sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

OS 50 ANOS DE 'TAXI DRIVER'

 

'You talkin' to me? You talkin' to me?
Who da fuck you think you talkin' to?'


Absolute cinema.

Neste mês de fevereiro de 2026, ocorre o cinquentenário do filme que elevou a carreira do lendário cineasta Martin Scorsese, e que é reverenciado e considerado o seu primeiro grande clássico: Taxi Driver, com Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel e Cybill Sheperd.

A película foi resultado de uma conjunção certeira de fatores que contribuíram para o seu êxito, a relegando como um marco da sétima arte para a posteridade.

Martin Scorsese

Inicialmente, tudo partiu do fantástico roteiro de autoria de Paul Schrader, escrito em ritmo febril durante uma crise existencial do mesmo, típica de muitos norte-americanos da época, que estavam assistindo do trono de seus apartamentos, com a boca escancarada e cheia de dentes, um turbilhão de acontecimentos no caos social e político pelo qual os EUA estavam passando naquele período do meio dos anos setenta: Vietnam, rebelião na prisão de Attica, escândalo de Watergate, crise do petróleo, protestos e manifestações, dentre diversos outros agentes do caos que são muito bem demonstrados no documentário Breakdown 1975, de Morgan Neville (em cartaz atualmente na Netflix), que retrata fielmente o zeitgeist no meio do qual Taxi Driver foi urdido.

Schrader não estava exatamente morando dentro de um apartamento, conforme brincamos aqui, mas sim, dentro de seu carro, durante alguns meses em que ficou durango e sem casa, recém saído de um casamento. O seu estado de descrença e infortúnio, sem conversar com quase ninguém, enchendo a cara e frequentando livrarias baratas e cinemas pornô todas as noites ("os únicos lugares que ficavam 24 horas abertos para desiludidos como eu", diria ele), o levava a se sentir como um autêntico e solitário motorista de táxi. "Um cara que ficaria enlouquecido  rodando o tempo inteiro dentro de uma caixa de metal, um caixão ambulante, calado e na pilha com tudo".

Schrader lia os jornais e não acreditava no que via. A nação ianque estava ruindo de dentro pra fora, e ele meio que pirou, adotando um sentimento neurótico em relação a tudo, que ele praticamente transmitiu em camadas ao protagonista de sua estória, o obcecado veterano de guerra e motorista de taxi Travis Bickle - que seria magistralmente interpretado por De Niro.

O personagem é um cara insone, que lutou no Vietnam e agora ganha a vida carregando tudo quanto é tipo humano nas noites e madrugadas de New York em seu táxi, enquanto vai se afundando cada vez mais nas neuras do americano médio comum, um tipo simplório que não entende as coisas de seu país "dando tudo errado", que fica perplexo em um grau crescente, à medida que mais e mais mazelas ele vai enxergando nas ruas noturnas, entupidas de violência, drogas e prostituição. 

"Um dia desses vai cair uma chuva que vai lavar e levar embora toda essa m...", ecoam seus pensamentos, que permeiam toda a trama, em uma das mais famosas cenas do filme. E uma grande parte do charme de Taxi Driver se deve a isso, como muitos críticos já refletiram: Scorsese e Schrader nos levam para dentro da alma atormentada de Travis com suas narrativas em off, nos tornamos ele, vislumbramos os fantasmas de sua imaginação e nos identificamos com a sua angústia existencial, diante de tudo o que vê. Continua sendo, portanto, obra além de seu tempo, pois nos leva a contemplar como o caótico estado de coisas da sociedade em que vivemos (a atual, aliás) nos empurra para o desespero da opressão, do sufoco, para a inquietação e a simpatia pela reação da violência e das soluções imediatistas. Travis não acha que a cidade onde ele vive está sem solução - ele tem certeza disso. E tudo o leva a querer ele mesmo se tornar a solução, da forma mais radical possível.



Após tentar se "adequar" social e afetivamente, buscando a saída para sua neurose em uma paixonite pela moça que trabalha no comitê eleitoral de um candidato a presidência (papel da bela Cybill Shepperd), e até mesmo se aproximando depois desse político, Travis percebe que o seu caminho não é esse e, em mais uma das noites de trampo atravessando a esbórnia nova-iorquina, acaba conhecendo a jovem prostituta Iris (Jodie Foster, novinha). Essa sim, será o seu estopim para a queda em parafuso total. Indignado com a pouca idade e a vida que Iris leva, e tentando convencer a menina a largar as ruas e sair do domínio de seu cafetão (interpretado por um bizarro Harvey Keitel), Travis passa a desenvolver um plano brutal para resolver a situação, e... sim, de certa forma, lavar toda aquela sujeira que está nas ruas.

Um script fantástico de Schrader, com falas incisivas e mordazes, a direção inovadora e repleta de técnicas de filmagem arrojadas, de um jovem e promissor cineasta (Scorsese), e um elenco sensacional, em ponto de bala - ali estava mais um filme notável, dentre tantos que representaram aquela época da New Hollywood

Tendo custado apenas 1,9 milhões de dólares para sua realização - um orçamento baixíssimo, para os padrões de Hollywood - Taxi Driver se tornou um sucesso instantâneo assim que foi originalmente lançado, em 8 de fevereiro de 1976. No decorrer daquele ano, o filme atingiria a marca de 28 milhões de dólares, só nas bilheterias dos EUA. 

Além do grande sucesso de público, foi também fenômeno de crítica: a parte final em que Travis executa o seu plano é até hoje lembrada como uma das mais sanguinárias e acachapantes sequências de tiroteio e violência de todos os tempos, tendo inspirado irreversivelmente Quentin Tarantino e vários outros diretores de filmes policiais e de ação urbana, posteriormente. A câmera nervosa e a edição frenética de Scorsese e sua equipe (Melvin Shapiro, Tom Rolf e a esposa de George Lucas, Marcia Lucas) foram determinantes para que todas aquelas cenas incrivelmente filmadas entrassem para a história.

Outro detalhe imprescindível é a trilha sonora do genial Bernard Hermann, maestro e compositor da música de tantos outros clássicos do cinema, incluindo os inigualáveis Vertigo - Um Corpo que Cai (1958) e Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. Esse foi o último trabalho de Hermann, que morreu logo após o concluir (o filme é dedicado a ele), e o modo como o jazz pontua a loucura de Travis e seus devaneios pelas ruas decadentes da Nova Iorque é marcante.

Para os que ainda não assistiram até hoje essa obra-prima, fica o dever de casa: corram e vejam. E para os que já viram, nada mal comemorar o aniversário dessa pérola assistindo novamente - simplesmente 50 anos de absolute cinema.





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