18 de junho de 1942 - neste exato dia, ou seja, há 84 anos atrás, nasceu em Liverpool, Inglaterra, um dos caras que iria revolucionar a música pop, e a arte em geral, no século XX - e podemos dizer que isso junto com outros caras, e também separadamente. Porque não tem jeito: é inegável que apesar de todo o legado dos Beatles, do qual participou como baixista, vocalista, e compositor principal ao lado do lendário John Lennon (a mais icônica parceria de todos os tempos), Paul McCartney já fez de tudo, e tanto, com uma carreira tão absurdamente prolífica e celebrada (com sua outra banda Wings e solo), que a sua obra e o seu carisma, não só com os seus antigos companheiros, vai muito além e atravessa décadas e mais décadas na história da cultura popular.
Irônico lembrar que o próprio Paul já fez da idade avançada e suas agruras inspiração para uma de suas mais simbólicas músicas dentro dos Beatles: a bela e reflexiva "When I'm 64" (Quando eu tiver 64 anos), do icônico álbum Sgt. Pepper's de 1967, que remonta ao som vaudeville típico dos salões ingleses, e impunha aquela marca registrada de Paul no grupo, sempre imbuído de uma musicalidade eclética muito forte e sem barreiras, flertando com o sinfônico, ao mesmo tempo em que gostava de um bom rock e de transgredir sonoramente (veremos isso logo adiante). Portanto, hoje seria dia de fazer um trocadilho bem humorado para Paul, que poderia até ter cantado: "when I'm 84" (quando eu tiver 84 anos).
Nunca é demais lembrar que o homem ainda está por aí, e não para. Assim como aquela outra poderosa força da natureza, os Rolling Stones, se recusa a entregar os pontos e se aposentar (ambos desmentem a gente desde aquele nosso primeiro post que inaugurou o blog aqui, ainda em novembro de 2023, onde cogitávamos essa possibilidade), e reafirmam isso juntos - Paul fazendo mais uma participação especial com os Stones, em mais uma faixa do novo disco dos caras que está prestes a sair (Foreign Tongues) - e também no recentemente lançado e já bastante elogiado álbum The Boys of Dungeon Lane (quentinho do forno, agora em 29 de maio último).
Para comemorar mais este aniversário da lenda viva, alguns fatos a seguir que todos os fãs mais acirrados já conhecem - mas que talvez possam ser mais ocultos para uma grande parte de sua sempre crescente legião de admiradores.
1 - RIVALIDADE COM STU SUTCLIFFE
Nos primórdios dos Beatles, Paul não era o baixista - ele era guitarrista. E como muitos sabem, tal função cabia originalmente ao grande amigo e colega de John Lennon no Colégio de Arte de Liverpool, o mítico Stuart Sutcliffe, ou Stu, como era chamado. O cara era uma figura marcante, com aquela aura de "artista de vanguarda", e um visual bem chamativo para a época, sempre de jaqueta de couro e óculos escuros, além de ter estreado o clássico visual de cabelo franjinha dos Beatles (estética iniciada com o corte feito pela sua namorada, a artista alemã Astrid Kirchherr). Apesar de ser um instrumentista risível, e com pouquíssima técnica, a presença de Stu era substancialmente apreciada pelos primeiros fãs da banda em Liverpool e nas pequenas turnês que eles faziam, indo tocar nas casas de show de Hamburgo, na Alemanha, onde amadureceram enquanto banda. Stu tinha um momento no show que era uma número especial, onde ele entoava "Love Me Tender", de Elvis Presley, e fazia a mulherada ir à loucura.
Aliado a isso e a sua pouca habilidade no baixo, o seu estreito relacionamento com John passou a incomodar Paul, que demandava mais seriedade para as apresentações do grupo e que desenvolvessem melhor sua musicalidade, inclusive exigindo de John mais tempo de treinamento e dedicação a composições próprias. A coisa foi logo esquentando tanto para Paul, que em uma fatídica noite de 1960, logo após um dos shows do grupo, ele e Stu se desentenderam feio e acabaram saindo na mão - fato depois amenizado e acobertado pelo restante da banda. Mas a coisa já tinha azedado, e em 1961, Stu decide sair definitivamente dos Beatles para se dedicar à sua arte na pintura, pela qual sentia ter mais apreço, e se casar com Astrid. E para Paul sobrou o que então? Visto que ele exigia que o baixo fosse melhor tocado, e ninguém mais queria assumir essa responsabilidade, "bora lá, é comigo mesmo". Ainda passariam alguns meses até que ele conseguisse juntar uns trocados para comprar o famoso baixo Hofner 500, em formato viollino, que o eternizaria nos Beatles - até lá, ele foi se acostumando no instrumento e se virando no baixo modelo Hofner President mesmo, mais baratinho, que era anteriormente de Stu Sutcliffe.
2 - A DIETA 'CARNÍVORA' DE ANTIGAMENTE
Por convicções pessoais, Paul e sua eterna esposa Linda McCartney se tornaram vegetarianos em 1975, após observarem e se compadecerem pelos carneiros que eles criavam, logo após uma refeição, em sua famosa fazenda na Escócia. Mas antes disso, a dieta de Paul era extremamente simples, comum e carnívora, bem dentro dos padrões ingleses e dos moradores da simplória Liverpool - uma cidade costeira repleta de estivadores e gente que vivia "na dureza", e que precisava de muita caloria e carne para se manter na luta do dia a dia. Para se ter uma ideia, ele já relembrou, com certa nostalgia até, de algumas de suas antigas predileções culinárias, em entrevistas: big steaks e roast beef (bifão na chapa e rosbifes assados), chicken kiev (receita tradicional de frango assado com tanta manteiga e alho, que a carne até desmancha e escorre na hora de fatiar), chicken maryland (tradicional frango frito acompanhado de batatas e muito bacon), e os tradicionais cheeseburgers e eggs and chips (ovos com fritas), tão comuns no cardápio dos Beatles nos anos 60.
3 - UM TRANSGRESSOR ANTES DOS TRANSGRESSORES
A típica imagem dos Beatles, tida pela maioria dos fãs até hoje, é mais ou menos assim: John, guitarrista e vocalista, o líder natural de atitude forte e agressiva, com tendências para o rock mais primal, sonoridade mais crua e direta, vocais e jeito de tocar bem rudes e espontâneos, e afeito a experimentações sonoras; Paul, baixista e vocalista, o cara mais musical e melódico, voz doce, belas e líricas baladas, a principal ponte entre o produtor George Martin, a erudição e o som da banda; George Harrison, guitarrista e vocalista, o introspectivo, estudioso e solista, dedicado a descobrir influências indianas e novas texturas no som da banda, tentando introduzir mais composições próprias mas também sempre somando e agregando muito ao que Lennon/McCartney já produzem; e Ringo, o baterista boa praça, direto e eficiente, conciso mas denso em sua simplicidade, sempre oferecendo a batida certa na hora certa, e às vezes cantando e contribuindo com tudo mais o que pode, para manter todos unidos. Seria isso, certo? Pior que muitas vezes, não: essas imagens saem um pouco fora do parâmetro e se destoam em uma grande parte de fatos ocorridos na história do grupo - principalmente em relação ao que John Lennon e Paul McCartney representaram musicalmente em suas contribuições.
John, muitas vezes, podia ser extremamente lírico e melódico, de um modo mais convencional (ainda que dentro de seu próprio estilo), e desenvolveu canções absolutamente sentimentais e com tendências sinfônicas espetaculares: "In My Life" (1965), "Strawberry Fields Forever" e "A Day in the Life" (1967), e "Across the Universe" (1970) são obras atemporais de sua autoria exclusiva que comprovam isso. E Paul, muitas vezes, podia ser um músico extremamente rocker, com músicas diretas e agressivas, e dado a arriscar e ser radical, bem fora dos padrões. Na fase inicial dos Beatles, ele por vezes disparava algumas das músicas mais pauleira do repertório do grupo: a vibrante "I Saw Her Standing There", que abria o primeiro disco dos Beatles, em 1963, covers rascantes de Little Richard, como "Kansas City" e "Ooh My Soul" (em 1964), e o torpedo "I'm Down", lançada em single de 1965.
Mas duas composições se tornariam notórias no sentido de comprovar as inspirações mais 'vanguardistas' e transgressoras de Paul na música dos Beatles: primeiro, a famosa pedrada proto metal que é "Helter Skelter", lançada no famoso e polêmico White Album de 1968, uma faixa tão pesada e agressiva que influenciaria tudo que seria feito na área do hard rock a partir de então, e declaradamente construída por Paul daquele modo para, segundo ele, "competir com 'I Can See for Miles', do The Who, uma barulheira que me desafiou a mostrar que os Beatles também são capazes de por pra quebrar". E o segundo, e mais misterioso caso: a lendária "Carnival of Light", uma experiência sonora extrema, com mais de 15 minutos, criada por eles sob a coordenação de Paul, para um evento midiático de 1967 ocorrido em Londres (The Million Volt Light and Sound Rave). Os poucos afortunados que tiveram acesso a essa gravação se lembram de ser uma das coisas mais loucas e estranhas que eles já ouviram dos Beatles, e esse grupo seleto guarda a audição como algo único - apesar da contínua pressão de fãs do mundo todo ao longo dos anos, e dos esforços do próprio Paul com a EMI, no sentido de finalmente lançar a faixa em algum dos relançamentos do projeto Anthology, dos Beatles, ela continua inédita e guardada a sete chaves nos arquivos da gravadora, permanecendo como uma das mais intrigantes lost medias do maior grupo de todos os tempos.
4 - RESPONSÁVEL PELO BATISMO DE PUNK ROCKERS
Essa muita gente já sabe: o nome de um dos mais famosos e precursores grupos de punk rock do mundo, os adorados Ramones, nasceu da admiração que eles sempre tiveram pela música dos Beatles, e sem ter uma outra ideia original para batizar o nome da banda no seu começo, se lembraram de ter lido em uma reportagem que o Paul se registrava em hotéis nos EUA com o nome "Paul Ramon", para despistar fãs histéricas da banda. Resolveram então chamar o grupo de Ramones em homenagem a tal fato, e utilizar como uma espécie de sobrenome dos integrantes, como se fosse todos membros de uma família (Joey Ramone, Dee Dee Ramone etc.). Dessa forma, Paul pode também ser considerado um responsável indireto pelo sucesso do punk rock a partir de então!
5 - SEM MEDO DA BREGUICE
Em 1973, prestes a chegar ao pleno auge da sua segunda grande onda de sucesso com a sua banda pós-Beatles, os Wings (onde também estrelava Linda McCartney nos teclados), Paul se lançou em negociações com a ATV britânica para produzir um especial televisivo, que iria ao ar em 16 de abril daquele ano, na esteira do sucesso do álbum Red Rose Speedway. Intitulado James Paul McCartnmey, e hoje redescoberto e já difundido online, esse evento tem momentos muito bons - foi a primeira vez que Paul executou novamente algumas músicas dos Beatles (como "Can't Buy Me Love" e "Yesterday") depois de um certo tempo traumatizado com o fim do grupo (maiores detalhes disso no excelente documentário Man on the Run, lançado este ano pela Amazon, que cobre bem essa fase dele). Mas há um segmento que pode chocar muito fã roqueiro mais tradicional: é o número de dança e música coreografada ao estilo Broadway com a canção "Gotta Sing, Gotta Dance", onde ao lado de uma trupe de bailarinas, ele parece querer homenagear os antigos musicais de Hollywood - com resultados irregulares. Tido como um dos momentos mais "cafonas" da carreira de Paul, atualmente soa divertido, se visto como uma curiosidade. E serve para provar uma coisa: o homem nunca teve mesmo preconceitos. Falou que é música? Tá valendo.
6 - PAIXÃO PELAS 'PLANTINHAS'
O propalado gosto de Paul pela ecologia, pelo verde das florestas, os animais e a preservação ambiental, vai um pouco mais além. O intenso e notório caso de amor do músico com uma certa 'erva', muito popular por aí (especialmente na Jamaica), foi do uso recreativo e trivial, para dar aquela relaxada, até episódios mais graves e de sérias implicações legais, em questão de alguns anos. Ainda por volta da época dos Beatles, quem empolgou Paul e os outros rapazes em relação ao "tapinha" foi, segundo todos contam, o grande Bob Dylan. Isso por volta de 1965, quando se encontraram e fizeram amizade. Paul acabou se tornando um dos seus maiores entusiastas. Já no ano seguinte, em 1966, sairia o seminal álbum dos Beatles, Revolver, que continha uma canção de Paul tida por muitos como apenas mais uma declaração de amor, comum em suas composições, "Got to Get You Into My Life" (Tenho que te colocar na minha vida) - e que ele confessaria, alguns anos depois, que era uma declaração não para uma personagem feminina, mas sim, para a tal folhinha.
Mas a coisa chegou num nível tão retumbante, que em 1980, ao desembarcar no Japão para aquela que seria a sua última turnê com os Wings, Paul foi pego pelas rigorosas autoridades nipônicas com um pacote considerável da substância entre seus pertences na mala, ainda na vistoria do aeroporto. Com uma pena inicialmente prevista de prisão e sete anos de trabalhos forçados, ele acabou ficando nove dias detido, até que intrincadas negociações entre a gravadora, seus advogados (entre eles, o seu cunhado, irmão de Linda, John Eastman) e o governo japonês decidissem pela sua liberação. Paul ficou 10 anos proibido de pôr os pés no país, até que um perdão oficial ocorresse, o liberando para retornar com sua turnê mundial de 1990.
7 - INDO FUNDO NA SÉTIMA ARTE
Mais um passo tido por muitos como duvidoso na carreira de Paul foi a sua tentativa de emplacar sucessos cinematográficos. A primeira grande tentativa aconteceu quando o músico resolveu assumir (não oficialmente) a direção de uma produção dos próprios Beatles, ainda na época em que estavam juntos, e que dividiu muitas opiniões: o projeto Magical Mystery Tour, lançado no Natal de 1967, filme feito para a TV que se baseou em um pequeno conjunto de canções compostas e gravadas pelo grupo especialmente para a ocasião. O problema era que a linguagem do filme, hermética e com um humor às vezes tido como muito nonsense ou irônico, o distanciou do público acostumado a ver as travessuras dos Beatles nas tramas bem humoradas e acessíveis de seus filmes anteriores feitos para o cinema - Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day's Night, 1964) e Socorro! (Help!, 1965), ambos dirigidos por Richard Donner.
Paul ainda foi o responsável por alinhar, com o diretor Michael Lindsay-Hogg, muitas das ideias para aquele que seria o último filme da banda (e que retrata a sua reta final), o documentário Let It Be (1970) - recentemente expandido e relançado como o projeto Get Back, de Peter Jackson, pela Disney streaming. Mas a empolgação final mesmo veio com a tentativa de atuar como o próprio protagonista de uma trama muito louca, que mistura aventuras no estilo "sessão da tarde" com uma complicada história sobre investigação e roubo de tapes de estúdio com gravações de músicas para um disco, e entremeada por vários, diversos números musicais: o nome dessa empreitada, que acabou não alcançando o sucesso esperado, foi Mande Lembranças para Broad Street (Give My Regards to Broad Street), de 1984, e resultou no hit "No More Lonely Nights" e num álbum com a trilha sonora, que teve até um bom desempenho nas paradas (por também conter regravações de algumas músicas dos Beatles, com nova roupagem de Paul em carreira solo). O filme, no entanto, não decolou mesmo.
8 - MÚSICA: A COMPANHEIRA CONSTANTE
A atribulada vida amorosa de Paul contém, oficialmente, alguns capítulos marcantes: a namorada e musa durante boa parte da fase com os Beatles, a atriz ruivinha Jane Asher (entre 1963 e 1968, chegando a ficar noiva), a "eterna esposa" e parceira de banda, sempre venerada, lembrada por ele e todos os fãs, Linda (entre 1969 e 1998, quando faleceu de câncer), a polêmica Heather Mills (entre 2002 e 2008, terminando com um bombástico divórcio), e a atual Nancy Shevell (de 2011 até o momento). Mas se formos considerar uma companhia etérea, envolvente e constante na vida dele, e que não se constitui nem mesmo em uma entidade, ou ser, esta seria a sua inspiração permanente: a música, esta sim, sempre presente nas ações e pensamentos desse cara que é, simplesmente, alguém que respira, vive, e é a própria personificação da música, para tantos fãs e admiradores ao redor do mundo, e em várias gerações, tamanha a facilidade e a expressividade com que ele domina e executa tal arte.
Paul já disse que, diante de tantos musicistas e pessoas renomadas, de técnica e arte rebuscadas, que ele já viu e conheceu nesses seus 84 anos de vida, ele se sente até meio envergonhado em confessar que nunca aprendeu (nem ele ou nenhum dos Beatles) a ler ou escrever partituras, ou seja, estudar e fazer música do modo clássico, de conservatório. Diz que não consegue ver a música como "pontinhos num papel". Mas é óbvio que para ele, alguém que já fez tudo o que fez, e ainda faz, isso é irrelevante. Pegou um vôo para a Inglaterra depois da última turnê americana dos Beatles, e viu bandas vestindo roupas estranhas e usando nomes engraçados nos moldes psicodélicos, em uma revista: surgiu na hora a ideia para a estética e a composição das músicas do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). Tempos depois, pegou um outro vôo para passar uns dias de descanso na França: já desceu do avião pensando em todas as melodias e letra para "The Fool on the Hill" (1967), outro clássico. Anos depois, estava assistindo filmes de espionagem do James Bond: baixou na hora a inspiração para "Live and Let Die" (1973), que faria parte da trilha sonora do filme seguinte do agente 007. A música para ele é assim, é isso. Pura inspiração. Pura parte da vida.
Que venham mais anos de música e vida, Sir McCartney.
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