Não é sempre que acontece o que ocorreu neste ano de 2026, principalmente em uma carreira tão acelerada e sinuosa que é a de uma estrela do rock - frequentemente, dada a muitos exageros, correria com shows e gravações, crises de ego e/ou criatividade, e uma eterna cobrança de fãs para que a "mágica da arte" esteja sempre à disposição.
Pois bem. Este ano, um dos gigantes do gigantesco, progressivo e lendário grupo Pink Floyd, o seu não menos lendário guitarrista e vocalista David Gilmour (nascido em 6 de março de 1946, Cambridge - Inglaterra), completou 80 anos.
Deveras mais disciplinado e dedicado a aprimorar seus dotes na guitarra do que Barrett, Gilmour acabou sendo o alívio (e porto seguro) de que o Floyd precisava, não só aprendendo rapidamente como tocar as partes de guitarra em todas as músicas, mas também desenvolvendo o seu próprio estilo, mais refinado e melódico do que o de Barrett, de uma forma que passaria a se tornar marca registrada no grupo, dali em diante. Com a saída definitiva de Barrett em meados de 1968, e a confiança adquirida de que poderia não só tocar como cantar em seu lugar - e que bela voz também! - Gilmour se firmaria como uma das figuras na linha de frente do Pink Floyd a partir de então, ao lado do baixista e vocalista Roger Waters, que de certa forma passaria a tomar as principais decisões no direcionamento da banda.
A mítica e polêmica parceria com Waters, aliás, foi a responsável tanto pelo auge como pela queda do Pink Floyd, na sua fase mais clássica: compondo e atuando juntos, atingiram ápices criativos e de extremo brilhantismo, em álbuns como Meddle (1971), o multi-mega-platinado The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977), e desceram ladeira abaixo com The Wall (1979) e o insípido The Final Cut (1983), quando o quebra-pau entre os dois (muito devido ao ego inflado de Waters) chegou a níveis tão críticos, que Waters foi para um lado, e o restante da banda seguiu indo para outro. Nunca mais voltaram a ser amigos, e até hoje, pasmem, ainda trocam farpas pela imprensa, por qualquer motivo que seja. "Brigam como duas velhas britânicas rabugentas", satiriza e ri o baterista Nick Mason, que sempre tentou apaziguar.
Velho e rabugento ou não, o fato que não dá para negar é que Gilmour já foi eleito, em sucessivas votações da Rolling Stone e de outras publicações dedicadas ao rock e música pop, como um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Nunca é demais lembrar de seu estilo único e timbre invejável, elegante, que faz com que a sua guitarra expresse uma sensibilidade e precisão incríveis, colocando cada nota em seu devido lugar da maneira mais perfeita, num feeling espetacular que muitos já tentaram imitar ou compreender, sem sucesso. E, assim como outro aluno da mesma escola da precisão melódica e sensibilidade - o latino Santana - Gilmour nos mostra que a melhor forma de fazer o instrumento "chorar" bonito em uma música é apelando não para a velocidade ou técnicas de centenas de notas por minuto, mas sim, encontrando a atmosfera ideal para as notas dentro do conjunto, degustando as mesmas com apenas alguns efeitos certeiros (delay, reverb, distorções não muito carregadas), e deixando elas ecoarem longe, para bem longe ("Echoes", coisa fina do Pink Floyd 71, não é mesmo?).
De 1978 em diante, à medida que foi sentindo que as tensões no Floyd se tornavam mais crescentes e intoleráveis, já começou a cultivar uma carreira solo em paralelo - seu álbum de estreia nesse mesmo ano, David Gilmour, é muito bom, e foi bastante elogiado. Ainda lançaria o também aclamado About Face, em 1984 (onde a letra da canção-título acabaria sendo inspirada em sua relação tortuosa com Roger Waters), e depois de um lapso de mais de mais de vinte anos, retornaria com On an Island (2006), e alguns registros ao vivo exitosos, em que retomava os grandes clássicos do Pink Floyd. O seu último disco com material original é Luck and Strange (2024), que acabou sendo um trabalho em família: tem a contribuição de sua esposa, a jornalista e escritora Polly Samson, nas letras, e participação em vocais e instrumentação adicional de seus filhos Gabriel e Charlie, e da filha, Romany.
Para ler ouvindo o mestre solar em suas guitarras Fender desvairadas, segue uma lista de pequenas curiosidades sobre a vida desse ícone, que talvez alguns conheçam, mas muitos não.
1 - JUVENTUDE NA DUREZA
Filho de professores da Waldorf School, na região de Grantchester Meadows, na Inglaterra, Gilmour desde novo mostrou uma natureza mais rebelde e contestadora do tradicional sistema educacional britânico. Tentando se emancipar mais cedo e ganhar a vida, o rapaz saiu de casa jovem ainda e foi tentar a sorte na França, onde trampou em vários serviços de cunho artístico para ganhar a vida, enquanto tentava se aprimorar e profissionalizar na sua grande paixão: o violão, que ganhou aos 13 anos. Passou dificuldade: ele não tem vergonha de contar que, em Paris, a falta de dinheiro e a fome apertaram, e ele chegou a furtar baguetes de um mercado próximo de onde morava, para se alimentar. Considerado um jovem muito bonito desde novo (basta olhar as fotos da época - Gilmour foi o crush de muitas moças nos anos 60 e 70!), ele trabalhou posando como modelo vivo para artistas plásticos, enquanto se aventurava como aspirante a guitarrista de várias pequenas bandas. A mais longeva delas foi a Joker's Wild, que mudou de nome e em 1965 passaria a se chamar The Flowers. Foi ali que ele começou a se firmar como instrumentista, também cantando ocasionalmente.
2 - DE ROLO COM UMA 'SEX SYMBOL' (E COM BRIGA TAMBÉM)
Foi durante uma pequena turnê do The Flowers, no verão de 1966, em Saint-Tropez, que um encontro inusitado marcaria o início de carreira de Gilmour, e só revelado muitos anos depois: ele e a atriz francesa Brigitte Bardot, grande musa e sex symbol do cinema europeu dos anos sessenta, tiveram um rápido envolvimento amoroso - mas não sem uma certa confusão. Durante a apresentação do grupo, Brigitte estava na plateia e de cara começou a demonstrar interesse pelo jovem guitarrista, então com apenas 19 anos, que também não desgrudava o olho dela (que já era super famosa). O namorado dela na época, o também célebre milionário e playboy alemão Gunter Sachs, estava junto, e começou a desconfiar do clima. Não demorou para que depois do show, durante uma festa, Bardot e Gilmour dessem um jeito de se encontrar. Sachs descobriu e, enfurecido, foi atrás do músico posteriormente para tirar satisfações. Reza a lenda que rolaram alguns sopapos, entrou a turma do deixa disso, e pronto, cada um para o seu lado... Mas o fato é que Gilmour faturou o orgulho de atrair uma das maiores beldades do mundo do cinema. E isso, senhoras e senhores, é mérito de se guardar pra sempre.
3 - GANHANDO UM 'IRMÃO' NA BANDA
Muita gente nutria uma imagem da parceria entre David Gilmour e o "chefe" Roger Waters, no Pink Floyd, como algo comparável a outras grandes e clássicas duplas de compositores do rock: Lennon/McCartney (Beatles), Jagger/Richards (Rolling Stones), Plant/Page (Led Zeppelin), dentre outros. A realidade, no entanto, era outra: era menos um entrosamento, e mais uma conveniência criativa para garantir composições para o Pink Floyd. A verdadeira parceria, chegando até a uma relação de profunda amizade (ou irmandade mesmo) era entre Gilmour e o eterno tecladista da banda, Richard Wright - que, convenhamos, era um dos verdadeiros arquitetos do som etéreo e espacial, repleto de climas, do grupo. Retire as camadas de teclados de Wright para ver o que vira. E apesar de muitas vezes não transparecer nos créditos, a parceria de ambos compondo e moldando a sonoridade do Pink Floyd foi essencial para as obras-primas da banda. Para se ter uma ideia, aquele que é considerado o primeiro grande clássico da fase áurea do grupo foi resultado de ideias dos dois para uma longa suíte, que é a famosa "Echoes", com seus quase 24 minutos delirantes, do álbum Meddle, de 1971. Gilmour a executou várias vezes em shows de sua carreira solo, a partir dos anos 2000, e sempre com a participação especial de Wright nos teclados. Essa é uma canção tão significativa para ele, que o guitarrista jurou nunca mais tocá-la depois da morte de Wright (por câncer de pulmão, em 2008). E hoje é sabido que um dos motivos para ter aumentado ainda mais a birra no acirrado e tempestuoso relacionamento entre Gilmour e Roger Waters foi o fato do baixista, num arroubo ego maníaco ocorrido durante a turnê do disco Animals (1977) ter simplesmente demitido Rick Wright da banda, passando a contratá-lo como um reles músico de aluguel para os projetos seguintes do grupo, incluindo o celebrado The Wall (1979). Isso enfureceu Gilmour sobremaneira ("Um absurdo! Ele estava lá no começo do Floyd, ele sempre foi um dos cabeças do grupo"). Wright participou de diversos momentos da carreira solo de Gilmour a partir de 2002, em discos e turnês, e passou a fazer parte da equipe de músicos dele nos shows, como membro fixo. Na ocasião do falecimento do tecladista, Gilmour declarou: "Ninguém jamais poderá substituí-lo, e eu nunca toquei com alguém que pudesse ao menos chegar aos pés dele como músico. Assim como ele, eu nunca achei fácil expressar os meus sentimentos em palavras, mas digo que ele era o meu grande parceiro musical e amigo, eu o amei muito e vou sentir falta dele enormemente."
4 - AR E MAR: GRANDES PAIXÕES
Quando não estava tocando guitarra no Floyd ou em seus projetos solo, Gilmour estava... voando ou navegando por aí! São duas grandes paixões do músico. Ele é um exímio piloto, e nos anos 80, fundou em Londres a Intrepid Aviation, empresa que chegou a ter uma das melhores frotas de aeronaves do Reino Unido. No início dos anos 2000, acabou vendendo a empresa, declarando: "montei a Intrepid como uma forma de sustentar o meu próprio hobby de pilotar aviões, mas a partir do momento em que a coisa cresceu muito e vi que teria que gastar a maior parte do meu tempo administrando, resolvi vendê-la. Hoje, tenho apenas um bom e velho biplano para passear pelos céus quando dá vontade." Em relação ao hobby da navegação, Gilmour foi mais modesto - mas nem tanto: criou um estúdio caseiro sobre as águas, o Astoria Houseboat Studio, que já foi visto em alguns mares e rios da Europa (incluindo o Tâmisa em Londres, claro), onde ele pode tocar e mexer com algumas criações artísticas, enquanto curte os passeios.
5 - CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS
6 - UMA FRUSTRAÇÃO: O SOLO PERDIDO PARA SEMPRE
7 - PARÇAS E BICOS

Gilmour hoje anda mais sossegado, mas em boa parte de sua carreira, o cara parecia ser um tipo bem workaholic, tamanha a quantidade de bicos e participações dele nos trabalhos de um monte de gente do ramo. Pra começar, nem se ateve à guitarra: já citamos aqui no blog a curiosa passagem em que ele improvisou de técnico de som para a famosa apresentação ao vivo de Jimi Hendrix na Ilha de Wight, em 1970 (confira aqui). Acabaria desempenhando a mesma função alguns anos depois, para artistas amigos seus, tão díspares como Grace Jones, Roy Harper, Hawkwind e as bandas new wave Arcadia e Dream Academy. Colaborou com a banda de apoio de Brian Ferry (ex-Roxy Music), ao longo de toda a década de 80, até se apresentando com eles no mega evento Live Aid 1985. Com o ex-beatle Paul McCartney, parça de longa data, foram diversas colaborações: participações especiais em shows, tocando juntos no Festival de Knebworth de 1990 e em eventos beneficentes com grandes estrelas do rock, além de solar em hits de Paul, como a famosa "No More Lonely Nights" (1986) e "We Got Married" (1989). Tocou também com Pete Townshend, em alguns shows comemorativos do The Who, na década de 90. Com o Supertramp, colaborou compondo junto com eles o sucesso "Brother Where You Bound", de 1985. Além de ter sido praticamente o grande descobridor da performática estrela pop inglesa Kate Bush, após ter ouvido uma demo dela e a recomendado para um contrato com a gravadora de seu primeiro álbum (1978), também tocando em alguns de seus shows.
8 - FENDER STRATOCASTER: A PARCERIA INESQUECÍVEL
É raro e difícil acontecer... Mas Gilmour, em alguns momentos da carreira, já tocou em guitarras de outros modelos que não fossem as suas famosas Fender Stratocaster. Uma dessas rápidas "traições" ocorreu nesse vídeo logo acima, onde ele se apresenta no programa de TV do seu amigo Jools Holland, em 2015, surpreendentemente debulhando uma Gibson Les Paul. A devoção às Stratocaster, entretanto, permeia toda a carreira de Gilmour, e não à toa, ele é o detentor do primeiro modelo dela, lançado em 1954, com o nº de série "#0001" - apesar de algumas controvérsias apontando que, na realidade, ela não teria sido a primeira desse modelo lançada. Polêmicas à parte, a verdade é que ela é o "xodó" da extensa coleção de Gilmour, e ele nunca escondeu que um dos segredos do som que ele consegue tirar são os timbres mais límpidos e cristalinos que ele encontra nos instrumentos dessa marca e modelo.
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