sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

OS 50 ANOS DE 'TAXI DRIVER'

 

'You talkin' to me? You talkin' to me?
Who da fuck you think you talkin' to?'


Absolute cinema.

Neste mês de fevereiro de 2026, ocorre o cinquentenário do filme que elevou a carreira do lendário cineasta Martin Scorsese, e que é reverenciado e considerado o seu primeiro grande clássico: Taxi Driver, com Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel e Cybill Sheperd.

A película foi resultado de uma conjunção certeira de fatores que contribuíram para o seu êxito, a relegando como um marco da sétima arte para a posteridade.

Martin Scorsese

Inicialmente, tudo partiu do fantástico roteiro de autoria de Paul Schrader, escrito em ritmo febril durante uma crise existencial do mesmo, típica de muitos norte-americanos da época, que estavam assistindo do trono de seus apartamentos, com a boca escancarada e cheia de dentes, um turbilhão de acontecimentos no caos social e político pelo qual os EUA estavam passando naquele período do meio dos anos setenta: Vietnam, rebelião na prisão de Attica, escândalo de Watergate, crise do petróleo, protestos e manifestações, dentre diversos outros agentes do caos que são muito bem demonstrados no documentário Breakdown 1975, de Morgan Neville (em cartaz atualmente na Netflix), que retrata fielmente o zeitgeist no meio do qual Taxi Driver foi urdido.

Schrader não estava exatamente morando dentro de um apartamento, conforme brincamos aqui, mas sim, dentro de seu carro, durante alguns meses em que ficou durango e sem casa, recém saído de um casamento. O seu estado de descrença e infortúnio, sem conversar com quase ninguém, enchendo a cara e frequentando livrarias baratas e cinemas pornô todas as noites ("os únicos lugares que ficavam 24 horas abertos para desiludidos como eu", diria ele), o levava a se sentir como um autêntico e solitário motorista de táxi. "Um cara que ficaria enlouquecido  rodando o tempo inteiro dentro de uma caixa de metal, um caixão ambulante, calado e na pilha com tudo".

Schrader lia os jornais e não acreditava no que via. A nação ianque estava ruindo de dentro pra fora, e ele meio que pirou, adotando um sentimento neurótico em relação a tudo, que ele praticamente transmitiu em camadas ao protagonista de sua estória, o obcecado veterano de guerra e motorista de taxi Travis Bickle - que seria magistralmente interpretado por De Niro.

O personagem é um cara insone, que lutou no Vietnam e agora ganha a vida carregando tudo quanto é tipo humano nas noites e madrugadas de New York em seu táxi, enquanto vai se afundando cada vez mais nas neuras do americano médio comum, um tipo simplório que não entende as coisas de seu país "dando tudo errado", que fica perplexo em um grau crescente, à medida que mais e mais mazelas ele vai enxergando nas ruas noturnas, entupidas de violência, drogas e prostituição. 

"Um dia desses vai cair uma chuva que vai lavar e levar embora toda essa m...", ecoam seus pensamentos, que permeiam toda a trama, em uma das mais famosas cenas do filme. E uma grande parte do charme de Taxi Driver se deve a isso, como muitos críticos já refletiram: Scorsese e Schrader nos levam para dentro da alma atormentada de Travis com suas narrativas em off, nos tornamos ele, vislumbramos os fantasmas de sua imaginação e nos identificamos com a sua angústia existencial, diante de tudo o que vê. Continua sendo, portanto, obra além de seu tempo, pois nos leva a contemplar como o caótico estado de coisas da sociedade em que vivemos (a atual, aliás) nos empurra para o desespero da opressão, do sufoco, para a inquietação e a simpatia pela reação da violência e das soluções imediatistas. Travis não acha que a cidade onde ele vive está sem solução - ele tem certeza disso. E tudo o leva a querer ele mesmo se tornar a solução, da forma mais radical possível.



Após tentar se "adequar" social e afetivamente, buscando a saída para sua neurose em uma paixonite pela moça que trabalha no comitê eleitoral de um candidato a presidência (papel da bela Cybill Shepperd), e até mesmo se aproximando depois desse político, Travis percebe que o seu caminho não é esse e, em mais uma das noites de trampo atravessando a esbórnia nova-iorquina, acaba conhecendo a jovem prostituta Iris (Jodie Foster, novinha). Essa sim, será o seu estopim para a queda em parafuso total. Indignado com a pouca idade e a vida que Iris leva, e tentando convencer a menina a largar as ruas e sair do domínio de seu cafetão (interpretado por um bizarro Harvey Keitel), Travis passa a desenvolver um plano brutal para resolver a situação, e... sim, de certa forma, lavar toda aquela sujeira que está nas ruas.

Um script fantástico de Schrader, com falas incisivas e mordazes, a direção inovadora e repleta de técnicas de filmagem arrojadas, de um jovem e promissor cineasta (Scorsese), e um elenco sensacional, em ponto de bala - ali estava mais um filme notável, dentre tantos que representaram aquela época da New Hollywood

Tendo custado apenas 1,9 milhões de dólares para sua realização - um orçamento baixíssimo, para os padrões de Hollywood - Taxi Driver se tornou um sucesso instantâneo assim que foi originalmente lançado, em 8 de fevereiro de 1976. No decorrer daquele ano, o filme atingiria a marca de 28 milhões de dólares, só nas bilheterias dos EUA. 

Além do grande sucesso de público, foi também fenômeno de crítica: a parte final em que Travis executa o seu plano é até hoje lembrada como uma das mais sanguinárias e acachapantes sequências de tiroteio e violência de todos os tempos, tendo inspirado irreversivelmente Quentin Tarantino e vários outros diretores de filmes policiais e de ação urbana, posteriormente. A câmera nervosa e a edição frenética de Scorsese e sua equipe (Melvin Shapiro, Tom Rolf e a esposa de George Lucas, Marcia Lucas) foram determinantes para que todas aquelas cenas incrivelmente filmadas entrassem para a história.

Outro detalhe imprescindível é a trilha sonora do genial Bernard Hermann, maestro e compositor da música de tantos outros clássicos do cinema, incluindo os inigualáveis Vertigo - Um Corpo que Cai (1958) e Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. Esse foi o último trabalho de Hermann, que morreu logo após o concluir (o filme é dedicado a ele), e o modo como o jazz pontua a loucura de Travis e seus devaneios pelas ruas decadentes da Nova Iorque é marcante.

Para os que ainda não assistiram até hoje essa obra-prima, fica o dever de casa: corram e vejam. E para os que já viram, nada mal comemorar o aniversário dessa pérola assistindo novamente - simplesmente 50 anos de absolute cinema.





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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A ESTÉTICA DE PSICODELIA 'KITSCH' DO HOMEM-MORCEGO

 

Várias mídias tem comentado nas últimas semanas sobre os 60 anos que a icônica série de TV americana Batman & Robin completou, no início deste ano. O espetáculo se notabilizou pela forma galhofeira e cheia de comicidade e absurdos com que retratava um dos maiores heróis da cultura pop, pertencente ao panteão da DC Comics, o nosso lendário "homem morcego".

O que muitos podem não saber é que o seriado, estrelado por Adam West e Burt Ward nos papéis da dupla dinâmica, nunca esteve muito fora de um padrão que era o esperado por público e crítica daqueles tempos e, comparando com a figura gótica e sombria na qual o herói se tornou mais recentemente, aquele era um Batman muito mais apropriado para a atmosfera que o mundo vivia, podendo ser considerado um típico produto de sua época.

A segunda metade da década de 1960 foi um período em que o ponteiro do relógio deu uma endoidada e começou a girar mais rápido, alterando padrões estéticos, morais, sociais, e de percepções, com o advento da contracultura. Revolução de costumes, com pílula anticoncepcional, "bolinhas" e substâncias lisérgicas, minissaia, Beatles no som e 007 nos cinemas, exaltando os prazeres da vida e das novas tecnologias que surgiam, reflexos da Swingin' London e suas roupas com cores vibrantes, e dos próprios EUA, adotando essas tendências de tudo muito colorido e às vezes nonsense, como forma de renegar as décadas anteriores mais preto-e-branco e sisudas, que remetiam ao ainda recente fantasma aterrador e melancólico de uma guerra mundial: tudo isso se misturava num caldeirão de influências culturais que passava a contaminar todo mundo que mexia com alguma forma de arte naquele período. E com as histórias em quadrinhos não seria diferente.

Burt Ward (o Robin), à esquerda, e Adam West (Batman), à direita, que encarnavam os heróis na série

O Batman da série de TV era um reflexo direto das últimas vivências do próprio herói nas HQs, em sua fase conhecida como a "era de prata", em que esteve sob a tutela de Sheldon Moldoff - entre o final da década de 50 e meados da década de 60, foram produzidas algumas das mais tresloucadas histórias em quadrinhos do homem morcego pela DC, incluindo a célebre "Batman Arco-Íris" (Detective Comics, de 1957), que chegava ao cúmulo de colocar o nosso herói utilizando o seu traje em variadas cores para surpreender e distrair ataques de bandidos contra o seu pupilo e parceiro Robin! Imagina se a gurizada de hoje, acostumada com o soturno "Cavaleiro das Trevas" contemporâneo, iria engolir esse Batman todo serelepe...

A famigerada HQ do "Batman arco-íris", de 1957

Importante considerar que foram esses tipos de narrativa que despertaram a atenção de pessoas como William Dozier, da ABC TV dos EUA, idealizador e produtor da série, e que também enfileirou outra série de herói da DC, que chegou a fazer crossover com o Batman em alguns episódios: o Besouro Verde (The Green Hornet, 1966-1967) - que inclusive marcava a estreia do lendário Bruce Lee, como o auxiliar do protagonista, Kato - mas que não ficou tão famosa como o Batman, pois não tinha a mesma verve e o apelo popular do herói. 

O Besouro Verde, com o seu também mascarado assistente Kato (Bruce Lee), à direita

A questão é que o lance da época era "causar", e fazer um balaio de humor, ação e referências pop tão bizarras, que chamasse a atenção tanto de crianças quanto de adultos - tudo pela audiência, ávida por experiências e coisas diferentes. Era um mundo mais leve e ingênuo, e um mundo que clamava por cores, brilho, estouro e sensações alegres e estupefacientes, à medida em que o flower power começava a se espalhar. Por falar em estouro, como esquecer as vibrantes onomatopeias insistentemente exibidas durante as cenas de luta da série, citação direta do universo dos quadrinhos? BUMP! KABOW! PLAFT! BOOM!



Por isso, a série do Batman tinha lances tão extravagantes, como a participação especial de diversas celebridades do entretenimento aparecendo do nada nas janelas dos prédios enquanto Batman e Robin os escalavam, e parando para conversar com eles assuntos "nada a ver". Ou absurdos como o Batman dançando twist, watusi ou surfando, de fantasia e tudo... para logo em seguida dar lições de moral no Robin e no telespectador de um jeito todo sério e afetado, ou ficar atendendo aquele bizarro telefone vermelho de emergências do Emissário Gordon, enquanto elucubrava teorias atrapalhadas sobre os planos mais esquisitos e desvairados de vilões como o Coringa, o Pinguim ou o Charada. Era, acima de tudo, muito, mas muito kitsch - tudo caricato e exagerado, feito para dar risada e ficar na memória, de tão infame.




O uso das cores berrantes em personagens e histórias foi muito relevante nesse contexto, agregando o padrão visual da psicodelia que seria preponderante para simbolizar toda uma geração da cultura pop que nascia ali, nos mais variados campos das artes. De repente, era "in" utilizar as mais diferentes e chamativas combinações de cores, e se tornava da moda aludir a viagens sensoriais e buscas por novos enfoques e significados. 

A estética pop psicodélica colorida passava a dominar todas as áreas, em todas as mídias - acima, capa da revista Manchete, em 1967


Propaganda dos postos Shell, de 1968 - na época, passaram a patrocinar gibis e desenhos animados de super heróis da Marvel no Brasil


Spock (Leonard Nimoy) e Kirk (William Shatner), na clássica série 'Jornada nas Estrelas', dos anos 60

A algazarra psicodélica que passou a tomar conta do cinema, da música e da televisão se traduzia não só nas imagens e sons, mas também no que estava por trás delas: as mensagens. Roteiros de outra clássica série de TV da época, a hiper cultuada Star Trek - Jornada nas Estrelas (1966-1969), de Gene Roddenberry, jogavam o espectador em intrincadas tramas onde os personagens da nave Enterprise exploravam novos planetas e dimensões, e se deparavam com questionamentos psicológicos que refletiam sobre a sociedade e ideologias muito humanas - ainda que as tramas se passassem em espaços cósmicos e com seres extraterrenos muito distantes, "audaciosamente indo onde homem nenhum jamais esteve" (como constava na lendária narração introdutória da série). Não foi apenas o ácido: Capitão Kirk e Dr. Spock também destamparam o cérebro de muita gente.

Jane Fonda, como Barbarella (1968)

Toda essa estética audiovisual "sideral" transbordou para outros filmes do gênero de ficção científica, sendo o célebre Barbarella (com Jane Fonda, de 1968) o exemplo mais lembrado, até hoje. Ali também, os diálogos insólitos e a postura nonsense tomavam conta, um tipo de humor e ambientação que buscavam o delírio, a extrapolação dos sentidos. Contexto espacial e colorido: good vibrations que, sob a influência adicional da corrida espacial da Guerra Fria típica daqueles dias - atingindo o seu ápice com a chegada do homem à Lua, em 1969 - assolaram também artistas nossos aqui (Os Mutantes, da música "2001" e seu "astronauta libertário", do segundo disco), e do lado de lá também (David Bowie com aquele sensacional primeiro hit que o revelou ao mundo, "Space Oddity" - não por acaso, trilha sonora da conquista lunar).

Os Mutantes



David Bowie, no clipe de 'Space Oddity' (1969)

Enfim, um desbunde só, que foi se esticando até o finalzinho da década, em 1969, quando logo após o antológico festival de Woodstock, e o desastroso e famigerado show de Altamont (dos Rolling Stones), o sonho acabou - juntamente com os Beatles e toda a utopia hippie indo junto pelo ralo - e a nova década que viria soterraria todo esse clima de festa e traria novamente tempos sombrios e muita desolação.

Os Rolling Stones, em Altamont (1969)

O seriado já tinha acabado, um ano antes. Batman, então, voltaria a ser "das trevas" como nos seus primórdios, roupa e capa mais escuras e sem o aro amarelinho em volta da insígnia do morcego, e Robin, o "menino prodígio", já nem tinha mais muita importância. Ficava para trás aquela figura camp e bisonha que fora sensação da TV. 

Santa agonia, Batman! Que destino, homem morcego.




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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

HAPPY BIRTHDAY, MR. TAYLOR

 

No último dia 17 de janeiro, completou 77 anos o guitarrista inglês Mick Taylor.

Taylor, caso os mais jovens não estejam lembrados, foi a primeira grande substituição na formação original dos Rolling Stones, quando o fundador do grupo, e um de seus guitarristas originais, Brian Jones, saiu da banda, em 1969.

Mick Taylor

O engraçado é que, apesar da posição cobiçada de ter entrado para uma das maiores bandas de rock do mundo, em seu auge, tudo ocorreu da forma mais imprevisível, e sem nenhum esforço ou interesse por parte de Taylor, como ele mesmo conta até os dias atuais. 

Os Stones estavam precisando de um músico de estúdio para complementar algumas faixas do seu próximo disco, que estava sendo gravado (Let it Bleed, de 1969), e Mick Jagger e Keith Richards receberam referências daquele jovem guitarrista que participara de gravações com o mestre do blues britânico John Mayall, e vinha sendo muito elogiado. 

'Crusade' (1967), álbum de John Mayall que revelou Mick Taylor

Assim que deu sua contribuição para algumas das faixas, Taylor já foi abordado de cara por Jagger dizendo: "Era tudo um teste, cara. O lugar é seu. Estamos precisando de um guitarrista, e é você!". 

A estreia ao vivo da figura se deu justamente com a volta dos Stones se apresentando em público novamente, depois de um bom período sem fazer shows, e logo no famoso concerto no Hyde Park em 5 de julho de 1969, apenas dois dias após a morte de Brian Jones, encontrado morto na piscina de sua casa pouco tempo depois de deixar o grupo (leia mais aqui). 

Rolling Stones com Mick Taylor - o segundo, da esquerda p/ direita, entre Watts e Jagger

Taylor debutou bem em todas as áreas, e o primeiro grande disco no qual ele participa no álbum inteiro, e debulha as seis cordas feito um maníaco, é o clássico Sticky Fingers, que saiu em 1971, contendo maravilhas como "Brown Sugar", "Can You Hear Me Knocking", "Sister Morphine" e "Sway". 

Viriam ainda as guitarradas certeiras nos álbuns seguintes, todos marcantes: a obra-prima Exile on Main Street (1972), Goat's Head Soup (1973), e It's Only Rock n' Roll (1974).

Taylor e sua Gibson SG vinho, à esquerda, debutando com os Stones no show do Hyde Park (1969)

É consenso geral que a fase de Taylor no grupo, entre 1969 e 1975, é o período mais prolífico e rico musicalmente dos Rolling Stones, até hoje. Foi aquele momento em que eles estavam com o seu vigor e criatividade mais em alta, já tinham conquistado o mundo, e a chegada de Taylor, com uma musicalidade e interação de guitarras com Keith Richards, gerou um som impressionante, inovador e jamais ouvido antes. Enquanto Richards providenciava o ritmo, o corpo das músicas, e se saía com riffs crus e diretos, num estilo mais seco e primal, Taylor adicionava camadas e mais camadas melódicas, criando solos belíssimos que passaram a adornar várias composições da banda.

"O cara toca tão bem que dá até raiva", uma vez comentou bem humoradamente Richards, não sem uma pontada de inveja braba.

A questão é que Taylor, apesar de toda a aclamação geral, alegaria que nunca se sentiu um verdadeiro "rolling stone", no sentido de ter o espírito da coisa. Era um cara bem pacato, e um legítimo e introspectivo estudioso do blues, como ele mesmo dizia. Um purista do estilo e do instrumento, bem próximo do gênio de um Eric Clapton, por assim dizer. Chegava a ser mais recluso e distante das câmeras, dos barulhos e burburinhos da mídia e da imprensa, até mais do que os seus colegas de banda quietos e calados, o baixista Bill Wyman e o baterista Charlie Watts - talvez por isso, de todos os guitarristas que passaram pelos Stones além do carro-chefe Keith Richards, Taylor seja o menos lembrado visualmente: Brian Jones e o atual e perseverante Ron Wood sempre demonstraram mais impacto midiático.

Essa postura, bem como os graves problemas internos relacionados a composição e crédito de algumas músicas, foram determinantes da saída de Taylor do grupo, em 1975. Anos depois, ele diria que mais da metade de algumas famosas canções daqueles álbuns citados anteriormente vinham de ideias dele, e que na hora de serem registradas, só o famoso binômio da dupla Jagger-Richards aparecia: grandes músicas como "Sway" e "Moonlight Mile" (do Sticky Fingers), "Rocks Off" e "All Down the Line" (de Exile), "Doo Doo Doo Heartbreaker" (de Goat's Head Soup) e a linda "Time Waits For No One" (do It's Only), que na minha opinião, é uma das melhores baladas já gravadas pelos Stones em sua carreira, com um solo majestoso de Taylor no final.

Contribuía pra caramba, mas na hora de faturar com direitos autorais, nada. Se foi assim mesmo, tem jeito não, Taylor logo ia se cansar mesmo.

Mick Taylor atualmente

A sua saída da banda foi tão repentina e incauta quanto a sua entrada: os Stones estavam numa festa, ele simplesmente chegou em Jagger com um drinque na mão, e falou baixinho: "Estou saindo da banda. Tchau". O vocalista saiu rindo, pensou que era somente uma piada, efeito da bebida. Não era - dali Taylor vazou, e nunca mais voltou.

Se lançou em uma tímida carreira solo, com bons discos de blues, e surpreendentemente, muitos anos depois de tudo, topou participar de alguns shows dos Stones no período 2012-2014, quando o grupo estava fazendo uma turnê comemorativa dos seus 50 anos. Taylor aparecia, ovacionado pela plateia, tocava umas duas ou três músicas, discretamente se despedia, e ia embora. Fiel ao seu espírito "lonesome rider" de blueseiro, como sempre!

A seguir, cinco grandes momentos da guitarra de Mick Taylor nos Rolling Stones:

1) Honky Tonk Women (single, 1969) - A canção que marca a estreia oficial de Taylor no grupo, um blues cheio de safadeza que descamba numa levada boogie onde ele e Richards dividem solos e ritmo com maestria, no que foi o primeiro grande sucesso de uma nova fase da banda.


2) Sway (Sticky Fingers, 1971) - Blues pesado e intenso, com um soleado cheio de veneno no final que era a marca registrada da criatividade melódica de Taylor.


3) Moonlight Mile (Sticky Fingers, 1971) - Balada com líricas nuanças folk, um dos pontos altos que encerrava mais um álbum clássico dos Stones. Mais uma das faixas sobre as quais Taylor reivindicava cerca de 60% da autoria, na composição musical.


4) Gimme Shelter (Goat's Head Soup - deluxe edition, 1973) - Essa versão ao vivo gravada durante a famosa turnê europeia dos Stones, naquele ano, já era famosa há muitos anos no mundo da pirataria, que disponibilizava os shows completos realizados pelos Stones em Bruxelas (Bélgica), na ocasião. Mas agora foi recentemente oficializada e disponibilizada na reedição de luxo do álbum de 1973, e simplesmente se notabiliza por ser considerada, por muitos, a melhor execução desse clássico (original de 1969), feita pela banda até hoje. E o motivo: simplesmente o toque inesquecível que Taylor dá a ela, lhe conferindo um dos mais belos e lancinantes solos de guitarra da história do rock.


5) Time Waits For No One (It's Only Rock and Roll, 1974): A gota d'água, o ponto final de tudo. Taylor reivindicou verbalmente com Jagger e Richards autoria sobre essa canção, que é uma das mais belas baladas gravadas pelos Stones. Deram de ombros e fizeram de conta que nem estavam ouvindo ele. Ele também virou as costas e saiu. Mas é um trabalho soberbo, especialmente nas lânguidas intervenções instrumentais de Taylor. Pra ouvir, curtir e se emocionar. Que despedida.






 

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O HOMEM QUE CAIU (E PADECEU) NA TERRA

 

Há alguns dias, foi aniversário de morte do lendário David Bowie, falecido em 10 de janeiro de 2016.

Este ano de 2026 é pungente e significativo em relação à lenda Bowie e todo o seu vasto universo simbológico, de uma forma sensivelmente especial - conforme já dito, Bowie, o mais alienígena dos pop stars, partiu em 2016, há exatamente dez anos atrás. Em 1996, ocorreu o famigerado "caso do ET de Varginha", um dos maiores episódios da nossa ufologia nacional, e que vem pipocar agora na mídia novamente, com documentário, novos materiais e tudo mais, e justamente num momento em que teorias, avistamentos, e uma série de fatos incríveis relacionados a discos voadores e revelações transbordam nas redes sociais. E lá por volta do distante ano de 1976 - ou seja, há cinquenta anos atrás - Bowie entrava de cabeça (e tronco, membros, corpo todo e alma) no lance de encarnar um alienígena, de uma forma muito mais intensa e visual do que nas alegorias de discos e shows que ele já apresentava regularmente: o cantor assumia plenamente sua performance de ator dramático no papel principal de um extraterrestre, em O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth), do diretor Nicolas Roeg.

Fenômenos pop 'tudo a ver' em 2026: David Bowie, o E.T. de Varginha, e casos ufológicos

David Bowie interpreta o protagonista, Thomas Jerome Newton, um extraterrestre que desce em nosso planeta com o árduo propósito de encontrar meios para transportar água daqui para o seu planeta de origem, desértico e à beira da extinção. Como necessita de dinheiro para desenvolver seus projetos, ele se passa por um inglês excêntrico que surge do nada nos EUA, com ideias avançadíssimas que o levam a criar uma das mais ricas e prósperas empresas de tecnologia do mundo, assim acumulando uma fortuna invejável para que possa colocar seus planos em prática. Dotado de poderes extraordinários, e que ele esconde dos outros (permitindo até mesmo captação de ondas variadas, viagens no tempo e vidência além dos limites conhecidos), Thomas é uma figura enigmática e tímida, bela e andrógina ao mesmo tempo, que desperta a curiosidade e as emoções de todos que o conhecem. Entretanto, ao mesmo tempo em que tenta cumprir sua missão, ele vai se envolvendo cada vez mais com os seres humanos que o rodeiam, se entregando aos seus vícios, paixões e interesses, e se humanizando cada vez mais nesse processo...

Bowie como o alien Thomas Jerome Newton

Obra hermética para muitos, e repleta de metáforas e códigos para outros, o filme de Roeg e Bowie não é uma ficção científica no sentido convencional. Pode não parecer um filme "fácil". Talvez funcione mais como uma parábola futurista, que expressa ideias filosóficas, e reflete sobre diversos paradigmas existenciais. Musas do pensamento coletivo, como os paradigmas do tempo e do envelhecimento, as desconfianças nos relacionamentos, o espectro da família, e o medo da morte e do desconhecido, são alguns dos ecos que ressoam na trama, e a permeiam, e que acabam invariavelmente cedendo espaço a um último, que acaba por deixar uma das mais fortes impressões em sua amarga conclusão: o poder dos estratagemas do dinheiro e do capitalismo devastador, que tudo monopoliza e corrompe, tornando a humanidade e a não-humanidade (o extraterreno de Bowie, no caso) em simples mecanismos propulsores do mercado de consumo.

Em sua hora final, o enredo (adaptado do livro de mesmo nome, do autor Walter Tevis) assume essa preocupação primária, de demonstrar como as engrenagens sociais vão se alinhando para consumir, digerir e dissecar todo o brilho, a diversidade e novidade das ideias do alienígena Thomas, logo em seguida o "humanizando", o cuspindo e o banalizando, numa alusão atroz à própria realidade da sociedade de culto e de rebanho, que eleva e derruba seus ídolos, que imola seus carneiros de ouro, os endeusa e depois os destrói. Ele é dominado pelas vozes e cenas dos aparelhos de TV invasivos, ele deixa de consumir a simples e pura água cristalina para, por influência de um affair, se tornar um alcoólatra. Ele passa a encontrar prazer nos bens e produtos, e na bajulação alheia... ele se deixa levar. 

E assim, aquele que é diferente, inovador, e desconhecido (assim passando a representar uma ameaça), é tolhido, domesticado, explorado e dominado, até se esgotar e decair. O sistema não perdoa quem afronta e não se encaixa.

Bowie mesmo versava sobre isso em sua elegia do roqueiro alienígena decadente Ziggy Stardust, seu primeiro grande passaporte para a eternidade, no disco de 1972 - nova roupagem para a mensagem, ou mera coincidência de princípios? E podemos ver aqui também algum paralelo com a nossa realidade atual de celebridades corriqueiras de rede social, endeusadas, consumidas, corrompidas e derrubadas, ou simples coincidência também?




Sob um prisma mais técnico, é filme cujos efeitos especiais e parte de sua estética são datados, mas para que possa ser apreciado como a impactante obra de arte que é, deve ser assistido na concepção do experimentalismo, e dos signos ocultos que a sua cinematografia exótica carrega.

A câmera por vezes desliza, em devaneios. Travellings acompanhados por fade-ins e fade-outs incautos, feitos para nos dar a sensação etérea dos efeitos que um próprio alienígena, em sua percepção sensorial diferenciada, sentiria, em colapso com o nosso mundo. 

O e.t. Thomas em seu planeta natal

Roeg se delicia na direção de tomadas de uma plasticidade belíssima, mas que também induzem o espectador ao delírio lisérgico de uma cosmogonia muito peculiar, ampliando a sua experiência fílmica antes já exercitada em outros momentos antológicos seus, como Performance (1970, com outro rockstar, Mick Jagger, como protagonista), e o surpreendente Inverno de Sangue em Veneza (Don't Look Now, 1973). 

Bowie, por sua vez, nunca mais teria um papel de tanto destaque, e que o representasse tão bem em uma fase singular e específica de sua carreira, como esse - talvez, o papel mais lembrado depois acabaria sendo o do carismático rei dos duendes Jareth, na fantasia cult Labirinto (1986), de Jim Henson

Para se ter uma ideia do impacto que 'O Homem que Caiu na Terra' teve sobre a trajetória e a imagem de Bowie, desde então, basta notar que foi a partir desta personagem que ele passou a encarnar integralmente a figura gélida do Thin White Duke, em seus discos e shows seguintes, e por todo o restante da década. Se livrando de um período tenebroso de loucuras, paranoias e incertezas, em que a cocaína quase o consumira por completo, Bowie agora lutava para adotar a sobriedade e uma nova postura: pálido, magro e de terno, com olhar sempre distante, assumia uma aparência que rompia de vez com os maneirismos das personas de suas mais espalhafatosas fases anteriores (Ziggy, Alladin Sane), e lançava quase que simultaneamente a obra-prima Station to Station (1976) - que carregava na capa foto de uma das cenas do filme, quando Thomas entra dentro da nave espacial projetada na Terra - para logo a seguir embarcar em sua "fase Berlin", quando foi morar na capital alemã e imergiu no krautrock, na música eletrônica e ambiental, e nas misturas de ritmos que precederiam o movimento new wave, levando tudo às últimas consequências nos discos seguintes - Low (1977, também com capa representando o personagem do filme), "Heroes" (1977), e Lodger (1979). Registros em que Bowie redefinia a música pop e apontava a direção futura, enterrando de vez o estilo de som dos anos 70 e décadas anteriores, e ditando tudo o que viria a ser a música jovem, dali em diante.

Eis que ali, naqueles petardos sonoros fantásticos e inovadores, o homem que caiu (e padeceu) na Terra, se ergueu novamente, se reinventou, e revolucionou mais uma vez o mundo, adquirindo o seu segundo passaporte para a eternidade. 




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OS 50 ANOS DE 'TAXI DRIVER'

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