Não é segredo pra ninguém, especialista ou estudioso sobre o mundo artístico pop, que a década dos anos 1970 foi "a década" de um rapaz loirinho e magricelo, com as pupilas diferentes de um olho para o outro por causa de uma briga de escola na adolescência, e que simplesmente reinventou o modo de se expressar, apresentar e personificar as mudanças de uma nova era que ali estava: David Robert Jones, mais conhecido como David Bowie (1947 - 2016).
Por mais que tenha tido os gigantes do rock pauleira caminhando sobre a terra (Led Zeppelin), os progressivos megalomaníacos da vida (Pink Floyd e outros), e as revoluções do punk e da disco music (Sex Pistols e Bee Gees, quase que lado a lado no mesmo período, abalando as estruturas), não há como negar: para muitos sobreviventes daqueles loucos anos, quando se pergunta "os anos 70 tem cara de que?", milhares vão falar: "cara de David Bowie".
Bowie se inventou, reinventou, e se reciclou diversas vezes ao longo da carreira, a ponto de merecer melhor do que ninguém a alcunha de "camaleão do rock", mas há um consenso geral de que a essência, o período mais prolífico de sua trajetória, foi mesmo nos anos 70, quando ele descobriu que podia ser vários 'personagens' (e ninguém, ao mesmo tempo), incorporando essas mudanças tanto musicalmente (as diversas mudanças de rota em sua música, ao longo dos anos), bem como poeticamente (as letras, inóspitas e viscerais, que continham observações certeiras sobre as mudanças sociais e de comportamento de toda uma geração).
E aí o interessante é quando a gente contrasta essa figura histórica e icônica com "o lado de baixo do lado de cá", o nosso pedação de planeta tropicaliente, pradarias brazucas, o Brasilzão... Você sabia que, apesar de nos anos 60, a febre dos Beatles (a Beatlemania) ter sido tão forte por aqui quanto em outros países lá fora, já nos anos 70, a Bowiemania - um intenso momento convulsivo pop, de grande alarde e avassalador, tanto nos EUA quanto na Europa - não foi tão lá essas coisas aqui entre nós?
Existem algumas hipóteses plausíveis para isso, hoje analisadas à luz do tempo, e além de pontuarmos algumas circunstâncias sobre a questão, vamos ainda comentar sobre as duas únicas vindas de Bowie ao Brasil para shows ao vivo. Nosso país ainda teve, pelo menos, o privilégio de receber o camaleão em duas oportunidades (1990 e 1997), antes de sua partida para outro plano, em 2016.
A repressão militar
Quando Bowie alcançou o megaestrelato, com o sucesso mundial do personagem e disco 'Ziggy Stardust' (1972 - para o Brasil, 1973, ano em que saiu por aqui), versando sobre a história de um alienígena que chega a Terra e se torna um rockstar - um verdadeiro fenômeno que poderia ser considerado o primeiro evento multimídia do rock, com shows que se misturavam a performances teatrais dele e de sua banda -devemos nos lembrar que o Brasil atravessava o período mais casca grossa da ditadura militar. Naquela época, "furar a bolha", ainda mais com um visual tão andrógino e transgressor como o que ele apresentava, com o seu personagem alienígena "que tocava guitarra com a mão canhota", era coisa para os fortes, bem tensa mesmo. Tinha que rolar um apoio fortíssimo da mídia, que nem sempre era condescendente. Para se ter uma ideia, o grupo Secos e Molhados, talvez um dos nossos maiores sucessos pop rock daqueles tempos, só conseguiu se impor graças a uma massiva divulgação da Rede Globo de Televisão, com clipes e a exposição do grupo na abertura original do programa Fantástico. Mesmo assim, sumidades como o falecido apresentador Chacrinha se manifestavam contra aquele visual e aquelas atitudes (danças e gestos considerados obscenos, e de tendências homossexuais). Em sua coluna em um jornal da época: "Esses garotos do Secos e Molhados, especialmente aquele cantor deles (Ney Matogrosso) tem um visual muito do bichano". O preconceito e o conservadorismo, aliados à confusão da própria gravadora (como veremos logo adiante), atrapalharam um pouco o lançamento e a divulgação do primeiro trabalho mais vigoroso e consistente de Bowie como artista, por aqui.
A desorganização das gravadoras
Golden Years (1976)
A "primeira turnê" frustrada
Bowie quase veio se apresentar no Brasil, em uma de suas fases áureas! Era para ter sido em 1974, época do trabalho de divulgação de seu álbum 'Diamond Dogs' e do hit "Rebel Rebel", e registros em suas biografias e diários mostram que realmente aconteceram negociações sérias para isso, mas que, infelizmente, não foram para frente. Ao invés disso, quem é que veio naquele ano? Alice Cooper, com suas cobras amestradas e show de horrores, no palco do Anhembi... no primeiro grande show internacional de rock em terras brasileiras. E acabou ficando mais popular do que Bowie por aqui. Talvez, se Bowie tivesse realmente vindo, fosse diferente. Mas... passada mais uma década, na outra finalmente o camaleão aportaria aqui.
Bowie in Brazil
A primeira apresentação foi na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro, seguida então de três shows em São Paulo: dois no Parque Antártica e um no extinto Olympia. É interessante notar que, nessa época, o grupo brasileiro de rock Nenhum de Nós havia estourado nas rádios justamente com uma versão para a clássica canção de Bowie, "Starman", do álbum 'Ziggy Stardust', rebatizada por eles de "Astronauta de Mármore". Alguém se lembra?
Como o Bowie de eras mais passadas era mais desconhecido por aqui, e o setlist da turnê se baseava maciçamente em sua fase mais setentista, foi interessante quando ele anunciou em um dos shows de SP, mediante a reação morna da plateia a vários sucessos mais antigos: "Agora essa que vou cantar vocês conhecem em português", e emendou com "Starman". Que coisa braba.
Além dessa, o repertório dos shows dispensava sucessos mais recentes do camaleão, em prol de uma saraivada de clássicos e obras-primas que vinham da fase mais catártica de Bowie: "Jean Genie", "Rebel Rebel", "Station to Station", "Rock and Roll Suicide", "Heroes", e várias outras. Quem conhecia, e sabia o que era, aproveitou - foi a tirada de atraso perfeita dos shows que o cara poderia ter realizado antes aqui, nos anos 70. Um desses shows, o da Apoteose no Rio, foi apresentado pela Rede Globo na época, numa versão editada, e está disponível ainda no YouTube, num link que disponibilizamos aqui no final da matéria.
E então, lá por volta de 1997, promovendo a tour do álbum 'Earthling', o cara vem de novo, só que dessa vez, com um repertório mais variado e azeitado de novidades e músicas dos discos mais recentes. O público, também, já reagia de outra forma: sete anos depois, de avanços do compartilhamento de músicas na web, MP3 e internet, deram uma turbinada na galera mais jovem, e reavivaram a memória dos mais velhos, que a partir daí já estavam todos a par da verdadeira fileira de hits e pérolas consagradas de Bowie. Dessa vez, foram três apresentações durante novembro daquele ano, em Curitiba, São Paulo e Rio.
Foi a última vez que ele pisou por aqui, e fez história.
* - Gostaríamos aqui de agradecer e citar o autor e blogueiro Emílio Pacheco, um especialista em David Bowie no Brasil, e sem o qual diversas informações nesta postagem não teriam sido possíveis. Visitem aí o blog dele: http://emiliopacheco.blogspot.com/
** - Errata apontada pelo Emílio Pacheco, antes havíamos citado que ambas as músicas haviam feito parte de trilhas sonoras de novelas da Rede Globo. Valeu pelo toque, Emílio!
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