segunda-feira, 15 de julho de 2024

LOUCOS PROJETOS DE FILMES... NUNCA FILMADOS

 

Na história da sétima arte, existem algumas empreitadas que foram muito buriladas, planejadas e comentadas - mas que, por um ou outro motivo, não vingaram. Em alguns casos, fãs e cinéfilos dos mais variados lamentam a não realização dessas obras, algumas com grande potencial para serem fantásticas ou revolucionárias. Em outros casos, talvez tenha sido melhor mesmo que não fossem para frente... seja pelos egos e complexidade das personas envolvidas, seja pelo absurdo que os projetos aparentemente beiravam em seus conceitos originais. Vejamos aqui alguns casos famosos:


- DRÁCULA, de Ken Russel

Essa adaptação do famigerado cineasta britânico, responsável por obras extravagantes e "fora da casinha", como o musical Tommy (1975, inspirado no álbum do The Who), e Viagens Alucinantes (1980), estava prevista apara acontecer em 1977, e teria o excêntrico Peter O'Toole (de Lawrence da Arábia) no papel do vampirão, e Sarah Miles como sua eterna paixão Mina, mas numa abordagem mais moderninha, transposta para o início do século XX, em que ela seria uma cantora de ópera acometida da leucemia e que, diante do seu encontro com o senhor das trevas, acharia até bacana a ideia de entrar no mundo dos hematófagos, para se tornar uma imortal e assim salvar sua pele... Dados os delírios visuais que Russel gostava de imprimir em suas películas, mais esse enredo bem subvertido da história original, a coisa ia ficar muito doida mesmo. O projeto foi abandonado depois que o estúdio da Columbia Pictures ficou sabendo que uma produção com o mesmo personagem já estava sendo conduzida pela Universal Pictures, com o prestigiado Frank Langella no papel principal, e seguindo os moldes clássicos da obra. Com receio de tentar competir com o outro filme, e perder para o outro "padrão" mais conservador, a Columbia desistiu da ideia de Ken Russel, e o projeto foi abortado, mesmo com o roteiro já pronto e uma boa parte do elenco contratada.

O 'Drácula' de Ken Russel seria descartado mediante a versão lançada em 1978, com Frank Langella 


- SUPERMAN, de Tim Burton, com Nicholas Cage

Essa já entrou para o terreno das lendas urbanas e virtuais, e todo mundo imagina a loucura que ia ser: Cage (que sempre proclamou ser vidrado no Homem de Aço) vestindo capa e cuequinha vermelha, sob a batuta de ninguém menos que Tim Burton. Testes de figurino e elenco foram realizados, fotos disso tudo já foram espalhadas por anos na internet, bem como rascunhos do roteiro original. Só que não vingou, era 1997 e a Warner Bros ficou com medo de embarcar em uma nova releitura do herói, depois do fiasco da última aventura lançada nos cinemas, ainda com Christopher Reeve (Superman IV, 1987). Estavam também numa fase de apostar mais no Batman, após o sucesso da série cinematográfica do morcegão que o próprio Burton havia iniciado em 1989. O mais amargo de tudo isso é que Cage lamentou o fracasso da inciativa, ficou na vontade, e ainda teria o desgosto de ver uma versão malfeita sua, dessa tentativa de filme, produzida em CGI tosco, em uma das mais constrangedoras cenas do malfadado filme do Flash, lançado recentemente, em 2023.




O Superman de Nicholas Cage em dois momentos: acima, nos testes de tela e figurinos originalmente feitos em 1997. A seguir, a deprimente e tosca reprodução em CGI, para o filme The Flash (2023)


- O SENHOR DOS ANÉIS, by The Beatles

Cartaz produzido por fãs de como seria o "Senhor dos Anéis" dos Beatles: 
George seria Gandalf, Paul e Ringo encarnariam Frodo e Sam, e Lennon ficaria como o Gollum! Direção a cargo do mestre Stanley Kubrick

Essa pertenceu ao terreno da lenda durante muito tempo, mas já foi confirmada em algumas biografias do grupo, e mais recentemente, pelo próprio diretor dos filmes épicos da obra, que bateram recordes de bilheteria e ganharam Oscars entre 2001 e 2003 - o renomado Peter Jackson. Foi durante os trabalhos de restauração dele das filmagens da banda em 2022, para o projeto documental Get Back e do filme original Let it Be, de 1970. Devido aos rumores, o próprio diz que sempre teve muita curiosidade de saber o que havia realmente ocorrido na época, e aproveitou a oportunidade para questionar diretamente Paul McCartney. Jackson conta: "Apesar de não se lembrar bem de alguns detalhes, Paul disse que eles realmente tinham a intenção de filmar uma versão musical de Lord of the Rings, após receberem cópias dos livros, para lerem durante o retiro espiritual que fizeram na Índia em 1968, com o Maharishi". O grande problema é que o grupo não obteve a autorização do autor da obra, J.R.R. Tolkien, que torceu a cara para a ideia de ver um grupo pop adaptando a sua obra-prima - ele detestava rock e toda a cultura jovem da época. O que muitos não sabem é que os Beatles, naquele período, ainda estavam presos a um contrato com a United Artists para a produção de mais um último filme, após os sucessos avassaladores de Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day's Night, 1964) e Socorro (Help!, 1965), mas o grupo se sentia pressionado a isso justamente em meio à grande crise que enfrentavam, com a morte do empresário Brian Epstein, a perda dos rumos da banda em novos projetos, e as pesadas críticas em cima de um outro filme, feito por eles em  formato mais "experimental" como um especial para a TV inglesa em 1967, o Magical Mistery Tour. A banda se encontrava em um momento tão atribulado de sua carreira (e que logo acabaria conduzindo ao seu término, dentro de dois anos), que eles simplesmente respiraram aliviados quando concluíram pela ideia de simplesmente produzir um desenho animado com as figuras e as músicas deles, como forma de quitar o contrato (Yellow Submarine, de 1968), e então a ideia de "O Senhor dos Anéis" foi totalmente deixada de lado. Detalhe: para o projeto original do filme, os rapazes de Liverpool simplesmente pensavam em contratar ninguém menos que Stanley Kubrick para a direção.

O psicodélico desenho animado dos Beatles, Yellow Submarine (1968), feito só para quitar contrato


- LARANJA MECÂNICA, by The Rolling Stones

Os Rolling Stones

Mais uma vez o nome de Kubrick estaria envolvido em um projeto cinematográfico mirabolante de banda de rock, mas agora as coisas terminariam um pouco diferentes - ele conseguiria fazer o filme, mas sem nenhum roqueiro. As ideias iniciais para envolver os Rolling Stones em uma versão para as telas do famoso  e polêmico romance Clockwork Orange, de Anthony Burgess, datam ainda de 1965, quando o empresário deles na época, Andrew Loog Oldham, leu e ficou obcecado pelo livro, paixão essa que logo ele passaria também para os integrantes do grupo, tentando coagi-los de que já era momento de expandirem suas carreiras para o cinema, seguindo justamente o exemplo do que os Beatles vinham fazendo (lembra-se da famigerada história de competição entre as duas bandas?). Na verdade, nenhum dos rapazes do grupo ficou muito interessado na proposta, a não ser o vocalista Mick Jagger - que desde essa época, já tinha ambições maiores e pretensões de adentrar a sétima arte. A primeira tentativa não deu certo, pois não conseguiram os direitos da obra, que Burgess já havia vendido. Dois anos depois, em 1967, ocorre uma nova tentativa - mas foi o ano em que a banda, incluindo Jagger e os guitarristas Keith Richards e Brian Jones estavam tão enrolados em problemas com a justiça britânica (por conta das batidas policiais e prisões por porte de drogas que sofreram), e atuar justamente como a gangue de marginais presente na história do livro pegaria tão mal perante a opinião pública, que o assunto foi simplesmente deixado de lado. Em 1970, quando o projeto enfim foi cair no colo de Stanley Kubrick, nenhum dos Stones sequer cogitava mais incursões como estrelas de cinema, a não ser um ainda obcecado Jagger, que já tinha filmado Performance (de Nicholas Roeg, 1969), e estava às voltas com um faroeste obscuro, Ned Kelly, que ele protagonizaria naquele ano. O grande problema é que, apesar de surgir até mesmo uma carta escrita de próprio punho por Jagger, se oferecendo para atuar no filme, Kubrick não tinha muito interesse nele como ator, e não confiava em suas poucas habilidades dramáticas para o papel principal do delinquente Alex DeLarge. Assim sendo, o papel ficou com o excelente Malcolm McDowell, e o filme foi lançado em 1971 conforme idealizado por Kubrick, sem nenhum rolling stone nele - mas se tornando uma de suas maiores obras-primas, e causando tanto alvoroço na mídia quanto os shows dos Stones, na época.

Mick Jagger, e ao lado, Alex DeLarge (desempenhado por Malcolm McDowell), o papel que ele tanto queria - imagine um no lugar do outro. Possível?


- NAPOLEÃO, de Stanley Kubrick

Na internet, fãs e admiradores tentam imaginar como seria o Napoleão de Kubrick, vivido por Jack Nicholson (aqui em trajes típicos, no antigo filme de 1963, "Sombras do Terror")

Kubrick, envolvido em tantos projetos que deram e outros que não deram certo, acabou com o estigma de ser o diretor do "melhor filme jamais feito", e que já adquiriu uma aura mítica ao longo dos anos: nunca saberemos quão fantástica e grande seria a sua tão falada versão de Napoleão, história do ditador francês pela qual ele era obcecado, e que já gerou até livros sobre o tema, reunindo todo o espetacular material literário, fotográfico e de arquivo que Kubrick reuniu durante anos, autêntico pesquisador que era, para utilizar em suas filmagens. Assim que lançou o clássico 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968), Kubrick já pretendia se dedicar ao projeto. Interrupções e imprevistos de diversas ordens (incluindo as recusas dos estúdios em arcar com o orçamento astronômico que Kubrick exigia) foram frustrando seus planos, até que em 1975 ele aproveitou uma grande parte do que já tinha planejado e filmou Barry Lyndon, história baseada em livro de William Makepeace Thackeray e ambientada na Europa, num período próximo ao do império napoleônico. Mas sabemos que o mestre Kubrick já tinha pelo menos ideia para algumas das figuras do elenco: Jack Nicholson, com quem ele posteriormente trabalharia em O Iluminado (The Shining, 1980) era um dos cotados para viver o imperador francês. 

Barry Lyndon (1975)

- KILL BILL 3, de Quentin Tarantino


Após um longo hiato em que o diretor Quentin Tarantino e a atriz Uma Thurman não estiveram muito bem um com o outro - por conta de um ruidoso episódio, durante as filmagens de Kill Bill vol. 2 (2004) em que ela se acidentou de carro, por uma negligência de cuidados dele - eles fizeram as pazes, e ele chegou a cogitar que teria ideias para a realização de um terceiro filme da saga da "Noiva", em que o ciclo de vingança perpetrado por ela seria reiniciado, com novos personagens ligados à antiga gangue de Bill. Thurman também considerou a possibilidade de interpretar novamente a personagem, e especuladores de Hollywood alegam que um esboço de roteiro chegou a ser escrito por Tarantino. Entretanto, o seu envolvimento em outros projetos que despertaram mais o seu interesse, aliado à sua promessa de encerrar a carreira após 10 obras de sua autoria, soterraram de vez as possibilidades de realização desse que poderia ser um belo filme.


- KALEIDOSCOPE, de Alfred Hitchcock

O lendário filme de psicopata serial killer que o mestre do suspense tinha a intenção de realizar, em 1967, e com o qual ele pretendia se reconciliar com o público e crítica, visto que seus filmes mais recentes - Marnie (1964) e Cortina Rasgada (1966) - não haviam sido bem recebidos, e ele vinha sendo apontado como um cineasta em franca decadência. Uma vez que a temática do assassino psicótico era algo que já havia regalado a ele um dos seus maiores êxitos (o clássico Psicose, de 1960), agora ele planejava voltar a essa ambiência, com a narrativa de um fisiculturista de Nova Iorque, que perseguia mulheres e tinha uma fixação por executá-las perto de rios e lagoas (a água como elemento próximo do sangue e morte - referência da icônica cena de chuveiro de Psicose?). A polícia, sem conseguir maiores pistas para prender o assassino, passa a usar uma policial à paisana como isca para atrai-lo. Não chegou a ocorrer pré-produção e nem contratação de ninguém para o elenco, apenas algumas cenas de teste foram rodadas com atores e atrizes iniciantes contratados (footage), para servirem de modelo e apreciação junto com o script inicial do projeto, apresentado a uma audiência de executivos da Universal Studios - mas após a reunião, os produtores do estúdio ficaram chocados. Não foi dada carta verde para Hitchcock seguir adiante, pois acharam que o plot do filme sugeria uma atmosfera "macabra" e com um estilo muito cru e agressivo, não convencional das produções do cineasta - seria um autêntico precursor dos filmes brutais de slasher. Se em obras anteriores, Hitchcock costumava apenas sugerir a violência, pelo que se via nas cenas de teste de Kaleidoscope, o cineasta iria exagerar nas cenas de nudez e sangue explícito, no realismo impresso em cada tomada de assassinatos e esquartejamentos, em um nível que ainda não era imaginado na época. Assim, o projeto foi abandonado - mas elementos dele seriam reaproveitados no filme dele Frenesi, de 1972, também envolvendo um maníaco, mas com menos violência, um roteiro mais contido, e ambientado em Londres. O engraçado é que, imediatamente após o cancelamento do projeto de Hithcock para este filme, por volta do final dos anos 60, a febre dos giallo - os filmes no estilo slasher, com serial killers e cenas sangrentas - passaria a proliferar na Itália, com o sucesso de produções extremamente parecidas com o que Hitchcock estava pensando em fazer.




Cenas footage que fizeram parte do projeto de Kaleidoscope, de Alfred Hitchcock - precursor frustrado dos filmes estilo slasher, de 1967


- DOM QUIXOTE, de Terry Gilliam

Podemos dizer que a história desse projeto, que na verdade acabou conseguindo sim ser filmado (não como seria originalmente, e devido a inacreditáveis e numerosos contratempos), é um exemplo de obstinação e resistência de um homem e sua arte - o incansável Terry Gilliam. 




Acima: o guerreiro Terry Gilliam, em foto recente. Abaixo, jovem, ele está mais à esquerda, com os seus companheiros do grupo Monty Python, na década de 70.

Gilliam foi um dos membros mais prolíficos da célebre trupe britânica de humor Monty Python - além de atuar, era o responsável por aquelas adoráveis sequências de animação absurdas e rasteiras dos clássicos Em Busca do Cálice Sagrado (1974) e A Vida de Brian (1979). Depois que se afastou do grupo, ele firmou uma sólida carreira de cineasta, com títulos marcantes e elogiados, como Bandidos do Tempo (1981) e Brazil - O Filme (1985), em que faz uma versão altamente absurda e pessoal da obra máxima sobre autoritarismo de George Orwell, 1984. Mas o grande sonho de Gilliam, um apaixonado por literatura desde sempre, era filmar o lendário romance de Miguel de Cervantes, Dom Quixote. Em 1999, depois de muitos esforços para captar recursos e conseguir os direitos de filmagem da obra, Gilliam começaria um calvário de praticamente 3 décadas para conseguir seu intento: com locações em Madri, e elenco contando com Johnny Depp, Vanessa Paradis e Jean Rocheford, ele inicia a empreitada. Mas durante todo o ano seguinte de 2000, diversos problemas parecem condenar o diretor a não prosseguir com o projeto - desde Rochefort caindo doente e abandonando a produção, até uma tempestade que destrói todos os cenários, passando por problemas diversos com o elenco e liberação de mais verbas. Em 2002, cansado de passar quase dois anos lutando para reunir toda a equipe para filmar novamente, Gilliam lança parte do material que tem na forma de um documentário, chamado Perdido em La Mancha. Mais 3 anos se passariam e uma nova tentativa de filmar o material original, com Johnny Depp, ocorre em 2005 - mas é forçado a parar as filmagens, pois o uso dos direitos da obra haviam ficado com a produtora anterior. Mais atrasos. Chega 2008, e quando Gilliam consegue reaver os direitos, descobre que Depp não estará mais disponível, pois já havia sido contratado para atuar na série "Piratas do Caribe". Chama Ewan McGregor (de Transpotting e Star Wars) para o seu lugar. Mas descobre que perdeu o financiamento do filme. O dinheiro acaba. De novo as filmagens param... Por volta de 2014, Gilliam consegue um novo aporte de verbas para voltar a filmar. A essa altura, o roteiro já mudou, a história está toda diferente, e o lendário ator britânico John Hurt é contratado para ser o novo Dom Quixote. Mas logo ele descobre que está com câncer, adoece, e abandona o projeto para se tratar (morreria em 2017). 

Gilliam e Johnny Depp no set de filmagens da versão original de Dom Quixote (2000).

Resultado: em 2019, o filme que finalmente chegaria nos cinemas, com o título já mudado para O Homem que Matou Dom Quixote, é uma história muito diferente, com mudanças no roteiro, e um outro enfoque para aquilo que o pobre Terry Gilliam originalmente projetava para a obra. Nos papéis que seriam de Johnny Depp e Jean Rochefort, estão Adam Driver e Jonathan Pryce, e o filme afinal consegue moderada recepção nos festivais de cinema ao redor do mundo.

Adam Driver e Jonathan Pryce, em O Homem que Matou Dom Quixote (2019).


- LENINGRADO, de Sergio Leone

Algum tempo depois do lançamento de seu último filme, Era Uma Vez na América (1984) - que não era um faroeste, mas sim um longo e clássico filme sobre máfia e  gangsters - o mestre dos spaghetti westerns Sergio Leone se preparava para filmar um épico que ele tinha em sua mente, e que seria o seu primeiro filme dentro do gênero "guerra": Leningrado, uma mega produção sobre a invasão de Leningrado pelas tropas nazistas de Hitler, na Segunda Guerra Mundial, e que seria protagonizado por Robert DeNiro. Havia uma previsão de 100 milhões de dólares para o orçamento da produção, e Leone lutava pela captação desses recursos com estúdios e produtoras da época, quando em 30 de abril de 1989, um infarto cessou sua vida e, consequentemente, todos os seus planos.

Robert DeNiro, em Era Uma Vez na América (1984)


- THE CONQUEST OF MEXICO, de Werner Herzog

Nos dizeres do próprio Herzog, o cineasta alemão de obras viscerais como Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972), e Fitzcarraldo (1982), esse filme, caso tivesse sido feito na época de sua concepção (início dos anos 1990), seria a sua mais ambiciosa e cara produção, pois só para as grandiosas cenas de batalha que ele tinha em mente, seriam gastos muitos milhões de dólares. O roteiro original de Herzog estava todo pronto, e versa sobre o mítico episódio da conquista do império asteca no Mexico, e sua capital (Tenochtitlan), pelo aventureiro Hernán Cortez (o "Cortez, the Killer", retratado na belíssima canção de Neil Young em 1975). Assim como em diversas outras empreitadas abandonadas no caminho, o problema crucial para Conquest of Mexico era a captação de recursos para a realização de um épico de tal porte, tão denso e que demandaria uma reconstituição de época bem aprimorada. Para os fãs da obra de Herzog, surgiu recentemente um consolo: se não foi possível ver o filme, pelo menos podem lê-lo e concebê-lo mentalmente, em todas as suas nuanças, pois todo o roteiro original criado por Herzog foi lançado na forma de um magistral livro, "Mexico: The Aztec Account of Conquest", de autoria do próprio.




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quinta-feira, 20 de junho de 2024

GIGANTE GENTIL

 

Com seus aproximadamente 1,93m de altura, ele chamava a atenção, por onde passava. Impossível não notar, também, pelos seus enormes e indefectíveis olhos azuis, bem como pelo bastante grave e tonitruante tom de voz - uma fala grossa, às vezes desajeitada, mas entonada com firmeza e perfeição quando o papel exigia.

E ele era um gigante gentil. 

Um cara que, de dedicado estudante na arte da atuação, nascido no Canadá e girando pelos EUA e Inglaterra no início da carreira, passou a jovem astro nos devaneios da era hippie, em plena virada dos anos 60 para os 70 do século passado, mas acabou se impondo com papéis fortes e densamente psicológicos, e ainda teve tempo de se revelar um consistente defensor de causas pacifistas e contra a guerra do Vietnam, ao mesmo tempo em que se revelava um ator calmo, polido, de carisma e talento exemplares. 

O mundo do cinema fica mais triste essa semana, com a partida de Donald Sutherland, 88 - pai do também ator Kiefer, dos clássicos filmes teenager Conta Comigo, Garotos Perdidos, e da célebre série 24 horas.

Já o currículo de Donald, o pai, é uma coisa espantosa. Eita que fez muito filme mesmo, esse homem.

Donald Sutherland se tornou uma das caras mais representativas do cinema na década de 1970, e já começara chutando a porta poucos anos antes, em 1967, quando debutou em um dos melhores filmes de guerra já feitos, a obra-prima Os Doze Condenados (The Dirty Dozen, 1967), dirigido por Robert Aldrich e com grande elenco: Lee Marvin, John Cassavetes, Charles Bronson e outros feras. Ele era o desajustado Pinkley, um dos condenados recrutados para invadir e destruir um castelo nazista em uma missão suicida durante a Segunda Guerra Mundial, e seu estilo de atuação natural e displicente já chamou ali mesmo a atenção de muita gente, mostrando que aquele rapaz tinha futuro.

Dali em diante, desfilou em outros filmes com a guerra como pano de fundo, mas curiosamente, agora na forma de comédias, e sempre parecendo querer demonstrar, com personagens satíricos e promotores do caos e da balbúrdia, o ridículo e o absurdo daquilo tudo - foi assim como o Hawkeye Pierce, de M.A.S.H. (1970), e o Sargento Oddball, de Guerreiros Pilantras (Kelly's Heroes, 1970), um dos mais escrachados filmes já estrelados por, vejam só, Clint Eastwood, de quem se tornaria um bom amigo. 

À medida que envereda pelos anos seguintes, chega a vez de papéis mais sérios e icônicos, e ele seria visto no célebre filme policial de Alan J. Pakula sobre uma prostituta que precisa ser protegida porque "sabe demais" e corre risco de vida: Klute, o Passado Condena (1971) dá a Sutherland a chance de conhecer e estreitar laços com a já estrela Jane Fonda, que ganharia um Oscar por esse papel. Ele é o policial, e ela a meretriz, no filme. O envolvimento dos dois, que passam a perceber que tem bem mais em comum entre eles do que a atuação, vai além das telas, e o namoro rende uma maior participação política de Sutherland na revolucionária Hollywood daqueles tempos. Ficarão juntos até meados de 1973, e coproduzem F.T.A., um documentário antiguerra que faz sucesso na época, em pleno fervor do conflito com o Vietnam.

Donald e Jane Fonda

A trajetória de Sutherland segue com títulos marcantes, que ficaram na memória de toda uma geração: os apavorantes filmes de terror Inverno de Sangue em Veneza (Don't Look Now, 1973), Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers, 1978), o drama de guerra A Águia Pousou (The Eagle Has Landed, 1976), e já no início dos anos 80, aparições marcantes no premiado drama Gente Como a Gente (Ordinary People, 1980), e no thriller O Buraco da Agulha (Eye of the Needle, 1981).

Inverno de Sangue em Veneza (1973)


A Águia Pousou (1976)

Dono de uma versatilidade ímpar, ele faz a transição para a meia idade com papéis mais maduros e coadjuvantes, a partir do final dos anos 1980 e anos 90, que enriquecem todas as tramas das quais faz parte. 

Quem não se lembra de sua mágica aparição como 'X', o enigmático agente secreto que faz as revelações cruciais para Kevin Costner sobre a trama do assassinato de John Kennedy, em JFK, a Pergunta Que Não Quer Calar (1991), de Oliver Stone? E repetindo a velha parceria com Eastwood, é dele o galhofeiro e sensacional Capitão Jerry O'Neil, um dos astronautas idosos de Cowboys do Espaço (Space Cowboys, 2000), uma atuação magistral e emocionante!

Para as gerações mais recentes, fica a contribuição dele na densa e impactante presença malévola do Presidente Snow, o infernal vilão da saga Jogos Vorazes (The Hunger Games), que tanto sucesso fez nos cinemas, entre 2012 e 2015.

"Com o coração pesado, digo-lhes que meu pai, Donald Sutherland, faleceu. Pessoalmente, considero um dos atores mais importantes da história do cinema. Nunca se deixou intimidar por um papel, seja ele bom, ruim ou feio. Ele amava o que fazia e fazia o que amava, e nunca se pode pedir mais do que isso. Uma vida bem vivida" - Kiefer Sutherland, 20/06/2024.

R.I.P., Donald.


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quarta-feira, 12 de junho de 2024

O NASCIMENTO (E O RENASCIMENTO) DO SOM DO SILÊNCIO

 

Há dois meses atrás, um dos maiores hinos da música pop completou 60 anos de sua criação. Mas no dia 15 de junho próximo, também lá se vão 59 anos que essa mesma música, por assim dizer, "renasceu", como resultado de uma das melhores jogadas da indústria fonográfica já realizadas. Penso eu que, todo mundo com um mínimo de interesse musical, já ouviu essas primeiras linhas cantadas aqui, em algum lugar:

'Hello , darkness, my old friend... I've come to talk with you again'

(Olá, escuridão, minha velha amiga... Eu vim para falar com você novamente)

Se lembrou? Se não, ouça só:


Originalmente gravada pela célebre dupla Simon & Garfunkel, em 1964, "The Sound of Silence" (e que, originalmente, saía nos discos deles como Sounds of Silence, no plural) se tornou canção símbolo de uma geração, atravessou décadas, e chegou aos nossos tempos até como tema de memes e tik toks da vida, a "musiquinha da tristeza", e outras dessas loucuras que aparecem na web e redes sociais todos os dias. Mas a sua força criativa e emocional, evocando imagens mentais e poéticas, com a beleza de sua harmonia e a letra marcante de Paul Simon, continua firme e onipresente.

Inspirado pelo assassinato do presidente John Kennedy, ocorrido no ano anterior em Dallas, nos EUA, em 1964 Paul Simon era ainda um universitário na reta final do seu curso de Letras, diletante de poesia e compositor semiprofissional nas horas vagas, que já havia conseguido vender algumas de suas canções para serem gravadas por artistas de pequenas gravadoras de New York. 

Paul Simon

Ele mesmo conta, em uma das diversas entrevistas sobre uma de suas maiores criações, que "Silence" nasceu de acordes e harmonias com as quais ele já vinha trabalhando fazia um bom tempo, mas que foi em uma manhã meio chuvosa, dentro do banheiro com seu violão, ouvindo as gotas pingarem e sob uma atmosfera de certa tristeza e melancolia no ar, que as palavras vieram, e foram se encaixando automaticamente em sua cabeça sobre a melodia, como mágica.

Ao concluir a canção, e toca-la repetidas vezes, Simon ficou tão empolgado, que imediatamente chamou seu amigo de longa data, Art Garfunkel, com quem a sua voz combinava bastante e ele já havia cantado e gravado algumas músicas sob o nome "Tom & Jerry", para mostrar o que ele compôs. Fascinado pela música, Garfunkel vocalizou por cima e deu sua fantástica contribuição segurando as notas mais altas, para logo em seguida dizer a Simon que eles tinham ali uma joia nas mãos. Aquilo estava predestinado a ser um hit.

Art Garfunkel

Com esta e mais algumas canções na sacola, através de contatos em comum eles conseguiram chegar a Tom Wilson, que na época era um dos mais renomados produtores da Columbia Records, nos EUA. Um cara que já havia simplesmente trabalhado com o astro que todos reverenciavam naquele momento, na cultura popular - ninguém menos que Bob Dylan. Todo mundo queria ser autoral e folk, criar temas reflexivos, sociais e profundos como Dylan criava, e trilhar os mesmos caminhos do "mestre", que se tornara uma espécie de porta-voz daquela nova geração.

Nem é preciso dizer que Wilson também ficou vidrado na música, e logo descolou um contrato de gravação para Simon & Garfunkel na Columbia. O disco, lançado em outubro daquele mesmo ano, se chamaria Wednesday Morning 3 a.m., e contaria com alguns covers e composições próprias da dupla, dentre elas, a tão elogiada "Silence". 

Wednesday Morning 3 A.M., o álbum de estreia de Simon & Garfunkel (1964)

Acontece que... o disco não aconteceu. Os motivos são diversos: primeiro, que as canções folk só no formato tradicional em voz e violão, mais rústico, e que eram então o lance da dupla, já estavam começando a ficar ultrapassadas, com as novas tendências do rock que estavam surgindo, principalmente vindo da Inglaterra - e eis aí, entramos no inegável fato de que, naquela reta final de 1964, não se falava nos EUA (bem como em outras partes do mundo) de outra coisa que não fosse a Beatlemania. A "invasão britânica" havia começado com tudo, e a turminha de John, Paul, George e Ringo contaminara de forma tão severa as paradas de sucesso e a música pop, que tudo agora parecia se encaminhar para a batida provocada por uma banda, os ritmos mais quentes e mais rápidos, a tríade guitarra/baixo/bateria colaborando para uma nova era de sensações e cores sonoras. Além disso (e devido a isso), houve certo desânimo da própria Columbia Records em promover melhor o disco de Simon & Garfunkel, e ele foi um fracasso.

Beatles no Ed Sullivan Show da TV americana, em 1964: tem início a Invasão Britânica

Decepcionados com a má performance de sua primeira empreitada, cada um foi para um lado: Simon viajou para a Inglaterra, visando aprofundar seus estudos literários e ainda fazer alguns bicos como ghost composer para pequenos selos de música, enquanto Garfunkel permaneceu e voltou para terminar seu curso na Universidade de Columbia.

Nesse meio tempo, o mundo foi mudando e girando com uma rapidez revolucionária, que fez as bandas inglesas aportarem de vez nos EUA e influenciarem novos sons e tendências. Frente a isso, bandas americanas, como The Byrds e Buffalo Springfield, reagiram simplesmente pegando uma grande parte do tradicional repertório de folk, country e rythim n' blues do Tio Sam, e o eletrificando, e fazendo grande sucesso nas paradas com essa modernização, do mesmo modo que Dylan pioneiramente fizera, com o suporte dos rapazes do The Band.

The Byrds


Bufflo Springfield

Foi nesse clima que Tom Wilson - aquele, do primeiro contrato de Simon & Garfunkel com a Columbia - teve a ideia de, sem consultar nenhum deles, simplesmente pegar aquela canção bonitinha, e injetar peso e ritmo nela, com um fundo imponente de 'power trio': chamou os músicos de estúdio Al Gorgoni (guitarra), Bob Bushnell (baixo) e Bobby Gregg (bateria), mixou e adicionou efeitos, e um novo acompanhamento à música. Pronto. Agora estava no jeito para ser consumida por um público mais jovem e antenado.

Lançada em compacto, no dia 12 de setembro de 1965, "Sound of Silence" foi um desses casos de música que grudam feito chiclete na memória do ouvinte e não saem do dial da rádio. O impacto da música é ressaltado pelo fato de que ela consegue atingir, simultaneamente, as camadas mais populares, devido à inovação e frescor que o seu som retrabalhado como folk rock traz para a massa jovem, bem como por se sobressair na forma de poema lírico, que fascina os grupos mais intelectuais e eruditos da mídia cultural, em versos como "And the people bowed and prayed / For the neon gods they made" (E as pessoas se ajoelharam e rezaram / Para os deuses de neon que elas criaram - denotando uma crítica pungente ao materialismo e o crescente culto à imagem e aos símbolos, algo não muito diferente do que vemos hoje em dia!). Foi exaustivamente regravada, e em vários países do mundo  - no Brasil, como não poderia deixar de ser, ganhou  até mesmo a sua versão na onda do sertanejo, nos anos 90 ("É Por Você que Choro", de Leandro e Leonardo).

Scarborough Fair


The Boxer

Quando souberam que aquela esquecida canção estava subindo nas paradas feito foguete, apesar da sensação estranha de que fora retrabalhada por músicos que eles sequer conheciam, Simon & Garfunkel logo trataram de retomar a dupla, e viram que todas as portas da mídia estavam agora finalmente abertas para a sua carreira. O que se segue é um desfile de êxitos, com gravações, shows lotados, e hits como "I Am a Rock", "Feelin' Groovy", "Homeward Bound", "Scarborough Fair", "The Boxer" e tantos outros. Eles se tornam artistas quintessenciais do som daquela década, passando a gerar músicas e lançar discos com instrumentações cada vez mais arrojadas e interessantes, não tendo medo de experimentar, e flertando com música medieval, latina, jazz, e tudo o mais que rolasse.

"Sound of Silence" vai parar na trilha sonora de The Graduate (1967 - no Brasil, A Primeira Noite de um Homem), clássico filme de Mike Nichols, com Dustin Hoffman, que marca toda aquela geração do final dos sixties - é o tema de abertura, e se ligando cada vez mais aos produtores de cinema a partir dessa película, Simon & Garfunkel também compõem e lançam "Mrs. Robinson" para fazer parte da louca sequência conclusiva do filme. Se torna outro sucesso avassalador.

A Primeira Noite de um Homem (1967)


Mrs. Robinson

Por divergência de interesses e rumos artísticos, não demora a começarem os desentendimentos - Simon queria experimentar mais, se aprofundar em outros formatos com banda e música étnica, enquanto Garfunkel discordava e pensava cada vez mais em se dedicar a uma carreira de ator. E o rompimento ocorre logo após o marcante álbum de 1970, Bridge Over Troubled Water - do qual a música-título é, simplesmente, uma das mais belas releituras já feitas pelo 'rei do rock', Elvis Presley, em sua versão inesquecível. O que mostra, mais uma vez, a força e a importância de Simon & Garfunkel como artistas modernos.

Apesar da separação e dos atritos, os dois passam a se reencontrar várias vezes, ao longo das próximas décadas, para shows de revival e apresentações especiais, que maravilham os fãs, e que nos fazem pensar... em toda essa força que, muitos anos depois, ainda ecoa no som do silêncio.

Apresentação na TV onde Simon & Garfunkel tocam a música no formato folk acústico, em que foi originalmente concebida


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sexta-feira, 31 de maio de 2024

COPPOLA: AS LOUCAS CAVALGADAS DE UM VISIONÁRIO

 

Apenas alguns dias se passaram desde a premiére do último filme de Francis Ford Coppola, o tão aguardado e anunciado épico Megalopolis, no prestigioso Festival de Cannes, em sua edição de 2024. E os críticos já se dividiram, enormemente: ame ou odeie, é 8 ou 80, "Coppola é um gênio", ou "Coppola pirou", tipo assim, como esse velhote se atreve a fazer uma piada dessas, parecendo um filme de amador mal dirigido e tão auto reverente, tão cheio de si, que atrevimento!

Reclamam de cenários bregas, de atuações caricatas e exageradas, reclamam de furos no roteiro e tudo o mais - sem se darem conta de que, talvez, tenha tudo isso sido intencional, numa das maiores críticas (sátiras?) do atual estado de coisas em que nosso mundo absurdo se encontra. Especialmente nas artes. 

Olha, pra começar, é o seguinte: só pela iniciativa dele, o cara já merece aplausos.

Alguém que arranca grana do próprio bolso, vendendo uma vinícola completa (fazenda, de "porteira fechada", como se diz aqui na minha terra), só pra financiar um filme... só pra creditar em "arte" - no mais sublime sentido do termo - merece um mínimo do nosso respeito e admiração. Em um panorama cada vez mais mercenário em que vivemos, hoje em dia. 

Coppola brigou para realizar clássicos viscerais como O Poderoso Chefão, A Conversação e Apocalipse Now. Filmes de uma envergadura criativa fora do comum, que não seguiam fórmulas prontas e não eram feitos para agradar executivos de estúdio ou plateias fáceis, e que emergiam de uma visão artística pessoal e injetora de novas ideias e possibilidades cinematográficas. Não haveria porque ser diferente com esse novo filme.  



'O Poderoso Chefão' (1972) e 'Apocalypse Now' (1979) - clássicos insuperáveis, à frente de seu tempo


Chega de frescura, geração mi mi mi. Se a Netflix, Amazon ou qualquer outro conglomerado de streaming tivessem topado a aventura de comprar os direitos de exibição de Megalopolis, e estivessem injetando dinheiro e propagandas nele (coisa que o próprio Coppola não quis, por seus princípios morais e pessoais - conforme vou explicar aqui, adiante), os baba ovos usuais da atual indústria midiática não estariam assim tão divididos. 

O filme é esteticamente arrojado e ambicioso. Conta a história de uma Nova Iorque futurista e apocalíptica, reconstruída nos moldes de Roma, sob o monopólio de um prefeito conservador (Giancarlo Esposito). O protagonista, um arquiteto excêntrico e visionário interpretado por Adam Driver, que tem acesso a um novo tipo de "energia" física e sobrenatural, quer tomar as rédeas do lugar e recriá-lo conforme seus sonhos artísticos, é um alter ego de Coppola - o louco e genial, aquele que se atreveu a, junto dos coleguinhas George Lucas, Scorcese, Spielberg e outros, reescrever a história de uma Hollywood também já decadente nos idos finais dos anos 60 e início dos 70, à beira da queda tal qual Roma. 

Aos nossos olhos, espectadores fãs desse incansável cineasta de 85 anos, que reúne suas últimas forças para nos deleitar com um delírio visual e sensorial, a energia a que Coppola tem acesso é seu próprio talento e bravura, para fazer frente a um mundo cada vez mais emburrecido e comercialóide. Onde ficou tudo meio parecido, padronizado, pasteurizado, e serviços de streaming se sentem no direito de aumentar valores e preços a seu bel prazer, enquanto empurram catálogos de qualidade cada vez mais duvidosa e lamentável para nossos lares.

Se Megalopolis permanecer fora dos circuitos mainstream da produção industrial em massa, de filminhos descartáveis feitos só para faturar em telonas e streamings da vida, que assim seja. 

Vamos procurar e assistir aonde for, para nos lembrar do ímpeto que a verdadeira arte ainda pode promover nos corações e mentes da humanidade. 


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sábado, 18 de maio de 2024

10 MOMENTOS 'DESTRUCTION' DO GUNS N' ROSES

 

No momento em que este texto é produzido, o estado do Rio Grande do Sul continua sofrendo os abalos do já histórico desastre natural produzido pelas chuvas intensas que causaram enchentes e transbordamentos, alagando e devastando várias cidades. Neste panorama catastrófico, é sabido que diversas autoridades, artistas e celebridades, inclusive internacionais, tem feito doações, campanhas, e oferecido extensa ajuda para os desabrigados e demais atingidos por tanta calamidade. Nessa galera se inclui a célebre e mundialmente conhecida banda Guns N' Roses

Para quem vê esse pessoal hoje todo tiozão, e posando de filantropo, sem conhecer o passado deles, mal pode imaginar o tanto que eles já representaram um outro papel, para as gerações passadas... Algo que mostra que todo mundo é falível, todos envelhecem e amadurecem, e ninguém está imune à prova do tempo! (E recomendo uma bela olhada na até melancólica série sobre o Bon Jovi que está em cartaz no Star +, 'Thank You, Goodnight', para se ter uma boa ideia disso...).

Eu passei a minha juventude ouvindo (e muito) o Guns. A trupe do famigerado e notório vocalista Axl Rose foi elevada a um status quase mítico, na virada do final dos anos 80 para os anos 90, devido ao fato de que passávamos por um cenário de música pop e rock muito comercial e pasteurizada, com restolho de movimentos como o new wave, rap, e o techno pop, com uma profusão de teclados, ritmos e sonoridades radiofônicas que beiravam o brega, e tornavam praticamente insuportável a vida do ouvinte jovem que, como eu, queria algo mais cru e legítimo. 

Ninguém tinha acesso a grandes fontes de gravações, ou shows. Lembre-se que a internet não existia, ou seria algo próximo, talvez, de algum delírio futurista.

A saída, então, para quem não era metal lover ao extremo, e queria ouvir bandas com um som mais rebuscado, calcado nas velhas bases e tradições do blues pesado e hard rock das décadas anteriores, era procurar por bandas mais nesse estilo, que ou eram muito raras e difíceis de achar, ou estavam mais na seara do que chamamos de glam rock ou, num termo mais pejorativo, "hard rock farofa". Caras como Motley Crue, Great White, Dokken e vários outros - até mesmo o Bon Jovi, durante uma certa época. O som tinha peso e intensidade? Tinha um pouco, mas o visual, com aqueles cabelões, maquiagem excessiva e roupas coloridas, hummm... que cafona. (Devemos nos lembrar que a onda revolucionária do grunge e bandas de Seattle viria bem mais depois)

A formação clássica, da esquerda para a direita: Duff, Axl, Slash, Steven e Izzy

Mas de repente, no meio de toda essa fauna, surge em Los Angeles um grupo que começava a dispensar todos esses adornos, se concentrar mais na selvageria do som, e com muita criatividade, criar novas canções com as raízes focadas naquela velha turma dos 70: Aerosmith, Led Zeppelin, Stooges, AC/DC, ou seja, todos os irmãozinhos da verdadeira alma roqueira, sem firulas e sem frescuras.

Era 1987, e o combo integrado por Axl Rose (vocais), Slash (guitarra solo), Izzy Stradlin (guitarra rítmica), Duff McKagan (baixo), e Steven Adler (bateria) arrebentou nas paradas com o lançamento do petardo Appetite for Destruction, um dos discos de rock mais vendidos da história. Durante cerca de quase uma década, até meados de 1995/96, o Guns N' Roses foi uma das mais poderosas e representativas bandas do mundo, e inspiravam autenticidade, rebeldia e perigo - principalmente pelas atitudes tresloucadas de Axl, que acabou se firmando como seu líder. 

O megaplatinado álbum 'Appetite for Destruction' (1987), nas duas versões que saiu - a da capa censurada, acima, e a outra liberada para vendas em redes de lojas dos EUA, abaixo


A seguir, 10 momentos na carreira do Guns que mostram porque eles um dia já foram bem 'destruction'.


1 - O COMEÇO NAS RUAS

O grupo foi montado a partir dos membros dissidentes de duas outras bandas que tentavam a sorte em Los Angeles, o Hollywood Roses (de onde saíram Axl e Izzy), e o L.A. Guns (que contava com Tracii Guns na guitarra, Ole Beich no baixo, e Robbie Gardner na bateria), em 1985. Resolveram, por sugestão de Axl, batizar o novo grupo com uma junção de nomes das bandas anteriores, assim ficando Guns and Roses (simplificado para Guns N' Roses). Foi no decorrer desse ano que, após algumas poucas apresentações em casas de show pra lá de fuleiras, o pessoal do L.A. Guns foi debandando, e assim, Tracii deu lugar a Slash, Ole Beich saiu para a entrada de Duff, e Robbie logo seria substituído por Steven Adler. No início de 1986, esta primeira formação clássica da banda já estava consolidada, ensaiando e fazendo shows. Mas o que poucos talvez saibam, era a extrema dureza em que os caras viviam, sem um tostão no bolso, e muitas vezes tendo que morar de favores em pensões ou casas de fãs e groupies, pegar dinheiro emprestado de conhecidos para comprar equipamento e instrumentos, sem nenhum previsão de como ou quando pagar, além de até mesmo traficar e  cometer alguns pequenos furtos, quando não era algo muito complicado.

Axl Rose

Izzy mesmo conta, em uma de suas antigas entrevistas, que ele e Axl (amigos de infância) vieram da pequena Lafayette, em Indiana, com uma mão na frente e outra atrás, e durante um bom tempo, fizeram alguns bicos de "entrega" (imagine do que), e moraram de favor com algumas prostitutas caridosas, com quem fizeram amizade... Axl também trabalhou durante algumas semanas em uma locadora de vídeos pornô "barra pesada", de West Hollywood. E pra fechar com chave de ouro: quando da primeira reunião de negociação para assinarem um contrato de gravação, os caras do Guns sugeriram que fosse em um dos restaurantes mais chiques de L.A. Motivo: antes de tudo, tirar a barriga da miséria na conta da gravadora, pois estavam há dois dias sem comer quase nada.

Imagem que capta o grupo em sua fase inicial, num show realizado no final de 1985, com roupas de couro, Axl com cabelo ruivo arrepiado e quepe, e temática punk

 

2 - RAÍZES PUNK

Eis uma das coisas que foram cruciais para destacar e diferenciar o Guns no imenso nicho das bandinhas de hard rock farofa que infestavam L.A., na época: eles tinham uma firme e dedicada predileção por bandas punk. Isso fez com que baseassem toda a sua produção inicial na instrumentação padrão guitarra/baixo/bateria, a despeito de Axl ter tido uma formação clássica de voz e piano quando participava do coral de uma igreja de sua terra natal, Lafayette. É graças a Axl, aliás, que as produções posteriores do grupo vão ficando cada vez mais grandiosas e rebuscadas, em termos musicais, visto que o cara sempre foi fã confesso de Elton John e Freddie Mercury, e isso ficaria nítido a partir do álbum Use Your Illusion, de 1991 em diante. Mas até ali, além das bandas primordiais de hard rock dos anos 70, era muita inspiração em figuras como Sex Pistols, Dead Boys, New York Dolls e Misfits, dentre outros - principalmente por parte de Duff, que tocava antes em bandas punk de Los Angeles, e fez questão de mandar sua versão de "Attitude", no disco de covers do Guns, Spaghetti Incident (1993).  

Izzy e Duff em algum momento de 1985


Welcome to the Jungle (1987)

 

3 - AS MORTES DE OLE BEICH E WEST ARKEEN

As peripécias do Guns com lances arriscados esbarram na tragédia em dois momentos pouco lembrados:  os quase membros do grupo que já morreram. O primeiro foi Ole Beich, o ex-baixista da banda, que reza a lenda, tocou com eles apenas em 2 shows no início de carreira, e era um sujeito dinamarquês loiro e boa pinta, radicado em Los Angeles e que já havia tocado em vários grupos de sua terra natal, sendo que havia decidido tentar a sorte na América. A trajetória de Beich após deixar a vaga que seria ocupada por Duff McKagan é obscura e errática - ainda tentou algumas chances em outras pequenas bandas de L.A. enquanto o Guns batalhava o caminho para a fama, mas acabou se envolvendo muito com drogas e traficantes locais e, em 1988, exatamente no momento em que seu ex-grupo havia subido a jato nas paradas e conquistado o mundo, ele decide retornar para Copenhagen, na Dinamarca. Lá, ele tenta levar uma vida normal e retornar à rotina de acompanhar bandas locais, mas segundo familiares, volta e meia o passado de ter sido quase um gunner e que poderia ser um roqueiro famoso o assombrava, e ele voltava a se drogar. Não se sabe se foi um gatilho ou não, mas um mês depois de uma apresentação do Guns N' Roses na Dinamarca, durante a turnê de 1991, Ole consumiu toda a heroína que podia, encheu a cara de whisky, e relatou a alguns amigos que iria pescar no  bucólico Saint Jorgens Lake, em Copenhagen... de onde nunca mais voltou com vida. A autópsia em seu corpo determinou um afogamento involuntário, acidental, mas a maioria de seus parentes até hoje sustenta que ele estava depressivo, e que tudo se tratou de um suicídio.

Ole Beich



West Arkeen era músico, guitarrista e compositor prolífico, que já havia ajudado e tocado com o Guns em várias jams da banda em seu início, mas nunca quis fazer parte do grupo. Discreto, preferia ajudar nas composições e fazer parte dos bastidores. Enganchou uma forte amizade e parceria com Axl e Izzy assim que eles chegaram a Los Angeles, e graças a ele, clássicos do grupo como "Its So Easy", "Yesterdays" e "Bad Obsession" foram criados. Arkeen era um junkie inveterado, e apesar de várias tentativas de reabilitação, acabou sendo encontrado morto em seu apartamento em 30 de maio de 1997, vítima de uma overdose.

West Arkeen

 

4 - MONSTERS OF ROCK, EM CASTLE DONINGTON (1988)

Conforme dito anteriormente, em 1988 os Guns N' Roses ostentavam visivelmente o título de "a maior banda do mundo", eram a sensação do momento após o lançamento dos discos Appetite for Destruction e GN'R Lies, e parecia não haver nada que os derrubasse ou fizesse parar, um próximo álbum era aguardadíssimo, e todos queriam ter mais daquela combinação pegajosa de rock pesado com uma vozinha aguda e rasgante super reconhecível (de Axl), a dupla de guitarras azeitadas e acachapantes de Slash e Izzy, o baixo forte e preciso de Duff, e a bateria estrondosa de Steven Adler. Turbinados pelas incessantes exibições dos clipes de "Welcome to the Jungle" e "Sweet Child O'Mine" na MTV, não havia lugar no globo onde não fosse desejada uma apresentação do grupo, por mais polêmicos, brigões e mal encarados que fossem (principalmente com a imprensa, que A-M-A-V-A malhar eles). Mas logo, os longos atrasos, além de atitudes e discursos inflamados de Axl on stage, pelos mais diversos motivos, fariam aflorar tumultos gigantescos em algumas apresentações da banda ao redor do mundo. E um dos episódios fatídicos ocorreria no dia 28 de agosto daquele ano, quando eles foram se apresentar no tradicionalmente célebre Festival Monsters of Rock da Inglaterra, em Castle Donnington - que tinha medalhões como Iron Maiden, Kiss e Megadeth entre os headliners. A capacidade de público foi excedida, Axl dava alfinetadas ao vivo na organização do evento, e após um quebra-pau no meio da plateia ter início durante a apresentação flamejante do Guns, dois jovens morreram e um terceiro ficou seriamente ferido. 

 

5 - "MR. BROWNSTONE" NO L.A. COLISEUM (1989)

18 de outubro de 1989 foi o dia em que os Guns N' Roses quase implodiram na frente de uma plateia de milhares de pessoas, ao se apresentarem fazendo a abertura de um show dos Rolling Stones, no L.A. Coliseum. Os pupilos preparando o terreno para os mestres, naquilo que era tido como uma das mais perfeitas celebrações do rock na época: durante o set dos Stones, alguns dos gunners chegavam a fazer participação especial, como em um famoso momento em que Axl e Izzy acompanham Mick Jagger no palco durante uma belíssima execução de "Salt of the Earth". Mas no show daquela noite, em específico, a barra pesou durante a apresentação do Guns mesmo: em um determinado momento, Axl se dirige à plateia nos seguintes termos: "Creio que este é o nosso último show. Infelizmente, alguns caras por aí já estão dançando há muito tempo com Mr. Brownstone ('Sr. Heroína'), e não devem ir muito longe, e isso não me agrada", e logo em seguida emendam justamente com uma execução encapetada da icônica "Mr. Brownstone", que contém justamente essa linha sobre a dança na letra do refrão. O fato é que Slash, Duff e especialmente Steven Adler estavam tão afundados no vício por heroína, faltando a ensaios e compromissos e tão chapados em certos dias, que esta foi a maneira de Axl dar um recado, em público, de que estaria caindo fora da jogada caso seus colegas não dessem um jeito na vida. Logo após isso, Slash procurou ajuda e se recuperou. Duff também. Mas Steven, infelizmente, não. Logo seria "convidado" a se retirar da banda. Seu substituto seria o ex-batera do The Cult, Matt Sorum.

 


6 - A INSPIRAÇÃO DE "COMA" E "ESTRANGED" (1991)

O episódio ocorrido no L.A. Coliseum poderia expressar uma ideia de que Axl era o certinho do grupo ao dar puxão de orelha nos seus colegas sobre as drogas, o que não é verdade. Ele apenas se colocava na posição de líder e assumia mais certas responsabilidades, mas também tinha lá seus problemas pessoais, emocionais (que não eram poucos), e afundava bastante o pé na jaca, algumas vezes. Duas das mais famosas músicas lançadas no épico e megalomaníaco projeto Use Your Illusion - dois álbuns duplos em LP, ou dois CDs completos de material inédito, mostrando uma nova faceta do grupo, em 1991 - são baseadas em problemas complexos do vocalista da banda com relacionamentos e substâncias químicas. Enquanto "Coma" era uma longa viagem de 10 minutos sobre uma overdose sofrida por Axl alguns anos antes (mas que também citava uma outra, sofrida por Slash), "Estranged" buscava reminiscências nas recentes terapias que Axl fazia para tentar se livrar dos vícios, bem como no iminente fracasso do seu casamento com a modelo Erin Everly. 

Coma

 

7 - TUMULTOS NA 'USE YOUR ILLUSION' TOUR

Não foram poucas as ocorrências policiais durante uma das mais longas turnês do rock de que se tem notícia, a "Use Your Illusion Tour", que durou de 1991 a 1993, varrendo todo o planeta, e que tinha que ser à altura de um álbum tão extenso e grandioso (quanto pretensioso, para alguns). Com esse trabalho, visivelmente capitaneado por Axl, a intenção parecia ser deixar um pouco de lado o som mais punk e agressivo que o Guns fazia anteriormente, e tentar colocar a banda ao lado de mega agremiações no panteão do rock, como Led Zeppelin e, especialmente, Queen. Muitas canções longas, com instrumentais mais variados, mudanças rítmicas, e Axl tocando um monte de piano - um dos hits do disco, "November Rain", seria inimaginável na carreira da banda alguns anos antes, apesar de já existirem demos com a composição da música desde a época de Appetite for Destruction, como mostra a reedição deluxe desse disco com gravações inéditas. Mas o problema era o stress acumulado nessa exaustiva tour, que talvez tenha durado mais do que o devido, e levou o grupo a uma estafa tão grande, que eles praticamente acabaram e ficaram separados uns bons anos, antes de voltarem com a formação original mais recentemente. 

O ritmo psicótico dessa turnê acabou com o sistema nervoso de Izzy Stradlin, um cara mais calmo e pacato, que já andava cansado de todo o megaestrelato e barulho em torno do Guns - nem a longa amizade de infância e as súplicas de Axl foram suficientes para mantê-lo no grupo, e ele foi a dissidência seguinte, sendo substituído pelo guitarrista Gilby Clarke. Alguns exemplos de discórdia braba durante a "Use Your Illusion Tour": em um show na Filadélfia, em junho de 1991, Axl desafia um fã na plateia que havia começado uma briga com o fotógrafo oficial da banda, Robert John, e quase pula no cara; em outro show, em Riverport, no mesmo ano, ele chega a pular no meio da multidão para ir atrás de um outro fã que estava tirando fotos não autorizadas do show, mas não consegue pegar o cara, então xinga os seguranças contratados, e abandona o show; e em Buenos Aires, na Argentina, em 1992, ele dá início a mais um de seus discursos inflamados no palco, ordenando que algumas pessoas da plateia parem de atirar copos e outros objetos neles, e ameaça parar o show, novamente causando um tumulto na plateia que, por pouco, também não causa mortes e ferimentos. 

Gilby Clarke e Slash

 

8 - A "CADEIRA VOADORA" DE AXL EM SP (1992)

É óbvio que, por mais que o cara sempre declarasse amar o Brasil, e que tem um super afeto pelo país (ele chega a dizer que tem uma 'mãe brasileira', a empresária Beta Lebeis, sua assessora há muitos anos), Axl também tinha que ter seus momentos de "rompante" em nossa terrinha. E isso ocorreu também durante uma das passagens do grupo por aqui na "Use Your Illusion Tour": em 11 de dezembro de 1992, na segunda vinda da banda (a primeira havia sido no ano anterior, para o Rock in Rio 2), o grupo estava hospedado no hoje extinto Maksoud Plaza, de São Paulo, quando, por volta das 2h da madrugada, a assessoria do cantor solicitou que o esquadrão de jornalistas e papparazzi que ainda estavam plantados no saguão do hotel aguardando para efetuar alguns "flashes" se retirassem, pois ele gostaria de descer para uma partidinha de sinuca. Pedido não atendido - sobretudo pelo próprio hotel, que tinha o costume de permitir o livre acesso de jornalistas a qualquer momento, nessas ocasiões - e Axl não titubeou: pegou uma cadeira de metal e, direto do segundo andar onde se encontrava, arremessou na galera que estava lá embaixo. Imagina o Deus nos acuda. Correram na delegacia, deram queixa do cara (atendida pelo delegado de plantão, Naled Saaf Neto), o empresário da banda foi chamado para depor, e Axl corria o risco de pegar cana de 3 meses a 1 ano de detenção assim que retornasse ao país, por ameaça à vida e integridade física dos nobres representantes da imprensa! Depois de umas conversinhas e pedido de desculpas oficial encaminhado, foi tudo resolvido e pronto, deu pizza - aliás, pizza não, macarrão! Pois foi divulgado que logo após o incidente, Axl teve fome e ainda saiu para dar um rolé e comer macarronada com sua namorada na época, esticando a noite na capital paulista. 

Axl dando asas à cadeira, em SP 

 

9 - OS BASTIDORES TENSOS DE "SYMPATHY FOR THE DEVIL" (1994)

É hoje sabido que a última gravação oficial com o que ainda restava da formação clássica dos Guns N' Roses, antes de separarem e por um longo hiato de mais de vinte anos, foi uma regravação do clássico dos Rolling Stones, "Sympathy for the Devil", em 1994, que faria parte da trilha sonora do filme do mesmo ano com Tom Cruise e Brad Pitt, Entrevista com o Vampiro. A banda, naqueles dias, era composta por Axl, Slash, Duff, Matt Sorum, e o guitarrista Paul Tobias, amigo de Axl, que já havia então entrado no lugar de Gilby Clarke, despedido após um desentendimento com Axl. Acontece que Gilby havia estreitado laços com Slash durante a turnê de Use Your Illusion, ficando amigos, e Slash não ia muito com a cara de Paul Tobias. Além de tudo, já estava também meio de saco cheio com o próprio Axl, que a essa altura, era só mandos e desmandos sobre o que o Guns deveria fazer... A gota d' água foi justamente sobre o modo que o solo de guitarra para "Sympathy" deveria ser gravado: Axl não estava nos estúdios, e deixara recomendações expressas com a produção de que Slash deveria tentar tocar "reproduzindo ao máximo" o estilo original do solo de Keith Richards, dos Stones, na guitarra. Slash, obviamente, leu o recadinho, virou a cara, mandou um belo f***, e registrou o solo do jeito que ele bem entendia. Qual não foi a sua surpresa quando, algumas semanas depois, ao receber a sua cópia do single para ouvir, Slash percebeu que Axl simplesmente havia sorrateiramente limado a sua gravação do solo, e colocado no lugar um outro, gravado por Paul Tobias, do jeito que ele queria. É isso aí, era o fim do Guns original. E Axl, agora sozinho e carregando legalmente o nome 'Guns N' Roses', tentaria arregimentar um sem-fim de músicos, e seguir adiante com sua louca cavalgada rumo a algo chamado Chinese Democracy... 

Chinese Democracy

 

10 -  A EPOPEIA SINISTRA DE 'CHINESE DEMOCRACY'

Os 12 anos que separam a concepção desse disco (em 1996), de seu efetivo lançamento (2008) já constituem uma dos mais famigerados e bizarros conjuntos de lendas e histórias peculiares na história da música. O "eternamente adiado" álbum do Guns N' Roses é, na verdade, muito mais um projeto solo e pessoal de Axl Rose, como muitos consideram (eu incluso). Existem bons momentos, como em "Madagascar", "Catcher in the Rye", e mesmo na faixa-título. Mas são tantas camadas de guitarras e teclados, tanta batida eletrônica embolada e misturada junto num bolo de instrumentos diversos, que tenta emular algo próximo do que passou a ser conhecido como "nu metal", que a coisa toda ficou meio descaracterizada, não tem realmente muito a ver com o som original dos Guns N' Roses. Foram tantos gastos, entra-e-sai de músicos contratados, mixagens e remixagens, e substituições de takes, que Chinese se tornou, com facilidade, uma das maiores piadas do mundo do rock durante um bom tempo. A data de lançamento foi anunciada e alterada praticamente umas 7 vezes. De guitarrista doidão e obcecado com galinhas, que cobria sua cabeça com um baldinho da rede Kentucky Fried Chicken e montava galinheiros no estúdio (o bisonho Buckethead), a confusões de Axl com a lei nas poucas vezes em que saía de seu longo período de reclusão (prisão por insulto a funcionários num aeroporto em Phoenix, Arizona, em 1998, e multas e apreensão de veículos por excesso de velocidade e som alto), uma série considerável de fatos turbulentos decorou a trajetória da obra até o seu lançamento. Com a sua nova "formação", o grupo de Axl realizou alguns acidentados shows e  mini-turnês (incluindo uma memorável participação no Rock in Rio 3 aqui no Brasil, em 2001), mas nada que chegasse aos pés da banda original, em sua fase áurea. Para ver novamente o Guns com Axl e aquele guitar man de cartola e cigarrinho no canto da boca, no palco, seria só de 2016 em diante, após a bandeira da paz levantada entre Axl e seu velho parceiro Slash...


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TERRA DAS DAMAS ELÉTRICAS: A GÊNESE DE UMA OBRA-PRIMA

  Qualquer vivente que entenda ao menos um pouquinho de música com mais profundidade sabe reconhecer a tremenda e vital importância que um n...