quinta-feira, 16 de julho de 2026

TERRA DAS DAMAS ELÉTRICAS: A GÊNESE DE UMA OBRA-PRIMA

 

Qualquer vivente que entenda ao menos um pouquinho de música com mais profundidade sabe reconhecer a tremenda e vital importância que um norte-americano de Washington, Seattle, chamado James Marshall Hendrix  - mais popularmente conhecido como Jimi Hendrix (1942 - 1970) teve, para a evolução da música popular contemporânea, como nós a conhecemos.

Não é simplesmente uma questão de, como sempre se faz, elevá-lo à condição de mestre ascensionado da guitarra elétrica, instrumento cuja forma revolucionária de tocar foi praticamente reinventada por ele, com todas as suas técnicas de progressões rápidas de notas e acordes, escalas desafiadoras e um casamento fantástico de miríades melódicas e tonais com uma ampla gama de efeitos conseguidos através de pedais inovadores. Não, isso seria simplista demais - antes, o correto seria afirmarmos que o jeito revolucionário de Hendrix traduzir a linguagem da guitarra para novos tempos arrastou consigo, e mudou, toda a forma ocidental de se fazer música pop (e mais especificamente rock), a partir de então. 

A guitarra em Hendrix é um elemento de transição tão poderoso e marcante quanto a introdução dos teclados e contrabaixos elétricos, a adoção dos samples e instrumentos digitais, e quaisquer outras inovações eletrônicas que porventura tenham mudado a face da música de uns 80 anos para cá. É o modo de se entender como funciona a dinâmica das seis cordas em uma música, como se encaixa uma guitarra nela, tanto rítmica quanto solada, e como ela conversa com todo o restante dos instrumentos. Basta comparar, muito singelamente, a maneira como a guitarra era tocada e gravada em gravações anteriores de rock nos anos 50 e 60, antes de Hendrix, de um modo bem mais básico e simples, e a maneira como ela passou a protagonizar gravações do gênero a partir dele. As diferenças são gritantes.

Isso se torna ainda mais claro quando falamos tanto do rock puro, clássico, simples e tradicional, quanto do seu patriarca severo (o blues), e todos os outros subgêneros que se desenvolveram a partir de então: em especial o rock pesado (hard rock) e o titânico e ensurdecedor heavy metal. Todos, sem exceção, em suas vertentes atuais, pagam tributo ao já eternizado estilo "hendrixiano" de tocar.

Em setembro deste ano, a morte de Hendrix completará 56 anos. Mas a sua passagem não afeta em nada o frescor e a potência de suas performances, tanto em palco quanto em estúdios - e há quem prefira essa última modalidade, não só devido a certas apresentações ao vivo que soavam mais caóticas, muito em decorrência da vida extremamente atribulada que ele vivia, mas também ao fato do músico poder trabalhar em um ambiente mais controlado e dado a experiências sonoras incríveis, onde ele podia reinventar, da maneira mais próxima do que estava desenhado em sua mente, os timbres, fraseados e formas de uma guitarra "voar livre" no som. E neste caso, não há nada melhor do que recomendarmos uma bela e atenta audição daquela que é considerada a obra-prima do artista, idealizada, produzida e totalmente executada pelo mestre ainda na plenitude de um de seus últimos anos de vida: o petardo chamado Electric Ladyland, álbum duplo originalmente lançando em vinil, em outubro de 1968.

A história do disco da "terra da dama elétrica" é tão conturbada quanto a própria vida de Hendrix, que parecia viver eternamente no olho de um furacão. 

Repassando bem rápido: após começar a fazer fama como um excelente músico de apoio de artistas já consagrados (Little Richard, Curtis Knight, Isley Brothers e outros), por volta de 1966, Hendrix monta a sua primeira banda própria (The Blue Flames), e com ela começa a fazer shows em pequenas casas de New York onde já se destaca pela sua habilidade. Ele então é descoberto por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, que havia saída do grupo recentemente com o propósito de se aprofundar na carreira de empresário de bandas. É Chandler que faz a cabeça de Hendrix para ele largar tudo e partir para a Inglaterra, onde uma nova banda e um contrato de gravação promissor já estavam praticamente o esperando: numa inversão do que ocorrera com a Invasão Britânica anos antes, quando bandas inglesas aportaram os EUA invadindo as paradas, Hendrix agora faria o contrário, indo para a Inglaterra conquistar primeiro a terra da rainha, para só depois retornar já com êxito para a sua terra natal. 

Da esquerda p/ direita: Noel Redding, Jimi Hendrix, Mitch Mitchell e Chas Chandler

Em Londres, Hendrix se junta a Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria), para montarem um dos mais avassaladores power trios da história: o Jimi Hendrix Experience. Shows vão se sucedendo sem parar, a fama com os primeiros e revolucionários singles ("Hey Joe", "Purple Haze" e "Fire"), e o primeiro disco, de 1967 (Are You Experienced), logo a seguir, a aclamação triunfal no Monterey Festival, no mesmo ano, quando Hendrix retorna aos EUA e põe fogo em sua guitarra no final da apresentação, constituindo um dos momentos mais icônicos do rock, com turnês mil que vem logo a seguir, mais um segundo álbum às pressas já saindo no final do ano (Axis: Bold As Love) - e tudo isso já é terreno preparado para a loucura que seria gravar Ladyland

The Jimi Hendrix Experience

Dito então que o ano de 1967 (da revelação de Hendrix para o mundo) foi como se 1000 anos tivessem se passado em um, tamanha a correria e agitação em torno do músico, o início de 1968 nos apresentaria um Hendrix que, além de estafado, começava já a clamar por um maior controle de sua vida artística. 

Primeiro, Hendrix vetou integralmente o comando de Chas Chandler sobre o que seria seu próximo trabalho de estúdio. Isso levaria ao rompimento total com o seu descobridor, que desapontado, também abandonaria o posto de empresário - o que infelizmente leva Hendrix a entregar tal atribuição a um mala assistente de Chandler chamado Mike Jeffery, resultando em consequências nefastas para o artista (mais detalhes sobre essa história aqui). De qualquer forma, assumindo o leme como produtor e monitorando de perto todas as mixagens, o guitarrista estava prestes a realizar o único projeto sobre o qual conseguiu manter 100% de liberdade e controle criativo, e que geraria, no final das contas, não um, mas dois discos de material inédito! - Electric Ladyland sairia como álbum duplo, uma excentricidade que só os artistas de maior cacife e produtividade na época tinham a primazia de conseguir realizar (como Beatles e Bob Dylan). 

As sessões de gravação, iniciadas em Londres mas logo remanejadas para os estúdios Record Plant, em New York, onde a maioria das gravações ocorreria, entraram para o terreno da lenda, tamanho o caos instaurado pela própria vontade de Hendrix. Vivendo loucamente como um relâmpago, sem tempo para dormir ou descansar direito, e acumulando shows e turnês que aconteciam simultaneamente por compromissos contratuais, Hendrix ainda mantinha uma rotina boêmia da qual não conseguia abrir mão, e isso fez com que a maioria das sessões de Ladyland fosse convertida em uma espécie de "confraternizações de amigos", em que o guitarrista simplesmente enchia o estúdio de conhecidos que entravam e saiam sem a menor cerimônia, para vê-lo performar e gravar diversas das futuras músicas do álbum. Não obstante, esse é o motivo pelo qual ouvimos, em alguns momentos das faixas registradas, alguns aplausos e vozes de pessoas falando: era o ambiente absurdo, festeiro e de atmosfera quase 'ao vivo' criado pelo próprio Hendrix, que queria uma certa espontaneidade e efervescência na execução das canções.

Isso se destaca principalmente no carro chefe do disco, uma de suas faixas mais longas: "Voodoo Chile", praticamente uma blues jam devastadora de 15 minutos, onde vislumbramos o casamento perfeito entre o Jimi Hendrix Experience e o fenomenal grupo Traffic - os dois manda-chuvas dessas bandas, Hendrix e o vocalista/tecladista Steve Winwood duelam com solos acachapantes de guitarra e órgão, levando esse hino à mais elevada estratosfera psicodélica da quinta dimensão, em crescendos que explodem com o refrão antológico onde Hendrix faz a imprecação da "criança vudu", o escolhido, o mago das seis cordas desvairado nas magias estupefacientes do blues cósmico. Dá-lhe solos alucinantes pra tudo quanto é lado.

Ladyland, aliás, é obra pródiga em participações de membros de outras bandas, e tamanha foi a orgia musical de colaborações, que outro que saiu bastante irritado da empreitada toda foi o baixista do Experience, Noel Redding, reclamando que o espaço dele estava sendo afetado pelas exigências de Hendrix para seus novos sons. Além de membros do Traffic (como Winwood e o guitarrista Dave Mason), também compareceriam Jack Casady (baixista do Jefferson Airplane) e Brian Jones (dos Rolling Stones), em participações pra lá de especiais. Pouco tempo depois o Experience acabaria... Apenas o baterista Mitch Mitchell continuaria trabalhando com Hendrix posteriormente, em novos projetos. Hendrix, também insatisfeito com certas linhas do baixista, as dispensou e passou a ele próprio gravar o baixo em algumas das músicas, o que só aumentou a animosidade entre ele e Redding: notadamente, isso aconteceu em "1983, A Merman I Should Turn To Be" e "All Along the Watchtower".



Por falar nessa última, este é um capítulo à parte: um dos maiores clássicos do repertório hendrixiano, "Watchtower" é um original de Bob Dylan, desde sempre um dos grandes ídolos de Hendrix, que o inspirou inclusive na forma iconoclasta de usar sua voz, e que foi autenticamente reinventada pelo artista no estúdio. É uma das mais perfeitas gravações da história do rock, e retrata o nível máximo de exigências e refinamento de Hendrix na produção do álbum: nada menos do que 19 takes de um violão gravado por Dave Mason (do Traffic) foram gravados, e que dá apenas um "toque" na mixagem final, encharcada com camadas e mais camadas de guitarras. A exótica percussão urdida por Hendrix eleva a faixa à condição de um petardo onírico e cigano, repleto de peso, distorção, e solos faiscantes com wah wah e outros efeitos. 

Enquanto "Have You Ever Been to Electric Ladyland" descamba para uma insólita balada soul, com falsetes e tudo mais, outros momentos como a esfuziante "Crowsstown Traffic", a épica "Burning of the Midnight Lamp" (anteriormente lançada como single) e pedradas como "Gypsy Eyes" e "House Burning Down" apenas reforçam a energia e atemporalidade do álbum, que fecha com outro standard do músico, sempre executado nos shows a partir de então: "Voodoo Child (Slight Return)", que faz referência à longa faixa anterior mas despeja tudo num rock lisérgico e funkeado, emoldurado com um dos mais clássicos riffs de guitarra da era moderna, referenciado e copiado à exaustão por uma infinidade de guitarristas contemporâneos (sendo Slash dos Guns N' Roses um dos mais frequentes, só para citar, nas versões ao vivo de "Civil War").

Apesar de ter sido o trabalho que mais saiu ao gosto de Hendrix durante a sua curta trajetória, houve um detalhe que não foi conforme ele havia idealizado, que o deixou muito insatisfeito, e com razão: a capa do álbum. Era para ter saído com uma foto de Linda Eastman da banda (futura Sra. Linda McCartney), registrada com crianças no Central Park, de acordo com expressas recomendações de Hendrix numa carta para a gravadora - entretanto, saiu em duas versões muito diferentes, sendo uma capa com uma foto berrante e desfocada da cabeça de Hendrix, em tons avermelhados, nos EUA, e a bizarra foto com um grupo de mulheres de aparência devassa, nuas em pelo e segurando capas dos discos anteriores do artista, no lançamento feito na Inglaterra. Apenas na reedição comemorativa de 50 anos do álbum em formato digital, já em 2018, é que o design original pretendido pelo músico foi finalmente utilizado.

É uma pena que Hendrix não tenha vivido muito adiante para presenciar a extensa e arrebatadora influência que o seu melhor e mais bem acabado trabalho, feito ainda em vida, teve sobre gerações e mais gerações de músicos que viriam a partir de então. O músico partiria, em circunstâncias ainda hoje discutidas e controversas envolvendo barbitúricos e bebida, no dia 18 de setembro de 1970, após uma noite com sua namorada em Londres.




Electric Ladyland permanece sendo um dos mais brilhantes e intensos itens da discografia desse gênio da música, e deve ser celebrado e relembrado como um dos momentos mais místicos e exuberantes da epopeia clássica do rock.




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quinta-feira, 2 de julho de 2026

CLINT EASTWOOD: CÉU E INFERNO NO VELHO OESTE

 

A declaração de aposentadoria definitiva, através do filho Kyle Eastwood, dada a uma rádio francesa (France Info), algumas semanas antes mas só divulgada no dia do aniversário do ator/diretor Clint Eastwood, em 31 de maio último, causou sensações controversas em fãs e admiradores: se não de preocupação acerca de seu atual estado de saúde (Eastwood é um idoso que completou 96 anos), por outro lado, de certa desolação, em relação a tudo que essa lendária figura já fez e produziu em sua longa carreira, e do que ele talvez ainda poderia realizar (nem que fosse só mais um pouquinho).

Com tal anúncio partido não dele, mas de um familiar, a trajetória de Eastwood se considera como oficialmente encerrada com o último filme dirigido (e não estrelado por ele) Jurado nº 2, de 2024, um atípico e bem conciso drama de tribunal, protagonizado por Nicholas Hoult, e lamentavelmente lançado de forma bem modesta pelos estúdios Warner, quase que diretamente no streaming. Já como ator, a última aparição atuando foi em Cry Macho (2021), que ele também dirigiu, outro drama com toques de suspense e melancólica nostalgia, ambientado na fronteira com o México, onde ele interpreta um sagaz ex-peão de rodeios, Mike Milo.

Nunca é demais dizer o quão relevante é a imagem e contribuição de Clint Eastwood para o cinema. O homem é simplesmente uma instituição viva da sétima arte norte-americana, figura mítica que representa valores caros à arte audiovisual ianque, e tão icônico quanto outros símbolos pop emblemáticos para se entender o que é a cultura dos EUA. 

Mickey Mouse, Elvis Presley, John Wayne, cheeseburger McDonald's e Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças)... eis que Clint Eastwood está lá em pé de igualdade, lado a lado de todos eles, de poncho e chapéu cobrindo parte da face carrancuda em cima de um cavalo, ou simplesmente de terno policial, também mal encarado como sempre, apontando a Magnum 44 na cara de alguém enquanto fala num assustador tom de voz suave: "go ahead, make my day... punk!" (vá em frente, faça meu dia... vagabundo).

Eastwood é tão pop que já virou até nome de hit do Gorillaz, em seu single de estreia (2001).

De orientação política fortemente voltada para a corrente republicana dos EUA (Eastwood é membro do Partido Republicano desde 1951), o artista no entanto destoa de certas linhas de pensamento mais conservadoras ao longo de toda a sua carreira, inclusive abordando temas sensíveis em relação à representatividade do Estado e das camadas de esferas do poder em Washington, notadamente em obras mais pessoais e nas quais foi também o diretor (Poder Absoluto e Sniper Americano, por exemplo) - em diversas entrevistas, Eastwood já disse ser um adepto do libertarismocorrente ideológica que defende a liberdade acima de tudo como um eixo fundamental para a sociedade, mais do que os papéis representados pelas autoridades e classes políticas, e nisso é curioso observar, como tal pensamento o aproxima de anarquistas ou socialistas clássicos (como Joseph Déjacque), a despeito de suas convicções mais tradicionais. 

Isso é essencial para compreender melhor as nuanças de certos filmes notabilizados em sua filmografia, e como eles representam visões de mundo que acabam ecoando em suas tramas, sobretudo nas áridas paisagens ainda não civilizadas e organizadas em torno do "contrato social", como as planícies do western. Foi ali, no Velho Oeste sem lei, território da barbárie e da supremacia dos gatilhos mais rápidos, que muitas das mais espetaculares parábolas que emolduraram a imagem impassível do cowboy Eastwood (e sua filosofia oculta) o conduziram à senda da eternidade.

Antes de sua derradeira e mais celebrada (além de condecorada com o Oscar) incursão por esse gênero clássico - o fabuloso Os Imperdoáveis (The Unforgiven, 1992) - Eastwood realizou, com um espaço de doze anos os separando, dois faroestes antológicos e também muito festejados pelos fãs, que representam uma dicotomia interessantíssima em sua abordagem dos mitos e mazelas do Oeste americano, ambos dirigidos e atuados por ele: O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), e Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985).


Em Estranho Sem Nome, uma de suas primeiras incursões pelo terreno da direção, Eastwood desempenha novamente o papel do forasteiro calado e taciturno, que chega de sopetão na pequena cidade de Lago, e demonstra um incomum talento nas armas. Acuados pela iminente chegada de três facínoras que estão prestes a aparecer para um acerto de contas com algumas das autoridades de Lago, os moradores não veem outra opção a não ser contratar o estranho pistoleiro para defendê-los - o que ele topa fazer, mas sob as suas bizarras condições! Já num sinal de estar do lado das sombras e dos marginalizados, faz amizade com um anão, um dos mais estigmatizados e humilhados habitantes do lugar... para logo adiante torná-lo prefeito do lugarejo. Logo em seguida, ele manda pintarem todas as casas de vermelho, e trocarem o nome da cidade para "Inferno". O que se desenha na trama a partir de então é uma verdadeira alegoria do mal irrompendo da terra, para tragar aqueles que se acham piores que ele. Sim, temos a firme intuição, a partir de certa altura, que o pistoleiro desconhecido é o próprio diabo.

Eastwood consegue a proeza de realizar um filme que pode ser considerado um autêntico crossover entre o western e o terror, tamanha a atmosfera sinistra e assombrosa que permeia a sua violenta meia hora final. Ao descobrirmos que a trama termina se baseando em uma saga de pura vingança - a "vendetta" tão cara aos bangue-bangues italianos, de Leone e cia., onde Eastwood despontou para afama mundial - percebe-se o despudor de Eastwood em desembarcar no território do sobrenatural, sugerindo uma "volta do mundo dos mortos", o que revela mais uma vez um caráter de ineditismo nessa lendária e inovadora produção. Falar mais do que isso por aqui já é estragar as surpresas dessa sombria trama com spoilers desnecessários - quem ainda não viu, tem o dever de conferir essa pequena obra-prima.

Por outro lado, Cavaleiro Solitário é considerado pela maioria dos cinéfilos, e com razão, a total antítese do filme anterior.

Se antes, o tom era de horror e trevas, nesse outro western de 1985 a fotografia é clara e límpida, alude a um cenário mais pastoral (até bíblico), saboreando várias paisagens brancas de neve montanhosa, e abordando a chegada de um forasteiro - dessa vez, simplesmente chamado de "pastor" - ao vilarejo de Lahood, onde um grupo de mineradores sofre nas mãos do inescrupuloso dono de uma empresa local que quer expulsá-los para dominar a exploração de ouro. O personagem de Eastwood, um suposto e misterioso líder religioso, vindo do nada e indo para lugar nenhum, com um colarinho branco que indica o seu ofício, não se roga a utilizar da força e de uma habilidade também fenomenal com as armas para defender o grupo de pobres mineradores - e, mais uma vez com um tom sobrenatural permeando a obra, ele aparece justamente após a enteada de um dos mineradores, a mocinha Megan, pedir ajuda aos céus para enviar alguém para protegê-los. Se em Estranho Sem Nome o pistoleiro defensor parecia o capeta, aqui ele é praticamente um anjo enviado pela providência divina.

Com uma trama livremente inspirada no eterno e clássico western Shane - Os Brutos Também Amam (1953), em que até mesmo o amor velado das personagens femininas e indefesas pelo estranho forasteiro desperta reações incautas, este é um dos mais belos e fascinantes trabalhos de Eastwood, que exercita todo o refinamento estético e visual das sequências de ação, e dos closes e takes caprichados, no que representaria um verdadeiro treino para o seu premiado faroeste seguinte.

Com esses dois faroestes espetaculares, esse icônico artista do 'libertário espírito americano' provaria que, a despeito do que muitos poderiam falar na época de seus lançamentos, ainda havia muito a se fazer e inovar nas grandes pradarias e tiroteios do Velho Oeste, bastava apenas olhar e executar de uma forma diferente. E isso, senhoras e senhores, é coisa que só mesmo pelas mãos dos virtuosos da sétima arte. 

Como o grande Clint Eastwood.



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sábado, 20 de junho de 2026

PACINO BRILHA EM PARÁBOLA SOBRE O CAOS JUDICIAL

 

A sociedade dita organizada é um conflituoso e intenso mar de interesses. Todo o arcabouço legal e jurídico montado para tentar mediar, amparar, analisar e resolver tantas cabeças lutando pela sobrevivência, e por algo que faça sentido em suas existências, se tornou realidade tão insana e disforme, que não obstante abrimos os jornais para ler, ou nos deparamos com as notícias nas redes comprovando que não, nada está bem de fato, o Judiciário se embevece e digladia com outros poderes, as forças de segurança e autoridades instituídas se amontoam em trapalhadas dignas do mais espalhafatoso circo, e a vida cotidiana segue - dura, doida e incólume - cada vez mais nos mostrando o tanto de ficção na qual estamos inseridos, tentando fazer a vida em comunidade parecer algo de verossímil, algo em que acreditar.


Lembrou do Brasil, ou de outra sociedade qualquer atual? Pois bem, é esse o cenário com o qual o cinema norte-americano socialmente vigoroso e imbuído de críticas, entre as décadas de 1970 e 1980, gostava de trabalhar, levando para as telonas histórias que eram um tapa na cara de quem acreditava no "sonho americano", ou estava imerso nos contos de fadas governamentais de qualquer país daquela época, republiqueta de bananas ou não. Justiça e legalidade? Bah, conversa pra boi dormir. Toma aqui, deixa eu te mostrar o que de fato acontece com essa sociedade que finge ser honesta com seus cidadãos.

É desse contexto que emerge esplendidamente uma pequena obra-prima chamada Justiça Para Todos (And Justice For All, 1979), filme de Norman Jewison, com o gigante Al Pacino no papel principal. E que filme, senhoras e senhores.

Pacino brilha nessa parábola sobre o caos judicial, no papel de Arthur Kirkland, advogado extremamente humanista e que ainda insiste em confiar no sistema judiciário dos EUA. Ele se exaspera, entra em conflito com um juizão autoritário que insiste em manter preso um cliente injustamente autuado em uma infração de trânsito, e chega às raias da inconsequência em suas defesas. Visita periodicamente num asilo o avô com Alzheimer que o criou e cuidou para que se formasse, tem um caso com uma advogada do comitê de corregedoria do tribunal em que atua, e mantém uma amizade - tensa, mas recomendável - com outro juiz da corte, o fanfarrão e psicótico Francis Rayford (Jack Warden, em atuação hilária e impagável). 

No turbilhão que é sua vida, entre correrias com colegas no tribunal para defender seus casos, e as penosas consequências com as quais tem que lidar quando vê que o "devido processo legal" está (constantemente) sendo desvirtuado, tudo muda para Arthur quando o juiz com o qual brigou para livrar o seu cliente preso se vê envolvido em um rumoroso caso de estupro, e escolhe justamente Arthur para defendê-lo: pois, ironia das ironias, o simples fato de ser representado por um advogado certinho e que o detesta cria um bom álibi para que ele seja considerado inocente das acusações. 

A trama se desenvolve de maneira ágil e com diversas reviravoltas criativas, que prendem a atenção e tornam o filme uma experiência muito atrativa, fácil de ser acompanhado e entendido - felizmente, não se afoga nas situações complexas ou termos mais técnicos e enfadonhos tão comuns em outras produções centradas nos tribunais. O excelente roteiro de Barry Levinson e Valerie Curtin consegue essa proeza.

O que chama mesmo a atenção e eleva o nível de Justiça para Todos enquanto arte cinematográfica para refletir é a capacidade do enredo em demonstrar de forma magnífica como todo o sistema judicial se estrutura em torno de pessoas e seus interesses, e não baseado no que seria um real senso de justiça, ou retidão moral e ética. Tudo contribui para que a fria letra da lei continue sendo apenas a fria letra da lei, usada e abusada em determinados momentos como simples estratagema de operadores do Direito cada vez mais soberbos, ególatras e desvairados - as sequências absurdas que mostram o desenrolar dos fatos dúbios envolvendo o juiz acusado e suas manobras, bem como o total processo de enlouquecimento de um dos colegas advogados de Arthur (que literalmente surta após uma sessão no tribunal) dão provas cabais de que algo está muito, mas muito errado na vida dessa gente que trabalha no que chamamos de "mundo jurídico".

Há também espaço para cenas de um humor negro quase involuntário, e arrasador, que golpeia o espectador ao colocá-lo no nível do olhar de perplexidade do protagonista - a sequência do passeio no helicóptero é uma das coisas mais engraçadas e agoniantes que eu já havia visto em muito tempo, e transmite perfeitamente aquela sensação tão peculiar de momentos aflitos em que se pensa: "para o mundo que eu quero descer".

Passados todos esses anos de sua realização, o filme tem o primor de ter envelhecido muito bem, mantendo a atualidade de sua louvável proposta de ponderar acerca dos limites entre a lei e a moral, sobre o que é realmente certo e errado, independente de fóruns e julgamentos, e de como toda uma finalidade do sistema de fazer valerem a verdade e a justiça se perdeu. 

De lambuja, ainda mostra um Al Pacino mais jovem e no auge do vigor, em legítima plenitude de sua performance e capacidade dramática. Eu recomendo, e muito - especialmente para quem é da área do Direito. Programa imperdível.





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quinta-feira, 18 de junho de 2026

PAUL McCARTNEY: 'WHEN I'M 84'

18 de junho de 1942 - neste exato dia, ou seja, há 84 anos atrás, nasceu em Liverpool, Inglaterra, um dos caras que iria revolucionar a música pop, e a arte em geral, no século XX - e podemos dizer que isso junto com outros caras, e também separadamente. Porque não tem jeito: é inegável que apesar de todo o legado dos Beatles, do qual participou como baixista, vocalista, e compositor principal ao lado do lendário John Lennon (a mais icônica parceria de todos os tempos), Paul McCartney já fez de tudo, e tanto, com uma carreira tão absurdamente prolífica e celebrada (com sua outra banda Wings e solo), que a sua obra e o seu carisma, não só com os seus antigos companheiros, vai muito além e atravessa décadas e mais décadas na história da cultura popular.

Irônico lembrar que o próprio Paul já fez da idade avançada e suas agruras inspiração para uma de suas mais simbólicas músicas dentro dos Beatles: a bela e reflexiva "When I'm 64" (Quando eu tiver 64 anos), do icônico álbum Sgt. Pepper's de 1967, que remonta ao som vaudeville típico dos salões ingleses, e impunha aquela marca registrada de Paul no grupo, sempre imbuído de uma musicalidade eclética muito forte e sem barreiras, flertando com o sinfônico, ao mesmo tempo em que gostava de um bom rock e de transgredir sonoramente (veremos isso logo adiante). Portanto, hoje seria dia de fazer um trocadilho bem humorado para Paul, que poderia até ter cantado: "when I'm 84" (quando eu tiver 84 anos).

Nunca é demais lembrar que o homem ainda está por aí, e não para. Assim como aquela outra poderosa força da natureza, os Rolling Stones, se recusa a entregar os pontos e se aposentar (ambos desmentem a gente desde aquele nosso primeiro post que inaugurou o blog aqui, ainda em novembro de 2023, onde cogitávamos essa possibilidade), e reafirmam isso juntos - Paul fazendo mais uma participação especial com os Stones, em mais uma faixa do novo disco dos caras que está prestes a sair (Foreign Tongues) - e também no recentemente lançado e já bastante elogiado álbum The Boys of Dungeon Lane (quentinho do forno, agora em 29 de maio último).

Para comemorar mais este aniversário da lenda viva, alguns fatos a seguir que todos os fãs mais acirrados já conhecem - mas que talvez possam ser mais ocultos para uma grande parte de sua sempre crescente legião de admiradores. 




1 - RIVALIDADE COM STU SUTCLIFFE

Nos primórdios dos Beatles, Paul não era o baixista - ele era guitarrista. E como muitos sabem, tal função cabia originalmente ao grande amigo e colega de John Lennon no Colégio de Arte de Liverpool, o mítico Stuart Sutcliffe, ou Stu, como era chamado. O cara era uma figura marcante, com aquela aura de "artista de vanguarda", e um visual bem chamativo para a época, sempre de jaqueta de couro e óculos escuros, além de ter estreado o clássico visual de cabelo franjinha dos Beatles (estética iniciada com o corte feito pela sua namorada, a artista alemã Astrid Kirchherr). Apesar de ser um instrumentista risível, e com pouquíssima técnica, a presença de Stu era substancialmente apreciada pelos primeiros fãs da banda em Liverpool e nas pequenas turnês que eles faziam, indo tocar nas casas de show de Hamburgo, na Alemanha, onde amadureceram enquanto banda. Stu tinha um momento no show que era uma número especial, onde ele entoava "Love Me Tender", de Elvis Presley, e fazia a mulherada ir à loucura. 

Stu Sutcliffe

Aliado a isso e a sua pouca habilidade no baixo, o seu estreito relacionamento com John passou a incomodar Paul, que demandava mais seriedade para as apresentações do grupo e que desenvolvessem melhor sua musicalidade, inclusive exigindo de John mais tempo de treinamento e dedicação a composições próprias. A coisa foi logo esquentando tanto para Paul, que em uma fatídica noite de 1960, logo após um dos shows do grupo, ele e Stu se desentenderam feio e acabaram saindo na mão - fato depois amenizado e acobertado pelo restante da banda. Mas a coisa já tinha azedado, e em 1961, Stu decide sair definitivamente dos Beatles para se dedicar à sua arte na pintura, pela qual sentia ter mais apreço, e se casar com Astrid. E para Paul sobrou o que então? Visto que ele exigia que o baixo fosse melhor tocado, e ninguém mais queria assumir essa responsabilidade, "bora lá, é comigo mesmo". Ainda passariam alguns meses até que ele conseguisse juntar uns trocados para comprar o famoso baixo Hofner 500, em formato viollino, que o eternizaria nos Beatles - até lá, ele foi se acostumando no instrumento e se virando no baixo modelo Hofner President mesmo, mais baratinho, que era anteriormente de Stu Sutcliffe.

Paul com Stu


2 - A DIETA 'CARNÍVORA' DE ANTIGAMENTE

Por convicções pessoais, Paul e sua eterna esposa Linda McCartney se tornaram vegetarianos em 1975, após observarem e se compadecerem pelos carneiros que eles criavam, logo após uma refeição, em sua famosa fazenda na Escócia. Mas antes disso, a dieta de Paul era extremamente simples, comum e carnívora, bem dentro dos padrões ingleses e dos moradores da simplória Liverpool - uma cidade costeira repleta de estivadores e gente que vivia "na dureza", e que precisava de muita caloria e carne para se manter na luta do dia a dia. Para se ter uma ideia, ele já relembrou, com certa nostalgia até, de algumas de suas antigas predileções culinárias, em entrevistas: big steaks e roast beef (bifão na chapa e rosbifes assados), chicken kiev (receita tradicional de frango assado com tanta manteiga e alho, que a carne até desmancha e escorre na hora de fatiar), chicken maryland (tradicional frango frito acompanhado de batatas e muito bacon), e os tradicionais cheeseburgers e eggs and chips (ovos com fritas), tão comuns no cardápio dos Beatles nos anos 60.


3 - UM TRANSGRESSOR ANTES DOS TRANSGRESSORES

A típica imagem dos Beatles, tida pela maioria dos fãs até hoje, é mais ou menos assim: John, guitarrista e vocalista, o líder natural de atitude forte e agressiva, com tendências para o rock mais primal, sonoridade mais crua e direta, vocais e jeito de tocar bem rudes e espontâneos, e afeito a experimentações sonoras; Paul, baixista e vocalista, o cara mais musical e melódico, voz doce, belas e líricas baladas, a principal ponte entre o produtor George Martin, a erudição e o som da banda; George Harrison, guitarrista e vocalista, o introspectivo, estudioso e solista, dedicado a descobrir influências indianas e novas texturas no som da banda, tentando introduzir mais composições próprias mas também sempre somando e agregando muito ao que Lennon/McCartney já produzem; e Ringo, o baterista boa praça, direto e eficiente, conciso mas denso em sua simplicidade, sempre oferecendo a batida certa na hora certa, e às vezes cantando e contribuindo com tudo mais o que pode, para manter todos unidos. Seria isso, certo? Pior que muitas vezes, não: essas imagens saem um pouco fora do parâmetro e se destoam em uma grande parte de fatos ocorridos na história do grupo - principalmente em relação ao que John Lennon e Paul McCartney representaram musicalmente em suas contribuições. 

John, muitas vezes, podia ser extremamente lírico e melódico, de um modo mais convencional (ainda que dentro de seu próprio estilo), e desenvolveu canções absolutamente sentimentais e com tendências sinfônicas espetaculares: "In My Life" (1965), "Strawberry Fields Forever" e "A Day in the Life" (1967), e "Across the Universe" (1970) são obras atemporais de sua autoria exclusiva que comprovam isso. E Paul, muitas vezes, podia ser um músico extremamente rocker, com músicas diretas e agressivas, e dado a arriscar e ser radical, bem fora dos padrões. Na fase inicial dos Beatles, ele por vezes disparava algumas das músicas mais pauleira do repertório do grupo: a vibrante "I Saw Her Standing There", que abria o primeiro disco dos Beatles, em 1963, covers rascantes de Little Richard, como "Kansas City" e "Ooh My Soul" (em 1964), e o torpedo "I'm Down", lançada em single de 1965. 

Mas duas composições se tornariam notórias no sentido de comprovar as inspirações mais 'vanguardistas' e transgressoras de Paul na música dos Beatles: primeiro, a famosa pedrada proto metal que é "Helter Skelter", lançada no famoso e polêmico White Album de 1968, uma faixa tão pesada e agressiva que influenciaria tudo que seria feito na área do hard rock a partir de então, e declaradamente construída por Paul daquele modo para, segundo ele, "competir com 'I Can See for Miles', do The Who, uma barulheira que me desafiou a mostrar que os Beatles também são capazes de por pra quebrar". E o segundo, e mais misterioso caso: a lendária "Carnival of Light", uma experiência sonora extrema, com mais de 15 minutos, criada por eles sob a coordenação de Paul, para um evento midiático de 1967 ocorrido em Londres (The Million Volt Light and Sound Rave). Os poucos afortunados que tiveram acesso a essa gravação se lembram de ser uma das coisas mais loucas e estranhas que eles já ouviram dos Beatles, e esse grupo seleto guarda a audição como algo único - apesar da contínua pressão de fãs do mundo todo ao longo dos anos, e dos esforços do próprio Paul com a EMI, no sentido de finalmente lançar a faixa em algum dos relançamentos do projeto Anthology, dos Beatles, ela continua inédita e guardada a sete chaves nos arquivos da gravadora, permanecendo como uma das mais intrigantes lost medias do maior grupo de todos os tempos.




4 - RESPONSÁVEL PELO BATISMO DE PUNK ROCKERS

Ramones

Essa muita gente já sabe: o nome de um dos mais famosos e precursores grupos de punk rock do mundo, os adorados Ramones, nasceu da admiração que eles sempre tiveram pela música dos Beatles, e sem ter uma outra ideia original para batizar o nome da banda no seu começo, se lembraram de ter lido em uma reportagem que o Paul se registrava em hotéis nos EUA com o nome "Paul Ramon", para despistar fãs histéricas da banda. Resolveram então chamar o grupo de Ramones em homenagem a tal fato, e utilizar como uma espécie de sobrenome dos integrantes, como se fosse todos membros de uma família (Joey Ramone, Dee Dee Ramone etc.). Dessa forma, Paul pode também ser considerado um responsável indireto pelo sucesso do punk rock a partir de então!


5 - SEM MEDO DA BREGUICE

Em 1973, prestes a chegar ao pleno auge da sua segunda grande onda de sucesso com a sua banda pós-Beatles, os Wings (onde também estrelava Linda McCartney nos teclados), Paul se lançou em negociações com a ATV britânica para produzir um especial televisivo, que iria ao ar em 16 de abril daquele ano, na esteira do sucesso do álbum Red Rose Speedway. Intitulado James Paul McCartnmey, e hoje redescoberto e já difundido online, esse evento tem momentos muito bons - foi a primeira vez que Paul executou novamente algumas músicas dos Beatles (como "Can't Buy Me Love" e "Yesterday") depois de um certo tempo traumatizado com o fim do grupo (maiores detalhes disso no excelente documentário Man on the Run, lançado este ano pela Amazon, que cobre bem essa fase dele). Mas há um segmento que pode chocar muito fã roqueiro mais tradicional: é o número de dança e música coreografada ao estilo Broadway com a canção "Gotta Sing, Gotta Dance", onde ao lado de uma trupe de bailarinas, ele parece querer homenagear os antigos musicais de Hollywood - com resultados irregulares. Tido como um dos momentos mais "cafonas" da carreira de Paul, atualmente soa divertido, se visto como uma curiosidade. E serve para provar uma coisa: o homem nunca teve mesmo preconceitos. Falou que é música? Tá valendo.



6 - PAIXÃO PELAS 'PLANTINHAS'

O propalado gosto de Paul pela ecologia, pelo verde das florestas, os animais e a preservação ambiental, vai um pouco mais além. O intenso e notório caso de amor do músico com uma certa 'erva', muito popular por aí (especialmente na Jamaica), foi do uso recreativo e trivial, para dar aquela relaxada, até episódios mais graves e de sérias implicações legais, em questão de alguns anos. Ainda por volta da época dos Beatles, quem empolgou Paul e os outros rapazes em relação ao "tapinha" foi, segundo todos contam, o grande Bob Dylan. Isso por volta de 1965, quando se encontraram e fizeram amizade. Paul acabou se tornando um dos seus maiores entusiastas. Já no ano seguinte, em 1966, sairia o seminal álbum dos Beatles, Revolver, que continha uma canção de Paul tida por muitos como apenas mais uma declaração de amor, comum em suas composições, "Got to Get You Into My Life" (Tenho que te colocar na minha vida) - e que ele confessaria, alguns anos depois, que era uma declaração não para uma personagem feminina, mas sim, para a tal folhinha. 

Mas a coisa chegou num nível tão retumbante, que em 1980, ao desembarcar no Japão para aquela que seria a sua última turnê com os Wings, Paul foi pego pelas rigorosas autoridades nipônicas com um pacote considerável da substância entre seus pertences na mala, ainda na vistoria do aeroporto. Com uma pena inicialmente prevista de prisão e sete anos de trabalhos forçados, ele acabou ficando nove dias detido, até que intrincadas negociações entre a gravadora, seus advogados (entre eles, o seu cunhado, irmão de Linda, John Eastman) e o governo japonês decidissem pela sua liberação. Paul ficou 10 anos proibido de pôr os pés no país, até que um perdão oficial ocorresse, o liberando para retornar com sua turnê mundial de 1990.



7 - INDO FUNDO NA SÉTIMA ARTE

Mais um passo tido por muitos como duvidoso na carreira de Paul foi a sua tentativa de emplacar sucessos cinematográficos. A primeira grande tentativa aconteceu quando o músico resolveu assumir (não oficialmente) a direção de uma produção dos próprios Beatles, ainda na época em que estavam juntos, e que dividiu muitas opiniões: o projeto Magical Mystery Tour, lançado no Natal de 1967, filme feito para a TV que se baseou em um pequeno conjunto de canções compostas e gravadas pelo grupo especialmente para a ocasião. O problema era que a linguagem do filme, hermética e com um humor às vezes tido como muito nonsense ou irônico, o distanciou do público acostumado a ver as travessuras dos Beatles nas tramas bem humoradas e acessíveis de seus filmes anteriores feitos para o cinema - Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day's Night, 1964) e Socorro! (Help!, 1965), ambos dirigidos por Richard Donner

Paul ainda foi o responsável por alinhar, com o diretor Michael Lindsay-Hogg, muitas das ideias para aquele que seria o último filme da banda (e que retrata a sua reta final), o documentário Let It Be (1970) - recentemente expandido e relançado como o projeto Get Back, de Peter Jackson, pela Disney streaming. Mas a empolgação final mesmo veio com a tentativa de atuar como o próprio protagonista de uma trama muito louca, que mistura aventuras no estilo "sessão da tarde" com uma complicada história sobre investigação e roubo de tapes de estúdio com gravações de músicas para um disco, e entremeada por vários, diversos números musicais: o nome dessa empreitada, que acabou não alcançando o sucesso esperado, foi Mande Lembranças para Broad Street (Give My Regards to Broad Street), de 1984, e resultou no hit "No More Lonely Nights" e num álbum com a trilha sonora, que teve até um bom desempenho nas paradas (por também conter regravações de algumas músicas dos Beatles, com nova roupagem de Paul em carreira solo). O filme, no entanto, não decolou mesmo.






8 - MÚSICA: A COMPANHEIRA CONSTANTE

A atribulada vida amorosa de Paul contém, oficialmente, alguns capítulos marcantes: a namorada e musa durante boa parte da fase com os Beatles, a atriz ruivinha Jane Asher (entre 1963 e 1968, chegando a ficar noiva), a "eterna esposa" e parceira de banda, sempre venerada, lembrada por ele e todos os fãs, Linda (entre 1969 e 1998, quando faleceu de câncer), a polêmica Heather Mills (entre 2002 e 2008, terminando com um bombástico divórcio), e a atual Nancy Shevell (de 2011 até o momento). Mas se formos considerar uma companhia etérea, envolvente e constante na vida dele, e que não se constitui nem mesmo em uma entidade, ou ser, esta seria a sua inspiração permanente: a música, esta sim, sempre presente nas ações e pensamentos desse cara que é, simplesmente, alguém que respira, vive, e é a própria personificação da música, para tantos fãs e admiradores ao redor do mundo, e em várias gerações, tamanha a facilidade e a expressividade com que ele domina e executa tal arte. 

Paul com Linda, em 1969, e a atual, Nancy Shevell, em 2023

Paul já disse que, diante de tantos musicistas e pessoas renomadas, de técnica e arte rebuscadas, que ele já viu e conheceu nesses seus 84 anos de vida, ele se sente até meio envergonhado em confessar que nunca aprendeu (nem ele ou nenhum dos Beatles) a ler ou escrever partituras, ou seja, estudar e fazer música do modo clássico, de conservatório. Diz que não consegue ver a música como "pontinhos num papel". Mas é óbvio que para ele, alguém que já fez tudo o que fez, e ainda faz, isso é irrelevante. Pegou um vôo para a Inglaterra depois da última turnê americana dos Beatles, e viu bandas vestindo roupas estranhas e usando nomes engraçados nos moldes psicodélicos, em uma revista: surgiu na hora a ideia para a estética e a composição das músicas do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). Tempos depois, pegou um outro vôo para passar uns dias de descanso na França: já desceu do avião pensando em todas as melodias e letra para "The Fool on the Hill" (1967), outro clássico. Anos depois, estava assistindo filmes de espionagem do James Bond: baixou na hora a inspiração para "Live and Let Die" (1973), que faria parte da trilha sonora do filme seguinte do agente 007. A música para ele é assim, é isso. Pura inspiração. Pura parte da vida.

Que venham mais anos de música e vida, Sir McCartney.




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