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sábado, 22 de agosto de 2026

OS DEMÔNIOS... E O DEMONÍACO OLIVER REED!

 

Um dos mais lendários beberrões da história da sétima arte desde sempre, o ator britânico Oliver Reed (1938 - 1999) vai finalmente voltar a ganhar notoriedade com o relançamento nos cinemas do eternamente polêmico filme de seu grande amigo Ken Russell, que ele protagonizou em 1971, Os Demônios (The Devils), inspirado na obra The Devils of Loudun, de Aldous Huxley, que por sua vez, narrava o controverso caso real de um surto coletivo ocorrido em um convento de freiras na França, em 1634, que teria sido atribuído a uma série de possessões demoníacas, mas estava diretamente ligado à influência de um padre que visitava o local na época, Urbain Grandier - o papel desempenhado por Reed no filme. O relançamento do filme está previsto para o dia 16 de outubro deste ano.

Obra extremamente polêmica e célebre, por ter sido censurada e banida em diversos países em seu lançamento, e repleto de cenas de grande violência e nudez, Os Demônios volta em uma versão caprichada, restaurada em 4K e com todas as suas cenas infames originalmente cortadas recolocadas no filme, como uma homenagem ao diretor Russell, falecido em 2011, e sempre lembrado por seus filmes repletos de grandes delírios visuais e excessos. Com Os Demônios não é diferente, pelo que pode ser conferido no trailer de relançamento do filme, logo abaixo - essa nova versão foi exibida e aclamada, com grande frisson, no Festival de Cannes desse ano, e joga luz sobre a carreira já um tanto esquecida de Oliver Reed.

Reed foi um dos grandes atores de seu tempo. Filho de um jornalista esportivo e neto de um dos melhores atores do teatro shakespeariano do Reino Unido (Herbert Beerbohm Tree), ele cresceu em um ambiente cultural rico, e quando jovem, foi considerado um grande galã do cinema britânico dos anos 60, estrelando sucessos como Capitão Clegg (1962), A Armadilha (1966) e o clássico Oliver! (1968), dirigido por seu tio, o também famoso diretor de cinema Carol Reed.

O grande problema de Reed, e que causaria uma derrocada séria e sucessivas crises em sua carreira, a partir dos anos 70, era a sua descomunal propensão ao álcool, que o levou a períodos de intenso ganho de peso, inúmeros desvarios durante as produções de que participava, e descontrole com mulheres e jogos de toda natureza, que invariavelmente o levavam à bancarrota diversas vezes. A partir de certa época, "fanfarrão" e "Oliver Reed" passaram a ser vistos como sinônimos.

"Ele era insano, mas espirituoso. Um dos melhores colegas de copo que já tive. Extremamente mal humorado quando sóbrio, mas o melhor cara do mundo depois de umas oito canecas de cerveja.", dizia Richard Harris, outro notório bebum e lenda do cinema inglês.


Outro lunático de carteirinha, mas do mundo musical, e da mesma forma mundialmente famoso pelos excessos, o falecido "príncipe das trevas" Ozzy Osbourne, também era amigo de Reed, e comentava a respeito dele: "É de dar medo, parece um gigante bêbado do tamanho de um urso frequentador de academia". Se Ozzy, sendo Ozzy, tinha receios dessa natureza, é de se imaginar a loucura que era estar por perto de Reed quando ele encharcava.

Em 1973, Reed estrela a famosa adaptação de Richard Lester da clássica história de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, no papel de um deles, o espadachim Athos. Quase arruinou sua participação na produção, quando sumia por longos períodos em que estava pulando de um bar para outro. O cara, entretanto, era magnético: sua atuação foi bastante elogiada como uma das melhores coisas do filme (que acabou se revelando um pastiche de ação e comédia pastelão bastante irregular), e acabou tendo que voltar para a sequência, A Vingança de Milady, que sairia no ano seguinte.

Uma de suas próximas empreitadas o colocaria em contato com uma das outras grandes (e mais perigosas) figuras do rock, o completamente despirocado baterista do The Who, o mitológico Keith Moon. Moon, no entanto, é que passaria apuros devido a Reed... Em 1975, a banda havia contratado o diretor Ken Russell para realizar o filme adaptado de sua famosa ópera rock Tommy, e ele fez questão de chamar Oliver Reed para o elenco, em um dos papéis principais, de padrasto do garoto Tommy. Curioso para tomar umas com o cara e testar seus limites, Moon, que todos sabem, não era certo da cabeça, decidiu pegar um helicóptero com um de seus assessores e ir até a propriedade rural inglesa onde o ator morava na época, para conhecê-lo e encarar uns goles.

Reed estava se recuperando de uma de suas últimas ressacas em sua enorme banheira da mansão, quando ouvir o barulho espetacular e cada vez mais crescente do helicóptero se aproximando de sua casa, sem nenhum prévio aviso. Tal qual estivesse em uma de suas películas de aventura, Reed saltou da banheira, rapidamente pegou o rifle que mantinha em seu quarto, e correu até o terraço da mansão, praticamente seminu. 

Como Athos, em Os Três Mosqueteiros (1973)

A cena dantesca que se seguiu confirmou a todos que loucura, ali, era mato: o ator prontamente passou a mirar e atirar no helicóptero de Moon e seus asseclas que, apavorados e incrédulos com a situação de um cara pelado no topo de uma casa, disparando uma espingarda contra eles sem parar, passaram a manobrar a aeronave das formas mais mirabolantes para escapar dos projéteis e conseguir pouso seguro. Peter Butler, amigo de Moon que estava nesse rolê maluco, lembraria anos depois: “Tudo o que eu consigo lembrar é estar voando de helicóptero e ver Oliver Reed no telhado de sua casa com uma espingarda calibre 12 mirando na gente, enquanto eu escutava os tiros: 'Blam! Blam!' Estávamos todos com medo, Keith estava com medo e eu também".

Com o baterista Keith Moon, do The Who, em 1975: só bebedeira e palhaçada

Butler continua: “O piloto do helicóptero se cagou todo! Tivemos que dar a volta e pousar num terreno qualquer ali por perto, pois estávamos numa zona rural. Saímos do helicóptero e fomos até a casa de Oliver Reed com uma certa apreensão. Especialmente comigo, porque eu iria apresenta-los um ao outro e fiquei pensando: 'Eu vou apresentar Keith Moon a Oliver Reed e com a fama de travessuras que Moon possui, esses dois pirados podem acabar se explodindo juntos'".

O mais insano de tudo é que Reed, ao ver aquele pessoal se aproximando e reconhecer de quem se tratava, nem perguntou nada sobre o helicóptero, ou porque haviam resolvido sobrevoar e pousar por ali sem avisar antes - ele simplesmente abriu um belo sorriso, estendeu sua mão a eles, e disse: "Olá, pessoal! Bem-vindos à minha casa, vamos entrar!". O que se seguiu a essa introdução medonha de Keith Moon ao mundo de Oliver Reed foram 3 dias de bebedeira e farra direto ali mesmo, na casa dele, até que não sobrasse mais nenhum ml de whisky ou breja em qualquer copo ou taça do lugar.

Com a atriz Diana Rigg, com quem namorou, em 1968

A passagem de Reed para o outro lado foi sintomática de todos os exageros que marcaram a vida do ator: muitos com certeza se lembram dele em seu último papel, no clássico filme Gladiador (2000), de Ridley Scott, como o icônico e veterano treinador de gladiadores Próximo, que acaba ajudando o personagem de Russel Crowe, Maximus, a conseguir sua vingança. Pois bem, foi justamente durante as filmagens de Gladiador, ocorridas em Valetta, Malta, que Reed morreu: com seu tipo bonachão, ele foi fazendo amizade com toda a equipe dos bastidores da produção, e sempre chamava o pessoal para se divertir num pub próximo, após as cenas do dia.

Mais velho, em seu derradeiro papel, no filme Gladiador (2000)

Com a firme expectativa de que aquele seria o papel que iria levantar novamente a sua carreira, Reed resolveu comemorar pra valer em uma dessas incursões, e acabou passando um pouco da conta: ele amanheceu no local, e após muita festa e barulho, algumas apostas e quedas de braço com os locais, e ainda o que contabilizaram como algo próximo a 20 rodadas de uma das mais poderosas cervejas alemãs servidas no lugar, o ator não resistiu e caiu. Ali mesmo ficou, e não se levantou mais.

Oliver Reed, 61 anos, falecia de parada cardíaca.









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