Quando foi lançado, há 60 anos atrás, Django, de Sergio Corbucci, chocou muita gente. Era a primeira vez que o Velho Oeste era mostrado de uma forma tão crua e miserável. O protagonista era sujo e esquisito, o cenário era todo barrento e desolador, e havia estrume por todo o lugar. O protagonista andava por aí arrastando um caixão, com um clima estranhamente lúgubre desde o início do filme, havia um bando de prostitutas decadentes de um saloon pra lá de fuleiro onde ele dava as caras, uma delas insistia em acompanhar ele depois que ele fez uma graça pra ela, e os bandidões da trama eram os piores que poderia haver, um bando de meliantes que o próprio capeta teria medo de encarar.
Escalado para o trabalho sujo, estava o cara perfeito: Franco Nero, ainda novinho e rumo ao estrelato, com um par de olhos azuis e cara de mau pra marcar presença firme na tela e arrepiar a gurizada dos bangue-bangues à italiana da época. Falava pouco e tinha barba por fazer, além de carregar naquele caixão maldito uma surpresinha desagradável para os desafetos, prestes a mandar meio mundo de gente para a 'terra-dos-pé-junto'.
Na trama do filme, tão típica do gênero, tudo gira em torno de uma carga de ouro roubada de um forte no México e que é cobiçada por todos, sendo que o protagonista Django (Nero) é um audacioso ex-soldado da União (Guerra da Secessão), que se envolve com a meretriz Maria e, ao chegar em um vilarejo quase fantasma, participa da disputa entre os camisas vermelhas do general Jackson e bandidos mexicanos liderados pelo general Hugo Rodriguez - todos pretendem dizimar uns aos outros para ficar com o ouro. Há ainda, no meio de tudo, a famosa vendetta, uma situação de vingança pessoal entre Django e Jackson, já que este matara algum tempo antes a sua namorada, e isso vai influenciar nos acontecimentos seguintes, até o explosivo e decisivo final do filme, uma conclusão épica e sempre lembrada como uma das mais tensas e angustiantes cenas de tiroteio em um cemitério do faroeste.
O filme guarda algumas curiosidades hoje pouco lembradas por quem é mais novo.
Corbucci, um dos mais renomados diretores do gênero spaghetti western, foi convocado pelo produtor Manolo Bolognini para aproveitar o filão de fitas de sucesso inaugurado dois anos antes por Sergio Leone, com o seu também clássico Por Uns Dólares a Mais, estrelando o pistoleiro sem nome de Clint Eastwood. Corbucci, fã do clássico filme japonês Yojimbo, de Akira Kurosawa, que também havia inspirado a produção de Leone, já tinha em mente um argumento baseado em pistoleiros passando a perna uns nos outros para ficar com um carregamento de ouro, ao mesmo tempo em que sempre tinha em mente um personagem que ele vira uma vez em uma história em quadrinhos de uma banca de jornal na Via Veneto, em Roma, que arrastava um caixão consigo onde guardava um terrível segredo. Ele passou a desenvolver o roteiro em parceria com seu irmão, Bruno Corbucci, até chegar ao desenvolvimento do personagem.
É interessante saber que a trama foi desenvolvida pelos dois sendo escrita de trás para frente: ou seja, o argumento original começa justamente com a famosa cena do tiroteio no cemitério. Como quem já viu o filme sabe - e aqui vamos evitar muitos detalhes para não entregar spoilers a quem ainda pretende ver o filme - o problema que Django apresenta nas mãos na tal sequência foi o que inspirou Sergio e seu irmão a batizarem o personagem com esse nome, visto que Django Reinhardt era um guitarrista muito celebrado e de grande sucesso na época, apesar de conseguir tocar mesmo tendo um problema de paralisia permanente nos dedos de sua mão esquerda.
Outro detalhe curioso é que as máscaras utilizadas pelo bando dos camisas vermelhas de Jackson tem o seu visual inspirado em reportagens sobre a Ku Klux Klan, que Sergio lera em jornais da época.
A trilha sonora do filme é outro ponto marcante, tendo sido composta pelo maestro Luis Bacalov - sempre considerado como um dos grandes a fazer frente ao compositor Ennio Morricone que trabalhava com Leone. Além das melodias melancólicas que dão um tom ainda mais pessimista à trama do filme, ele recomendou o uso de uma canção-tema, que dá título ao filme e ao personagem, que seria composta por Franco Miggiacci e Robert Mellin, e cantada em inglês por Rocky Roberts.
46 anos depois, essa mesma canção, na mesma gravação, surgiria novamente de forma retumbante, em um filme que, apesar de não ter nada a ver com a trama original de Corbucci, aproveitaria o nome de seu grande personagem como uma forma exótica de render tributo ao gênero dos faroestes espaguete: Django Livre (2012), do fã e cineasta Quentin Tarantino, trazia não só o tema tocando em sua abertura, como também uma ponta de Franco Nero em uma das cenas, contracenando com o "Django contemporâneo", um ex-escravo convertido em pistoleiro brutal, papel de Jamie Foxx.
Mas um dos maiores êxitos dos westerns produzidos na Itália em todos os tempos, o Django original de 1966 continua sendo uma epopeia incrível de sangue, tiros e morte, rendeu diversas imitações e falsas continuações (que nada tem a ver com o original), faturou cerca de 1 bilhão de libras só na Europa, e permanece como uma das maiores obras-primas do gênero, absurda de violenta, e daquelas que sempre dá vontade de reassistir.
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