Neste momento, início de agosto de 2026, o mundo ainda vive o alarde em torno do novo épico dirigido por Christopher Nolan, que é mais uma adaptação (dentre outras já feitas para o cinema) da obra do grego Homero, a colossal A Odisseia. Dessa vez, quem interpreta o rei guerreiro Odisseu, em suas incríveis aventuras para voltar ao lar (a Ilha de Ítaca), após participar da famigerada Guerra de Troia, é Matt Damon, acompanhado de um elenco mega estelar: Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Charlize Theron, Robert Pattinson etc. E não deu outra: o filme já é campeão de bilheteria e postulante a Oscar no ano que vem.
Como sempre faço e acho prudente, não sou dado a resenhar ou tecer críticas e comentários a respeito de obras do cinema, música ou literatura, assim que são lançadas. Habitualmente considero o tempo um "senhor da razão", que ajuda a guiar as melhores percepções acerca do gênio e atmosfera realmente preponderantes em uma concepção artística, gerando o distanciamento necessário para avaliar ou julgar bem qualquer título que seja, sem os calores (e clamores) da emoção do lançamento. É atitude que já fez até que eu fosse cobrado, em outras ocasiões, sobre o porquê de não fazer postagens aqui no blog, dando meu parecer sobre certos lançamentos. Raramente o fiz - e quando o fiz, acho que não ficou tão bom, o que me compele a certo revisionismo.
Mas existem outros aspectos artísticos a serem considerados em seu filme, mais no sentido de conteúdo do que de forma. E que vão desde a questão do trabalho de interpretação dos atores, o processo de desenvolvimento da narrativa (Nolan continua bem fiel à não linearidade em seus filmes), até o estilo de adaptação que foi utilizado para traduzir para as telonas o grandioso poema épico que é A Odisseia, influente para toda uma enorme parte da cultura mundial contemporânea. E esse ponto - o da adaptação - é o que mais incomoda os críticos da obra, desde a sua primeira exibição nos cinemas. Não é a questão de aspectos filosóficos, que também tem sido criticados por estudiosos da obra de Homero - sobre isso, se trata de uma discussão mais profunda, que é delicada devido ao fato dos roteiros de cinema, convenhamos, raramente serem realizados por acadêmicos do ramo.
Mas sobre a questão da adaptação em si, vamos lá então, dedo na ferida, doa a quem doer: aqui penso que este é o ponto onde, de fato, uma boa parte dessas críticas está me parecendo deveras enfadonha. Aqui sim, deveriam se privar de certas opiniões, e se afastar da obra, aguardar um certo tempo, voltar a ver, e apenas então, tecerem suas considerações. Com maior distanciamento. Pois o 'zeitgeist' domina e às vezes entorpece as nossas percepções, deturpando certos valores e critérios. E algumas críticas, revisitadas tempos depois, podem soar contaminadas, ou mesmo medíocres.
Tenho lido de tudo sobre os pretensos "erros da Odisseia de Nolan": desde capacetes que não deveriam estar lá, e gente que mudou de etnia, até como os deuses do Olimpo não interagem diretamente na trama - "que absurdo!", dizem. Como se existisse alguma lei ou decreto em Hollywood de que toda adaptação de um livro para os cinemas devesse seguir um checklist de atendimento aos itens histórico-culturais do original. Ora... valei-me! Desde quando é assim? Penso que a palavra já expressa bem, não? Estamos diante de uma... ADAPTAÇÃO. É apenas isso. Nem mais, e nem menos.
Liberdade criativa. Licença poética... Já ouviram falar? Fazem parte do jogo.
As reações de parcela da mídia (e das, afff... "redes sociais"), de horror e descrédito ao trabalho de Nolan no filme, por meras questões de adaptação, soam para mim, em uma considerável parte das vezes, imbecis - e não consigo pensar em outro termo mais adequado para as mesmas. Acho que ficar indignado e detratar uma obra como essa, simplesmente por não ser fiel a um padrão desejado de que ela estivesse mais próxima do original, é a mesma coisa que estar caminhando por uma estrada, olhar para o céu, e começar a ficar perplexo ou estarrecido pelo fato das nuvens estarem se mexendo. Entendeu?
Adaptações de obra para o cinema são diferentes desde que a sétima arte nasceu, e não há nada de errado com isso. Quem faz muita questão de obra original, que me desculpe: mas vá se ater ao livro, não assista nada e pronto, vida que segue. Em algumas ocasiões - e não são muitas - tivemos produções cinematográficas que preferiram prezar ou estar mais próximas das obras que as originaram. Alguns exemplos clássicos: O Poderoso Chefão (1972), do Coppola, que é bem fiel ao texto do Mario Puzo, em muitos momentos, e quem leu o livro pode confirmar; 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), do Kubrick - e olha aí, mais uma odisseia - que o cineasta rodou praticamente junto com a história de Arthur C. Clarke, ombreando com ele e até complementando (melhorando) muito do texto original; e, mais recentemente, a saga de O Senhor dos Anéis (2001-2003), do Peter Jackson, que é bem reverente, em contexto e narrativa, à obra de J.R.R. Tolkien (ainda que destoe em algumas passagens). Mas são, como eu disse, alguns casos.
Só para complementar, de modo a justificar as questões sobre as quais falo, segue aqui uma listinha de 10 adaptações cinematográficas que passaram bem, mas beeem longe, do quesito "fidelidade à obra original". O engraçado é que dessas não se falou tanto, na época do lançamento, quanto da de Nolan, por que será? (Não tinha internet e nem crítico de rede social na época, né). E veja que não são apenas essas: os casos são tão numerosos, que daria para escrever um livro sobre isso, e não caberia, jamais, em uma mera postagem de blog como essa. Mas já serve para quebrar o galho.
Preferi usar nessa lista uma paleta de filmes mais notórios e populares, que inclusive tiveram a autorização legal de seus autores para a realização, também evitando os casos de adaptações muito extravagantes, e que se afastaram da obra original até no nome, como o célebre Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola - que é bem meramente baseado na obra de Joseph Conrad, Heart of Darkness (Coração das Trevas). Também preferi não considerar as várias versões de obras de terror clássicas, que já são tradicionalmente mutáveis por natureza, como Frankenstein (de Mary Shelley) e Drácula (de Bram Stoker) - invariavelmente incluindo aqui os Nosferatu da vida, que a cada versão e refilmagem (1922, 1979, 2023 e 2024), foram alterando mais aspectos ainda, de acordo com a visão criativa dos seus diretores.
Sente só:
- O MÁGICO DE OZ (The Wizard of Oz - 1939, de Victor Fleming):
A famosíssima e mais clássica adaptação de Hollywood dessa obra, almejando fazer um filme de fantasia musical a partir do livro de L. Frank Baum, mas que passou longe da narrativa original, onde a jovem Dorothy vai não para uma outra dimensão, um mundo de sonho provavelmente induzido após uma pancada na cabeça (como no filme), mas sim, para uma terra estranha e de verdade, onde ocorrem até mesmo situações tenebrosas envolvendo bruxas do mal e feitiçaria, com criaturas monstruosas e decapitadas - passagens dignas de um bom filme de terror. Hoje, todos sabem que os momentos de tensão do livro se refletiram não na história exibida nos cinemas em si, mas sim, no que ocorria por trás das câmeras: a estrelinha Judy Garland e os seus companheiros de elenco (que interpretavam o espantalho, o homem de lata e o leão covarde) passaram por abusos e apuros agoniantes causados pelo diretor e a equipe de produção durante as filmagens, que seriam dificilmente aceitos hoje em dia. Caso não conheça, as histórias sobre os bastidores pavorosos do filme estão por aí, em um sem-número de sites e vídeos online, basta conferir.
- ROMEU + JULIETA (1996, de Baz Luhrmann):
Aqui a liberdade artística pulou alto mesmo, se configurando numa extravaganza audiovisual típica do diretor Luhrmann (mais conhecido recentemente por sua cinebiografia Elvis, 2022), que chega a alterar o nome da obra original, para dar um tom mais "moderninho": ao invés de "Romeu e Julieta", do William Shakespeare, fica "Romeu plus Julieta" (Romeu mais Julieta), sacou? (só faltou rolar um título com "2.0" no final, kkk). O que ele faz aqui, colocando os jovenzinhos Leonardo DiCaprio e Claire Danes nos papeis dos protagonistas da clássica e trágica história de amor proibido, é um delírio pop e instigante, com clãs que são gangues rivais brigando pelo poder numa trama suburbana muito doida, falas cantadas entoando os versos do livro original, música techno rap, tirombaço de pistola e fuzil comendo, e uma montagem frenética, acelerada, sem dar trégua nenhuma para o espectador. Foi de fazer Shakespeare revirar no túmulo.
- FLASH GORDON (1980, de Mike Hodges):
Dessa vez, não uma adaptação de livro, mas dos clássicos quadrinhos do herói espacial criado por Alex Raymond para as tirinhas de jornais norte-americanos, lá nos idos de 1934. Ocorre que Flash já havia sido adaptado para os cinemas, e com muito sucesso, num cine seriado que dominou as matinês de 1936, interpretado pelo astro da época Buster Crabbe. Com o êxito estrondoso das empreitadas de filmes e seriados de TV com super-heróis passando a inflamar a garotada novamente, no final da década de 1970 e início de 1980 (especialmente os da DC, como a série da Mulher Maravilha, com Lynda Carter, e o Superman de Christopher Reeve, nos cinemas), o sempre antenado produtor Dino De Laurentiis resolveu apostar num velho sonho de reviver Flash Gordon para os cinemas. Mas eis que deu nisso aqui: a história do jovem e valente jogador de futebol americano Gregory 'Flash' Gordon, que se converte em um herói espacial que vai parar no planeta Mongo, e luta contra a tirania do seu Imperador Ming, ao mesmo tempo em que visa defender a amada Dale Arden, acabou se transformando em uma epopeia deliberadamente kitsch, digna do visual mais cafona e espalhafatoso que a época disco poderia urdir. Com um roteiro repleto de ideias que invariavelmente apresentavam veia cômica, foi um passaporte malfadado para o estrelato do ator iniciante Sam J. Jones, com uma juba loira de meter arrepio na época, e que a despeito de certa canastrice, não foi tão mal assim no papel - ainda que tenha quebrado o pau com Laurentiis e abandonado as filmagens antes do fim, forçando a produção a criar uma dublagem de voz para o personagem. Quem rouba a cena interpretando o vilão Ming é o lendário Max Von Sydow, e para ajudar no clima de algazarra geral, ainda tem a trilha sonora vigorosa do Queen, que ajudou a dar uma moral pro filme. Entre mortos e feridos nesse festival de exageros e breguice, dá para dizer que salvaram-se quase todos: hoje, Flash Gordon tem uma notável aura de filme cult (mais sobre filmes cult aqui).
- MOBY DICK (1956, de John Huston):
Mais um exemplo de como o mundo do cinema sempre subverteu obras literárias aos seus caprichos, alterando certas narrativas: em Moby Dick não há tantas mudanças em relação aos personagens e suas perspectivas, mas sim, em relação ao ritmo e o modo como a história se desenvolve, desviando totalmente o foco para o que era o interesse dos produtores na época: um filme de ação mais centrado na obsessão do Capitão Ahab (desempenhado pelo grande Gregory Peck), em perseguir e se vingar da gigantesca baleia Moby Dick, que lhe causara a perda de uma perna anos antes. A despeito do diretor John Huston ter desejado, na época, jogar um pouco mais de luz nas outras passagens do livro, que focam nos perfis psicológicos de diversos personagens (incluindo o marujo Ishmael e outros tripulantes do navio), bem como em uma série de capítulos que abordavam os anseios, perigos e agruras diversas da vida em alto-mar, a decisão do estúdio em espelhar mais o embate entre o homem e a fera foi preponderante. É uma bela produção, mas com um espírito efetivamente diferente do apresentado no livro.
- O ILUMINADO (The Shining - 1980, de Stanley Kubrick):
Uma das grandes polêmicas sobre adaptações para o cinema, desde sempre. Se tornou folclórica a birra do autor do livro original, Stephen King, em relação à enorme série de mudanças que Kubrick resolveu fazer em relação à história - agora em modo totalmente oposto ao tom reverencial adotado anos antes com a obra 2001, de Arthur C. Clarke. Só para se ter uma ideia: na conclusão do livro, o desfecho se dá no meio do fogo, e não na neve. Isso, por si só, já mostra como Kubrick mexeu na narrativa do jeito que bem entendeu. As nuanças dos problemas pessoais do personagem Jack (magistralmente interpretado por Jack Nicholson), especialmente em relação à bebida e atos violentos no passado, são minimizados em prol de um maior destaque na sua relação obsessiva (e sobrenatural) com o amaldiçoado Hotel Overlook. Em suma: são duas grandes e fenomenais obras. Mas é recomendável que o leitor/espectador as encare como o que de fato são: uma história contada de dois jeitos, bem diferentes.
- 007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE (Moonraker - 1979, de Lewis Gilbert):
Já é consenso, e todos os fãs de carteirinha do agente secreto com licença para matar sabem disso faz tempo: nunca considere o James Bond das tramas originais do autor Ian Fleming como o mesmo James Bond da série de filmes feita para o cinema. Não são. Personagem e histórias muito diferentes, na esmagadora maioria das vezes. Em alguns casos, os roteiros para o cinema de filmes do 007 embolaram narrativas e características de mais de um livro, só para criar o que o produtor da época - o lendário Albert R. Broccoli - consideraria um bom filme de ação para as telonas. Para ilustrar: do livro original de Fleming Live and Let Die, lançado em 1956, foram extraídas ideias e personagens para nada menos que 3 filmes diferentes de 007, ao longo do tempo: o próprio 007 - Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die, 1973), 007 - Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only, 1980), e ainda 007 - Com Licença para Matar (Licence to Kill, 1989). Uma maçaroca danada. Mas um dos filmes que pegam mais pesado é este Moonraker - produção que, vejam só, causou frisson na época com a vinda do agente britânico mais famoso de Vossa Majestade (então vivido por Roger Moore) ao Brasil! Com várias cenas rodadas aqui, o filme acompanha o agente 007 tentando desmantelar a organização criminosa do vilão Hugo Drax, que almeja intoxicar o mundo com uma espécie de orquídeas negras, utilizando para isso até mesmo naves espaciais - o que leva Bond a viver uma aventura espacial, pegando carona no tremendo sucesso de Star Wars na época! A atmosfera é de galhofa geral: até hoje é considerado um dos filmes mais absurdos da era Moore no personagem, com muito exagero, sequências inacreditáveis e humor espalhafatoso. Mas no livro não tem nada de 007 fora de órbita: a história se concentra em uma simples ameaça de Drax em detonar uma ogiva nuclear em Londres mesmo, e nosso herói tem que dar conta do recado apenas em terra firme.
- FORREST GUMP (1996, de Robert Zemeckis):
Talvez um dos mais gritantes exemplos de adaptação cinematográfica que não tem quase nada a ver com a história original do livro, situação pouco difundida na época do lançamento e até hoje pouco conhecida por muitos - o filme dirigido por Robert Zemeckis, que faturou 6 estatuetas do Oscar, incluindo a de melhor filme e também para Tom Hanks como o carismático protagonista (elevando sua carreira a um outro patamar) parece, em alguns momentos, ter aproveitado apenas os nomes do livro e de alguns personagens, pois é uma história desenvolvida de um jeito absurdamente diferente: Forrest Gump é um sujeito com déficit mental e apaixonado desde novo pela sua amiga de infância Jenny, mas com falas e reações que, de alguma maneira, o conectam a outras pessoas (o famoso "estar no lugar certo e na hora certa"), e que acaba vivendo aventuras que poucos viveriam, figurando em importantes momentos da história sócio-política e cultural dos EUA. Isso está também no enredo original do livro de Winston Groom, mas logo começam as diferenças: na obra, Forrest é um cara alto e gordo, bem menos pacato do que o sujeito vivido por Hanks, e que fala muito, até fanfarrão e inconveniente em certos momentos. Ele tem uma presença constante que é o seu amigo orangotango Sue, com quem divide várias de suas proezas: uma delas é ir para o espaço, como astronauta da NASA! Além disso, ele ainda atua como lutador profissional de wrestling (devido seu porte físico avantajado), vira dublê de filmes de Hollywood, mestre de jogos de xadrez, e ainda interage com uma tribo de canibais a certa altura. Nada disso está no filme. A impressão que se tem é a de que o roteiro adaptado de Eric Roth, a pedido de Zemeckis, desejou retirar toda a sorte de absurdos e situações cômicas exageradas e bizarras do livro original, para criar uma obra mais emotiva e sentimental para o cinema, exatamente do jeito que a Academia gosta para dar um Oscar. Se o objetivo era esse, funcionou.
- ALMOÇO NU (Naked Lunch - 1991, de David Cronenberg):
Pense rápido: como fazer uma adaptação para o cinema de um clássico da literatura beat, notório por ser totalmente alucinado, de narrativa aleatória, anfetaminada, e não adaptável? Simples: não adapte! Crie, e faça do jeito que bem entender. E foi assim que o genial cineasta David Cronenberg fez, muito sabiamente. O autor William S. Burroughs foi um dos mais icônicos representantes daquela geração de escritores revolucionários, que incluía Jack Kerouac e Allen Ginsberg, dentre outros - um pessoal que, na década de 1950, desenvolveu um estilo de prosa e poesia livre e instintivo, baseado em longas sequências de palavras e frases para impactar o leitor, criando fluxos contínuos que contestavam a sociedade, as convenções, e o modo de vida americano. Isso foi a famosa geração beat. Viciado de carteirinha e "papa" dessa galera, Burroughs mais reúne um conjunto de imagens e sensações em Naked Lunch (originalmente lançado em 1959) do que propriamente conta uma história. O seu texto é um apanhado de passagens oníricas que situa o leitor em certos lugares e situações (como no meio da selva ou no pesadelo caótico e urbano de um grupo de junkies), mas pelo menos utiliza a imagem de seu "eu" protagonista, Bill Lee, como narrador desses delírios (induzidos por tudo quanto é substância). O que Cronenberg inventou, então? Ele pega esse mesmo personagem (aqui interpretado pelo ator Peter Weller, o Robocop original), e o joga em uma trama que alude à própria biografia de Burroughs, onde Bill Lee é um aspirante a escritor doidão, que trabalha com inseticidas, descobre que sua esposa está utilizando os mesmos como entorpecente, e topa experimentar a parada com ela, entrando num mundo de alucinações onde até as suas máquinas de escrever se tornam besouros falantes... Acredite: é isso. O filme foi um fracasso comercial na carreira de Cronenberg, mas provou uma coisa: a sua incrível capacidade de transformar uma loucura em outra maior ainda.
- A LIGA EXTRAORDINÁRIA (The League of Extraordinary Gentlemen - 2003, de Stephen Norrington):
Outra adaptação de uma HQ, outra produção controversa - mas não pelos mesmos motivos que Flash Gordon, comentada anteriormente. Aqui, ocorreram duas situações bem traumáticas, decorrentes de uma descaracterização da história em torno de um grupo de anti-heróis da Inglaterra do século XIX que se juntam para uma missão: o filme se tornou tristemente conhecido por não só bater o último prego no caixão da carreira de Sean Connery, traumatizado pelo fiasco de atuar numa bomba dessas, como também por fazer o autor, o renomado Alan Moore - o "bruxo" dos quadrinhos - prometer nunca mais autorizar qualquer adaptação de suas graphic novels e histórias para o cinema, tamanha a aberração que o diretor Stephen Norrington e asseclas cometeram com o material original. Profundidade psicológica e estudo de personagens, tão comuns na obra de Moore? No filme, zero! Nada de desconstruir e analisar os mitos da Era Vitoriana, mas sim, embalar tudo num pack genérico de 'filme com turminha de super-heróis', repleto de diálogos infantis e situações rasas, transformando tudo num pastiche de ação constrangedor. O séquito de admiradores da obra de Moore chiou feio, contribuindo para a má fama que o filme angariou - e que acabou se tornando, de fato, a lamentável despedida de Sir Sean Connery da sétima arte, antes de seu falecimento, em 2020.
- TROPAS ESTELARES (Starship Troopers - 1997, de Paul Verhoeven):
E se tem um cara que pode ser considerado genial por, mesmo dentro do esquemão comercial do cinema norte-americano, conseguir se manter bem autoral, e defender a sua visão artística nos mais variados projetos, esse alguém é Paul Verhoeven. O já veterano diretor holandês, que meteu o pé na porta de Hollywood com sucessos inesquecíveis como Instinto Selvagem (1992), Vingador do Futuro (1990), e o primeiro Robocop (1987), foi também o responsável pela proeza de pegar um livrinho basicamente insípido de ficção científica, lançado em 1959 (o tal Starship Troopers, de Robert A. Heinlein), e transformá-lo em uma sátira ultra violenta e acachapante de jovens dominados pela lavagem cerebral militarista governamental, dedicados a acabar com suas vidas enfrentando insetos gigantes espaciais! Diversão desvairada e garantida, com ritmo frenético do início ao fim, é uma verdadeira crítica de Verhoeven ao sistema bélico e genocida norte-americano, e que também serve como parábola sobre o fascismo travestida de filme de ação. "Li o livro original e achei de uma chatice sem tamanho, acho que nem consegui ir até o final. Mas ali estava um conto fascista que eu achei super interessante para se trabalhar num filme", disse o diretor em uma entrevista. Um trabalho e tanto, com a rara façanha de converter material original medíocre em algo excepcional.
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