domingo, 24 de maio de 2026

O MISTERIOSO FIM DE UM BALUARTE DO ROCK

Há 50 anos, em 14 de maio de 1976, ocorria a passagem de uma das figuras mais proeminentes do rock desbravador rock inglês dos anos 60, o homem que havia dado voz a um dos mais importantes grupos daquela geração, o "ninho de pássaros" de três estupendos guitarristas que saíram de lá para voar bem alto. Estamos falando da cultuada banda The Yardbirds (já abordada aqui, neste link), por onde passaram ninguém menos que Eric ClaptonJeff Beck e Jimmy Page. E estamos falando, principalmente, do seu vocalista, um baluarte daquela era de gênios que moldaram o som moderno: Keith Relf.

 

Figura mítica de uma época inovadora e de devaneios, possuía uma voz anasalada e rascante ao mesmo tempo, além de ser um exímio gaitista, banhado na tradição das raízes honestas do blues, o que imprimia um estilo característico e marcante às obras e projetos da qual fez parte. Mas que também teve um fim tão triste quanto misterioso, e que há até bem pouco ainda, despertava discussões e polêmicas a respeito de suas nebulosas circunstâncias.

Do início em 1963, substituindo os Rolling Stones no lendário Crawdaddy Club de Londres, até meados de 1967, os Yardbirds fariam história com um som inovador, calcado nos diferentes estilos da trinca mítica de mestres das seis cordas que tocaram na banda - primeiro, rebuscando as raízes do blues elétrico com o reverente Clapton; depois, entrando de cabeça no experimentalismo e na psicodelia vanguardista de distorções com Jeff Beck; e finalmente, com Page se juntando a ele e adicionando ainda mais peso na mistura, até que no final sobrasse apenas Page na guitarra, o que foi a deixa para o embrião do seu futuro projeto, chamado Led Zeppelin.

Os Yardbirds de 1966, em sua mais clássica formação: de pé, da esquerda para a direita, Jim McCarty (bateria), Jeff Beck (guitarra), e Chris Dreja (baixo). No chão, Jimmy Page (guitarra), e recostado na cadeira, Keith Relf (vocais)


Julho de 1968: fadigados, os Yardbirds dão seus últimos suspiros. Em uma rápida reunião, o vocalista Keith Relf e o baterista Jim McCarty comunicam a Page e o baixista Chris Dreja que estão saindo do grupo, e pensam em iniciar um novo projeto, com uma tendência de som diferente, mais acentuada para o folk: o Together. Era basicamente apenas os dois tocando juntos, numa vibe acústica e de curtíssima duração, que resultou em um único compacto, lançado ainda em agosto daquele ano, com as músicas "Henry's Comin' Home" e "Love Mum and Dad". Era quase um projeto solo de Relf - ele já havia tentado uma carreira individual paralela aos Yardbirds em 1966, ao lançar o single "Mr. Zero", mas não teve grande repercussão. A importância do projeto Together agora, no entanto, seria decisiva, pois foi através dele que Relf e McCarty acabariam travando contato com outros músicos, para criar aquele que de fato seria o primeiro grande momento de projeção do cantor após os Yardbirds: o célebre grupo Renaissance.

Keith e sua irmã Jane Relf, em 1969: mentores da formação original do Renaissance

Foi graças a uma ideia desenvolvida entre Keith e sua irmã, Jane Relf (se lançando como vocalista), mais o baixista Louis Cenammo e o pianista John Hawken, conhecidos de bastidores das gravações do Together - formar um combo que conseguisse juntar o vigor do rock ao lirismo e a sofisticação de vocalizações (trabalhadas em conjunto por Keith e Jane) mais a instrumentação folclórica e pastoral, produzindo um som refinadíssimo e de forte inspiração jazzística, que entraria para a história do rock progressivo. O primeiro e seminal registro do grupo, em disco homônimo lançado em 1969, se destaca por suítes e canções contemplativas, como as belíssimas "Island" e "Kings and Queens".

Essa formação, entretanto, duraria apenas mais um álbum, o também magistral Illusion, de 1971. Apesar de contar com uma boa qualidade e linha que seguia ainda o estilo do LP anterior, foi um trabalho conturbado, que acabaria determinando o fim dessa formação original do grupo, e dando origem ao line-up posterior do Renaissance que se tornaria o mais celebrado e conhecido pelos anos e décadas seguintes, com a cantora Annie Haslam assumindo a voz e o comando, junto com outros membros. 

Durante um extenuante período de turnês entre 1969 e 1970, tanto Jim McCarty (que havia produzido o primeiro disco) quanto Keith Relf adoecem, em períodos consecutivos, sendo que a situação do vocalista sempre fora um pouco mais complicada: era notório que ele sempre fora vítima de uma bronquite asmática crônica, que quase tirara a sua vida ainda quando criança, e praticamente lhe deixara com apenas um pulmão funcionando. Um autêntico guerreiro  sobrevivente, que lutando contra todos os prospectos, e as dificuldades até mesmo para ter fôlego para cantar durante certas épocas de crise, tinha uma paixão pela música e pelos blues que o levava a superar tudo, sempre seguindo adiante.

Eles também se desentendem quanto aos rumos do som do segundo álbum. Isso faz com que Keith Relf aproveite uma breve ausência de McCarty, e assuma sozinho a produção do disco - o que desagrada o baterista. O processo de desintegração do grupo é rápido. Quando Illusion foi efetivamente lançado, no início de 1971, Relf já estava fora do grupo.

"Island", com o Renaissance, ao vivo

O biênio 1971-1972 vê um Keith Relf buscando se concentrar mais no trabalho de produtor e compositor nos estúdios, convivendo com o mundo da música de uma forma mais tranquila. Por trás disso, estava não só o interesse em fugir um pouco do barulho e correria do dia a dia de uma banda, com o qual ele já havia convivido arduamente desde os dias de Yardbirds, como também a necessidade de desacelerar para cuidar um pouco mais da saúde. Nesse período, então, ele atua como produtor da banda inglesa Steamhammer, com quem o baixista Louis Cenammo passa a tocar, após também sair do Renaissance. O grupo lança um ultimo trabalho em 1972, produzido por Relf, mas a partir dele é que estão lançadas as sementes para o último grande projeto conhecido do cantor. 

Estreitando uma forte amizade nos estúdios com o guitarrista do Steamhammer, o talentoso Martin Pugh, Relf e Cenammo passam a compor bastante com ele, e idealizar um novo conceito de grupo. Eram dias de ousadia e poder dos grupos que elevavam o blues às últimas consequências do peso e da intensidade sonora: vendendo milhares de discos, bandas como Deep Purple, Black Sabbath, Humble Pie e o mais monumental de todos, o Led Zeppelin (do ex-coleguinha de Relf, Jimmy Page) ditavam as regras do mercado de música jovem, ao lado das agremiações progressivas. Isso chamava a atenção de Relf e dos outros caras, que passaram a querer fazer parte desse filão também.

Rara foto de Keith Relf com o Armageddon (1975)

O nascimento idealizado da super banda então batizada por eles de Armageddon passa por duas decisões importantes: a primeira, como já foi dito, era fazer experimentações sonoras com o modelo de hard rock que era sensação na época. Mas a outra, pouco conhecida por muitos, dizia respeito à própria saúde de Relf, cada vez mais fragilizada devido a seus problemas respiratórios. De acordo com recomendações médicas, e procurando fugir do clima frio e úmido inglês que só piorava as suas crises, Relf propôs para todos se mudarem temporariamente para os EUA, na ensolarada Los Angeles, onde não só o clima mais temperado como também chances maiores para se estabelecerem artisticamente e conseguirem contratos seriam oportunidades mais benéficas. E como um bom grupo de rock pauleira tem na sua composição o baterista como peça fundamental, foi justamente lá que eles encontraram o seu: Bobby Caldwell, que havia feito parte do lendário Captain Beyond.

O ano era 1974, e durante a estadia deles em L.A., as portas vão se abrindo: primeiro, devido à amizade do baixista Louis Cenammo com o célebre cantor e guitarrista Peter Frampton, que já estava se tornando bem conhecido na América, o Armageddon estabelece boas relações com a gravadora do mesmo, a A&M Records, e daí para um contrato de gravação do que seria o primeiro disco deles foi um pulo. Uma fitinha demo com algumas das músicas que eles já haviam composto estava rolando nos bastidores do pessoal da música, e prenunciava e confirmava os burburinhos de todo mundo que ouvira o material: o Armageddon tinha uma qualidade excepcional, e estavam destinados a ser a próxima grande sensação do rock! Músicos exímios vindos de grupos lendários e já consagrados, e que tinham uma criatividade e inspiração invejáveis. Era um mega jato turbinado, e pronto para decolar. 

"Silver Tightrope" (1975 - Armageddon

As canções da demo são retrabalhadas e, gravado em sessões de estúdio entre a Inglaterra e EUA, o álbum de estreia dos caras, o autointitulado e magistral Armageddon é lançado em julho de 1975. Petardos como "Buzzard", "Last Stand Before" e a hipnótica "Silver Tightrope" comprovam que sim, agora Keith Relf - novamente segurando a gaita e os vocais, assim como em seus tempos áureos de Yardbirds - conseguira atingir seus intentos, e tinha uma banda poderosa, capaz de fazer frente ao Zeppelin, de Mr. Page e cia.

Mas então... vem a reviravolta que poucos esperavam. A expectativa por maiores vendagens do álbum nos EUA (apesar de um bom desempenho nas paradas europeias) não é atingida, ao mesmo tempo em que, durante a estadia em L.A., Pugh e Cenammo começam a ficar desleixados e vão se entregando a cada vez mais "festinhas" e substâncias inebriantes, chegando a faltar a compromissos de ensaios e pequenos shows, que tinham como intenção aquecer a banda para o que seria sua grande chance de fazer o nome: haviam sido anunciados como grupo de abertura da nova turnê americana de ninguém menos que Eric Clapton. A despeito disso, e de acordo com depoimentos que o baterista Bobby Caldwell daria anos depois, em 2008, outro contratempo passava a ameaçar o Armageddon: uma nova piora no quadro de saúde de Relf acontecia, aliada ao fato dele acabar acompanhando os outros membros em festas e eventos que não eram recomendados para alguém em sua condição. O último diagnóstico dado naquele ano indicava que a sua asma havia simplesmente evoluído para um enfisema pulmonar. Ele estava praticamente impossibilitado de seguir com o grupo em uma grande turnê.

Relf e Pugh em show em West Hollywood, 1975

Estávamos agora em 1976. E a grande promessa do Armageddon havia, infelizmente, morrido na praia. Esfacelado e com um sentimento geral de desinteresse, os seus integrantes se dispersam, e o grupo encerra as atividades.

No final do ano anterior, Relf e sua família - a esposa, April Liversidge, e os dois filhos, Daniel e Jason - haviam se mudado para Hounslow, distrito a oeste de Londres, para uma casa suburbana simples e no estilo dos imóveis do lugar, mas com um porão subterrâneo que o músico havia adaptado como um estúdio caseiro, onde pudesse continuar compondo e trabalhando com suas ideias. Apesar da saúde mais debilitada, Relf não se dava nunca por vencido: já havia estabelecido conversações com sua irmã Jane, para ensaiar uma possível volta daquela formação original deles do Renaissance (que agora passaria a se chamar Illusion), ainda que tivessem que se apresentar menos vezes e de forma mais comedida, e já estava compondo e criando novas músicas e arranjos, enquanto esperava melhoras à base de um novo tratamento que ele tinha começado, com o uso do medicamento teofilina.

No dia 14 de maio, Relf está trabalhando em uma nova composição com sua guitarra, plugada nos equipamentos de seu estúdio caseiro. Mentes malignas e detestáveis, dessas dignas de tabloides e noticiosos absurdos da imprensa sensacionalista - o mesmo tipo de gente que foi capaz de criar a lenda de que a cantora Mama Cass Elliot havia morrido engasgada com um sanduíche (leia aqui) - inventariam depois a história de que Relf, tal qual um rockstar drogado e enlouquecido, teria ligado a sua guitarra enquanto estava em uma banheira luxuosa, ideia tão esquizofrênica e típica do jornalismo marrom, que a gente fica pensando, como é que certos veículos já tiveram a coragem de um dia publicar esse tipo de disparate.

Ocorre que aqueles tipos de porão, das casas inglesas na época, não tinham um aterramento de energia adequado, assim como geralmente apresentavam grande parte da tubulação hidráulica da residência exposta. A umidade típica daquele ambiente muito provavelmente causou o contato entre alguma água dos canos e a fiação elétrica do local. Enquanto tocava, calmamente, e de forma desapercebida e sem grande ruído, Keith Relf foi eletrocutado por uma descarga que subiu pelo cabo de sua guitarra plugada, imediatamente o levando a óbito. Agravada era a sua condição cardíaca, devido ao uso da teofilina, que pode instantaneamente levar a episódios de taquicardia ou arritmia - visto que especialistas posteriormente constataram que o choque que o vitimou nem era tão forte. 

O mais melancólico de tudo é que seu corpo fora encontrado pelo filho menor, Danny, então com apenas 8 anos de idade, e que num primeiro momento achou que o pai tivesse simplesmente adormecido de cansaço no estúdio, sentado, com sua guitarra nos braços.

Keith Relf está enterrado no Cemitério de Richmond, Inglaterra, e a sua alma e autenticidade artística admiráveis serão para sempre lembrados por todos os amantes da boa música e do rock clássico e vigoroso, de qualidade.




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quarta-feira, 22 de abril de 2026

O APOCALIPSE DA IMPRENSA (E DA HUMANIDADE), SEGUNDO LUMET

 


"Olá, eu sou Diana Christensen, uma racista escravizadora do circo imperialista."
"E eu sou Laureen Hobbs, uma nega barra pesada e comunista."

- Falas das atrizes Faye Dunaway e Marlene Warfield, no filme 'Network' (1976)


Nunca é demais lembrar de uma obra-prima do cinema, ainda mais quando se aproxima o seu aniversário de 50 anos, e aqui estamos falando do emblemático Network - Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, originalmente lançado em novembro de 1976. 

Naquele distante ano, o filme polemizou e dividiu opiniões, muito por conta do seu pretensamente exagerado humor negro, ao tratar das relações dúbias e nada éticas entre profissionais nos bastidores de um canal de TV, comandado por um grande conglomerado corporativo. Ainda assim, conseguiu grande aclamação, sacramentada a seguir com os Oscars de Melhor Atriz, para Faye Duanaway como a calculista e ambiciosa Diana, Melhor Ator, para Peter Finch, Melhor Atriz Coadjuvante, para Beatrice Straight - por uma das atuações mais rápidas e poderosas da história do cinema, 5 minutos e pouco de fala, emoção e pura perfeição dramática - e Melhor Roteiro Original, para o brilhante Paddy Chayefsky.

Todos prêmios certeiros e merecidíssimos, aliás, em que não dá nem para comparar se um se sobrepõe ao outro. Sintomas de uma época em que o Oscar realmente ia para seus verdadeiros merecedores, com mais feeling e menos política. Mas, isso é um outro assunto...

Basicamente, o que vemos em Network é um dos mais completos estudos modernos sobre a mesquinharia humana em seu mais alto grau, num meio de comunicação que luta por audiência a qualquer custo, ocasionando a deterioração dos relacionamentos e a inevitável decadência da coerência, independência e dignidade da atividade jornalística como expressão da autenticidade. Situação que, a bem da verdade, pode parecer datada em um primeiro momento (por se tratar do veículo 'televisão'), mas pasmem, é mais atual do que nunca: basta fazer um pequeno exercício de transposição para a realidade da web. Quantas vezes você já se deparou com o jornalismo que não é mais jornalismo, em que não dá mais para confiar? Que virou comércio, propaganda, ou escândalo. 'Clickbait' e 'like', e que é como nas palavras ditas pela personagem Diana, a certa altura: "toda notícia tem que ter um pouquinho de show". Quais são os interesses por trás de tantas "manchetes" estranhas e tendenciosas, parciais e alusivas a opiniões? Sim, Sidney Lumet e seu filme previram muito mais do que poderíamos imaginar.

Peter Finch, em Network (1976)

A história trata, portanto, do verdadeiro apocalipse da imprensa (e da própria raça humana), em que Lumet, ao trabalhar com esmero a deliciosa trama de Chayefsky, se põe a nos contar as agruras de Howard Beale (Peter Finch, magistral), pobre diabo que, de âncora prestes a ser demitido de seu telejornal, que amarga baixos índices de audiência, de repente é acometido de uma epifania, que o leva a simplesmente "desabafar" espontaneamente, ao vivo no telejornal, tudo o que pensa sobre a sociedade em seu programa, sem filtros, logo se tornando um fenômeno midiático sem precedentes - entrou para a história da sétima arte o seu messiânico sermão: "Eu estou louco pra caramba e não vou mais aturar isso!". Nos EUA daqueles dias cínicos de 1975-76, repletos de inflação, caos econômico, violência e desemprego, com crise do petróleo, Watergate e a ressaca do Vietnam impregnando seus odores no ar, estava na cara que um doidivanas feito Beale, desencadeando esse grito primal na população, iria causar. Era o berro de indignação e revolta dos que se sentiam enganados pelo "sonho americano", e que agora estavam na panela de pressão. Conexão total com o zeitgeist.

Faye Dunaway

Obviamente que, em sua gana para faturar com a nova (e inesperada) sensação da telinha, os executivos do canal - e especialmente a ambiciosa chefe de programação Diana (Faye Duanaway) - vão fazer de tudo para explorar esse filão do "profeta louco" encarnado por Beale, sem prever as consequências que podem vir adiante.

Essas sequências são hilárias, e o filme todo é uma comédia dramática extremamente sarcástica, carregada nos tons realistas: em sua gana por audiência, Diana estimula as atrações de caráter duvidoso, o sensacionalismo, e chega ao cúmulo de financiar programas de TV com grupos terroristas - a cena dela com a personagem supremacista Laureen Hobbs, mencionada no diálogo que abre esse post, é um primor de desmistificação das ideologias como nunca se viu; o executivo Frank Kackett (excepcional atuação do sempre grande Robert Duvall) é a melhor representação dos interesses vis e voláteis de empresários no ramo das mídias; e a pequena mas decisiva aparição do chefão do grupo que controla o canal de TV, Arthur Jansen (Ned Beatty, soberbo) simplesmente prepara um plot twist que é capaz de atiçar todos aqueles que teorizam sobre a "nova ordem mundial" (pois é, ela também está no filme).





Obrigatório ainda citar aqui o outro protagonista do filme, ao lado do personagem de Finch, que é o seu amigo e chefe de jornalismo, Max Schumacher, desempenhado com as habituais maestria e elegância pelo gigante William Holden - naquele que pode, facilmente, ser considerado como o seu último grande papel, antes de falecer (em 1981). É uma atuação que diante das outras que foram laureadas fica até meio esquecida por muitos, mas é justamente a que dá base e sustentação a toda a trama do filme, incluindo a sua narração em off

William Holden

É Holden que faz escada para a atuação primorosa e oscarizada de Beatrice Straight, sua esposa no filme, naquele que é um dos mais dolorosos e bem feitos diálogos de casal em crise já filmados em Hollywood. É ele que garante a visão ainda humana e moral, sentimental e com o olhar cheio de perplexidade, diante de todos os desvarios a que os demais personagens da trama vão se entregando, observando complacente as suas descidas ao inferno. A sua dobradinha com a personagem de Faye, com quem acaba tendo um caso extraconjugal, também rende alguns dos melhores e mais mordazes diálogos de todos os tempos -  digamos que, assim como o seu personagem pistoleiro no clássico faroeste Meu Ódio Será Sua Herança (Wild Bunch, 1969) vai de um encontro a um desfecho épico, aqui também Schumacher tem um desfecho épico, mas na forma de um dos mais ferozes "foras" já perpetrados contra uma personagem feminina. Sem prosseguir no spoiler, é ver para crer.

Caso você seja dessas pessoas que ainda não teve a felicidade de ver e saborear este exemplar sublime do cinema, faça um favor a si mesmo: homenageie e parabenize Network - Rede de Intrigas com uma bela sessão, em seu cinquentenário. É arte de alto nível, feita para pensar. De preferência, comparando e analisando, de forma bem crítica, a situação em que foram parar o jornalismo, e a mídia de um modo geral, nos dias de hoje.

Humor, inteligência e reflexão, como o cinema já não faz.

 


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sábado, 4 de abril de 2026

PRIMÓRDIOS DO ROCK NACIONAL

 
Grupo A Bolha, em show de 1972

Abram alas hoje para a 'grande geração oculta' do rock brasileiro.

Muitos consideram a geração dos anos 80 como o melhor momento que o rock brazuca já teve. Aquela, de Blitz, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje a Rigor etc. Outros levam em consideração toda aquela primeira geração, surgida lá nos primórdios (finalzinho dos anos 50) e que se estendeu até o movimento da Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos, dos anos 60, mas que eu, pessoalmente, acho que era muito calcada em versões de músicas estrangeiras e com uma estética por demais conservadora, sem de fato inovar ou conseguirem ser mais criativos e originais.

Secos e Molhados


O Terço

Então, o que eu considero como o primeiro autêntico e expressivo levante de roqueiros brasileiros, efetivamente, é a geração que surgiu ali no apagar das luzes da década de 60 - basicamente rompendo alguns laços com a turma da Jovem Guarda, e ousando mais com todas as influências do rock psicodélico de garagem e o Tropicalismo - e toda a geração que seguiria ao longo dos anos 70, já encharcada de hard rock e sons progressivos. 

Mas não vamos falar aqui do "arroz com feijão", não! Nada disso... Mutantes, Raul Seixas, O Terço, Secos e Molhados e tal - esses todo mundo já conhece e tá cansado de saber das histórias. O negócio aqui é tratar de quem foram os 'heróis da resistência', bandas e artistas quase anônimos e muitas vezes esquecidos, aqueles que insistiram e bateram o pé para gravar, fazer shows, e seguir adiante com muita gana e teimosia, numa época sem dinheiro, sem público ou divulgação, sem nenhuma estrutura mais profissional e de apoio das grandes gravadoras e mídias em geral, na raça e na pirraça mesmo. 

Alguns deles, dá pra encontrar com coisas bem interessantes no Spotify e demais streamings de áudio da vida, por aí. Outros, não - é raridade que precisa de um bom garimpo para experimentar.

Com vocês, um monte de guerreiros precursores do rock BR!


Serguei

Um dos mais lembrados (e aloprados) precursores do rock psicodélico e de garagem na época áurea do gênero, e infelizmente lembrado por muitos apenas pelo burburinho, muito divulgado pela imprensa durante vários anos, de seu suposto romance com a cantora Janis Joplin (ver post aqui), quando da vinda dela ao Brasil, em 1969 (na verdade, foi mais um flerte, ou caso rápido). Mas bem para além disso, essa figura folclórica radicada em Saquarema, no Rio de Janeiro, fez história como o primeiro roqueiro andrógino do Brasil, pioneiro nesse tipo de visual ainda antes do glam rock, e lançando compactos eternizados na cena underground do rock brasileiro, como "Alfa Centauro" (1968), "Maria Antonieta sem Bolinhos" (1969), e o icônico "Ouriço / Burro Cor de Rosa" (1970), sob a produção de Nelson Motta, lançado e vetado pela Censura do Governo Militar, por ter sido considerado subversivo demais. Depois, Serguei passaria praticamente duas décadas no ostracismo, vindo a ser redescoberto só em 1991, com a sua participação lendária no Rock in Rio daquele ano. Faleceu em 7 de junho de 2019, aos 85 anos.



Loyce e os Gnomos

Banda bem obscura do interior de São Paulo (cogita-se até hoje se seriam de Ribeirão Preto ou de Limeira), mas que gravou em 1969 um compacto duplo com algumas das músicas mais pesadas e lisérgicas daquele ano, com um nível caprichado de guitarras distorcidas que remetiam diretamente a grupos internacionais como Steppenwolf e Blue Cheer: O Despertar dos Mágicos. Destaque para os petardos "Que é Isso" e "Era uma Nota de 50 Cruzeiros".


Os Baobás

Banda com clássica estética de garagem sessentista, formada por Ricardo Contins (guitarra rítmica), Renato (guitarra solo), Carlos (baixo) e Jorge Pagura (bateria), que se especializou como grupo de apoio em vários programas de TV da época na capital paulista, e logo estaria acompanhando e fazendo parte de gravações para medalhões como Caetano Veloso e Ronnie Von. Foram precursores no lançamento de versões inovadoras para clássicos do rock no Brasil daquela época, mesmo antes deles saírem por aqui nas versões originais, como é o caso de "Light My Fire" (do The Doors). Lançam o seu único LP com algum êxito em 1968, já com o grande Liminha no baixo (que posteriormente integraria os Mutantes), mas finalizariam a sua trajetória no ano seguinte, com seus integrantes partindo para diversos projetos paralelos. 


Beat Boys

Grupo que também serviu de banda de apoio a vários artistas na época da Tropicália, especialmente Caetano Veloso (são eles que o acompanham na gravação de "Alegria, Alegria", e na sensacional apresentação dela no Festival de Música da TV Record, em 1967). Na verdade, eram argentinos, mas se radicaram em São Paulo capital, e desenvolveriam uma prolífica carreira por aqui como uma das mais notáveis bandas de rock da virada 60/70, tendo seus integrantes colaborado com artistas notórios dos mais diversos, nos anos seguintes - de Raul Seixas (o guitarrista e vocalista, Tony Osanah) a Secos e Molhados (Willy Verdaguer no baixo, e Marcelo Frias, na bateria). Ganhou destaque o seu único e homónimo LP, lançado em 1968.

Beat Boys com Caetano Veloso, em 1967


Os Brazões

Originados no Rio de Janeiro, e partindo para uma pegada psicodélica bem vinculada ao pop e soul music da época, esse grupo já era mais da área tropicalista intensa e experimental de Gal Costa e Tom Zé, tendo acompanhado esses figurões em shows históricos e marcados por muita viagem e desbunde (termo quente da época!). Tais filiações levariam os Brazões a gravar o disco homônimo de 1969, hoje considerado um clássico contracultural brasileiro, e calcado em faixas revolucionárias como "Gotham City" e "Pega a Voga, Cabeludo". 


Fábio

Cantor paraguaio apadrinhado por ninguém menos que Tim Maia e Carlos Imperial, ele aportou no Brasil em 1965 e, três anos depois, lançaria a icônica "Lindo Sonho Delirante", popularizada pelas polêmicas iniciais 'L.S.D.', e elevado à condição de muso da psicodelia tupiniquim, ainda lançaria dois hits em 1969: "Em Busca das Canções Perdidas" e a romântica "Stella", seu maior sucesso. Caiu no esquecimento durante a década seguinte, só vindo a ser resgatado por suas contribuições para a música pop brasileira muitos anos depois, graças à sua redescoberta por pesquisadores e colecionadores do rock brasileiro dos anos 60.



Liverpool

Espetacular banda gaúcha originada no bairro operário IAPI, de Porto Alegre, em meados de 1966, começaram no tradicional circuito de bailinhos com covers de Beatles e demais grupos da época, mas logo evoluíram para um material próprio e autoral, demonstrando muita originalidade e preciosismo técnico, incomuns para os grupos da época. Graças a isso, conseguiram um contrato para gravar aquele que é considerado um dos melhores discos de rock brasileiro daquela década: o lendário Por Favor, Sucesso (1969), onde fundiam como ninguém influências do rock inglês com tropicalismo, ritmos latinos e altas doses de lisergia. Tinham, em sua formação, Fughetti Luz (vocais), Marcos e Mimi Lessa (guitarras), Pekos (baixo) e Edinho Espíndola (bateria). Com o êxito de sua participação em festivais da época, ainda gravam com essa mesma formação canções para a trilha sonora do filme Marcelo Zona Sul, de 1970, onde também fazem uma ponta. Apesar do aparente sucesso, acabam fracassando em conseguir melhores oportunidades ao tentar emplacar no então obrigatório eixo Rio-São Paulo, e o grupo encerra atividades em 1972. Mas a história não acaba por aí, pois logo iriam se reunir novamente na forma de outra banda histórica dos anos 70: o Bixo da Seda - sobre o qual falaremos logo adiante.


Spectrum

Atenção: não confundir com um recente grupo de K-Pop dos anos 2000, e nem com outra banda de mesmo nome, australiana e de rock progressivo, do final dos anos 60! Este Spectrum é uma cultuada banda de jovens de Nova Friburgo (RJ), que tiveram o feito de participar da elaboração e gravação da trilha sonora de uma raridade do cinema brasileiro dos anos 70, o mítico Geração Bendita (1971), o "primeiro filme hippie 100% brasileiro", censurado pela ditadura militar, devido a suas cenas de comunas subversivas e amor livre. O único registro dos caras, cujas cópias originais em vinil são hoje disputadas a tapa por colecionadores estrangeiros e valem ouro, é o disco com as músicas do filme, e que demonstra uma sonoridade roqueira incrível e bastante influenciada por Cream, Santana e grandes avatares psicodélicos da época. Os integrantes eram José Luiz Caetano, Nando Teixeira e Serginho (guitarras e vocais), Toby Rocha (baixo) e Fernando Gomes (bateria), e é uma pena que eles não tenham gravado mais e nem seguido carreira após toda a polêmica do filme.

Spectrum em cena do filme 'Geração Bendita' (1971)


Módulo 1000

Mais uma prova de que o rock brasileiro, nos nascentes anos 70, tinha muita lenha pra queimar e competência criativa, não ficando nada a dever no terreno do hard rock e experiências progressivas a feras lá de fora, como Black Sabbath e Pink Floyd. A sonoridade dos caras do Módulo 1000 era incrivelmente pesada e psicodélica, o que fez com que os caras tivessem que praticamente brigar com toda a equipe de produção e técnicas de mixagem no estúdio onde gravaram o seu antológico (e único) registro de 1972, para que o som pudesse soar o mais próximo da pancadaria que promoviam ao vivo: o lendário álbum Não Fale com Paredes. Em sua formação estavam: Luiz Paulo Simas (órgão e vocal), Daniel Cardona (guitarras e vocal), Eduardo Leal (baixo), e Candinho (bateria). Essa era uma das maiores dificuldades para os grupos brasileiros da época, além do esquema mambembe para conseguir fazer shows: ninguém tinha as manhas (e os bons equipamentos) para gravar rock no Brasil. Devido à falta de reconhecimento, o Módulo 1000 acabou em 1974, mas não sem deixar marcas: Simas se tornou um dos mais renomados tecladistas e produtores nos anos seguintes, indo trabalhar na Rede Globo e se tornando ninguém menos que o responsável pela criação do célebre som que acompanhava a logomarca da emissora, o "plim plim". E o baterista Candinho iria juntar uma turma muito louca, para formar um dos mais icônicos grupos do rock progressivo brasileiro, o Vímana (do qual também falaremos aqui).



A Bolha

Capitaneados pelos irmãos Ricardo e César Ladeira (vocais, guitarras e teclados), começaram a carreira como The Bubbles, também no circuito de bailinhos do Rio de Janeiro, onde todo mundo tocava covers de Beatles e Rolling Stones, e logo foram contratados para acompanhar e gravar com medalhões da jovem guarda e da música pop - como Erasmo Carlos, Márcio Greyck, Leno e Raul Seixas. Com Leno, e sob a produção de Raul Seixas aliás, gravaram o fantástico e mega cultuado disco Vida e Obra de Johnny McCartney (1970), censurado e só lançado muitos anos depois. A essa altura, já tinham mudado o nome da banda para A Bolha, e influenciados pelos grandes grupos estrangeiros de rock pauleira e progressivo, tinham se decidido a tocar apenas músicas próprias, desenvolvendo um trabalho autoral e tão preciosamente técnico e bem feito quanto o do Liverpool, de quem eram amigos. É assim que gravam e lançam aquela que é considerada a sua obra-prima, em 1973: o perfeito Um Passo à Frente, LP fundamental do rock BR anos 70, infelizmente pouquíssimo compreendido pelo público e de baixa vendagem na época. Levaria muitos anos para que músicas como "Razão de Existir", "A Esfera" ou a própria faixa-título fossem reconhecidas e apreciadas como o que realmente são: incríveis pérolas do hard rock progressivo brazuca. A Bolha ainda resistiria alguns anos, conseguindo gravar em 1977 outro álbum excelente, É Proibido Fumar, contendo a cover de Erasmo Carlos e com uma orientação mais voltada ao rock clássico e tradicional, e depois disso, encerram atividades em 1978. Mas eis que estão aí, redescobertos e bastante admirados pelas novas gerações - tanto é que, em 2018, tem lançado um disco ao vivo inédito, com as gravações raríssimas de um show de 1971 em Guarapari (ES), e que é a prova cabal do som estrondoso do grupo: A Bolha ao Vivo




Bango

Originados a partir de uma banda de relativo sucesso na época da Jovem Guarda (Os Canibais), o Bango era formado por Fernando e Aramis Barros (guitarras e vocais), Elydio (baixo), Roosevelt (piano e órgão) e Max Pierre (bateria), e conseguiram lançar, em 1971, apenas um disco, autointitulado, mas que é uma paulada no ouvinte: faixas como "Motor Maravilha" e "Inferno no Mundo" carregam bonito nas fuzz guitars e órgãos Farfisa, e figuram em diversas coletâneas mundo afora como alguns dos mais perfeitos exemplos do rock brasileiro psicodélico e pesado dos anos 70, e as edições originais do LP são também disputadas a chutes e pontapés por colecionadores. Infelizmente, gravaram apenas esse registro.


Som Imaginário

Combo de magistrais músicos, inicialmente criado com o propósito de ser a banda de suporte nos shows de um ainda jovem Milton Nascimento, em 1970, logo o grupo se notabilizou por acompanhar outros artistas de renome na MPB, e participou de festivais de música da época com composições próprias. Tiveram destaque com as canções "Feira Moderna" (1970) e "Sábado" (1971), lançando 3 discos de destaque no início daquela década, antes de separarem em 1975. A sua mescla de rock progressivo de alto quilate, com MPB e sons regionais, é uma forte influência que pode ser sentida em diversos outros grupos que surgiriam a partir de então, inclusive no célebre projeto do Clube da Esquina, de Nascimento e Lô Borges. De suas fileiras, saíram os famosos Wagner Tiso e Zé Rodrix, que fariam enorme sucesso posteriormente com bandas próprias e acompanhando outros artistas. 



Ave Sangria

Direto de Recife, no Nordeste, este foi um dos grupos de maior impacto regional da época, com polêmicas envolvendo músicas censuradas pelos militares, shows performáticos e transgressores, e uma postura de palco andrógina e provocativa, que rivalizava com os então famosos Secos e Molhados, em muito graças ao transgressor vocalista Marco Polo. O seu LP de estreia de 1974, auto-intitulado, é um marco na história do rock nacional setentista, e faz parte de um movimento amalucado da psicodelia nordestina que envolveu muita gente boa, de Zé Ramalho e Alceu Valença a Lula Cortes e muitos mais.



Som Nosso de Cada Dia

Aqui entramos em um dos mais vigorosos capítulos da história do prog rock nacional, pois o Som Nosso é uma de suas bandas mais emblemáticas. Eternizada com o lançamento do LP Snegs, de 1974, que continha algumas das mais fortes composições do gênero, centradas em arranjos revolucionários de teclados e baixo, o grupo havia nascido em 1971, a partir de uma dissidência no popular grupo da jovem guarda Os Incríveis, quando o tecladista deste, Manito, saiu com o propósito de formar uma banda com uma proposta mais moderna e ousada, assim como o baterista Netinho sairia para montar o também famoso conjunto Casa das Máquinas. Manito se juntou a Pedro Baldanza (guitarra e baixo) e Pedrinho (bateria e vocais), e como um trio mesmo, montaram o Som Nosso, com muita vontade de inovar e participar de shows e festivais - um dos grandes momentos para a banda foi quando foram chamados para fazer a abertura da histórica apresentação de Alice Cooper no Brasil, em São Paulo, no Anhembi, para um público de mais de 150.000 pessoas: não fizeram feio, e ainda arrancaram elogios do próprio Alice. Mesmo assim, não tiveram grande sucesso comercial, e após a saída da principal figura do grupo (Manito), ainda tentaram reformular o som da banda, com uma nova formação, contando ainda com Pedrão no baixo e Pedrinho na batera, Dino Vicente e Tuca Camargo nos teclados, Egídio Conde na guitarra, mais a adição de Tony Osanah (aquele mesmo dos Beat Boys, já citados), nos vocais. Com esse line-up, lançam em 1977 o LP Som Nosso - também conhecido como 'Sábado/Domingo' - com uma orientação bem diferente e que surpreendeu a galera que os acompanhava: bem mais pop, com um lado do disco totalmente dedicado ao som negro funk no estilo James Brown, que agitava os bailes do Rio na época, e o outro lado dedicado a um som progressivo mais soft. De qualquer forma, não deu, e em 1978 encerram as atividades.



A Barca do Sol

Outra grande banda do progressivo nacional, se esmeraram no som com influências folk e regionais, com muita instrumentação acústica e erudita, e melodias e letras calcadas em cultura medieval e literatura fantástica. Lançaram A Barca do Sol (1974), Durante o Verão (1976), e Pirata (1979) - discos considerados a trindade sagrada do casamento entre prog rock e MPB.



Terreno Baldio

Ainda na seara do progressivo, o Terreno Baldio se tornou um dos grupos mais cultuados, pois o seu virtuosismo técnico era tão grande, que em certas composições rivalizavam com grupos estrangeiros de renome no gênero, como o Yes e Gentle Giant. Deixaram dois fortes registros clássicos: Terreno Baldio (1975), e Além das Lendas Brasileiras (1976), antes de se separarem. Dos anos 2000 para cá, no entanto, tem se reunido para bem sucedidas turnês esporádicas em comemoração ao seu período lendário.



Pão com Manteiga

O mais obscuro dos grupos brasileiros de rock progressivo redescobertos depois do advento do garimpo de raridades na web, este grupo tem apenas um registro de 1976, o auto-intitulado LP que é considerado um dos mais psicodélicos e desvairados registros da época, beirando muito as letras surrealistas dos Mutantes, mas também trazendo um preciosismo instrumental que vai do folk ao space rock de modo sutil, às vezes lembrando bastante as viagens do Pink Floyd em seus primórdios. Grande banda, pena que gravou tão pouco.

Raríssima foto do Pão com Manteiga ao vivo, em 1976


Veludo

Grupo lendário formado em 1973, para acompanhar alguns shows de Zé Rodrix, e que tinha em sua proposta original uma pegada voltada para o blues e hard rock, com influências de Rolling Stones e Deep Purple, mas aos poucos foi se distanciando disso e evoluindo para uma fase mais no estilo progressivo. Tinha em sua formação Elias Mizhari (teclados), Pedro Jaguaribe (baixo), Gustavo Schoeter (bateria) e Paulo de Castro (guitarra), considerado um dos melhores no seu instrumento, na época. Quase não existe registro deles, tocavam muito em festivais e acabaram não deixando nenhum disco oficialmente gravado - mas nos anos 90, surgiu um sensacional registro do show deles no mitológico festival Banana Progressiva de 1975, Veludo ao Vivo, em que dá para ter um vislumbre do grande som que essa galera cometia.



Bixo da Seda

Foram a continuação da saga do grupo Liverpool, comentado lá no início, mas com um dedinho de ajuda do Renato Ladeira nos teclados - aquele do também comentado grupo A Bolha - que se juntaria a eles durante o período 1973 a 1978, para ajudar a trupe a tirar aquele som. A proposta do Bixo da Seda era um prolongamento natural do som do Liverpool, só que com mais blues, peso, e influências progressivas. Para nossa infelicidade, gravaram só um disco, o Bixo da Seda de 1976, pois realmente o público da época não dava muita bola para o rock e só queriam saber de samba e som de discoteca dançante, lá onde o grupo tinha sede (Rio de Janeiro). Mas é um álbum fantástico, quem gosta de rock setentista com garra e bem feito tem que ouvir pedradas como "Já Brilhou", "Carrocel" e "Sete de Ouro". 


Vímana

Para terminar, o último grande grupo de rock progressivo nacional dos anos 70, e de onde saíram 3 feras que arrebentariam em carreiras solo depois: Lulu Santos, Lobão e Ritchie. O Vímana era uma proposta inicial do ex-baterista do já citado Módulo 1000, Candinho, que chamou Lulu e o baixista Fernando Gama (vindos da banda Veludo Elétrico) para montar uma nova formação. Logo, Luiz Paulo Simas (também ex-Módulo 1000) passou a tocar com o grupo também. No final de 1975, entretanto, Candinho desiste do projeto, e para seu lugar, resolvem convocar um rapaz que nem havia atingido a maioridade ainda, mas era conhecido de vários músicos do Rio como um exímio e precoce talento na bateria: João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão. Um pouco mais adiante, para incrementar o som do grupo com um melhor trabalho vocal e uso de flautas, Lulu chama um conhecido seu que havia chegado da Inglaterra em 1973, a convite de Rita Lee, e acabara de sair de outro grupo progressivo (o Scaladácida), Richard David Court, mais conhecido como Ritchie. E pronto: estava aí a formação clássica do Vímana, que chegou a se apresentar na lendária versão do festival Hollywood Rock, de 1975 (um show pra lá de caótico, e registrado no filme do evento), e que ainda gravou, no final de 1976, o seu único material oficial lançado, o compacto com as músicas "Zebra" e "Masquerade", e um LP inédito, guardado nos cofres secretos da gravadora Som Livre até hoje. A trajetória conturbada do Vímana teve fim em 1978, quando o grupo ruiu após uma mal sucedida parceria com o músico suíço Patrick Moraz, ex-tecladista do Yes, que envolveu cachês prometidos e não pagos, briga de egos entre Patrick e Lulu nos shows e, pra completar, um caso extraconjugal da esposa de Patrick com o jovem Lobão. Que bagunça, tinha que acabar mesmo.






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