrix na Ilha de Wight, em 1970 (confira aqui). Acabaria desempenhando a mesma função alguns anos depois, para artistas amigos seus, tão díspares como Grace Jones, Roy Harper, Hawkwind e as bandas new wave Arcadia e Dream Academy. Colaborou com a banda de apoio de Brian Ferry (ex-Roxy Music), ao longo de toda a década de 80, até se apresentando com eles no mega evento Live Aid 1985. Com o ex-beatle Paul McCartney, parça de longa data, foram diversas colaborações: participações especiais em shows, tocando juntos no Festival de Knebworth de 1990 e em eventos beneficentes com grandes estrelas do rock, além de solar em hits de Paul, como a famosa "No More Lonely Nights" (1986) e "We Got Married" (1989). Tocou também com Pete Townshend, em alguns shows comemorativos do The Who, na década de 90. Com o Supertramp, colaborou compondo junto com eles o sucesso "Brother Where You Bound", de 1985. Além de ter sido praticamente o grande descobridor da performática estrela pop inglesa Kate Bush, após ter ouvido uma demo dela e a recomendado para um contrato com a gravadora de seu primeiro álbum (1978), também tocando em alguns de seus shows. 


8 - FENDER STRATOCASTER: A PARCERIA INESQUECÍVEL

"The Girl in the Yellow Dress"

É raro e difícil acontecer... Mas Gilmour, em alguns momentos da carreira, já tocou em guitarras de outros modelos que não fossem as suas famosas Fender Stratocaster. Uma dessas rápidas "traições" ocorreu nesse vídeo logo acima, onde ele se apresenta no programa de TV do seu amigo Jools Holland, em 2015, surpreendentemente debulhando uma Gibson Les Paul. A devoção às Stratocaster, entretanto, permeia toda a carreira de Gilmour, e não à toa, ele é o detentor do primeiro modelo dela, lançado em 1954, com o nº de série "#0001" - apesar de algumas controvérsias apontando que, na realidade, ela não teria sido a primeira desse modelo lançada. Polêmicas à parte, a verdade é que ela é o "xodó" da extensa coleção de Gilmour, e ele nunca escondeu que um dos segredos do som que ele consegue tirar são os timbres mais límpidos e cristalinos que ele encontra nos instrumentos dessa marca e modelo.





"Wish You Were Here"






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