sábado, 21 de fevereiro de 2026

ENTRE TIROS E CUSPARADAS

 

Tive a grata oportunidade de assistir novamente, dias atrás, a um filme sensacional que se torna cinquentão neste ano (foi originalmente lançado em junho de 1976), e que está prestes a sair de cartaz na HBO Max. Então para quem ainda não viu, e ficar interessado, corra para assistir, pois já anunciaram que está por lá só mais alguns dias...

(E não tem jeito, tenho aqui que abrir parênteses mesmo e fazer uma pequena observação sobre algo que me incomoda faz tempo: como é desastrada ainda a curadoria do streaming brasileiro em relação aos de outros países! Filmes excelentes que entram e saem dos catálogos sem a gente nem perceber às vezes, para dar espaço a outros filmes e séries ridículos, enfadonhos e de má qualidade, que ficam muito aquém dos grandes clássicos e obras de arte! Quem arruma VPN e dá uma sapeada nos canais de streaming do exterior, fica espantado ao se deparar com uma maior variedade de títulos, e a grande quantidade de filmes raros e difíceis de encontrar, que poderiam muito bem estar nos mesmos canais de streaming, mas do Brasil. Um exemplo é a própria HBO Max, que tem todo um catálogo precioso da Warner Bros em mãos, disponibiliza grandes filmes do estúdio lá fora, e quando chega aqui, nada da gente ver esses títulos. E a desculpinha de sempre é o tal 'algoritmo' rastreando as preferências do público - mas será que a culpa é só dele mesmo? Fico também até pensando o que será de todo esse acervo quando finalmente for resolvida essa "batalha" ruidosa que está se arrastando, da compra da Warner pela Netflix. Misericórdia.)

Mas muito bem, voltando ao foco: o filme em questão de que falaremos é o icônico western Josey Wales - O Fora da Lei, dirigido e protagonizado pelo igualmente icônico Clint Eastwood.

Após o êxito de O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), primeiro faroeste dirigido por Eastwood, este é o segundo exemplar do gênero que cimentaria a sua carreira comandando o estilo, após generosas aulas de técnica e narrativa que teve com diretores de seus icônicos filmes anteriores - Sergio Leone e Don Siegel. E ele já demonstra aqui um perfeito domínio do estilo, que o levaria a se consagrar anos depois com a renomada (e oscarizada) obra-prima Os Imperdoáveis (The Unforgiven), de 1992.

A trama é conduzida de forma ágil e segura, com excelentes atuações de todo o elenco, e as sequências de ação são estilizadas e instigantes, com muito impacto e emoção. Além disso, também traz um enfoque mais humano e realista sobre as figuras do Velho Oeste, especialmente os índios, sendo considerado um típico exemplar da safra dos 'faroestes outonais': aquele gênero que, após o advento dos westerns feitos na Itália, passou a revisar situações e eventos que levariam ao fim da era de ouro dos grandes cowboys e foras-da-lei. (Leia mais sobre faroestes outonais aqui).

Eastwood interpreta o personagem que dá nome ao filme, um desafortunado ex-fazendeiro que, após ter a sua família brutalmente assassinada durante os conflitos que deram início à Guerra Civil Americana, se embrenha na mesma ao lado dos sulistas, e acaba se tornando um lendário e sanguinário ás do gatilho, com a cabeça colocada a prêmio e incansavelmente perseguido por soldados do exército ianque e caçadores de recompensa. Inicialmente fugindo com um colega de armas rumo ao Texas, logo Josey cruza o caminho de diversos tipos humanos, dentre indígenas oprimidos e colonos imigrantes indefesos, e aos poucos formará com eles um exótico "comboio", rumo a um novo destino em suas vidas. 

Nessa sinuosa empreitada repleta de reviravoltas, nosso herói, antes amargurado e endurecido pela tragédia, vai aos poucos reconquistando a sua conexão com as pessoas, ao mesmo tempo em que encara seus inimigos entre tiros e cusparadas pretas (o bichão é mascador de fumo inveterado), em uma variedade de cenas infames e marcantes, hilárias até. Tudo isso graças ao engenhoso roteiro de Sonia Chernus e Philip Kaufman, que cria um arco dramático interessantíssimo para Josey e seus companheiros de viagem, no que pode ser considerado um curioso road movie adaptado dentro do estilo western, dadas as longas jornadas e situações transitórias vividas por personagens desiludidas e desgarradas de seus planos de vida, que se encontram ao acaso e se põem em busca de um novo lar, enfrentando toda sorte de violências nesse percurso.

Cabe aqui, aliás, falar sobre Kaufman, e sua polêmica participação na realização dessa obra - podemos dizer que, tão ou mais conturbada que a trama de Josey Wales, é a ruidosa história de tudo que se passou nos bastidores do filme que, originalmente, deveria ter sido dirigido não por Eastwood, mas pelo próprio Philip Kaufman! 

Eastwood e Sondra Locke já estavam tendo um romance em plenas filmagens

No que já se tornou um dos mais cabulosos episódios da história do cinema, após ter começado a trabalhar como diretor do filme, com apenas três semanas de filmagem, Kaufman foi destituído do cargo pela estrela do filme, Clint Eastwood, que como um lépido e destemido cowboy, tomou as rédeas do projeto para si. O motivo: a então jovem atriz Sondra Locke (que faz o papel de Laura Lee) começou a ser insistentemente cortejada por Kaufman, que mal sabia, entretanto, que ela já estava no radar de Eastwood, e começando a ter um caso com ele... Ou seja, o cowboy pode não ter puxado a arma do coldre para afastar a ameaça, mas soube muito bem mexer os pauzinhos com o estúdio e produtores para retirar Kaufman da direção. A coisa não ficou impune: um ultrajado Kaufman delatou todo o ocorrido ao Sindicato dos Diretores de Hollywood, que criou logo em seguida a famigerada "Eastwood Rule" - dispositivo legal que impediria, a partir de então, qualquer ator, atriz, produtor ou membro da equipe de um filme de promover a demissão de um diretor, sob a pena do pagamento de uma pesada multa contratual.

A despeito de todo esse bafafá, Josey Wales é considerado um dos últimos grandes exemplares do faroeste americano na década de setenta, reposicionando com justiça a história dos índios nas origens da civilização dos EUA (daí o seu caráter revisionista), e confirmando a imagem de Clint Eastwood como uma lenda do "bangue bangue", anos após a sua ascensão no gênero através dos spaghetti western de Sergio Leone. E depois de ter enfim consolidado a sua carreira de ator no cinema americano, com os filmes policiais de Dirty Harry, ele agora passava a desenvolver também o seu ofício de diretor, com extremo talento e devoção. O homem estava se preparando para chegar ao auge.

Eis aí então um programa imperdível para quem deseja voltar a cavalgar, com gosto, nas planícies espetaculares da sétima arte.




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