sábado, 14 de fevereiro de 2026

ELVIS, U2 E METALLICA - A DIALÉTICA DA EVOLUÇÃO ARTÍSTICA

Ainda neste mês, sairá nos cinemas EPiC - Elvis Presley in Concert, documentário sobre o Rei do Rock dirigido por Baz Luhrmann, que já havia retratado a vida do cantor na prestigiada cinebiografia Elvis (2022), com Austin Butler no papel principal (tendo este concorrido ao Oscar), e que foi o resultado de uma valiosa pesquisa nos arquivos de vídeo e áudio do artista, enquanto estava preparando aquele filme.

O filme já é anunciado como um daqueles eventos épicos (olha o nome!) de recuperação midiática digital, retratando Elvis contando a sua própria trajetória (a partir de uma obscura entrevista com ele, realizada em 1972), trechos de vários momentos de sua carreira, desde o início, mas focando principalmente naquele período conturbado mundialmente conhecido como a 'fase Las Vegas' - em que o rei passou a se apresentar por mais da metade de uma década na famosa cidade, em espetáculos que se tornariam notórios por representar a reta final de sua carreira, antes de sua morte em 1977. Os shows recuperados com tecnologia de primeira, que coloca o som e a imagem como se tivessem sido realizados ontem, capturam principalmente o recorte de tempo entre 1969 (quando Elvis iniciou os ensaios para a sua estreia no Las Vegas International Hotel, a primeira parada do cantor no local), e 1972.

Elvis: de jovem rebelde precursor do rock and roll nos anos 50...


...a ídolo dos shows apoteóticos em hotéis de Las Vegas, nos anos 70

Foi uma etapa na carreira do ídolo que muitos rotulariam de forma pejorativa, como um período cafona, espalhafatoso, menos complexo musicalmente (por figurar um repertório mais romântico), ou até mesmo inestético, tendo sido a época em que Elvis começou a exagerar tanto no figurino pomposo e chamativo, com aquelas roupas e macacões brancos repletos de cintos, lenços e pedrarias, como também no peso corporal, ganhando quilinhos a mais que o distanciaram daquela imagem de roqueiro rebelde dos anos 50, que o eternizou.

Muito disso, é fato, entrou de forma amplificada e até caricata para a mitologia da música pop, em geral - e parece ser exatamente isso que Baz, em entrevistas mais recentes para divulgar o filme, se propõe a revisar (e demolir): não, realmente não era mais o mesmo Elvis das décadas de 60 e 50. Mas o "Elvis 3.0", que estava ali, praticamente iniciando a terceira (e última) fase de sua carreira, estava longe de ser tão tedioso ou execrável assim. 

A sua maturidade como intérprete vocal tinha evoluído de forma impressionante no final da década de 60, e a sua versatilidade como artista, que passeava com desenvoltura por diversos estilos (country, gospel, blues, ópera etc.), com uma potente e azeitada banda de acompanhamento, e num vigor e uma intimidade tão conexa com esses diversos gêneros, quebra qualquer ranço de preconceito ou antipatia que o fã e ouvinte da boa música possa ter: o Elvis dessa fase de Las Vegas canta, chacoalha e emociona, seja no rock ou com as baladas, e os registros que Baz Luhrmann mostra, nessa sua nova declaração de amor pela lenda, comprovam isso indubitavelmente.

A mancha da "fase brega de Elvis" é enfim apagada. Conforme cita o crítico Owen Gleiberman, em sua resenha para a Variety, de setembro de 2025:

"Na era das residências em Las Vegas (não apenas de Lady Gaga, mas também do Grateful Dead!), os shows de Elvis em Las Vegas agora parecem surpreendentemente à frente de seu tempo. A mácula de tudo aquilo se dissipou. (Las Vegas não é mais o lugar para onde vão os vulgares "americanos da classe média"; é o lugar para onde todos, incluindo os hipsters, vão.) E na era da moda como excesso pós-moderno, onde as estrelas agora são exibicionistas caros, os figurinos de Elvis, com seu estilo Liberace, em sua ostentação propositalmente chamativa e extravagante, não parecem mais algo que alguém pensaria em ridicularizar; eles têm a audácia glamorosa do verdadeiro... rock 'n' roll." (Retirado de: https://variety.com/2025/film/reviews/epic-elvis-presley-in-concert-review-baz-luhrmann-1236510843).

Tudo isso chama a atenção, principalmente, por nos rememorar uma tendência que predominou durante muito tempo, no rock e na música pop, de que "o que determinada banda ou artista faziam, em sua fase inicial, é que era bom e legítimo". O artista deu uma repaginada no seu visual e, principalmente, uma reformuladinha no som? "Ah pronto, fulano se vendeu!"... "Mais um escravo da indústria, mais um fantoche do sistema!", e por aí vai.

Parece que a coisa aos poucos vai mudando, e as novas gerações, menos preconceituosas e/ou "puristas", passam a aceitar mais as reformulações e mutações artísticas. Algo que, aliás, se chama evolução artística, para quem não sabe! Muito raro ou difícil um artista continuar se mantendo relevante, ou criando novas obras com força e evidência, sem uma certa reinvenção, adotando o mesmo estilo ou fazendo sempre um só estilo de música. Na seara do rock, eu poderia citar uns 2, ou 3 casos apenas, que conseguiram isso, com competência. AC/DC... ou Ramones e Motorhead (esses dois últimos grupos já acabaram) entram nessa categoria.

U2 nos anos 80

Durante uma certa época, uma das maiores bandas pop ainda em atividade, o U2, de Bono Vox e The Edge, eram tidos como uma das maiores sensações da década de 80, estavam no auge da MTV, dividindo spotlights com Dire Straits, Police, Bon Jovi, e outros medalhões da época. Chegaram incólumes aos anos 90, em que a sua fase de ruptura com a sonoridade anterior foi a mais festejada e intensa de sua carreira: era o lançamento do mega cultuado Achtung Baby (1991), disco que foi sucesso mundial e marcou uma virada para o grupo, diversificando em músicas como "The Fly", "Misterious Way", "One" e diversos outros hits, com novas influências que  bebiam na fonte de sons indie underground e bases techno dançantes europeias. 

A banda na turnê do álbum 'Achtung Baby' (1991)

Ao mesmo tempo, foi também o início do declínio do grupo no gosto popular dos admiradores mais antigos: a antiga postura messiânica do vocalista Bono passou a ser ridicularizada, muito devido a declarações mais polêmicas e atrapalhadas que fugiam de suas pretensas preocupações sociais e políticas, e passavam a ser vistas mais como pose e manias de estrela de rock mimada. A superexposição na mídia dessa nova fase, mais glam e festeira, chegando ao ápice com o lançamento do álbum Discothéque (1997), que também exagerava nas mudanças e na tentativa de se manter 'up' e da moda, desgastou a imagem da banda, que passou a lutar a partir de então para voltar às raízes mais roqueiras - mas agora já era. Essa foi uma tentativa de inovar e mudar artisticamente, que realmente não deu muito certo.

Metallica (1984)

Outro que é um dos casos mais notórios, dessa vez dentro da área do heavy metal, é o de um dos baluartes do gênero: o Metallica. A sua trajetória é um marco nessa famigerada dialética da evolução artística, no mundo do rock pesado.

Oriundos da Bay Area, de San Francisco (EUA), eles foram precursores de um gênero mais rápido e agressivo que logo dominou os anos 80 e 90, o thrash metal, seguidos por nomes como Slayer, Testament, Anthrax e vários outros. Mas a trupe tinha uma forte e leal legião de fãs, que formavam um culto grandioso à banda formada por James Hetfield (vocais e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammet (guitarra) e Cliff Burton (baixo) - este logo alçado a condição de lenda, como um dos mais notáveis e poderosos representantes do instrumento no som pesado, e tido como um grande responsável criativo pela distinção da pegada de músicas como "The Four Horsemen", "Seek and Destroy", "Creeping Death", "Fade to Black" e outras, dos primeiros álbuns do grupo. Em 1986, vem a consagração total, com o disco Master of Puppets, reverenciado como um dos mais perfeitos do estilo - e que chega aos dias atuais ecoando em produções famosas em todo o mundo pop como a série Stranger Things (Netflix), em seu famoso episódio com o metaleiro Eddie tocando a faixa-título na guitarra, e pagando tributo à banda.

 
Cliff Burton

No final daquele mesmo ano, entretanto, mais precisamente em 26 de setembro de 1986, um trágico acidente com o ônibus de turnê deles causa a morte de Cliff Burton, e isso propulsiona as primeiras grandes mudanças no direcionamento do Metallica. Decididos a continuar a carreira, recrutam um novo baixista (Jason Newsted) e lançam o álbum duplo And Justice for All (1988), ainda com resquícios da sonoridade de Burton com o grupo e algumas ideias deixadas pelo mesmo. Mas é no disco seguinte, de 1991, que as coisas mudam pra valer: o auto-intitulado Metallica, mais conhecido como o "álbum preto", representa uma mudança radical do grupo rumo a pretensões artísticas mais sérias e comerciais, abandonando um pouco a agressividade e velocidade do som em prol de composições diferenciadas, que envolviam influências folk, country, e até mesmo de música sinfônica - com a condução do maestro Michael Kamen no arranjo da clássica "Nothing Else Matters", uma das mais marcantes do disco - e tal virada inevitavelmente passa a ser vista pelos fãs antigos e mais radicais como uma "traição" do grupo ao seu velho estilo, com inclinações a uma linha mais pop.

Isso, aliado ao fato de que o Metallica passa a compor um grupo de artistas que se posicionam contra a então nascente onda de compartilhamento de áudio e diversas mídias digitais pela internet, com o movimento contra o famoso software p2p Napster, entre o final dos anos 90 e anos 2000, e os associando a uma aura de "conservadores", faz com que antigos fãs se afastem e passem até mesmo a detratar a banda, os rotulando de "vendidos" da indústria da música. Os ponteiros do reloginho artístico do Metallica passariam a rodar tresloucados desde então: lançam um par de álbuns com novas mudanças sonoras controversas (Load e Reload, de 1996 e 1997, respectivamente), e em 2003 chegam a gravar o disco que é considerado com um dos piores e mais estranhos sons de bateria na história do rock pesado, o polêmico St. Anger. Opção estética de Lars Ulrich, segundo eles... 

A verdade é que a banda estava ruindo com uma crise interna, que quase levou ao seu fim, causada por alcoolismo, brigas e exageros, ocasionando a saída do baixista Jason Newsted, e retratada no documentário/terapia Some Kind of Monster (2004).

O Metallica em sua fase atual

Apenas a partir de 2006, com o baixista Robert Trujillo já integrado ao grupo, é que eles se recompõem e voltam a conquistar a simpatia de velhos fãs e a integridade com o petardo sonoro que é o disco Death Magnetic, uma formidável volta às raízes sônicas do grupo, mas que também os projeta para um cenário mais confortável, em que suas músicas mais modernas são mais bem aceitas. 

A ele, se seguiriam Hardwired... To Self Destruct (2016) e 72 Seasons (2023), bons discos também onde, recuperados de um período conturbado de vícios e conflitos, o Metallica finalmente faz as pazes com o seu passado, e se estabelece com maturidade como uma lenda musical já consagrada.





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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

OS 50 ANOS DE 'TAXI DRIVER'

 

'You talkin' to me? You talkin' to me?
Who da fuck you think you talkin' to?'


Absolute cinema.

Neste mês de fevereiro de 2026, ocorre o cinquentenário do filme que elevou a carreira do lendário cineasta Martin Scorsese, e que é reverenciado e considerado o seu primeiro grande clássico: Taxi Driver, com Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel e Cybill Sheperd.

A película foi resultado de uma conjunção certeira de fatores que contribuíram para o seu êxito, a relegando como um marco da sétima arte para a posteridade.

Martin Scorsese

Inicialmente, tudo partiu do fantástico roteiro de autoria de Paul Schrader, escrito em ritmo febril durante uma crise existencial do mesmo, típica de muitos norte-americanos da época, que estavam assistindo do trono de seus apartamentos, com a boca escancarada e cheia de dentes, um turbilhão de acontecimentos no caos social e político pelo qual os EUA estavam passando naquele período do meio dos anos setenta: Vietnam, rebelião na prisão de Attica, escândalo de Watergate, crise do petróleo, protestos e manifestações, dentre diversos outros agentes do caos que são muito bem demonstrados no documentário Breakdown 1975, de Morgan Neville (em cartaz atualmente na Netflix), que retrata fielmente o zeitgeist no meio do qual Taxi Driver foi urdido.

Schrader não estava exatamente morando dentro de um apartamento, conforme brincamos aqui, mas sim, dentro de seu carro, durante alguns meses em que ficou durango e sem casa, recém saído de um casamento. O seu estado de descrença e infortúnio, sem conversar com quase ninguém, enchendo a cara e frequentando livrarias baratas e cinemas pornô todas as noites ("os únicos lugares que ficavam 24 horas abertos para desiludidos como eu", diria ele), o levava a se sentir como um autêntico e solitário motorista de táxi. "Um cara que ficaria enlouquecido  rodando o tempo inteiro dentro de uma caixa de metal, um caixão ambulante, calado e na pilha com tudo".

Schrader lia os jornais e não acreditava no que via. A nação ianque estava ruindo de dentro pra fora, e ele meio que pirou, adotando um sentimento neurótico em relação a tudo, que ele praticamente transmitiu em camadas ao protagonista de sua estória, o obcecado veterano de guerra e motorista de taxi Travis Bickle - que seria magistralmente interpretado por De Niro.

O personagem é um cara insone, que lutou no Vietnam e agora ganha a vida carregando tudo quanto é tipo humano nas noites e madrugadas de New York em seu táxi, enquanto vai se afundando cada vez mais nas neuras do americano médio comum, um tipo simplório que não entende as coisas de seu país "dando tudo errado", que fica perplexo em um grau crescente, à medida que mais e mais mazelas ele vai enxergando nas ruas noturnas, entupidas de violência, drogas e prostituição. 

"Um dia desses vai cair uma chuva que vai lavar e levar embora toda essa m...", ecoam seus pensamentos, que permeiam toda a trama, em uma das mais famosas cenas do filme. E uma grande parte do charme de Taxi Driver se deve a isso, como muitos críticos já refletiram: Scorsese e Schrader nos levam para dentro da alma atormentada de Travis com suas narrativas em off, nos tornamos ele, vislumbramos os fantasmas de sua imaginação e nos identificamos com a sua angústia existencial, diante de tudo o que vê. Continua sendo, portanto, obra além de seu tempo, pois nos leva a contemplar como o caótico estado de coisas da sociedade em que vivemos (a atual, aliás) nos empurra para o desespero da opressão, do sufoco, para a inquietação e a simpatia pela reação da violência e das soluções imediatistas. Travis não acha que a cidade onde ele vive está sem solução - ele tem certeza disso. E tudo o leva a querer ele mesmo se tornar a solução, da forma mais radical possível.



Após tentar se "adequar" social e afetivamente, buscando a saída para sua neurose em uma paixonite pela moça que trabalha no comitê eleitoral de um candidato a presidência (papel da bela Cybill Shepperd), e até mesmo se aproximando depois desse político, Travis percebe que o seu caminho não é esse e, em mais uma das noites de trampo atravessando a esbórnia nova-iorquina, acaba conhecendo a jovem prostituta Iris (Jodie Foster, novinha). Essa sim, será o seu estopim para a queda em parafuso total. Indignado com a pouca idade e a vida que Iris leva, e tentando convencer a menina a largar as ruas e sair do domínio de seu cafetão (interpretado por um bizarro Harvey Keitel), Travis passa a desenvolver um plano brutal para resolver a situação, e... sim, de certa forma, lavar toda aquela sujeira que está nas ruas.

Um script fantástico de Schrader, com falas incisivas e mordazes, a direção inovadora e repleta de técnicas de filmagem arrojadas, de um jovem e promissor cineasta (Scorsese), e um elenco sensacional, em ponto de bala - ali estava mais um filme notável, dentre tantos que representaram aquela época da New Hollywood

Tendo custado apenas 1,9 milhões de dólares para sua realização - um orçamento baixíssimo, para os padrões de Hollywood - Taxi Driver se tornou um sucesso instantâneo assim que foi originalmente lançado, em 8 de fevereiro de 1976. No decorrer daquele ano, o filme atingiria a marca de 28 milhões de dólares, só nas bilheterias dos EUA. 

Além do grande sucesso de público, foi também fenômeno de crítica: a parte final em que Travis executa o seu plano é até hoje lembrada como uma das mais sanguinárias e acachapantes sequências de tiroteio e violência de todos os tempos, tendo inspirado irreversivelmente Quentin Tarantino e vários outros diretores de filmes policiais e de ação urbana, posteriormente. A câmera nervosa e a edição frenética de Scorsese e sua equipe (Melvin Shapiro, Tom Rolf e a esposa de George Lucas, Marcia Lucas) foram determinantes para que todas aquelas cenas incrivelmente filmadas entrassem para a história.

Outro detalhe imprescindível é a trilha sonora do genial Bernard Hermann, maestro e compositor da música de tantos outros clássicos do cinema, incluindo os inigualáveis Vertigo - Um Corpo que Cai (1958) e Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. Esse foi o último trabalho de Hermann, que morreu logo após o concluir (o filme é dedicado a ele), e o modo como o jazz pontua a loucura de Travis e seus devaneios pelas ruas decadentes da Nova Iorque é marcante.

Para os que ainda não assistiram até hoje essa obra-prima, fica o dever de casa: corram e vejam. E para os que já viram, nada mal comemorar o aniversário dessa pérola assistindo novamente - simplesmente 50 anos de absolute cinema.





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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A ESTÉTICA DE PSICODELIA 'KITSCH' DO HOMEM-MORCEGO

 

Várias mídias tem comentado nas últimas semanas sobre os 60 anos que a icônica série de TV americana Batman & Robin completou, no início deste ano. O espetáculo se notabilizou pela forma galhofeira e cheia de comicidade e absurdos com que retratava um dos maiores heróis da cultura pop, pertencente ao panteão da DC Comics, o nosso lendário "homem morcego".

O que muitos podem não saber é que o seriado, estrelado por Adam West e Burt Ward nos papéis da dupla dinâmica, nunca esteve muito fora de um padrão que era o esperado por público e crítica daqueles tempos e, comparando com a figura gótica e sombria na qual o herói se tornou mais recentemente, aquele era um Batman muito mais apropriado para a atmosfera que o mundo vivia, podendo ser considerado um típico produto de sua época.

A segunda metade da década de 1960 foi um período em que o ponteiro do relógio deu uma endoidada e começou a girar mais rápido, alterando padrões estéticos, morais, sociais, e de percepções, com o advento da contracultura. Revolução de costumes, com pílula anticoncepcional, "bolinhas" e substâncias lisérgicas, minissaia, Beatles no som e 007 nos cinemas, exaltando os prazeres da vida e das novas tecnologias que surgiam, reflexos da Swingin' London e suas roupas com cores vibrantes, e dos próprios EUA, adotando essas tendências de tudo muito colorido e às vezes nonsense, como forma de renegar as décadas anteriores mais preto-e-branco e sisudas, que remetiam ao ainda recente fantasma aterrador e melancólico de uma guerra mundial: tudo isso se misturava num caldeirão de influências culturais que passava a contaminar todo mundo que mexia com alguma forma de arte naquele período. E com as histórias em quadrinhos não seria diferente.

Burt Ward (o Robin), à esquerda, e Adam West (Batman), à direita, que encarnavam os heróis na série

O Batman da série de TV era um reflexo direto das últimas vivências do próprio herói nas HQs, em sua fase conhecida como a "era de prata", em que esteve sob a tutela de Sheldon Moldoff - entre o final da década de 50 e meados da década de 60, foram produzidas algumas das mais tresloucadas histórias em quadrinhos do homem morcego pela DC, incluindo a célebre "Batman Arco-Íris" (Detective Comics, de 1957), que chegava ao cúmulo de colocar o nosso herói utilizando o seu traje em variadas cores para surpreender e distrair ataques de bandidos contra o seu pupilo e parceiro Robin! Imagina se a gurizada de hoje, acostumada com o soturno "Cavaleiro das Trevas" contemporâneo, iria engolir esse Batman todo serelepe...

A famigerada HQ do "Batman arco-íris", de 1957

Importante considerar que foram esses tipos de narrativa que despertaram a atenção de pessoas como William Dozier, da ABC TV dos EUA, idealizador e produtor da série, e que também enfileirou outra série de herói da DC, que chegou a fazer crossover com o Batman em alguns episódios: o Besouro Verde (The Green Hornet, 1966-1967) - que inclusive marcava a estreia do lendário Bruce Lee, como o auxiliar do protagonista, Kato - mas que não ficou tão famosa como o Batman, pois não tinha a mesma verve e o apelo popular do herói. 

O Besouro Verde, com o seu também mascarado assistente Kato (Bruce Lee), à direita

A questão é que o lance da época era "causar", e fazer um balaio de humor, ação e referências pop tão bizarras, que chamasse a atenção tanto de crianças quanto de adultos - tudo pela audiência, ávida por experiências e coisas diferentes. Era um mundo mais leve e ingênuo, e um mundo que clamava por cores, brilho, estouro e sensações alegres e estupefacientes, à medida em que o flower power começava a se espalhar. Por falar em estouro, como esquecer as vibrantes onomatopeias insistentemente exibidas durante as cenas de luta da série, citação direta do universo dos quadrinhos? BUMP! KABOW! PLAFT! BOOM!



Por isso, a série do Batman tinha lances tão extravagantes, como a participação especial de diversas celebridades do entretenimento aparecendo do nada nas janelas dos prédios enquanto Batman e Robin os escalavam, e parando para conversar com eles assuntos "nada a ver". Ou absurdos como o Batman dançando twist, watusi ou surfando, de fantasia e tudo... para logo em seguida dar lições de moral no Robin e no telespectador de um jeito todo sério e afetado, ou ficar atendendo aquele bizarro telefone vermelho de emergências do Emissário Gordon, enquanto elucubrava teorias atrapalhadas sobre os planos mais esquisitos e desvairados de vilões como o Coringa, o Pinguim ou o Charada. Era, acima de tudo, muito, mas muito kitsch - tudo caricato e exagerado, feito para dar risada e ficar na memória, de tão infame.




O uso das cores berrantes em personagens e histórias foi muito relevante nesse contexto, agregando o padrão visual da psicodelia que seria preponderante para simbolizar toda uma geração da cultura pop que nascia ali, nos mais variados campos das artes. De repente, era "in" utilizar as mais diferentes e chamativas combinações de cores, e se tornava da moda aludir a viagens sensoriais e buscas por novos enfoques e significados. 

A estética pop psicodélica colorida passava a dominar todas as áreas, em todas as mídias - acima, capa da revista Manchete, em 1967


Propaganda dos postos Shell, de 1968 - na época, passaram a patrocinar gibis e desenhos animados de super heróis da Marvel no Brasil


Spock (Leonard Nimoy) e Kirk (William Shatner), na clássica série 'Jornada nas Estrelas', dos anos 60

A algazarra psicodélica que passou a tomar conta do cinema, da música e da televisão se traduzia não só nas imagens e sons, mas também no que estava por trás delas: as mensagens. Roteiros de outra clássica série de TV da época, a hiper cultuada Star Trek - Jornada nas Estrelas (1966-1969), de Gene Roddenberry, jogavam o espectador em intrincadas tramas onde os personagens da nave Enterprise exploravam novos planetas e dimensões, e se deparavam com questionamentos psicológicos que refletiam sobre a sociedade e ideologias muito humanas - ainda que as tramas se passassem em espaços cósmicos e com seres extraterrenos muito distantes, "audaciosamente indo onde homem nenhum jamais esteve" (como constava na lendária narração introdutória da série). Não foi apenas o ácido: Capitão Kirk e Dr. Spock também destamparam o cérebro de muita gente.

Jane Fonda, como Barbarella (1968)

Toda essa estética audiovisual "sideral" transbordou para outros filmes do gênero de ficção científica, sendo o célebre Barbarella (com Jane Fonda, de 1968) o exemplo mais lembrado, até hoje. Ali também, os diálogos insólitos e a postura nonsense tomavam conta, um tipo de humor e ambientação que buscavam o delírio, a extrapolação dos sentidos. Contexto espacial e colorido: good vibrations que, sob a influência adicional da corrida espacial da Guerra Fria típica daqueles dias - atingindo o seu ápice com a chegada do homem à Lua, em 1969 - assolaram também artistas nossos aqui (Os Mutantes, da música "2001" e seu "astronauta libertário", do segundo disco), e do lado de lá também (David Bowie com aquele sensacional primeiro hit que o revelou ao mundo, "Space Oddity" - não por acaso, trilha sonora da conquista lunar).

Os Mutantes



David Bowie, no clipe de 'Space Oddity' (1969)

Enfim, um desbunde só, que foi se esticando até o finalzinho da década, em 1969, quando logo após o antológico festival de Woodstock, e o desastroso e famigerado show de Altamont (dos Rolling Stones), o sonho acabou - juntamente com os Beatles e toda a utopia hippie indo junto pelo ralo - e a nova década que viria soterraria todo esse clima de festa e traria novamente tempos sombrios e muita desolação.

Os Rolling Stones, em Altamont (1969)

O seriado já tinha acabado, um ano antes. Batman, então, voltaria a ser "das trevas" como nos seus primórdios, roupa e capa mais escuras e sem o aro amarelinho em volta da insígnia do morcego, e Robin, o "menino prodígio", já nem tinha mais muita importância. Ficava para trás aquela figura camp e bisonha que fora sensação da TV. 

Santa agonia, Batman! Que destino, homem morcego.




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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

HAPPY BIRTHDAY, MR. TAYLOR

 

No último dia 17 de janeiro, completou 77 anos o guitarrista inglês Mick Taylor.

Taylor, caso os mais jovens não estejam lembrados, foi a primeira grande substituição na formação original dos Rolling Stones, quando o fundador do grupo, e um de seus guitarristas originais, Brian Jones, saiu da banda, em 1969.

Mick Taylor

O engraçado é que, apesar da posição cobiçada de ter entrado para uma das maiores bandas de rock do mundo, em seu auge, tudo ocorreu da forma mais imprevisível, e sem nenhum esforço ou interesse por parte de Taylor, como ele mesmo conta até os dias atuais. 

Os Stones estavam precisando de um músico de estúdio para complementar algumas faixas do seu próximo disco, que estava sendo gravado (Let it Bleed, de 1969), e Mick Jagger e Keith Richards receberam referências daquele jovem guitarrista que participara de gravações com o mestre do blues britânico John Mayall, e vinha sendo muito elogiado. 

'Crusade' (1967), álbum de John Mayall que revelou Mick Taylor

Assim que deu sua contribuição para algumas das faixas, Taylor já foi abordado de cara por Jagger dizendo: "Era tudo um teste, cara. O lugar é seu. Estamos precisando de um guitarrista, e é você!". 

A estreia ao vivo da figura se deu justamente com a volta dos Stones se apresentando em público novamente, depois de um bom período sem fazer shows, e logo no famoso concerto no Hyde Park em 5 de julho de 1969, apenas dois dias após a morte de Brian Jones, encontrado morto na piscina de sua casa pouco tempo depois de deixar o grupo (leia mais aqui). 

Rolling Stones com Mick Taylor - o segundo, da esquerda p/ direita, entre Watts e Jagger

Taylor debutou bem em todas as áreas, e o primeiro grande disco no qual ele participa no álbum inteiro, e debulha as seis cordas feito um maníaco, é o clássico Sticky Fingers, que saiu em 1971, contendo maravilhas como "Brown Sugar", "Can You Hear Me Knocking", "Sister Morphine" e "Sway". 

Viriam ainda as guitarradas certeiras nos álbuns seguintes, todos marcantes: a obra-prima Exile on Main Street (1972), Goat's Head Soup (1973), e It's Only Rock n' Roll (1974).

Taylor e sua Gibson SG vinho, à esquerda, debutando com os Stones no show do Hyde Park (1969)

É consenso geral que a fase de Taylor no grupo, entre 1969 e 1975, é o período mais prolífico e rico musicalmente dos Rolling Stones, até hoje. Foi aquele momento em que eles estavam com o seu vigor e criatividade mais em alta, já tinham conquistado o mundo, e a chegada de Taylor, com uma musicalidade e interação de guitarras com Keith Richards, gerou um som impressionante, inovador e jamais ouvido antes. Enquanto Richards providenciava o ritmo, o corpo das músicas, e se saía com riffs crus e diretos, num estilo mais seco e primal, Taylor adicionava camadas e mais camadas melódicas, criando solos belíssimos que passaram a adornar várias composições da banda.

"O cara toca tão bem que dá até raiva", uma vez comentou bem humoradamente Richards, não sem uma pontada de inveja braba.

A questão é que Taylor, apesar de toda a aclamação geral, alegaria que nunca se sentiu um verdadeiro "rolling stone", no sentido de ter o espírito da coisa. Era um cara bem pacato, e um legítimo e introspectivo estudioso do blues, como ele mesmo dizia. Um purista do estilo e do instrumento, bem próximo do gênio de um Eric Clapton, por assim dizer. Chegava a ser mais recluso e distante das câmeras, dos barulhos e burburinhos da mídia e da imprensa, até mais do que os seus colegas de banda quietos e calados, o baixista Bill Wyman e o baterista Charlie Watts - talvez por isso, de todos os guitarristas que passaram pelos Stones além do carro-chefe Keith Richards, Taylor seja o menos lembrado visualmente: Brian Jones e o atual e perseverante Ron Wood sempre demonstraram mais impacto midiático.

Essa postura, bem como os graves problemas internos relacionados a composição e crédito de algumas músicas, foram determinantes da saída de Taylor do grupo, em 1975. Anos depois, ele diria que mais da metade de algumas famosas canções daqueles álbuns citados anteriormente vinham de ideias dele, e que na hora de serem registradas, só o famoso binômio da dupla Jagger-Richards aparecia: grandes músicas como "Sway" e "Moonlight Mile" (do Sticky Fingers), "Rocks Off" e "All Down the Line" (de Exile), "Doo Doo Doo Heartbreaker" (de Goat's Head Soup) e a linda "Time Waits For No One" (do It's Only), que na minha opinião, é uma das melhores baladas já gravadas pelos Stones em sua carreira, com um solo majestoso de Taylor no final.

Contribuía pra caramba, mas na hora de faturar com direitos autorais, nada. Se foi assim mesmo, tem jeito não, Taylor logo ia se cansar mesmo.

Mick Taylor atualmente

A sua saída da banda foi tão repentina e incauta quanto a sua entrada: os Stones estavam numa festa, ele simplesmente chegou em Jagger com um drinque na mão, e falou baixinho: "Estou saindo da banda. Tchau". O vocalista saiu rindo, pensou que era somente uma piada, efeito da bebida. Não era - dali Taylor vazou, e nunca mais voltou.

Se lançou em uma tímida carreira solo, com bons discos de blues, e surpreendentemente, muitos anos depois de tudo, topou participar de alguns shows dos Stones no período 2012-2014, quando o grupo estava fazendo uma turnê comemorativa dos seus 50 anos. Taylor aparecia, ovacionado pela plateia, tocava umas duas ou três músicas, discretamente se despedia, e ia embora. Fiel ao seu espírito "lonesome rider" de blueseiro, como sempre!

A seguir, cinco grandes momentos da guitarra de Mick Taylor nos Rolling Stones:

1) Honky Tonk Women (single, 1969) - A canção que marca a estreia oficial de Taylor no grupo, um blues cheio de safadeza que descamba numa levada boogie onde ele e Richards dividem solos e ritmo com maestria, no que foi o primeiro grande sucesso de uma nova fase da banda.


2) Sway (Sticky Fingers, 1971) - Blues pesado e intenso, com um soleado cheio de veneno no final que era a marca registrada da criatividade melódica de Taylor.


3) Moonlight Mile (Sticky Fingers, 1971) - Balada com líricas nuanças folk, um dos pontos altos que encerrava mais um álbum clássico dos Stones. Mais uma das faixas sobre as quais Taylor reivindicava cerca de 60% da autoria, na composição musical.


4) Gimme Shelter (Goat's Head Soup - deluxe edition, 1973) - Essa versão ao vivo gravada durante a famosa turnê europeia dos Stones, naquele ano, já era famosa há muitos anos no mundo da pirataria, que disponibilizava os shows completos realizados pelos Stones em Bruxelas (Bélgica), na ocasião. Mas agora foi recentemente oficializada e disponibilizada na reedição de luxo do álbum de 1973, e simplesmente se notabiliza por ser considerada, por muitos, a melhor execução desse clássico (original de 1969), feita pela banda até hoje. E o motivo: simplesmente o toque inesquecível que Taylor dá a ela, lhe conferindo um dos mais belos e lancinantes solos de guitarra da história do rock.


5) Time Waits For No One (It's Only Rock and Roll, 1974): A gota d'água, o ponto final de tudo. Taylor reivindicou verbalmente com Jagger e Richards autoria sobre essa canção, que é uma das mais belas baladas gravadas pelos Stones. Deram de ombros e fizeram de conta que nem estavam ouvindo ele. Ele também virou as costas e saiu. Mas é um trabalho soberbo, especialmente nas lânguidas intervenções instrumentais de Taylor. Pra ouvir, curtir e se emocionar. Que despedida.






 

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