sábado, 14 de fevereiro de 2026

ELVIS, U2 E METALLICA - A DIALÉTICA DA EVOLUÇÃO ARTÍSTICA

Ainda neste mês, sairá nos cinemas EPiC - Elvis Presley in Concert, documentário sobre o Rei do Rock dirigido por Baz Luhrmann, que já havia retratado a vida do cantor na prestigiada cinebiografia Elvis (2022), com Austin Butler no papel principal (tendo este concorrido ao Oscar), e que foi o resultado de uma valiosa pesquisa nos arquivos de vídeo e áudio do artista, enquanto estava preparando aquele filme.

O filme já é anunciado como um daqueles eventos épicos (olha o nome!) de recuperação midiática digital, retratando Elvis contando a sua própria trajetória (a partir de uma obscura entrevista com ele, realizada em 1972), trechos de vários momentos de sua carreira, desde o início, mas focando principalmente naquele período conturbado mundialmente conhecido como a 'fase Las Vegas' - em que o rei passou a se apresentar por mais da metade de uma década na famosa cidade, em espetáculos que se tornariam notórios por representar a reta final de sua carreira, antes de sua morte em 1977. Os shows recuperados com tecnologia de primeira, que coloca o som e a imagem como se tivessem sido realizados ontem, capturam principalmente o recorte de tempo entre 1969 (quando Elvis iniciou os ensaios para a sua estreia no Las Vegas International Hotel, a primeira parada do cantor no local), e 1972.

Elvis: de jovem rebelde precursor do rock and roll nos anos 50...


...a ídolo dos shows apoteóticos em hotéis de Las Vegas, nos anos 70

Foi uma etapa na carreira do ídolo que muitos rotulariam de forma pejorativa, como um período cafona, espalhafatoso, menos complexo musicalmente (por figurar um repertório mais romântico), ou até mesmo inestético, tendo sido a época em que Elvis começou a exagerar tanto no figurino pomposo e chamativo, com aquelas roupas e macacões brancos repletos de cintos, lenços e pedrarias, como também no peso corporal, ganhando quilinhos a mais que o distanciaram daquela imagem de roqueiro rebelde dos anos 50, que o eternizou.

Muito disso, é fato, entrou de forma amplificada e até caricata para a mitologia da música pop, em geral - e parece ser exatamente isso que Baz, em entrevistas mais recentes para divulgar o filme, se propõe a revisar (e demolir): não, realmente não era mais o mesmo Elvis das décadas de 60 e 50. Mas o "Elvis 3.0", que estava ali, praticamente iniciando a terceira (e última) fase de sua carreira, estava longe de ser tão tedioso ou execrável assim. 

A sua maturidade como intérprete vocal tinha evoluído de forma impressionante no final da década de 60, e a sua versatilidade como artista, que passeava com desenvoltura por diversos estilos (country, gospel, blues, ópera etc.), com uma potente e azeitada banda de acompanhamento, e num vigor e uma intimidade tão conexa com esses diversos gêneros, quebra qualquer ranço de preconceito ou antipatia que o fã e ouvinte da boa música possa ter: o Elvis dessa fase de Las Vegas canta, chacoalha e emociona, seja no rock ou com as baladas, e os registros que Baz Luhrmann mostra, nessa sua nova declaração de amor pela lenda, comprovam isso indubitavelmente.

A mancha da "fase brega de Elvis" é enfim apagada. Conforme cita o crítico Owen Gleiberman, em sua resenha para a Variety, de setembro de 2025:

"Na era das residências em Las Vegas (não apenas de Lady Gaga, mas também do Grateful Dead!), os shows de Elvis em Las Vegas agora parecem surpreendentemente à frente de seu tempo. A mácula de tudo aquilo se dissipou. (Las Vegas não é mais o lugar para onde vão os vulgares "americanos da classe média"; é o lugar para onde todos, incluindo os hipsters, vão.) E na era da moda como excesso pós-moderno, onde as estrelas agora são exibicionistas caros, os figurinos de Elvis, com seu estilo Liberace, em sua ostentação propositalmente chamativa e extravagante, não parecem mais algo que alguém pensaria em ridicularizar; eles têm a audácia glamorosa do verdadeiro... rock 'n' roll." (Retirado de: https://variety.com/2025/film/reviews/epic-elvis-presley-in-concert-review-baz-luhrmann-1236510843).

Tudo isso chama a atenção, principalmente, por nos rememorar uma tendência que predominou durante muito tempo, no rock e na música pop, de que "o que determinada banda ou artista faziam, em sua fase inicial, é que era bom e legítimo". O artista deu uma repaginada no seu visual e, principalmente, uma reformuladinha no som? "Ah pronto, fulano se vendeu!"... "Mais um escravo da indústria, mais um fantoche do sistema!", e por aí vai.

Parece que a coisa aos poucos vai mudando, e as novas gerações, menos preconceituosas e/ou "puristas", passam a aceitar mais as reformulações e mutações artísticas. Algo que, aliás, se chama evolução artística, para quem não sabe! Muito raro ou difícil um artista continuar se mantendo relevante, ou criando novas obras com força e evidência, sem uma certa reinvenção, adotando o mesmo estilo ou fazendo sempre um só estilo de música. Na seara do rock, eu poderia citar uns 2, ou 3 casos apenas, que conseguiram isso, com competência. AC/DC... ou Ramones e Motorhead (esses dois últimos grupos já acabaram) entram nessa categoria.

U2 nos anos 80

Durante uma certa época, uma das maiores bandas pop ainda em atividade, o U2, de Bono Vox e The Edge, eram tidos como uma das maiores sensações da década de 80, estavam no auge da MTV, dividindo spotlights com Dire Straits, Police, Bon Jovi, e outros medalhões da época. Chegaram incólumes aos anos 90, em que a sua fase de ruptura com a sonoridade anterior foi a mais festejada e intensa de sua carreira: era o lançamento do mega cultuado Achtung Baby (1991), disco que foi sucesso mundial e marcou uma virada para o grupo, diversificando em músicas como "The Fly", "Misterious Way", "One" e diversos outros hits, com novas influências que  bebiam na fonte de sons indie underground e bases techno dançantes europeias. 

A banda na turnê do álbum 'Achtung Baby' (1991)

Ao mesmo tempo, foi também o início do declínio do grupo no gosto popular dos admiradores mais antigos: a antiga postura messiânica do vocalista Bono passou a ser ridicularizada, muito devido a declarações mais polêmicas e atrapalhadas que fugiam de suas pretensas preocupações sociais e políticas, e passavam a ser vistas mais como pose e manias de estrela de rock mimada. A superexposição na mídia dessa nova fase, mais glam e festeira, chegando ao ápice com o lançamento do álbum Discothéque (1997), que também exagerava nas mudanças e na tentativa de se manter 'up' e da moda, desgastou a imagem da banda, que passou a lutar a partir de então para voltar às raízes mais roqueiras - mas agora já era. Essa foi uma tentativa de inovar e mudar artisticamente, que realmente não deu muito certo.

Metallica (1984)

Outro que é um dos casos mais notórios, dessa vez dentro da área do heavy metal, é o de um dos baluartes do gênero: o Metallica. A sua trajetória é um marco nessa famigerada dialética da evolução artística, no mundo do rock pesado.

Oriundos da Bay Area, de San Francisco (EUA), eles foram precursores de um gênero mais rápido e agressivo que logo dominou os anos 80 e 90, o thrash metal, seguidos por nomes como Slayer, Testament, Anthrax e vários outros. Mas a trupe tinha uma forte e leal legião de fãs, que formavam um culto grandioso à banda formada por James Hetfield (vocais e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammet (guitarra) e Cliff Burton (baixo) - este logo alçado a condição de lenda, como um dos mais notáveis e poderosos representantes do instrumento no som pesado, e tido como um grande responsável criativo pela distinção da pegada de músicas como "The Four Horsemen", "Seek and Destroy", "Creeping Death", "Fade to Black" e outras, dos primeiros álbuns do grupo. Em 1986, vem a consagração total, com o disco Master of Puppets, reverenciado como um dos mais perfeitos do estilo - e que chega aos dias atuais ecoando em produções famosas em todo o mundo pop como a série Stranger Things (Netflix), em seu famoso episódio com o metaleiro Eddie tocando a faixa-título na guitarra, e pagando tributo à banda.

 
Cliff Burton

No final daquele mesmo ano, entretanto, mais precisamente em 26 de setembro de 1986, um trágico acidente com o ônibus de turnê deles causa a morte de Cliff Burton, e isso propulsiona as primeiras grandes mudanças no direcionamento do Metallica. Decididos a continuar a carreira, recrutam um novo baixista (Jason Newsted) e lançam o álbum duplo And Justice for All (1988), ainda com resquícios da sonoridade de Burton com o grupo e algumas ideias deixadas pelo mesmo. Mas é no disco seguinte, de 1991, que as coisas mudam pra valer: o auto-intitulado Metallica, mais conhecido como o "álbum preto", representa uma mudança radical do grupo rumo a pretensões artísticas mais sérias e comerciais, abandonando um pouco a agressividade e velocidade do som em prol de composições diferenciadas, que envolviam influências folk, country, e até mesmo de música sinfônica - com a condução do maestro Michael Kamen no arranjo da clássica "Nothing Else Matters", uma das mais marcantes do disco - e tal virada inevitavelmente passa a ser vista pelos fãs antigos e mais radicais como uma "traição" do grupo ao seu velho estilo, com inclinações a uma linha mais pop.

Isso, aliado ao fato de que o Metallica passa a compor um grupo de artistas que se posicionam contra a então nascente onda de compartilhamento de áudio e diversas mídias digitais pela internet, com o movimento contra o famoso software p2p Napster, entre o final dos anos 90 e anos 2000, e os associando a uma aura de "conservadores", faz com que antigos fãs se afastem e passem até mesmo a detratar a banda, os rotulando de "vendidos" da indústria da música. Os ponteiros do reloginho artístico do Metallica passariam a rodar tresloucados desde então: lançam um par de álbuns com novas mudanças sonoras controversas (Load e Reload, de 1996 e 1997, respectivamente), e em 2003 chegam a gravar o disco que é considerado com um dos piores e mais estranhos sons de bateria na história do rock pesado, o polêmico St. Anger. Opção estética de Lars Ulrich, segundo eles... 

A verdade é que a banda estava ruindo com uma crise interna, que quase levou ao seu fim, causada por alcoolismo, brigas e exageros, ocasionando a saída do baixista Jason Newsted, e retratada no documentário/terapia Some Kind of Monster (2004).

O Metallica em sua fase atual

Apenas a partir de 2006, com o baixista Robert Trujillo já integrado ao grupo, é que eles se recompõem e voltam a conquistar a simpatia de velhos fãs e a integridade com o petardo sonoro que é o disco Death Magnetic, uma formidável volta às raízes sônicas do grupo, mas que também os projeta para um cenário mais confortável, em que suas músicas mais modernas são mais bem aceitas. 

A ele, se seguiriam Hardwired... To Self Destruct (2016) e 72 Seasons (2023), bons discos também onde, recuperados de um período conturbado de vícios e conflitos, o Metallica finalmente faz as pazes com o seu passado, e se estabelece com maturidade como uma lenda musical já consagrada.





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