Nos últimos dias, uma imagem bem antiga tomou conta das redes sociais de vídeos, como volta e meia acontece com trechos de grandes clássicos da sétima arte. Ela pertence aos primórdios do cinema falado, e é bem impressionante pois mostra, com efeitos visuais práticos bem rudimentares, apenas de maquiagem e iluminação, a assustadora transformação do comportado cientista Mr. Jekyll no maníaco Dr. Hyde, na histórica adaptação cinematográfica de O Médico e o Monstro (1931), dirigida por Rouben Mamoulian, e com Fredric March (vencedor do Oscar de melhor ator na época por esse filme) no papel principal. Veja só:
Sempre foi característica do cinema a especialidade em fazer surgirem grandes atuações a partir de histórias em que as personagens principais rompem os grilhões mentais do comportamento padrão, e das ditas convenções sociais, para se revelarem sociopatas (ou psicopatas) de grande insanidade, que passam a trilhar a senda da loucura.
Quer fazer com que um ator brilhante vá até o fundo da sua alma, buscando uma interpretação incrível, com uma entrega que possa realmente surpreender? Ótimo, dê a ele um papel de psicopata, onde ele possa explorar a perda total das amarras morais: se ele for bom mesmo, geralmente isso funciona.
Ainda na época de ouro do cinema americano, um ator que se eternizou em um desses papéis, que o marcaria por toda a carreira, foi Robert Mitchum, como o perverso Harry Powell em O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter, 1955), clássico inesquecível e eletrizante de suspense. Ele era o assassino cruel de viúvas ricas que saía da prisão com as palavras "love" (amor) e "hate (ódio) tatuadas nos dedos das duas mãos, e que se fingindo de homem bom e religioso, vai ao encalço da família de um ex-companheiro de cela, que revelara que o dinheiro de um assalto estava escondido na boneca de sua filha pequena.
A interpretação de Mitchum é de arrepiar, e os trejeitos desenvolvidos pelo mesmo, que se transforma em uma autêntica "assombração" para as crianças indefesas que ele passa a perseguir, entraram para a história como uma das primeiras grandes e autênticas atuações de um bandido realmente sádico. Esse clássico, repleto de uma atmosfera muito lúgubre e sinistra, incomum para filmes norte-americanos da época, é referenciado como um dos melhores 'thrillers' de todos os tempos, no extenso e sensacional ensaio sobre obras-primas do suspense e terror do grande escritor Stephen King, transformado em seu livro não ficcional de 1981, o fundamental Dança Macabra.
E falando em suspense, que é o gênero por excelência dos filmes de maníacos, apenas cinco anos depois, em 1960, aquele que se tornaria o mestre do estilo, o renomado Alfred Hitchcock, lança uma de suas obras-primas, Psicose, que aborda a história de Norman Bates - interpretado com todos os maneirismos possíveis por Anthony Perkins, numa performance da qual ele nunca mais conseguiria se desvincular.
Bates é o jovem gerente de um hotel onde encontra refúgio, em uma noite de fuga, a jovem Marion Crane (interpretada por Janet Leigh, mãe da atriz Jamie Lee Curtis), que afanara uma razoável quantia de dinheiro em seu trabalho, visando se casar com seu namorado. Os modos educados mas ao mesmo tempo tensos de Bates logo revelam uma personalidade exótica e insegura, que sofre uma pesada influência da mãe dominadora... e que logo começará a demonstrar atitudes aterrorizantes. Daqui saiu uma das mais citadas e imitadas sequências homicidas de toda a história do cinema, a icônica "cena do chuveiro" - amplificada pelas notas agudas do violino intenso e obsessivo da trilha sonora monumental de Bernard Herrmann - e o psicótico Norman Bates seria o primeiro de uma sequência de assassinos em série que fariam parte da história do cinema, todos direta ou indiretamente inspirados no terrível Ed Gein: na vida real, conhecido como o "açougueiro de Plainfield", e que inspirou a recente série Monstro - A História de Ed Gein, da Netflix, com Charlie Hunnan no papel principal.
As práticas sanguinárias de mutilação de Ed Gein também inspirariam outro grande clássico do cinema de horror, não com apenas um psicopata, mas dessa vez uma família inteira deles! Em 1974, o diretor Tobe Hooper perpetra o impagável O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre), onde o clã do enlouquecido Leatherface, viciado em matar com a sua motosserra, toca um terror absurdo em um grupo de jovens perdidos nos confins do Texas, em um espetáculo tão tenebroso e agonizante, na autenticidade de suas cenas de pavor, que o mesmo fenômeno de gente sair passando mal do cinema ocorrido um ano antes, com O Exorcista, se repetiu na ocasião.
O filme popularizou de forma irreversível a onda dos filmes de loucos assassinos bestiais e lacônicos, praticamente sem fala, no que se tornou o gênero slasher - os filmes em que um psicopata sai matando todo mundo - e daí viria uma safra de exemplares onde o mesmo adquire contornos sobrenaturais, com séries que exploram o personagem à exaustão, fazendo com que ele nunca morra definitivamente, e volte várias vezes para saciar a sua sede de sangue.
Em 1978, o lendário Michael Myers aparece pela primeira vez em Halloween, do diretor John Carpenter - e o seu principal alvo é a então novinha Jamie Lee Curtis, que leva adiante o cetro de sofrimento da mãe Janet Leigh, que havia sido atacada no chuveiro em Psicose, e se torna a nova e emblemática scream queen (rainha do grito) dos filmes de terror. Pobre coitada. E na esteira de Myers, com nítida inspiração nele, nasce o famigerado Jason Voorhees, uma aberração sanguinária por trás de uma máscara de hóquei, da série Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980), que atingiria dez filmes de muita matança e desespero.
Mas é no mesmo ano do primeiro Sexta-Feira 13, em 1980, que é lançado um filme que retoma o conceito original do "assassino entre nós", que pode estar escondido no homem comum, um cara qualquer do cotidiano, e que vai aos poucos se revelando, à medida em que vai se entregando às raias da insanidade... Baseado na obra do já citado Stephen King (e realmente "baseado", já que o filme muda muitas coisas), o clássico e controverso O Iluminado (The Shining), mais uma das grandes e inegáveis obras-primas do gênio Stanley Kubrick, traz no papel principal Jack Nicholson, como um escritor que, enfrentando um interminável bloqueio criativo para escrever seu próximo livro, resolve aceitar o trabalho de zelador em um imenso e distante hotel nas montanhas do Colorado, o Overlook, até como uma forma de conseguir isolamento e tranquilidade para ter alguma inspiração, levando consigo a sua esposa e o filho, o pequeno Danny - que, no lugar, se revela um sensitivo que passa a ter visões e contatos medonhos e sobrenaturais com o passado do local, à medida em que seu pai vai gradualmente perdendo a sanidade, e se tornando cada vez mais ameaçador.
A atuação de Nicholson nesse filme (como um escritor homônimo seu, também chamado Jack) chega a se tornar um 'estudo de caso', de tão magnética e assombrosa que é. A descida aos infernos de Jack, gradativamente enlouquecendo e se entregando aos demônios do hotel (e de sua alma também) representa um dos grandes momentos do cinema de suspense e horror. A sua imersão no papel, e nas mãos de um diretor talentoso e exigente como Kubrick, foi uma coisa tão alucinada, e tão escabrosa, que realmente parece se tratar de momentos de possessão, em algumas das cenas mais assustadoras da película, quando ele passa a definitivamente perseguir a sua família. É uma vergonha histórica ele não ter sido nem ao menos indicado ao Oscar por essa interpretação, que o deixaria marcado pelo resto de sua carreira.
Alguns anos depois, já em 1986, um outro ator chamaria a atenção por sua atuação realista e calculada como psicopata, alguém que começa a trama com sorrisos e trejeitos gentis, para depois deixar cair a máscara e se tornar frio e sanguinário: o gigante nórdico Rutger Hauer, que já havia chamado a atenção de muita gente como o replicante Roy, no clássico da ficção científica Blade Runner (1982), tem um dos seus grandes momentos em A Morte Pede Carona (The Hitcher), onde ele é o caronista que se torna o pesadelo do casal C. Thomas Howell e Jennifer Jason Leigh, em uma longa perseguição pelas estradas. O filme, por sinal, teve o roteiro inspirado em uma canção que foi um dos grandes sucessos do grupo The Doors, de Jim Morrison - a instigante "Riders on the Storm", de 1971.
Outro grande ator que tinha que passar pelo teste da interpretação genial de um psicopata era o renomado Robert De Niro. E isso aconteceria em 1991, pelas mãos do aclamado Martin Scorsese, dando a chance a seu amigo De Niro de cumprir essa missão, na refilmagem de um antigo suspense de 1962, O Cabo do Medo (Cape Fear), onde ele interpreta um ex-detento que faz de tudo para infernizar a vida do defensor público (papel de Nick Nolte), que não conseguiu impedir que ele cumprisse 14 anos de prisão, passando a ameaçar a sua vida e de sua família. O filme é um brilhante exercício de nuanças do personagem de De Niro: Max Cady, um homem que, inicialmente simplório e ignorante, vai se aprimorando intelectual e fisicamente na prisão, passa a trabalhar seu corpo e mente, chega a se formar em Direito e efetuar a sua própria defesa para ganhar a liberdade, e se torna uma máquina fria, inteligente e imparável na sua busca por vingança contra o advogado que não fez uma boa defesa de sua causa.
Se formos falar, no entanto, em um caso publicamente reconhecido, por vários profissionais na área jurídica e da psiquiatria, como o mais bem retratado enfoque de um psicopata na história do cinema, é consenso geral chegarmos ao já histórico Anthon Chigurh, desempenho louvável de Javier Bardem no filme dos irmãos Coen, Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Men, 2007). Ele não expressa emoção alguma, não tem reações, é praticamente um robô programado e ciente de seu ofício, que o realiza de forma gélida e matemática, milimetricamente calculada e racionalizada sem traço algum de humanidade ou hesitação. Chigurh é o retrato perfeito do executor sem empatia, o psicopata por excelência que faz disso a sua profissão e o mais singular motivo de sua própria existência. Na busca incessante de uma mala de dinheiro subtraída por um cowboy, após uma negociação malsucedida de traficantes no deserto, ele passa por cima de tudo e de todos, apenas revelando uma interessantíssima fixação pela aleatoriedade da sorte em um jogar de moeda no "cara e coroa", onde decide quem vai viver, e quem vai morrer.
E também na base do cara e coroa, chegamos ao ano seguinte com o próximo filme que melhor relatou a vivência impiedosa de psicopatas no cinema: em Batman, O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), de Christopher Nolan, nossas atenções se concentram, na maioria das vezes, não no herói encapuzado da trama, mas sim, nos seus dois antagonistas, que expõem de forma visceral a insanidade humana. O promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart), convertido no vilão Duas Caras, assim como Chigurh, também aposta na moeda o destino das pessoas. Mas quem o "cria", subvertendo a razão em loucura, e faz isso a todo momento durante o enredo, é o inesquecível Coringa - um desempenho genial e sem erros de Heath Ledger, o seu último antes de morrer, e postumamente contemplado com um Oscar (esse sim, com justiça).
Ele personifica a antítese do Batman - e como sua nêmesis, o coloca diante do espelho, defronte as próprias sombras de sua angústia, violência, e desejos de vingança. Ambos reflexos torpes de sujeitos distorcidos pela sociedade, destruídos e ambíguos, separados apenas por uma linha muito, mas muito tênue, que se constitui a partir da crença em uma salvação (ou redenção) moral coletiva, que fica muito clara na importantíssima sequência dos tripulantes dos dois navios com detonadores de bombas, essa sem dúvida, uma das mais belas e profundas, sociologicamente, da filmografia de Nolan.
Como se tudo isso tivesse que efetivamente terminar na água do mar, eis que chegamos ao filme de um mestre do terror moderno, Robert Eggers, com seu O Farol (The Lighthouse), de 2019, onde a loucura e insensatez de dois personagens rivais, interpretados brilhantemente por Willem Dafoe (como o velho guardião de um inóspito farol) e Robert Pattison (como o seu impaciente e nervoso aprendiz), joga em nossa cara toda a desolação e insanidade que podem surgir a partir da solidão de duas pessoas, totalmente longe e segregadas da civilização, de suas convenções e regras. Ali, onde o pavor da perda de noção do tempo, o abandono, e a convivência com horrores lovecraftianos se misturam à fauna opressora e aos terríveis desastres naturais do oceano, mais uma vez somos magnificamente apresentados à total perda de razão e noção do ser humano insignificante, essa pobre criatura complexa e quebrada.
Obra perturbadora, absolutamente apavorante. E imperdível.
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