Durante o período em que escrevo este texto, ocorre o famoso Rock in Rio 2026, entre os dias 4 e 13 de setembro deste ano, no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro, com uma escalação dos mais variados artistas (muitos não-rock, como todos sabem), transmitido e comentado por diversos canais midiáticos, e que ao longo de todo o evento, traz uma inevitável constatação: rock se tornou só um nome, um motivo, uma lembrança de algo que já foi. Quem se recorda das edições antigas, aquelas primeiras, sabe muito bem do que estou falando. Essas mais recentes viraram produto de comércio pasteurizado, domesticado, evento de shopping center generation que se perfaz em pastiche digital pra selfies e sites de trivialidades, com muito playback no palco e apresentações absolutamente pífias e esquecíveis. E tudo numa carestia só de dar medo.
Estou sendo radical? Talvez. Mas não sou o único a enxergar dessa forma. Assim como não sou o único a sustentar que, um dia, "esse tal roquenrou" já foi mais autêntico, mais nervoso e revoltado, de chão poeirento e proximidade com as massas, e bem mais ligado em situações que clamavam por grito e impacto. O rock, quem diria, já ofereceu perigo e já foi símbolo de rebeldia. Já foi arma de protesto social.
A seguir, só pra relembrar, 10 hinos históricos desses momentos em que empunhar uma guitarra era como levantar uma bandeira, ou carregar uma metralhadora. Tempos em que abrir a boca para cantar algumas letras equivalia a conclamar a galera para arregaçar as mangas, e ir pra rua lutar por alguns direitos.
- BLOWIN' IN THE WIND (Bob Dylan, 1962)
O grande hino que fez Dylan estourar de popularidade, lançada em seu segundo LP e depois regravada por vários artistas à exaustão, foi a primeira de várias composições próprias dele que surgiu num instante de epifania, em que ele jorrou as palavras sobre o papel com o violão ao lado, envolto por um clima opressivo em que a Guerra Fria entre EUA e a antiga União Soviética (hoje Rússia) estavam à beira de um conflito nuclear, com a crise dos mísseis na Baía dos Porcos de Cuba, e o globo terrestre todo com a sensação de que tudo podia ir pelos ares. Foi nesse contexto abrasivo que o cantor/compositor, egresso de uma tradição cara aos antigos menestréis folk norte-americanos (como Leadbelly e Woody Guthrie) surgiu com essa bela mensagem de tom pacifista, sobre a incerteza e passividade da humanidade diante das guerras. Fica na memória o marcante trecho dos versos finais: "How many years must one man have / Before he can hear people cry? / How many deaths will it take till he knows / Too many people have died?" (Quantas orelhas um homem precisará ter / Antes que possa ouvir as pessoas chorarem? / Quantas mortes ele causará até saber / Que pessoas demais morreram?).
- MR. YOU' RE A BETTER MAN THAN I (The Yardbirds,1965)
Composta pela dupla de músicos e compositores britânicos Mike e Brian Hugg (participantes do grupo Manfred Mann), e originalmente gravada pela banda The Yardbirds (com Jeff Beck) como faixa de abertura de seu álbum Having a Rave Up (1965), esta é uma das primeiras e mais contundentes canções pop da década de 60 a escancarar questões como o racismo, hipocrisia a respeito das roupas e aparências, e diferenças de cor e religião na sociedade consumista da época. Com uma abordagem pesada, que elevava os arranjos dos Yardbirds como uma das mais inovadoras bandas de seu tempo, com os solos fuzz distorcidos de Beck, e o andamento ora lento, ora agressivo da música, se tornou um dos maiores sucessos do grupo, e cravou na eternidade versos como: "Could you condemn a man / If your faith he doesn't hold? / Say the colour of his skin / Is the colour of his soul?" (Você poderia condenar um cara / Se a sua fé não é a que ele professa? / Dizer que a cor de sua pele / É a cor de sua alma?).
- I FEEL LIKE I'M FIXIN' TO DIE RAG (Country Joe & The Fish, 1967)
Joseph Allen McDonald, mais conhecido como Country Joe, formou a banda The Fish em meados dos anos 60, que a partir de temporadas de shows universitários em lugares como Berkeley, na California, e demais palcos da época, se tornou uma queridinha dos protestos juvenis em prol dos direitos sociais e, como se tornaria febre na época, contra o envolvimento dos EUA no conflito do Vietnam. Em seu segundo disco, lançado em 1967, a icônica faixa de abertura (que também dava nome ao vinil) se transformou em uma espécie de hino dessa revolta, e seria cantada em uníssono por ele e uma multidão hippie no lendário festival de Woodstock, de 1969: "Feel Like I'm Fixin' to Die" é uma ode irônica e sombria ao espírito patriótico dos pobres coitados que iam dar sua vida pelo Tio Sam nos matos do Camboja.
- UNKNOWN SOLDIER (The Doors, 1968)
A Guerra do Vietnam, como pode ser visto, foi o fermento para aquele que seja talvez o maior número de canções de protesto do rock, por alguma causa - não menos do que quatro delas estão aqui, nesta lista. E a soturna contribuição dos Doors, de Jim Morrison, como não poderia deixar de ser - uma banda que tinha intimidade com temas obscuros e relacionados a medo, morte e paranoia - é uma amarga elegia aos soldados que perdiam sua vida nos campos de batalha, sem ao menos terem seus nomes reconhecidos. Um polêmico videoclipe foi produzido pelo grupo quando do lançamento na época, prontamente censurado na televisão norte-americana. Mas a mensagem era clara, e o protesto já estava ali, feito, ao que a música se tornou um inevitável sucesso entre os fãs da banda. A simulação de fuzilamento, encenada por Morrison no vídeo, chegava a ser reproduzida ao vivo por eles em algumas de suas famosas apresentações (como no Hollywood Bowl, em 1968).
- STREET FIGHTING MAN (The Rolling Stones, 1968)
Maio de 68. As revoltas estudantis em Paris. Os protestos raciais nos EUA, com Panteras Negras e o caramba. Nos países da América Latina as ditaduras comendo, AI-5 com prisão e pancadaria pra tudo quanto é lado. Morte, tortura, sangue nas ruas... Foi nesse contexto caótico que os Rolling Stones, sempre antenados em seu tempo, urdiram aquela que é a canção anarquista por natureza do rock: "Street Fighting Man" simplesmente joga na cara do ouvinte a desilusão jovem com a sociedade, aquele sentimento puro de rebeldia e contestação de quem percebe que é tudo um jogo de cartas marcadas, e que nada do que os políticos pregam ou fazem melhora a realidade social, muito pelo contrário. E aí vem aquele refrão venenoso, resmungado com a habitual displicência por Mick Jagger: "But what can a poor boy do / Except to sing for a rock 'n roll band / 'Cause in sleepy London town / There's just no place for a street fightin' man" (Mas o que um rapaz pobre pode fazer / A não ser cantar numa banda de rock / Pois na Londres sonolenta / Simplesmente não tem lugar para um lutador das ruas). Clássico.
- MACHINE GUN (Jimi Hendrix, 1970)
O maior guitarrista de todos os tempos já havia feito da sua rendição ao hino nacional norte-americano ("Star Spangled Banner"), ao vivo em Woodstock 1969, uma eloquente forma de protesto contra a Guerra do Vietnam. Mas alguns meses depois, ele efetivaria, com o suporte de seu novo grupo de apoio Band of Gypsys, aquela que seria considerada, talvez, o seu magnum opus a respeito do conflito: "Machine Gun", quase um stoner rock monolítico puxado por um riff sombrio e hipnótico, onde Hendrix e sua guitarra também emulavam sons psicodélicos de gritos, tiros de metralhadoras, ruídos de helicópteros e rugidos assombrosos da selva vietcongue, em longas jams que às vezes atingiam os vinte minutos de duração nos shows. É um protesto tenebroso e assustador, uma das melhores traduções, em forma de música, dos horrores vividos na guerra.
- WAR PIGS (Black Sabbath, 1970)
E os pais do heavy metal também aderiram aos protestos contra a Guerra do Vietnam! Em seu segundo e celebrado disco, que traria a consagração definitiva ao grupo (Paranoid, 1970), o mítico combo formado por Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward elevava à condição de obra-prima uma pedrada semi-progressiva, baseada em ritmo marcial e várias mudanças de andamento, com uma das letras mais cruas e agressivas já feitas sobre a hipocrisia da guerra, criticando os generais que mandam jovens para morrerem nos campos de batalha, enquanto ficam manipulando tudo confortáveis em seus escritórios, como se estivessem jogando com peças num tabuleiro de xadrez. Além dos vocais sorumbáticos de Ozzy, lá estavam os solos viajantes e diabólicos de Iommi para deixar tudo ainda mais tétrico e marcante. Uma das peças fundamentais da banda em sua fase mais épica, até hoje relembrada, reproduzida e reverenciada diversas vezes.
- ANARCHY IN THE UK (Sex Pistols, 1976)
Final da década de 70, e no mundo inteiro a crise do petróleo e uma recessão econômica braba assolavam as economias de todos os países. Na Europa, e especialmente no Reino Unido, não foi diferente: cenário depressivo, desemprego e inflação, o caldeirão fervente ideal para a eclosão de um movimento caótico de jovens revoltosos, cheios de indignação contra o establishment, a família real britânica, os políticos, a TV, a música pop, e os astros já bem estabelecidos da época, enfim, aquela revolta básica contra tudo quanto há. Atmosfera perfeita para o surgimento da gangue de Johnny Rotten (o Joãozinho Podre), uma molecada magricela e decadente, cheia de alfinetes nas roupas, cabelos arrepiados e jaquetas de couro, com dentes sujos e berrando impropérios contra a Rainha Elizabeth. Eram os Sex Pistols, com o seu single de estreia. Eis que, direto do submundo de Londres, explodiu nas paradas essa "Anarchy in the UK", que pregava o apocalipse em plena capital inglesa, e tirava sarro da monarquia e da burguesia. O punk tomou o mundo, e o rock nunca mais foi o mesmo.
- WHITE RIOT (The Clash, 1977)
Na esteira dos Sex Pistols e inúmeras outras bandas punk, veio a mais politizada, e mais bem concatenada musicalmente, também. Capitaneados pelos vocalistas e guitarristas Joe Strummer e Mick Jones, o Clash foi a voz mais ativa do proselitismo punk, com álbuns clássicos e ferozes (como London Calling, de 1979, e Sandinista, 1980), que atiravam para todos os lados, reclamando de tudo e tocando o dedo na ferida dos programas políticos ingleses e europeus (sobretudo episódios como os conflitos contra a Irlanda e a Guerra das Malvinas). A primeira música deles lançada em compacto, a nervosa "White Riot", já chegava metendo o pé na porta com polêmica: tida como racialmente controversa por alguns, era uma conclamação sem reservas de Strummer e cia. para que os jovens ingleses brancos e acomodados criassem vergonha na cara, pegassem em armas, e fossem pra rua, assim como os Panteras Negras e outros movimentos já haviam feito na América.
- CALIFORNIA ÜBER ALLES (Dead Kennedys, 1979)
Já na onda do punk americanizado do final dos 70 e início dos anos 80, os Dead Kennedys do lendário Jello Biafra foram os que mais abalaram as estruturas da era Reagan e políticos conservadores republicanos nos EUA da época. Com o seu lendário single "California Über Alles", que faria parte de seu álbum de estreia, Biafra cantava uma alegoria zombeteira sobre as ideias do então governador da California, Jerry Brown, a respeito dos Estados Unidos - e idealizando um bizarro cenário neonazista, onde ele se torna uma espécie de novo führer da nação no ano de 1984 - justamente numa conexão paralela com o romance de George Orwell sobre o totalitarismo do Big Brother, 1984. Foi farpa e tentativa de boicote contra os Dead Kennedys pra tudo quanto é lado. Mas junto com a polêmica, vem a aclamação geral: eles instantaneamente se tornaram uma das maiores e mais celebradas bandas punk rock de todos os tempos.
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