Tive a grata oportunidade de assistir novamente, dias atrás, a um filme sensacional que se torna cinquentão neste ano (foi originalmente lançado em junho de 1976), e que está prestes a sair de cartaz na HBO Max. Então para quem ainda não viu, e ficar interessado, corra para assistir, pois já anunciaram que está por lá só mais alguns dias...
(E não tem jeito, tenho aqui que abrir parênteses mesmo e fazer uma pequena observação sobre algo que me incomoda faz tempo: como é desastrada ainda a curadoria do streaming brasileiro em relação aos de outros países! Filmes excelentes que entram e saem dos catálogos sem a gente nem perceber às vezes, para dar espaço a outros filmes e séries ridículos, enfadonhos e de má qualidade, que ficam muito aquém dos grandes clássicos e obras de arte! Quem arruma VPN e dá uma sapeada nos canais de streaming do exterior, fica espantado ao se deparar com uma maior variedade de títulos, e a grande quantidade de filmes raros e difíceis de encontrar, que poderiam muito bem estar nos mesmos canais de streaming, mas do Brasil. Um exemplo é a própria HBO Max, que tem todo um catálogo precioso da Warner Bros em mãos, disponibiliza grandes filmes do estúdio lá fora, e quando chega aqui, nada da gente ver esses títulos. E a desculpinha de sempre é o tal 'algoritmo' rastreando as preferências do público - mas será que a culpa é só dele mesmo? Fico também até pensando o que será de todo esse acervo quando finalmente for resolvida essa "batalha" ruidosa que está se arrastando, da compra da Warner pela Netflix. Misericórdia.)
Mas muito bem, voltando ao foco: o filme em questão de que falaremos é o icônico western Josey Wales - O Fora da Lei, dirigido e protagonizado pelo igualmente icônico Clint Eastwood.
Após o êxito de O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), primeiro faroeste dirigido por Eastwood, este é o segundo exemplar do gênero que cimentaria a sua carreira comandando o estilo, após generosas aulas de técnica e narrativa que teve com diretores de seus icônicos filmes anteriores - Sergio Leone e Don Siegel. E ele já demonstra aqui um perfeito domínio do estilo, que o levaria a se consagrar anos depois com a renomada (e oscarizada) obra-prima Os Imperdoáveis (The Unforgiven), de 1992.
A trama é conduzida de forma ágil e segura, com excelentes atuações de todo o elenco, e as sequências de ação são estilizadas e instigantes, com muito impacto e emoção. Além disso, também traz um enfoque mais humano e realista sobre as figuras do Velho Oeste, especialmente os índios, sendo considerado um típico exemplar da safra dos 'faroestes outonais': aquele gênero que, após o advento dos westerns feitos na Itália, passou a revisar situações e eventos que levariam ao fim da era de ouro dos grandes cowboys e foras-da-lei. (Leia mais sobre faroestes outonais aqui).
Eastwood interpreta o personagem que dá nome ao filme, um desafortunado ex-fazendeiro que, após ter a sua família brutalmente assassinada durante os conflitos que deram início à Guerra Civil Americana, se embrenha na mesma ao lado dos sulistas, e acaba se tornando um lendário e sanguinário ás do gatilho, com a cabeça colocada a prêmio e incansavelmente perseguido por soldados do exército ianque e caçadores de recompensa. Inicialmente fugindo com um colega de armas rumo ao Texas, logo Josey cruza o caminho de diversos tipos humanos, dentre indígenas oprimidos e colonos imigrantes indefesos, e aos poucos formará com eles um exótico "comboio", rumo a um novo destino em suas vidas.
Nessa sinuosa empreitada repleta de reviravoltas, nosso herói, antes amargurado e endurecido pela tragédia, vai aos poucos reconquistando a sua conexão com as pessoas, ao mesmo tempo em que encara seus inimigos entre tiros e cusparadas pretas (o bichão é mascador de fumo inveterado), em uma variedade de cenas infames e marcantes, hilárias até. Tudo isso graças ao engenhoso roteiro de Sonia Chernus e Philip Kaufman, que cria um arco dramático interessantíssimo para Josey e seus companheiros de viagem, no que pode ser considerado um curioso road movie adaptado dentro do estilo western, dadas as longas jornadas e situações transitórias vividas por personagens desiludidas e desgarradas de seus planos de vida, que se encontram ao acaso e se põem em busca de um novo lar, enfrentando toda sorte de violências nesse percurso.
Cabe aqui, aliás, falar sobre Kaufman, e sua polêmica participação na realização dessa obra - podemos dizer que, tão ou mais conturbada que a trama de Josey Wales, é a ruidosa história de tudo que se passou nos bastidores do filme que, originalmente, deveria ter sido dirigido não por Eastwood, mas pelo próprio Philip Kaufman!
No que já se tornou um dos mais cabulosos episódios da história do cinema, após ter começado a trabalhar como diretor do filme, com apenas três semanas de filmagem, Kaufman foi destituído do cargo pela estrela do filme, Clint Eastwood, que como um lépido e destemido cowboy, tomou as rédeas do projeto para si. O motivo: a então jovem atriz Sondra Locke (que faz o papel de Laura Lee) começou a ser insistentemente cortejada por Kaufman, que mal sabia, entretanto, que ela já estava no radar de Eastwood, e começando a ter um caso com ele... Ou seja, o cowboy pode não ter puxado a arma do coldre para afastar a ameaça, mas soube muito bem mexer os pauzinhos com o estúdio e produtores para retirar Kaufman da direção. A coisa não ficou impune: um ultrajado Kaufman delatou todo o ocorrido ao Sindicato dos Diretores de Hollywood, que criou logo em seguida a famigerada "Eastwood Rule" - dispositivo legal que impediria, a partir de então, qualquer ator, atriz, produtor ou membro da equipe de um filme de promover a demissão de um diretor, sob a pena do pagamento de uma pesada multa contratual.
A despeito de todo esse bafafá, Josey Wales é considerado um dos últimos grandes exemplares do faroeste americano na década de setenta, reposicionando com justiça a história dos índios nas origens da civilização dos EUA (daí o seu caráter revisionista), e confirmando a imagem de Clint Eastwood como uma lenda do "bangue bangue", anos após a sua ascensão no gênero através dos spaghetti western de Sergio Leone. E depois de ter enfim consolidado a sua carreira de ator no cinema americano, com os filmes policiais de Dirty Harry, ele agora passava a desenvolver também o seu ofício de diretor, com extremo talento e devoção. O homem estava se preparando para chegar ao auge.
Eis aí então um programa imperdível para quem deseja voltar a cavalgar, com gosto, nas planícies espetaculares da sétima arte.
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