sábado, 20 de junho de 2026

PACINO BRILHA EM PARÁBOLA SOBRE O CAOS JUDICIAL

 

A sociedade dita organizada é um conflituoso e intenso mar de interesses. Todo o arcabouço legal e jurídico montado para tentar mediar, amparar, analisar e resolver tantas cabeças lutando pela sobrevivência, e por algo que faça sentido em suas existências, se tornou realidade tão insana e disforme, que não obstante abrimos os jornais para ler, ou nos deparamos com as notícias nas redes comprovando que não, nada está bem de fato, o Judiciário se embevece e digladia com outros poderes, as forças de segurança e autoridades instituídas se amontoam em trapalhadas dignas do mais espalhafatoso circo, e a vida cotidiana segue - dura, doida e incólume - cada vez mais nos mostrando o tanto de ficção na qual estamos inseridos, tentando fazer a vida em comunidade parecer algo de verossímil, algo em que acreditar.


Lembrou do Brasil, ou de outra sociedade qualquer atual? Pois bem, é esse o cenário com o qual o cinema norte-americano socialmente vigoroso e imbuído de críticas, entre as décadas de 1970 e 1980, gostava de trabalhar, levando para as telonas histórias que eram um tapa na cara de quem acreditava no "sonho americano", ou estava imerso nos contos de fadas governamentais de qualquer país daquela época, republiqueta de bananas ou não. Justiça e legalidade? Bah, conversa pra boi dormir. Toma aqui, deixa eu te mostrar o que de fato acontece com essa sociedade que finge ser honesta com seus cidadãos.

É desse contexto que emerge esplendidamente uma pequena obra-prima chamada Justiça Para Todos (And Justice For All, 1979), filme de Norman Jewison, com o gigante Al Pacino no papel principal. E que filme, senhoras e senhores.

Pacino brilha nessa parábola sobre o caos judicial, no papel de Arthur Kirkland, advogado extremamente humanista e que ainda insiste em confiar no sistema judiciário dos EUA. Ele se exaspera, entra em conflito com um juizão autoritário que insiste em manter preso um cliente injustamente autuado em uma infração de trânsito, e chega às raias da inconsequência em suas defesas. Visita periodicamente num asilo o avô com Alzheimer que o criou e cuidou para que se formasse, tem um caso com uma advogada do comitê de corregedoria do tribunal em que atua, e mantém uma amizade - tensa, mas recomendável - com outro juiz da corte, o fanfarrão e psicótico Francis Rayford (Jack Warden, em atuação hilária e impagável). 

No turbilhão que é sua vida, entre correrias com colegas no tribunal para defender seus casos, e as penosas consequências com as quais tem que lidar quando vê que o "devido processo legal" está (constantemente) sendo desvirtuado, tudo muda para Arthur quando o juiz com o qual brigou para livrar o seu cliente preso se vê envolvido em um rumoroso caso de estupro, e escolhe justamente Arthur para defendê-lo: pois, ironia das ironias, o simples fato de ser representado por um advogado certinho e que o detesta cria um bom álibi para que ele seja considerado inocente das acusações. 

A trama se desenvolve de maneira ágil e com diversas reviravoltas criativas, que prendem a atenção e tornam o filme uma experiência muito atrativa, fácil de ser acompanhado e entendido - felizmente, não se afoga nas situações complexas ou termos mais técnicos e enfadonhos tão comuns em outras produções centradas nos tribunais. O excelente roteiro de Barry Levinson e Valerie Curtin consegue essa proeza.

O que chama mesmo a atenção e eleva o nível de Justiça para Todos enquanto arte cinematográfica para refletir é a capacidade do enredo em demonstrar de forma magnífica como todo o sistema judicial se estrutura em torno de pessoas e seus interesses, e não baseado no que seria um real senso de justiça, ou retidão moral e ética. Tudo contribui para que a fria letra da lei continue sendo apenas a fria letra da lei, usada e abusada em determinados momentos como simples estratagema de operadores do Direito cada vez mais soberbos, ególatras e desvairados - as sequências absurdas que mostram o desenrolar dos fatos dúbios envolvendo o juiz acusado e suas manobras, bem como o total processo de enlouquecimento de um dos colegas advogados de Arthur (que literalmente surta após uma sessão no tribunal) dão provas cabais de que algo está muito, mas muito errado na vida dessa gente que trabalha no que chamamos de "mundo jurídico".

Há também espaço para cenas de um humor negro quase involuntário, e arrasador, que golpeia o espectador ao colocá-lo no nível do olhar de perplexidade do protagonista - a sequência do passeio no helicóptero é uma das coisas mais engraçadas e agoniantes que eu já havia visto em muito tempo, e transmite perfeitamente aquela sensação tão peculiar de momentos aflitos em que se pensa: "para o mundo que eu quero descer".

Passados todos esses anos de sua realização, o filme tem o primor de ter envelhecido muito bem, mantendo a atualidade de sua louvável proposta de ponderar acerca dos limites entre a lei e a moral, sobre o que é realmente certo e errado, independente de fóruns e julgamentos, e de como toda uma finalidade do sistema de fazer valerem a verdade e a justiça se perdeu. 

De lambuja, ainda mostra um Al Pacino mais jovem e no auge do vigor, em legítima plenitude de sua performance e capacidade dramática. Eu recomendo, e muito - especialmente para quem é da área do Direito. Programa imperdível.





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