Obra impagável continua sendo Muito Além do Jardim (Being There, 1979), brilhante filme de Hal Ashby (um dos últimos grandes mestres do movimento 'New Hollywood'), e com a inesquecível e tocante interpretação de Peter Sellers no papel principal, de Chance, o jardineiro. Seria a atuação mais celebrada do final de sua vida (ele morreria no ano seguinte, em 1980), e a última pela qual concorreu ao Oscar de melhor ator - ele já havia sido indicado em 1964, pelo fenomenal Dr. Fantástico, de Kubrick (leia sobre aqui). Infelizmente, em nenhuma das ocasiões, Sellers levou a estatueta. Mas pelo menos por essa derradeira nomeação, merecia. Belíssima homenagem que teria sido, para coroar sua carreira.
O filme, com roteiro do renomado escritor Jerzy Kosinski, foi baseado no livro homônimo do mesmo, Being There (no Brasil, O Vidiota), lançado com sucesso em 1971, e ambos se estabelecem como uma das mais veementes e concisas críticas aos absurdos da distorção de comunicação e suas consequências, no mundo moderno cada vez mais aloprado.
A trama explora a história de Chance, um jardineiro/caseiro de meia idade que nasceu e passou a vida inteira na mansão de um ricaço em Washington D.C., mas que então falece, e não deixa nenhuma herança ou instrução para o pobre coitado continuar morando ali. Importante frisar que Chance nunca pôs os pés pra fora daquele lugar e não tem experiência de vida ou instrução educacional nenhuma, é praticamente um retardado cujas únicas informações a respeito do mundo vieram de sua existência inteira assistindo e retendo tudo o que passava no seu único mentor e companheiro até ali: o aparelho de TV. Então, quando a equipe de advogados do espólio do patrão morto consegue pôr ele pra fora da mansão, ele, em sua absoluta ingenuidade misturada com ignorância, sai andando pela cidade carregando uma mala com seus pouquíssimos pertences, e o controle remoto da televisão - acreditando que através daquele simples utensílio, ele conseguirá "mudar o canal" e alterar a realidade que o cerca.
O que aparentemente salva esse sujeito errante, sem eira nem beira ou ideia nenhuma, é aquilo que inicialmente pode ser considerado um pequeno acidente, mas que irá mudar a sua vida, e todos os rumos da história do filme: a esposa de um empresário ricaço e extremamente influente, Eve Rand (interpretada por uma Shirley MacLaine muito bela, em fase iluminada de sua carreira) esbarra o carro em Chance, e sentindo remorso pelo ocorrido, se predispõe a ajudá-lo, levando o mesmo para casa ao invés de um hospital. É aí que o plot dá aquela virada.
Uma certa candura e leveza no jeito de Chance se comportar e se expressar, aliadas à sua grande calma e silêncio ao se relacionar com as pessoas de um círculo social mais elevado, dali em diante, passa a ser encarada por todos ao seu redor, como uma fascinante atitude reflexiva e analítica - mas isso simplesmente por ele não ter nada mesmo o que expressar, devido à sua estupidez! E o grande achado de tudo: quando finalmente Chance abre a boca para falar ou dar suas opiniões sobre alguma coisa, ele simplesmente usa citações de alguns dos incontáveis e imbecis programas de TV que ele acompanhou a vida toda. Mas que, no contexto em que são usadas, acabam se encaixando exatamente no assunto que é abordado (e muitas das vezes, muito mais por uma forçada de barra de quem está interpretando o que ele disse, do que por qualquer coerência aparente).
Assim, o marido de Eve, o magnata Benjamin Rand (Melvyn Douglas, fantástico) - que logo veremos, ficará moribundo - se torna também um grande fã e admirador de Chance, assim como várias pessoas, chegando a apresentá-lo ao presidente dos EUA (Jack Warden)... que também se rende aos seus "pensamentos". Alguns jornalistas mais sagazes chegam a desconfiar da farsa que Chance é, tentam revirar e descobrir o seu passado, saber de onde veio. Mas já é tarde demais. De repente, ali já está nascendo um novo guru existencial e midiático, do qual todos esperam algum conselho, algum pensamento ou citação "iluminada". E a quem os Rand logo tratarão de reservar um grande lugar no futuro.
É um enredo sensacional, na forma como se desenvolve e disseca as terríveis armadilhas dos paradigmas da comunicação - o que ela é realmente, e como se subverte de formas tão imperfeitas e bizarras, a ponto de transformar tolos em gênios, ordinários em ídolos (mitos)? As delicadas e intrincadas engrenagens do poder, também bastante explicitadas no roteiro de Kosinski e na excepcional direção de Ashby - um iconoclasta e crítico social dos mais ácidos, por natureza - fazem parte aqui de uma brilhante análise sobre como também as conveniências moldam figuras que devem servir a propósitos muito maiores do que se pode imaginar. Em outras palavras: como de fato temos "vidiotas" (o termo na época se aplicava a vídeo ou TV, hoje poderíamos dizer internet), pessoas com conteúdo zero ou quase nenhum, mas que podem passar por uma manipulação ou interpretação social, para assumirem um lugar de destaque no meio. Se parar pra pensar, acontece muito, hoje em dia. O filme e livro Being There anteviu tudo isso, sagazmente.
O icônico desfecho, em que Ashby peitou e entregou, muito a contragosto do estúdio, um dos mais enigmáticos finais da história do cinema (representado na foto que abre essa postagem) parece querer nos dizer, atrevidamente, que até mesmo figuras messiânicas podem ser avatares da manipulação e dos jogos de interesses. Há uma mensagem muito interessante decodificada ali, que pressupõe diversas teorias, e de que até mesmo o oculto funciona melhor trabalhando com a confusão da informação.
Nunca é demais lembrar a outra grande ironia do texto, que é o nome do protagonista: Chance, ou seja, "chance" ou "oportunidade", esse cara realmente tem tudo para ir longe, apesar de todas as suas limitações. E quando vemos em uma cena, ocorrida um pouco antes do final, uma referência à possibilidade dele assumir a mais alta liderança de tudo, no país e no mundo, cercado por um cenário fúnebre, que mais lembra templos típicos de sociedades secretas, com os seus símbolos e rituais, e os diversos grupos de interesses a adular e projetar sobre ele os seus planos, é realmente de se pensar: mas que raio de filme profético e atual é esse.
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"Muito Além do Jardim" é sobre alguém desprendido do mundo sistemático enquanto os demais já estão mais do que perdidos e presos em suas próprias ambições e o que fazem se tornarem menos humanos.
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