Com 85 anos completados no dia 24 de maio passado, Bob Dylan (nome de batismo: Robert Allen Zimmerman) continua sendo um dos mais celebrados e influentes cantores e compositores que simbolizam a música pop mundial, e está no panteão sagrado dos grandes que marcaram o gênero na década de sessenta do século XX.
Não surpreende que, para muitos, ele representa - logo após Elvis Presley - o artista culturalmente mais relevante da música norte-americana, que carrega toda uma tradição e iconografia relevantes para se entender o rock do Tio Sam, em suas origens de blues, country, música folclórica, e como tudo isso se mistura e conversa com a alma peregrina dos trovadores e instrumentistas autênticos, que percorrem desde os pastos e áreas rurais até os grandes centros urbanos com seus bares e arranha-céus, levando a mensagem e o som, perpetuando o legado de tempos distantes e primitivos até a época atual.
A despeito de sua ascensão fenomenal como astro folk, lá por volta de 1962-63, só na base da gaitinha e do violão, escorados numa forte e anasalada voz que fugia de todos os padrões, mas que soava estranhamente bela e inseparável de suas letras socialmente pungentes, podemos dizer que Dylan, de fato, só carimbou sua passagem para a eternidade da mitologia pop com um registro impecável, eloquente e original, e que inegavelmente se tornaria o verdadeiro ponto de virada daquele jovem bardo: o lendário álbum Highway 61 Revisited, de 1965, puxado pela também lendária composição "Like a Rolling Stone". Disco que traz, também, a transição definitiva de Dylan para composições mais vanguardistas e sofisticadas, com letras repletas de metáforas existenciais, arranjos ousados e inovadores, e a transmutação do rock como um gênero mais avançado de arte, elevado a uma condição de maturidade.
Os fatos que envolvem o parto dessa obra-prima são variados e fascinantes, e tal período é abordado no (bom) filme de sucesso em que Thimotée Chalamet interpreta Dylan, A Complete Unknown (2024, leia sobre aqui) - mas uma boa parte deles é alterada, ou simplesmente omitida, devido aos caprichos da liberdade artística que sempre permeiam os roteiros cinematográficos. Vamos, portanto, a um apanhado mais fidedigno de toda a atmosfera que circundou a criação do disco.
A última turnê de Dylan na época, ocorrida com shows entre o final de 1964 e início de 1965, havia deixado o artista, física e mentalmente, em frangalhos. A última perna desse evento, com extensas apresentações cobrindo cidades da Inglaterra, compõe o famoso documentário Don't Look Back, de D.A. Pennebaker, que seria lançado dois anos depois nos cinemas - ali, em várias sequências, percebe-se um Dylan ora tenso, ora apático, e acuado pelos revezes conturbados da fama. Havia começado a transição dele do estilo folk purista tradicional para a combinação que agregava os sons de uma banda de rock como acompanhamento: isso já transparecia nitidamente no LP lançado no começo do ano, Bringing it All Back Home, que abria com a enérgica e emblemática "Subterranean Homesick Blues".
O novo estilo musical que Dylan iniciava ali - e que se notabilizaria como folk rock - causava controvérsia e indignação em vários segmentos mais conservadores da mídia, que o acusavam se estar se "vendendo" e querendo pegar carona na onda do rock, de Beatles e Rolling Stones e todas as novas bandas do momento, traindo suas raízes musicais. Logo ele, o menestrel iluminado, o jovem "escolhido" para representar e levar adiante a bandeira e voz das causas sociais e suas canções simples com instrumentos rudimentares, como herdeiro direto dos folksters clássicos, gente como Woody Guthrie, Pete Seeger (seu amigo pessoal), e o Kingston Trio. Dylan troca o violão pela guitarra e toda a sua barulheira: heresia total!
Estafado, ele reclamava com seu empresário, Albert Grossman, e vários conhecidos ao seu redor, que se encontrava em um momento altamente desiludido e desanimado com sua própria carreira, apesar de todo o sucesso que detinha. Um jovem então na casa dos seus 24 anos, sentindo que simplesmente estava no fim, que não havia mais nada a dizer ou fazer artisticamente. Uma frase dele naqueles dias resume bem os sintomas de seu esgotamento: "Todos cantam as minhas músicas, mas eu não gosto mais de cantá-las. Outros cantam minhas músicas melhor do que eu". Havia em tal afirmação uma verdade: naquela altura, e com apenas poucos anos de idade e de êxito, Dylan já era um dos compositores mais populares e regravados nos EUA e Europa.
Ocorre enfim a reviravolta de que ele precisava: buscando paz e sossego, Dylan adquire uma casa na região rural de Woodstock, próxima de New York, para onde se muda secretamente, e nesse lugar caro à trajetória do artista (leia mais sobre aqui), eleito como seu grande refúgio, ele tem o que descreveria posteriormente como uma espécie de epifania ou jorro criativo, um "vômito" de versos e frases que ele vai febrilmente descendo na máquina de escrever, um autêntico desabafo existencial da série de coisas que ele vinha sentindo. O resultado final é um conjunto de vinte páginas de poesia abstrata e dinâmica - e que, condensadas e retrabalhadas, se tornam a letra de um hino.
Com o esboço original de "Like a Rolling Stone" em mãos, Dylan enfim reencontra a criatividade, se reanima, e está novamente pronto para encarar tudo, dali em diante. Vislumbrava possibilidades de inovação em sua arte, e o tesão por fazer música estava afinal revigorado: não à toa, é a composição que ele define como "algo que me deu o sentido pelo qual eu sou um artista", e sobre a qual ele inclusive mistifica o próprio processo de sua criação: "As palavras iam fluindo, era como se um espírito escrevesse aquilo através de mim". Ele partiria para as primeiras sessões de gravação do seu próximo disco em junho daquele ano, já com a certeza de que ela seria o carro-chefe do álbum, e seria a primeira canção a ser trabalhada.
Em 15 de junho de 1965, Highway 61 Revisited começa a ser concebido. Dois períodos de gravações ocorrem para gerar o álbum: o primeiro, entre os dias 15 e 16, que é dedicado somente a "Like a Rolling Stone", e o segundo mais adiante, entre 29 de julho e 4 de agosto, em que são produzidas as demais músicas do disco. Entre eles, um acontecimento histórico: o famigerado show no tradicional Festival de Newport de 1965, onde Dylan concretizou, diante de uma plateia efervescente e dividida (muitos aplaudindo, muitos vaiando e xingando), o casamento entre o folk e o rock em sua música, metendo um set elétrico com tudo e falando para os músicos de sua banda tocarem o mais alto possível. Eles já entram executando "Maggie's Farm" com todo o gás. Logo em seguida, emendam para "Like a Rolling Stone", estreando ali ao vivo. E dá-lhe vaias, gritos, berros homéricos o chamando de "gênio" ou "traidor". Que momento. A catarse de tudo foi tão intensa e impactante para Dylan (um artista desafiando e confrontando o seu próprio público, sendo um punk antes dos punks!), que ele saiu dali plenamente decidido a seguir aquela orientação sonora em suas próximas obras, e não voltar atrás.
Tudo isso confluiu para o som orgânico de banda e cheio de atitude de Highway 61, que o levou a se tornar o que é - o disco foi lançado em 30 de agosto de 1965, e se tornou um dos maiores sucessos de Dylan, alavancado pelo revolucionário single de "Like a Rolling Stone" nas paradas, com seus longos 6 minutos e 30, e consagrado como uma obra-prima na carreira do músico.
Seguem alguns fatos importantes para a gênese do disco:
- O título da obra, bem como a música que lhe dá o nome, são uma reflexão e homenagem de Dylan para a célebre 'rodovia 61', que tem ligação com vários pontos e cidades dos EUA onde nasceram artistas famosos do blues, country e rock and roll, como Muddy Waters, Charley Patton, Elvis Presley, e o próprio Dylan (em Minesotta). A highway 61 também cruza, em determinada altura, com a highway 49 - formando a encruzilhada que seria o lugar onde, mitologicamente, o lendário bluesman Robert Johnson teria feito o seu pacto com o diabo, para se tornar um mestre do blues.
- "Like a Rolling Stone" foi testada em diferentes ritmos antes de chegar ao seu vigoroso andamento final, incluindo uma versão em estilo de valsa, que poderia ser posteriormente encontrada em discos piratas e coletâneas com curiosidades e outtakes de Dylan. E para o próprio autor, o que definiria o seu som e se tornaria a marca registrada daquela icônica gravação foi um improviso de estúdio totalmente inesperado, gerado pela insatisfação do grande músico Al Kooper em ficar parado, vendo todos tocarem e sem fazer nada, no maior tédio. Convidado especial para as sessões por ser amigo do produtor Tom Wilson, ele discretamente se sentou em um órgão presente no recinto, e pediu para só deixarem ele ficar "brincando" ali, criando riffs e notas, acompanhando instintivamente Dylan e os músicos enquanto tocavam a música. Wilson acidentalmente captou o som do órgão, e gravou junto. Quando Dylan foi ouvir o resultado final na sala de mixagem, ele ficou fascinado por aquele som que Kooper tirara do instrumento, e falou para aumentarem e darem destaque imediatamente ao órgão. Hoje seria impossível imaginar "Like" sem a despretensiosa participação de Al Kooper.
- Outra contribuição marota de Kooper para o disco: ao longo de toda a faixa "Highway 61", pode ser ouvido um estridente apito, típico daqueles utilizados por policiais de rua. Travessura trazida por ele para o estúdio também, e que Dylan gostou tanto, que fez questão de usar pontuando partes da música.
- O excepcional guitarrista Mike Bloomfield (egresso da Paul Butterfly Blues Band), e que estava acompanhando Dylan na época, foi uma das mais valiosas contribuições para o som do álbum. Outros músicos de estúdio e amigos de Dylan ficavam surpresos com a facilidade e criatividade que Bloomfield tinha para imediatamente gerar riffs e camadas inteiras de acordes, para músicas como "Just Like Tom Thumb's Blues" e "From a Buick 6", muitas vezes acertando e gravando de primeira.
- Ao longo de todo o disco, Dylan também exercita suas habilidades no piano: "It Takes a Lot to Laugh, it Takes a Train to Cry" e a irônica "Ballad of a Thin Man", que estabelece a contracultura como a nova realidade daqueles alucinados anos 60, foram compostas com total direcionamento para o instrumento, demonstrando a versatilidade de Dylan.
- Duas canções acabariam se desgarrando das sessões de gravação realizadas entre 29/07 e 04/08, e seriam lançadas somente como singles (compacto), não chegando a fazer parte do álbum: a sensacional "Positively 4th Street", em setembro de 1965, e "Can You Please Crawl Out Your Window", mas essa em uma outra versão, regravada por Dylan com a nova banda que passaria a acompanhá-lo, The Hawks - que logo seria rebatizada, passando a ser conhecida como a lendária The Band.
- A épica e belamente imagética "Desolation Row", que termina o álbum com seus 11 minutos acústicos, quase como se Dylan quisesse render uma homenagem aos seus tempos folk que ele havia abandonado, se tornaria o outro grande destaque do disco, pois era um longo poema musicado por Dylan onde ele brincava com figuras históricas e fazia várias referências a elas, citando situações e passagens bíblicas - aparecem figuras tão díspares como Cinderela, Bette Davis, Robin Hood e o Corcunda de Notre Dame. Fora a marcante letra (que seria citada e reverenciada em várias antologias poéticas sobre músicas de rock e literatura), o que definia a sonoridade envolvente da faixa eram os acordes de violão tocado em estilo flamenco, cortesia de uma visita do guitarrista Charlie McCoy, notório músico de estúdio de diversas bandas country de Nashville, e que comparecera por acaso, para cobrar ingressos para um show que o produtor do álbum devia a ele.
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