quarta-feira, 10 de junho de 2026

O GIGANTE HOLANDÊS RUTGER HAUER: 10 FILMES MEMORÁVEIS

 

Poucos atores marcaram tanto e tão bem o cinema de ação dos anos 80 como o lendário holandês Rutger Hauer (1944 - 2019), um gigante nórdico de 1,85m que conseguiu enfileirar uma sequência marcante de filmes de sucesso nas bilheterias, e com um magnetismo visual e artístico tão interessante, que não é errado falar que tem toda uma geração por aí, que cresceu curtindo o audiovisual naquela década e até o comecinho dos anos 90, que assistiu e curtiu muito, mas bastante mesmo, icônicas obras do cinema que foram eternizadas com a presença do cara.

Conforme veremos a seguir, Hauer era talentoso e versátil, e era dotado de um carisma incomum e repleto de trejeitos e maneirismos típicos de sua atuação, que lhe conferiam destaque em diversas interpretações. Mas seu porte físico imponente invariavelmente o relegou a um número maior do que o convencional de papeis de sujeitos barra pesada e figuras ameaçadoras - muitas vezes ele era o vilão, o antagonista da história, mas quando era preciso que desempenhasse também um tipo heroico, que ia com tudo pra cima da bandidagem (como no clássico Ladyhawke, ou no subestimado Fúria Cega), a briga era boa, e o "pau quebrava" pra valer. 

Hauer infelizmente nos deixou em julho de 2019, devido a um câncer no pâncreas - mas sua carreira dentro e fora das telas foi admirável e prolífica. Além de ter se estabelecido nos circuitos do cinema americano e europeu, ele foi um ferrenho defensor de causas ambientalistas e humanitárias, e um dos grandes patrocinadores do Greenpeace. Também fundara a ONG Rutger Hauer Starfish Association, dedicada a prestar apoio a vítimas da AIDS, ainda lá nos anos 80.

Vamos relembrar a partir de agora, imersos naquela nostalgia boa, 10 momentos marcantes do ator na história da sétima arte.


1 - LOUCA PAIXÃO (Turkish Delight, 1973)



Cinéfilos de mais longa data sabem muito bem que o início do sucesso de Hauer em sua carreira começa junto com o sucesso internacional do icônico diretor de Robocop (1987), o célebre Paul Verhoeven, também holandês. Vindos do êxito de algumas produções para a televisão do país, Hauer e Verhoeven despontaram para a fama internacional com este filme perturbador que conseguiu a façanha de concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1974. Turkish Delight é um drama erótico de alta voltagem, bastante voltado para o clima contracultural daquela década, em que um jovem e cabeludo Hauer interpreta o artista plástico Eric, um rebelde transgressor obcecado por seu trágico e volátil relacionamento com uma jovem descendente de família rica e mentalmente instável, Olga (interpretada pela bela atriz Monique van de Ven). Não é um filme fácil, e nem indicado a todos os tipos de plateia: tem certa escatologia, é feito para chocar em alguns momentos, mas carrega bem nas tintas da autenticidade dramática e tem excelentes atuações do casal central, mostrando que Hauer era um talento pronto para estourar. Junto a Soldado de Laranja, drama de guerra que também seria realizado por Hauer e Verhoeven em 1977, são produções ousadas ainda da fase holandesa de ambos, que os revelaram e colocaram seus nomes em voga para o Ocidente.


2 - FALCÕES DA NOITE (Nighthawks, 1981)



É onde começa pra valer a carreira de Hauer na América, e não poderia ser melhor do que nesse clássico de ação policial com um também ainda jovem (e barbado) Sylvester Stallone - em papel bastante atípico, como um tímido e contido tira que fica obcecado em caçar um renomado terrorista que passa a ameaçar a cidade de Nova Iorque com atentados cada vez mais arrojados. Os olhares psicóticos e o tom gélido de Hauer, como o vilão Wulfgar, seriam o seu cartão de visitas para aquele que seria um dos seus maiores papéis (veremos no tópico a seguir), e o seu embate ensandecido com o policial DaSilva (Stallone) mantém a nossa atenção presa do início ao fim da fita. Filmaço.


3 - BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

Segue o antológico monólogo que se tornaria conhecido como "Tears in the Rain" (Lágrimas na chuva): "Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." Essas são as linhas da fala de Rutger Hauer, como o assustador andróide replicante Roy Batty, que o imortalizariam na história do cinema. A atmosfera dessa cena é tão bela e cortante, que percebemos o próprio Harrison Ford (que interpreta o caçador de andróides Deckard), ao contracenar com Hauer, deslumbrado e embevecido com o momento. Hoje sabemos que a parte final (que fala de momentos perdidos no tempo, como lágrimas na chuva) foi puro improviso de Hauer, o que acentuou sobremaneira a capacidade emotiva desenvolvida pelos replicantes e o senso fatalista da consciência de seu desligamento, o adeus à existência, que os torna semelhantes aos humanos. Representa um dos momentos mais impactantes do cinema de ficção científica, e Ridley Scott (o diretor) não tinha outra opção a não ser deixar a cena rolar, do jeito que foi (tinha ouro nas mãos). A trama do filme, basicamente, todo mundo já sabe - Deckard é um tira da Los Angeles do futuro escalado para caçar androides (os replicantes) que se revoltaram contra seu criador, o Dr. Tyrell, e buscam saber a sua data de validade antes de morrerem, agindo violentamente e a todo custo por isso. Hauer faz Roy Batty, o líder deles, e rouba a cena em toda hora que aparece. Obra-prima cult obrigatória e irrepreensível, que a gente é capaz de rever quantas vezes for só pra chegar no incrível e surpreendente final com o monólogo. 



4 - O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983)

Uma obra não tão conhecida ou festejada de Hauer, mas nem por isso menos interessante, por dois relevantes motivos: é o último filme de um mestre do cinema americano de ação e violência, o lendário Sam Peckinpah (The Wild Bunch - Meu Ódio Será a sua Herança), e é o primeiro filme que mostra Hauer desenvolvendo um tipo comum e pacato, o jornalista e apresentador de TV John Tanner, que se vê enredado numa perigosa trama de espionagem envolvendo a CIA e agentes soviéticos, que colocam em risco a sua própria família. Grande elenco (John Hurt, Craig T. Nelson, Dennis Hopper), e um clima de tensão crescente que explode em cenas de matança como só o bom e velho Peckinpah sabia fazer. Infelizmente, não fez tanto sucesso quando foi lançado nos cinemas, se popularizando bastante depois, no mercado de home video. Mostrou ao mundo do showbiz americano que Hauer poderia se dar bem onde quisesse, bastando um roteiro bom e uma direção firme para isso.


5 - LADYHAWKE - O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

Esse sim foi um dos mais aclamados e lembrados filmes da carreira de Hauer até hoje. Sob a batuta do genial Richard Donner (A Profecia, Superman, Máquina Mortífera), temos um dos melhores e mais marcantes contos modernos de capa e espada já realizados, ambientado na era medieval, onde o apaixonado casal Etienne Navarre (Hauer) e Isabeau d'Anjou (Michelle Pfeiffer, no auge da beleza) sofre com uma maldição lançada sobre eles, em que cada um se transforma em animal em um período diferente do dia (ela vira falcão de dia, e ele vira lobo durante a noite), impedindo que se encontrem em suas formas humanas. Quem terá a árdua missão de ajudá-los a quebrar o cruel encanto é um apavorado e gozadíssimo Matthew Broderick (nosso eterno Ferris Buller, de Curtindo a Vida Adoidado), no papel de Philipe, um ladrãozinho de vilarejos e castelos, que se compadece do sofrimento de ambos. Campeão de exibições nas 'sessões da tarde' da vida na TV, e diversão nostálgica e envolvente como não se produz mais, Ladyhawke cravou Hauer como um grande herói do cinema também, desempenhando o capitão Etienne com muita força e carisma. Estava comprovado que não havia nascido só para interpretar vilão.



6 - CONQUISTA SANGRENTA (Flesh + Blood, 1985)

Já bem ambientado no cinema norte-americano, Hauer retoma a sua parceria com o velho amigo holandês Paul Verhoeven, e perpetram aqui, também, uma aventura de capa e espada medieval - mas o total oposto de Ladyhawke, onde bem ao estilo Verhoeven, rola muito sangue, violência, e sexo bruto com obscenidades pra tudo quanto é lado. Flesh + Blood nos apresenta um grupo de guerreiros mercenários (liderados por Martin, papel de Hauer), que resolvem se vingar de um nobre que não os pagou por um serviço realizado, saqueando uma de suas caravanas e levando como refém a jovem noiva de seu filho, Agnes (interpretada por Jennifer Jason Leigh). Martin é um anti-herói, mas que obedece a um estrito código de honra - situação que gerou um ponto de discórdia entre ele e Verhoeven em relação ao roteiro, por terem visões diferentes de como deveria ser desenvolvido o personagem, e que causaria pela primeira vez uma séria briga entre ambos, inflamando o clima das filmagens e causando um rompimento entre ator e diretor, que ficariam anos sem se falar depois disso. Apesar do ambiente tenso da produção, bem como de problemas com a censura norte-americana (que empombou com o forte conteúdo do filme, chegando a cortar várias de suas cenas), foi bem recebido na época por público e crítica, solidificando ainda mais a carreira de Hauer (assim como a de Verhoeven, nos EUA).


7 - A MORTE PEDE CARONA (The Hitcher, 1986)

Chegamos a um dos papéis mais icônicos da carreira de Hauer, como o implacável e sanguinário psicopata John Ryder, que inferniza a vida de um pobre Jim Halsey (C. Thomas Howell), que cai na bobeira de dar carona ao indivíduo para se distrair do tédio de uma longa viagem para entregar um carro. É um dos mais tensos e eletrizantes road movies da década, e já demos uma pincelada nele aqui. Mais uma vez, a imagem emblemática de Hauer traz uma presença magnética incrível para a caracterização de um assassino frio e calculista, que executa suas vítimas pelo mais singelo prazer de matar. E há uma história curiosa de bastidores que o ator C. Thomas Howell sempre adorava contar: durante um bom tempo já, após o início das filmagens, Rutger Hauer mantinha um ar calado e distante do restante do elenco e produção. Até que um belo dia, Howell convida o ator para almoçarem juntos durante uma pausa nas gravações. Tentando quebrar o gelo, e fascinado pela postura de Hauer, ele não se contém e manda essa: "Qual é o seu segredo para fazer papeis de caras maus?". Hauer olhou incisivamente para Howell, fitou ele bem sério, e disse: "Eu não faço caras maus". O então jovem ator cascou fora, engolindo seco. Hoje ele ri ao se lembrar do momento, refletindo que Hauer disse tudo: ele possuía a nuance de sempre injetar alma e ambiguidade em todas as suas atuações, então não eram vilões em sua visão, apenas seres humanos.


8 - A LENDA DO SANTO BEBERRÃO (La Leggenda del Santo Bevitore, 1988)

Nunca vou me esquecer da grata surpresa que foi assistir esse filme melancólico e encantador, há muitos anos, numa insólita madrugada na TV Bandeirantes, em que eles tinham uma sessão nos finais de semana onde exibiam apenas filmes clássicos e de arte, em cópias legendadas, e isso foi por volta de 1990 (era Carlton Cine? Não me recordo, talvez). Havia pouco tempo, essa produção franco-italiana do grande diretor Ermano Olmi havia vencido o Festival de Cinema de Veneza, e além de contar a história (com fortes tons religiosos) de um mendigo alcoólatra que recebe uma quantia em dinheiro que deve ser restituída à igreja da santa de sua devoção (Santa Teresa), acaba servindo como um exercício pleno de atuação dramática para Hauer, fugindo totalmente de todos os estereótipos de ator de ação que vinham dominando a sua carreira, e se concentrando na cinematografia sutil de um simples drama de vanguarda europeia, para compor uma de suas mais bonitas atuações. Andreas, seu personagem, é um sujeito que se amoldou à vida na sarjeta, mas que repentinamente acaba se tornando, das formas mais inesperadas, uma prova viva de que milagres existem - por mais que as dores da existência sejam necessárias para essa certeza e para a reafirmação da fé. Uma joia rara e valiosíssima, oculta na filmografia de Hauer.


9 - FÚRIA CEGA (Blind Fury, 1989)

Muitos consideram esse o último grande papel de herói de ação de Hauer em sua carreira, visto que após ele, a partir de um longo período, entre todos os anos 90 e 2000, o ator iria passar a participar cada vez mais de produções menores e de menor apelo comercial, uma grande parte delas sendo "caça-níqueis" concebidos a toque de caixa, e um ou outro filme realmente mais significativo. É de se lamentar, mas as escolhas de Hauer após este Blind Fury demonstraram uma queda considerável de qualidade artística - posteriormente, foram poucos os destaques que conseguiram aliar vigor estético e artístico a sucessos relevantes e com reconhecimento, tanto por parte de público quanto de crítica. A partir de então, muitas gerações mais recentes perderam o trabalho do ator como um referencial de bons lançamentos, e seu nome foi sendo escanteado para segundo plano. Aqui, Hauer faz o papel de um veterano que perde a visão na Guerra do Vietnam, e com a ajuda de nativos passa a dominar os sentidos e se torna um mestre da espada e das artes marciais (ele é praticamente uma versão do Demolidor da Marvel, sem máscara!). Anos depois, ele acaba se tornando o guardião do filho de um ex-colega de tropa, e também se envolvendo em uma perigosa trama para resgatá-lo de uma violenta quadrilha. O ator se esbaldou, mostrando raça na sua última atuação realmente marcante como nice guy: fez questão de coreografar e treinar várias das cenas de ação do filme com uma venda nos olhos, de forma a imprimir todo o realismo necessário para a sua atuação como cego. Filme de ação muito bom, que não foi um êxito de bilheteria, mas recuperou bem a grana no mercado de home video, e vem sendo cada vez mais redescoberto ao longo dos anos.



10 - BATMAN BEGINS (2005)

Podemos dizer que, na reta final de sua carreira, Hauer já estava mais acomodado à condição de coadjuvante de luxo em várias produções, e com uma carreira internacional notória e já estabelecida, era aquele tipo de astro que já ocupava muito do seu tempo com outros empreendimentos (conforme citado lá no começo), estava vivendo bem com sua segunda esposa, em uma região campestre que ele amava (Frísia, uma província das Nederlands), e vez ou outra aparecia em algum filme que lhe interessava. Foi então que topou participar da épica nova saga cinematográfica do Batman de Christopher Nolan, fazendo o papel do inescrupuloso William Earle, executivo corrupto das Empresas Wayne, no que seria o último vilão memorável que ele interpretaria, mais lembrado por uma galera nova que ainda não conhecia o ator. E mandou bem, mais uma vez.





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quinta-feira, 4 de junho de 2026

O PONTO DE VIRADA DO BARDO FOLK

 

Com 85 anos completados no dia 24 de maio passado, Bob Dylan (nome de batismo: Robert Allen Zimmerman) continua sendo um dos mais celebrados e influentes cantores e compositores que simbolizam a música pop mundial, e está no panteão sagrado dos grandes que marcaram o gênero na década de sessenta do século XX. 

Não surpreende que, para muitos, ele representa - logo após Elvis Presley - o artista culturalmente mais relevante da música norte-americana, que carrega toda uma tradição e iconografia relevantes para se entender o rock do Tio Sam, em suas origens de blues, country, música folclórica, e como tudo isso se mistura e conversa com a alma peregrina dos trovadores e instrumentistas autênticos, que percorrem desde os pastos e áreas rurais até os grandes centros urbanos com seus bares e arranha-céus, levando a mensagem e o som, perpetuando o legado de tempos distantes e primitivos até a época atual.

A despeito de sua ascensão fenomenal como astro folk, lá por volta de 1962-63, só na base da gaitinha e do violão, escorados numa forte e anasalada voz que fugia de todos os padrões, mas que soava estranhamente bela e inseparável de suas letras socialmente pungentes, podemos dizer que Dylan, de fato, só carimbou sua passagem para a eternidade da mitologia pop com um registro impecável, eloquente e original, e que inegavelmente se tornaria o verdadeiro ponto de virada daquele jovem bardo: o lendário álbum Highway 61 Revisited, de 1965, puxado pela também lendária composição "Like a Rolling Stone". Disco que traz, também, a transição definitiva de Dylan para composições mais vanguardistas e sofisticadas, com letras repletas de metáforas existenciais, arranjos ousados e inovadores, e a transmutação do rock como um gênero mais avançado de arte, elevado a uma condição de maturidade.

Os fatos que envolvem o parto dessa obra-prima são variados e fascinantes, e tal período é abordado no (bom) filme de sucesso em que Thimotée Chalamet interpreta Dylan, A Complete Unknown (2024, leia sobre aqui) - mas uma boa parte deles é alterada, ou simplesmente omitida, devido aos caprichos da liberdade artística que sempre permeiam os roteiros cinematográficos. Vamos, portanto, a um apanhado mais fidedigno de toda a atmosfera que circundou a criação do disco.

A última turnê de Dylan na época, ocorrida com shows entre o final de 1964 e início de 1965, havia deixado o artista, física e mentalmente, em frangalhos. A última perna desse evento, com extensas apresentações cobrindo cidades da Inglaterra, compõe o famoso documentário Don't Look Back, de D.A. Pennebaker, que seria lançado dois anos depois nos cinemas - ali, em várias sequências, percebe-se um Dylan ora tenso, ora apático, e acuado pelos revezes conturbados da fama. Havia começado a transição dele do estilo folk purista tradicional para a combinação que agregava os sons de uma banda de rock como acompanhamento: isso já transparecia nitidamente no LP lançado no começo do ano, Bringing it All Back Home, que abria com a enérgica e emblemática "Subterranean Homesick Blues". 

O novo estilo musical que Dylan iniciava ali - e que se notabilizaria como folk rock - causava controvérsia e indignação em vários segmentos mais conservadores da mídia, que o acusavam se estar se "vendendo" e querendo pegar carona na onda do rock, de Beatles e Rolling Stones e todas as novas bandas do momento, traindo suas raízes musicais. Logo ele, o menestrel iluminado, o jovem "escolhido" para representar e levar adiante a bandeira e voz das causas sociais e suas canções simples com instrumentos rudimentares, como herdeiro direto dos folksters clássicos, gente como Woody Guthrie, Pete Seeger (seu amigo pessoal), e o Kingston TrioDylan troca o violão pela guitarra e toda a sua barulheira: heresia total!

Estafado, ele reclamava com seu empresário, Albert Grossman, e vários conhecidos ao seu redor, que se encontrava em um momento altamente desiludido e desanimado com sua própria carreira, apesar de todo o sucesso que detinha. Um jovem então na casa dos seus 24 anos, sentindo que simplesmente estava no fim, que não havia mais nada a dizer ou fazer artisticamente. Uma frase dele naqueles dias resume bem os sintomas de seu esgotamento: "Todos cantam as minhas músicas, mas eu não gosto mais de cantá-las. Outros cantam minhas músicas melhor do que eu". Havia em tal afirmação uma verdade: naquela altura, e com apenas poucos anos de idade e de êxito, Dylan já era um dos compositores mais populares e regravados nos EUA e Europa.

Ocorre enfim a reviravolta de que ele precisava: buscando paz e sossego, Dylan adquire uma casa na região rural de Woodstock, próxima de New York, para onde se muda secretamente, e nesse lugar caro à trajetória do artista (leia mais sobre aqui), eleito como seu grande refúgio, ele tem o que descreveria posteriormente como uma espécie de epifania ou jorro criativo, um "vômito" de versos e frases que ele vai febrilmente descendo na máquina de escrever, um autêntico desabafo existencial da série de coisas que ele vinha sentindo. O resultado final é um conjunto de vinte páginas de poesia abstrata e dinâmica - e que, condensadas e retrabalhadas, se tornam a letra de um hino.

Com o esboço original de "Like a Rolling Stone" em mãos, Dylan enfim reencontra a criatividade, se reanima, e está novamente pronto para encarar tudo, dali em diante. Vislumbrava possibilidades de inovação em sua arte, e o tesão por fazer música estava afinal revigorado: não à toa, é a composição que ele define como "algo que me deu o sentido pelo qual eu sou um artista", e sobre a qual ele inclusive mistifica o próprio processo de sua criação: "As palavras iam fluindo, era como se um espírito escrevesse aquilo através de mim". Ele partiria para as primeiras sessões de gravação do seu próximo disco em junho daquele ano, já com a certeza de que ela seria o carro-chefe do álbum, e seria a primeira canção a ser trabalhada.

Em 15 de junho de 1965, Highway 61 Revisited começa a ser concebido. Dois períodos de gravações ocorrem para gerar o álbum: o primeiro, entre os dias 15 e 16, que é dedicado somente a "Like a Rolling Stone", e o segundo mais adiante, entre 29 de julho e 4 de agosto, em que são produzidas as demais músicas do disco. Entre eles, um acontecimento histórico: o famigerado show no tradicional Festival de Newport de 1965, onde Dylan concretizou, diante de uma plateia efervescente e dividida (muitos aplaudindo, muitos vaiando e xingando), o casamento entre o folk e o rock em sua música, metendo um set elétrico com tudo e falando para os músicos de sua banda tocarem o mais alto possível. Eles já entram executando "Maggie's Farm" com todo o gás. Logo em seguida, emendam para "Like a Rolling Stone", estreando ali ao vivo. E dá-lhe vaias, gritos, berros homéricos o chamando de "gênio" ou "traidor". Que momento. A catarse de tudo foi tão intensa e impactante para Dylan (um artista desafiando e confrontando o seu próprio público, sendo um punk antes dos punks!), que ele saiu dali plenamente decidido a seguir aquela orientação sonora em suas próximas obras, e não voltar atrás.

Dylan em Newport '65

Tudo isso confluiu para o som orgânico de banda e cheio de atitude de Highway 61, que o levou a se tornar o que é - o disco foi lançado em 30 de agosto de 1965, e se tornou um dos maiores sucessos de Dylan, alavancado pelo revolucionário single de "Like a Rolling Stone" nas paradas, com seus longos 6 minutos e 30, e consagrado como uma obra-prima na carreira do músico. 

Seguem alguns fatos importantes para a gênese do disco:

  • O título da obra, bem como a música que lhe dá o nome, são uma reflexão e homenagem de Dylan para a célebre 'rodovia 61', que tem ligação com vários pontos e cidades dos EUA onde nasceram artistas famosos do blues, country e rock and roll, como Muddy Waters, Charley Patton, Elvis Presley, e o próprio Dylan (em Minesotta). A highway 61 também cruza, em determinada altura, com a highway 49 - formando a encruzilhada que seria o lugar onde, mitologicamente, o lendário bluesman Robert Johnson teria feito o seu pacto com o diabo, para se tornar um mestre do blues.
  • "Like a Rolling Stone" foi testada em diferentes ritmos antes de chegar ao seu vigoroso andamento final, incluindo uma versão em estilo de valsa, que poderia ser posteriormente encontrada em discos piratas e coletâneas com curiosidades e outtakes de Dylan. E para o próprio autor, o que definiria o seu som e se tornaria a marca registrada daquela icônica gravação foi um improviso de estúdio totalmente inesperado, gerado pela insatisfação do grande músico Al Kooper em ficar parado, vendo todos tocarem e sem fazer nada, no maior tédio. Convidado especial para as sessões por ser amigo do produtor Tom Wilson, ele discretamente se sentou em um órgão presente no recinto, e pediu para só deixarem ele ficar "brincando" ali, criando riffs e notas, acompanhando instintivamente Dylan e os músicos enquanto tocavam a música. Wilson acidentalmente captou o som do órgão, e gravou junto. Quando Dylan foi ouvir o resultado final na sala de mixagem, ele ficou fascinado por aquele som que Kooper tirara do instrumento, e falou para aumentarem e darem destaque imediatamente ao órgão. Hoje seria impossível imaginar "Like" sem a despretensiosa participação de Al Kooper.
Al Kooper

  • Outra contribuição marota de Kooper para o disco: ao longo de toda a faixa "Highway 61", pode ser ouvido um estridente apito, típico daqueles utilizados por policiais de rua. Travessura trazida por ele para o estúdio também, e que Dylan gostou tanto, que fez questão de usar pontuando partes da música.

  • O excepcional guitarrista Mike Bloomfield (egresso da Paul Butterfly Blues Band), e que estava acompanhando Dylan na época, foi uma das mais valiosas contribuições para o som do álbum. Outros músicos de estúdio e amigos de Dylan ficavam surpresos com a facilidade e criatividade que Bloomfield tinha para imediatamente gerar riffs e camadas inteiras de acordes, para músicas como "Just Like Tom Thumb's Blues" e "From a Buick 6", muitas vezes acertando e gravando de primeira.
Mike Bloomfield

  • Ao longo de todo o disco, Dylan também exercita suas habilidades no piano: "It Takes a Lot to Laugh, it Takes a Train to Cry" e a irônica "Ballad of a Thin Man", que estabelece a contracultura como a nova realidade daqueles alucinados anos 60, foram compostas com total direcionamento para o instrumento, demonstrando a versatilidade de Dylan.

  • Duas canções acabariam se desgarrando das sessões de gravação realizadas entre 29/07 e 04/08, e seriam lançadas somente como singles (compacto), não chegando a fazer parte do álbum: a sensacional "Positively 4th Street", em setembro de 1965, e "Can You Please Crawl Out Your Window", mas essa em uma outra versão, regravada por Dylan com a nova banda que passaria a acompanhá-lo, The Hawks - que logo seria rebatizada, passando a ser conhecida como a lendária The Band.

  • A épica e belamente imagética "Desolation Row", que termina o álbum com seus 11 minutos acústicos, quase como se Dylan quisesse render uma homenagem aos seus tempos folk que ele havia abandonado, se tornaria o outro grande destaque do disco, pois era um longo poema musicado por Dylan onde ele brincava com figuras históricas e fazia várias referências a elas, citando situações e passagens bíblicas - aparecem figuras tão díspares como Cinderela, Bette Davis, Robin Hood e o Corcunda de Notre Dame. Fora a marcante letra (que seria citada e reverenciada em várias antologias poéticas sobre músicas de rock e literatura), o que definia a sonoridade envolvente da faixa eram os acordes de violão tocado em estilo flamenco, cortesia de uma visita do guitarrista Charlie McCoy, notório músico de estúdio de diversas bandas country de Nashville, e que comparecera por acaso, para cobrar ingressos para um show que o produtor do álbum devia a ele.





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quinta-feira, 28 de maio de 2026

'MUITO ALÉM DO JARDIM' E OS PARADIGMAS DA COMUNICAÇÃO

 

Obra impagável continua sendo Muito Além do Jardim (Being There, 1979), brilhante filme de Hal Ashby (um dos últimos grandes mestres do movimento 'New Hollywood'), e com a inesquecível e tocante interpretação de Peter Sellers no papel principal, de Chance, o jardineiro. Seria a atuação mais celebrada do final de sua vida (ele morreria no ano seguinte, em 1980), e a última pela qual concorreu ao Oscar de melhor ator - ele já havia sido indicado em 1964, pelo fenomenal Dr. Fantástico, de Kubrick (leia sobre aqui). Infelizmente, em nenhuma das ocasiões, Sellers levou a estatueta. Mas pelo menos por essa derradeira nomeação, merecia. Belíssima homenagem que teria sido, para coroar sua carreira.

Peter Sellers, em 'Muito Além do Jardim' (1979)

O filme, com roteiro do renomado escritor Jerzy Kosinski, foi baseado no livro homônimo do mesmo, Being There (no Brasil, O Vidiota), lançado com sucesso em 1971, e ambos se estabelecem como uma das mais veementes e concisas críticas aos absurdos da distorção de comunicação e suas consequências, no mundo moderno cada vez mais aloprado. 

A trama explora a história de Chance, um jardineiro/caseiro de meia idade que nasceu e passou a vida inteira na mansão de um ricaço em Washington D.C., mas que então falece, e não deixa nenhuma herança ou instrução para o pobre coitado continuar morando ali. Importante frisar que Chance nunca pôs os pés pra fora daquele lugar e não tem experiência de vida ou instrução educacional nenhuma, é praticamente um retardado cujas únicas informações a respeito do mundo vieram de sua existência inteira assistindo e retendo tudo o que passava no seu único mentor e companheiro até ali: o aparelho de TV. Então, quando a equipe de advogados do espólio do patrão morto consegue pôr ele pra fora da mansão, ele, em sua absoluta ingenuidade misturada com ignorância, sai andando pela cidade carregando uma mala com seus pouquíssimos pertences, e o controle remoto da televisão - acreditando que através daquele simples utensílio, ele conseguirá "mudar o canal" e alterar a realidade que o cerca.

O que aparentemente salva esse sujeito errante, sem eira nem beira ou ideia nenhuma, é aquilo que inicialmente pode ser considerado um pequeno acidente, mas que irá mudar a sua vida, e todos os rumos da história do filme: a esposa de um empresário ricaço e extremamente influente, Eve Rand (interpretada por uma Shirley MacLaine muito bela, em fase iluminada de sua carreira) esbarra o carro em Chance, e sentindo remorso pelo ocorrido, se predispõe a ajudá-lo, levando o mesmo para casa ao invés de um hospital. É aí que o plot dá aquela virada.

Peter Sellers e Shirley MacLaine

Uma certa candura e leveza no jeito de Chance se comportar e se expressar, aliadas à sua grande calma e silêncio ao se relacionar com as pessoas de um círculo social mais elevado, dali em diante, passa a ser encarada por todos ao seu redor, como uma fascinante atitude reflexiva e analítica - mas isso simplesmente por ele não ter nada mesmo o que expressar, devido à sua estupidez! E o grande achado de tudo: quando finalmente Chance abre a boca para falar ou dar suas opiniões sobre alguma coisa, ele simplesmente usa citações de alguns dos incontáveis e imbecis programas de TV que ele acompanhou a vida toda. Mas que, no contexto em que são usadas, acabam se encaixando exatamente no assunto que é abordado (e muitas das vezes, muito mais por uma forçada de barra de quem está interpretando o que ele disse, do que por qualquer coerência aparente).

Assim, o marido de Eve, o magnata Benjamin Rand (Melvyn Douglas, fantástico) - que logo veremos, ficará moribundo - se torna também um grande fã e admirador de Chance, assim como várias pessoas, chegando a apresentá-lo ao presidente dos EUA (Jack Warden)... que também se rende aos seus "pensamentos". Alguns jornalistas mais sagazes chegam a desconfiar da farsa que Chance é, tentam revirar e descobrir o seu passado, saber de onde veio. Mas já é tarde demais. De repente, ali já está nascendo um novo guru existencial e midiático, do qual todos esperam algum conselho, algum pensamento ou citação "iluminada". E a quem os Rand logo tratarão de reservar um grande lugar no futuro.

É um enredo sensacional, na forma como se desenvolve e disseca as terríveis armadilhas dos paradigmas da comunicação - o que ela é realmente, e como se subverte de formas tão imperfeitas e bizarras, a ponto de transformar tolos em gênios, ordinários em ídolos (mitos)? As delicadas e intrincadas engrenagens do poder, também bastante explicitadas no roteiro de Kosinski e na excepcional direção de Ashby - um iconoclasta e crítico social dos mais ácidos, por natureza - fazem parte aqui de uma brilhante análise sobre como também as conveniências moldam figuras que devem servir a propósitos muito maiores do que se pode imaginar. Em outras palavras: como de fato temos "vidiotas" (o termo na época se aplicava a vídeo ou TV, hoje poderíamos dizer internet), pessoas com conteúdo zero ou quase nenhum, mas que podem passar por uma manipulação ou interpretação social, para assumirem um lugar de destaque no meio. Se parar pra pensar, acontece muito, hoje em dia. O filme e livro Being There anteviu tudo isso, sagazmente.

O icônico desfecho, em que Ashby peitou e entregou, muito a contragosto do estúdio, um dos mais enigmáticos finais da história do cinema (representado na foto que abre essa postagem) parece querer nos dizer, atrevidamente, que até mesmo figuras messiânicas podem ser avatares da manipulação e dos jogos de interesses. Há uma mensagem muito interessante decodificada ali, que pressupõe diversas teorias, e de que até mesmo o oculto funciona melhor trabalhando com a confusão da informação.

Nunca é demais lembrar a outra grande ironia do texto, que é o nome do protagonista: Chance, ou seja, "chance" ou "oportunidade", esse cara realmente tem tudo para ir longe, apesar de todas as suas limitações. E quando vemos em uma cena, ocorrida um pouco antes do final, uma referência à possibilidade dele assumir a mais alta liderança de tudo, no país e no mundo, cercado por um cenário fúnebre, que mais lembra templos típicos de sociedades secretas, com os seus símbolos e rituais, e os diversos grupos de interesses a adular e projetar sobre ele os seus planos, é realmente de se pensar: mas que raio de filme profético e atual é esse.




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domingo, 24 de maio de 2026

O MISTERIOSO FIM DE UM BALUARTE DO ROCK

Há 50 anos, em 14 de maio de 1976, ocorria a passagem de uma das figuras mais proeminentes do rock desbravador rock inglês dos anos 60, o homem que havia dado voz a um dos mais importantes grupos daquela geração, o "ninho de pássaros" de três estupendos guitarristas que saíram de lá para voar bem alto. Estamos falando da cultuada banda The Yardbirds (já abordada aqui, neste link), por onde passaram ninguém menos que Eric ClaptonJeff Beck e Jimmy Page. E estamos falando, principalmente, do seu vocalista, um baluarte daquela era de gênios que moldaram o som moderno: Keith Relf.

 

Figura mítica de uma época inovadora e de devaneios, possuía uma voz anasalada e rascante ao mesmo tempo, além de ser um exímio gaitista, banhado na tradição das raízes honestas do blues, o que imprimia um estilo característico e marcante às obras e projetos da qual fez parte. Mas que também teve um fim tão triste quanto misterioso, e que há até bem pouco ainda, despertava discussões e polêmicas a respeito de suas nebulosas circunstâncias.

Do início em 1963, substituindo os Rolling Stones no lendário Crawdaddy Club de Londres, até meados de 1967, os Yardbirds fariam história com um som inovador, calcado nos diferentes estilos da trinca mítica de mestres das seis cordas que tocaram na banda - primeiro, rebuscando as raízes do blues elétrico com o reverente Clapton; depois, entrando de cabeça no experimentalismo e na psicodelia vanguardista de distorções com Jeff Beck; e finalmente, com Page se juntando a ele e adicionando ainda mais peso na mistura, até que no final sobrasse apenas Page na guitarra, o que foi a deixa para o embrião do seu futuro projeto, chamado Led Zeppelin.

Os Yardbirds de 1966, em sua mais clássica formação: de pé, da esquerda para a direita, Jim McCarty (bateria), Jeff Beck (guitarra), e Chris Dreja (baixo). No chão, Jimmy Page (guitarra), e recostado na cadeira, Keith Relf (vocais)


Julho de 1968: fadigados, os Yardbirds dão seus últimos suspiros. Em uma rápida reunião, o vocalista Keith Relf e o baterista Jim McCarty comunicam a Page e o baixista Chris Dreja que estão saindo do grupo, e pensam em iniciar um novo projeto, com uma tendência de som diferente, mais acentuada para o folk: o Together. Era basicamente apenas os dois tocando juntos, numa vibe acústica e de curtíssima duração, que resultou em um único compacto, lançado ainda em agosto daquele ano, com as músicas "Henry's Comin' Home" e "Love Mum and Dad". Era quase um projeto solo de Relf - ele já havia tentado uma carreira individual paralela aos Yardbirds em 1966, ao lançar o single "Mr. Zero", mas não teve grande repercussão. A importância do projeto Together agora, no entanto, seria decisiva, pois foi através dele que Relf e McCarty acabariam travando contato com outros músicos, para criar aquele que de fato seria o primeiro grande momento de projeção do cantor após os Yardbirds: o célebre grupo Renaissance.

Keith e sua irmã Jane Relf, em 1969: mentores da formação original do Renaissance

Foi graças a uma ideia desenvolvida entre Keith e sua irmã, Jane Relf (se lançando como vocalista), mais o baixista Louis Cenammo e o pianista John Hawken, conhecidos de bastidores das gravações do Together - formar um combo que conseguisse juntar o vigor do rock ao lirismo e a sofisticação de vocalizações (trabalhadas em conjunto por Keith e Jane) mais a instrumentação folclórica e pastoral, produzindo um som refinadíssimo e de forte inspiração jazzística, que entraria para a história do rock progressivo. O primeiro e seminal registro do grupo, em disco homônimo lançado em 1969, se destaca por suítes e canções contemplativas, como as belíssimas "Island" e "Kings and Queens".

Essa formação, entretanto, duraria apenas mais um álbum, o também magistral Illusion, de 1971. Apesar de contar com uma boa qualidade e linha que seguia ainda o estilo do LP anterior, foi um trabalho conturbado, que acabaria determinando o fim dessa formação original do grupo, e dando origem ao line-up posterior do Renaissance que se tornaria o mais celebrado e conhecido pelos anos e décadas seguintes, com a cantora Annie Haslam assumindo a voz e o comando, junto com outros membros. 

Durante um extenuante período de turnês entre 1969 e 1970, tanto Jim McCarty (que havia produzido o primeiro disco) quanto Keith Relf adoecem, em períodos consecutivos, sendo que a situação do vocalista sempre fora um pouco mais complicada: era notório que ele sempre fora vítima de uma bronquite asmática crônica, que quase tirara a sua vida ainda quando criança, e praticamente lhe deixara com apenas um pulmão funcionando. Um autêntico guerreiro  sobrevivente, que lutando contra todos os prospectos, e as dificuldades até mesmo para ter fôlego para cantar durante certas épocas de crise, tinha uma paixão pela música e pelos blues que o levava a superar tudo, sempre seguindo adiante.

Eles também se desentendem quanto aos rumos do som do segundo álbum. Isso faz com que Keith Relf aproveite uma breve ausência de McCarty, e assuma sozinho a produção do disco - o que desagrada o baterista. O processo de desintegração do grupo é rápido. Quando Illusion foi efetivamente lançado, no início de 1971, Relf já estava fora do grupo.

"Island", com o Renaissance, ao vivo

O biênio 1971-1972 vê um Keith Relf buscando se concentrar mais no trabalho de produtor e compositor nos estúdios, convivendo com o mundo da música de uma forma mais tranquila. Por trás disso, estava não só o interesse em fugir um pouco do barulho e correria do dia a dia de uma banda, com o qual ele já havia convivido arduamente desde os dias de Yardbirds, como também a necessidade de desacelerar para cuidar um pouco mais da saúde. Nesse período, então, ele atua como produtor da banda inglesa Steamhammer, com quem o baixista Louis Cenammo passa a tocar, após também sair do Renaissance. O grupo lança um ultimo trabalho em 1972, produzido por Relf, mas a partir dele é que estão lançadas as sementes para o último grande projeto conhecido do cantor. 

Estreitando uma forte amizade nos estúdios com o guitarrista do Steamhammer, o talentoso Martin Pugh, Relf e Cenammo passam a compor bastante com ele, e idealizar um novo conceito de grupo. Eram dias de ousadia e poder dos grupos que elevavam o blues às últimas consequências do peso e da intensidade sonora: vendendo milhares de discos, bandas como Deep Purple, Black Sabbath, Humble Pie e o mais monumental de todos, o Led Zeppelin (do ex-coleguinha de Relf, Jimmy Page) ditavam as regras do mercado de música jovem, ao lado das agremiações progressivas. Isso chamava a atenção de Relf e dos outros caras, que passaram a querer fazer parte desse filão também.

Rara foto de Keith Relf com o Armageddon (1975)

O nascimento idealizado da super banda então batizada por eles de Armageddon passa por duas decisões importantes: a primeira, como já foi dito, era fazer experimentações sonoras com o modelo de hard rock que era sensação na época. Mas a outra, pouco conhecida por muitos, dizia respeito à própria saúde de Relf, cada vez mais fragilizada devido a seus problemas respiratórios. De acordo com recomendações médicas, e procurando fugir do clima frio e úmido inglês que só piorava as suas crises, Relf propôs para todos se mudarem temporariamente para os EUA, na ensolarada Los Angeles, onde não só o clima mais temperado como também chances maiores para se estabelecerem artisticamente e conseguirem contratos seriam oportunidades mais benéficas. E como um bom grupo de rock pauleira tem na sua composição o baterista como peça fundamental, foi justamente lá que eles encontraram o seu: Bobby Caldwell, que havia feito parte do lendário Captain Beyond.

O ano era 1974, e durante a estadia deles em L.A., as portas vão se abrindo: primeiro, devido à amizade do baixista Louis Cenammo com o célebre cantor e guitarrista Peter Frampton, que já estava se tornando bem conhecido na América, o Armageddon estabelece boas relações com a gravadora do mesmo, a A&M Records, e daí para um contrato de gravação do que seria o primeiro disco deles foi um pulo. Uma fitinha demo com algumas das músicas que eles já haviam composto estava rolando nos bastidores do pessoal da música, e prenunciava e confirmava os burburinhos de todo mundo que ouvira o material: o Armageddon tinha uma qualidade excepcional, e estavam destinados a ser a próxima grande sensação do rock! Músicos exímios vindos de grupos lendários e já consagrados, e que tinham uma criatividade e inspiração invejáveis. Era um mega jato turbinado, e pronto para decolar. 

"Silver Tightrope" (1975 - Armageddon

As canções da demo são retrabalhadas e, gravado em sessões de estúdio entre a Inglaterra e EUA, o álbum de estreia dos caras, o autointitulado e magistral Armageddon é lançado em julho de 1975. Petardos como "Buzzard", "Last Stand Before" e a hipnótica "Silver Tightrope" comprovam que sim, agora Keith Relf - novamente segurando a gaita e os vocais, assim como em seus tempos áureos de Yardbirds - conseguira atingir seus intentos, e tinha uma banda poderosa, capaz de fazer frente ao Zeppelin, de Mr. Page e cia.

Mas então... vem a reviravolta que poucos esperavam. A expectativa por maiores vendagens do álbum nos EUA (apesar de um bom desempenho nas paradas europeias) não é atingida, ao mesmo tempo em que, durante a estadia em L.A., Pugh e Cenammo começam a ficar desleixados e vão se entregando a cada vez mais "festinhas" e substâncias inebriantes, chegando a faltar a compromissos de ensaios e pequenos shows, que tinham como intenção aquecer a banda para o que seria sua grande chance de fazer o nome: haviam sido anunciados como grupo de abertura da nova turnê americana de ninguém menos que Eric Clapton. A despeito disso, e de acordo com depoimentos que o baterista Bobby Caldwell daria anos depois, em 2008, outro contratempo passava a ameaçar o Armageddon: uma nova piora no quadro de saúde de Relf acontecia, aliada ao fato dele acabar acompanhando os outros membros em festas e eventos que não eram recomendados para alguém em sua condição. O último diagnóstico dado naquele ano indicava que a sua asma havia simplesmente evoluído para um enfisema pulmonar. Ele estava praticamente impossibilitado de seguir com o grupo em uma grande turnê.

Relf e Pugh em show em West Hollywood, 1975

Estávamos agora em 1976. E a grande promessa do Armageddon havia, infelizmente, morrido na praia. Esfacelado e com um sentimento geral de desinteresse, os seus integrantes se dispersam, e o grupo encerra as atividades.

No final do ano anterior, Relf e sua família - a esposa, April Liversidge, e os dois filhos, Daniel e Jason - haviam se mudado para Hounslow, distrito a oeste de Londres, para uma casa suburbana simples e no estilo dos imóveis do lugar, mas com um porão subterrâneo que o músico havia adaptado como um estúdio caseiro, onde pudesse continuar compondo e trabalhando com suas ideias. Apesar da saúde mais debilitada, Relf não se dava nunca por vencido: já havia estabelecido conversações com sua irmã Jane, para ensaiar uma possível volta daquela formação original deles do Renaissance (que agora passaria a se chamar Illusion), ainda que tivessem que se apresentar menos vezes e de forma mais comedida, e já estava compondo e criando novas músicas e arranjos, enquanto esperava melhoras à base de um novo tratamento que ele tinha começado, com o uso do medicamento teofilina.

No dia 14 de maio, Relf está trabalhando em uma nova composição com sua guitarra, plugada nos equipamentos de seu estúdio caseiro. Mentes malignas e detestáveis, dessas dignas de tabloides e noticiosos absurdos da imprensa sensacionalista - o mesmo tipo de gente que foi capaz de criar a lenda de que a cantora Mama Cass Elliot havia morrido engasgada com um sanduíche (leia aqui) - inventariam depois a história de que Relf, tal qual um rockstar drogado e enlouquecido, teria ligado a sua guitarra enquanto estava em uma banheira luxuosa, ideia tão esquizofrênica e típica do jornalismo marrom, que a gente fica pensando, como é que certos veículos já tiveram a coragem de um dia publicar esse tipo de disparate.

Ocorre que aqueles tipos de porão, das casas inglesas na época, não tinham um aterramento de energia adequado, assim como geralmente apresentavam grande parte da tubulação hidráulica da residência exposta. A umidade típica daquele ambiente muito provavelmente causou o contato entre alguma água dos canos e a fiação elétrica do local. Enquanto tocava, calmamente, e de forma desapercebida e sem grande ruído, Keith Relf foi eletrocutado por uma descarga que subiu pelo cabo de sua guitarra plugada, imediatamente o levando a óbito. Agravada era a sua condição cardíaca, devido ao uso da teofilina, que pode instantaneamente levar a episódios de taquicardia ou arritmia - visto que especialistas posteriormente constataram que o choque que o vitimou nem era tão forte. 

O mais melancólico de tudo é que seu corpo fora encontrado pelo filho menor, Danny, então com apenas 8 anos de idade, e que num primeiro momento achou que o pai tivesse simplesmente adormecido de cansaço no estúdio, sentado, com sua guitarra nos braços.

Keith Relf está enterrado no Cemitério de Richmond, Inglaterra, e a sua alma e autenticidade artística admiráveis serão para sempre lembrados por todos os amantes da boa música e do rock clássico e vigoroso, de qualidade.




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