quarta-feira, 22 de abril de 2026

O APOCALIPSE DA IMPRENSA (E DA HUMANIDADE), SEGUNDO LUMET

 


"Olá, eu sou Diana Christensen, uma racista escravizadora do circo imperialista."
"E eu sou Laureen Hobbs, uma nega barra pesada e comunista."

- Falas das atrizes Faye Dunaway e Marlene Warfield, no filme 'Network' (1976)


Nunca é demais lembrar de uma obra-prima do cinema, ainda mais quando se aproxima o seu aniversário de 50 anos, e aqui estamos falando do emblemático Network - Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, originalmente lançado em novembro de 1976. 

Naquele distante ano, o filme polemizou e dividiu opiniões, muito por conta do seu pretensamente exagerado humor negro, ao tratar das relações dúbias e nada éticas entre profissionais nos bastidores de um canal de TV, comandado por um grande conglomerado corporativo. Ainda assim, conseguiu grande aclamação, sacramentada a seguir com os Oscars de Melhor Atriz, para Faye Duanaway como a calculista e ambiciosa Diana, Melhor Ator, para Peter Finch, Melhor Atriz Coadjuvante, para Beatrice Straight - por uma das atuações mais rápidas e poderosas da história do cinema, 5 minutos e pouco de fala, emoção e pura perfeição dramática - e Melhor Roteiro Original, para o brilhante Paddy Chayefsky.

Todos prêmios certeiros e merecidíssimos, aliás, em que não dá nem para comparar se um se sobrepõe ao outro. Sintomas de uma época em que o Oscar realmente ia para seus verdadeiros merecedores, com mais feeling e menos política. Mas, isso é um outro assunto...

Basicamente, o que vemos em Network é um dos mais completos estudos modernos sobre a mesquinharia humana em seu mais alto grau, num meio de comunicação que luta por audiência a qualquer custo, ocasionando a deterioração dos relacionamentos e a inevitável decadência da coerência, independência e dignidade da atividade jornalística como expressão da autenticidade. Situação que, a bem da verdade, pode parecer datada em um primeiro momento (por se tratar do veículo 'televisão'), mas pasmem, é mais atual do que nunca: basta fazer um pequeno exercício de transposição para a realidade da web. Quantas vezes você já se deparou com o jornalismo que não é mais jornalismo, em que não dá mais para confiar? Que virou comércio, propaganda, ou escândalo. 'Clickbait' e 'like', e que é como nas palavras ditas pela personagem Diana, a certa altura: "toda notícia tem que ter um pouquinho de show". Quais são os interesses por trás de tantas "manchetes" estranhas e tendenciosas, parciais e alusivas a opiniões? Sim, Sidney Lumet e seu filme previram muito mais do que poderíamos imaginar.

Peter Finch, em Network (1976)

A história trata, portanto, do verdadeiro apocalipse da imprensa (e da própria raça humana), em que Lumet, ao trabalhar com esmero a deliciosa trama de Chayefsky, se põe a nos contar as agruras de Howard Beale (Peter Finch, magistral), pobre diabo que, de âncora prestes a ser demitido de seu telejornal, que amarga baixos índices de audiência, de repente é acometido de uma epifania, que o leva a simplesmente "desabafar" espontaneamente, ao vivo no telejornal, tudo o que pensa sobre a sociedade em seu programa, sem filtros, logo se tornando um fenômeno midiático sem precedentes - entrou para a história da sétima arte o seu messiânico sermão: "Eu estou louco pra caramba e não vou mais aturar isso!". Nos EUA daqueles dias cínicos de 1975-76, repletos de inflação, caos econômico, violência e desemprego, com crise do petróleo, Watergate e a ressaca do Vietnam impregnando seus odores no ar, estava na cara que um doidivanas feito Beale, desencadeando esse grito primal na população, iria causar. Era o berro de indignação e revolta dos que se sentiam enganados pelo "sonho americano", e que agora estavam na panela de pressão. Conexão total com o zeitgeist.

Faye Dunaway

Obviamente que, em sua gana para faturar com a nova (e inesperada) sensação da telinha, os executivos do canal - e especialmente a ambiciosa chefe de programação Diana (Faye Duanaway) - vão fazer de tudo para explorar esse filão do "profeta louco" encarnado por Beale, sem prever as consequências que podem vir adiante.

Essas sequências são hilárias, e o filme todo é uma comédia dramática extremamente sarcástica, carregada nos tons realistas: em sua gana por audiência, Diana estimula as atrações de caráter duvidoso, o sensacionalismo, e chega ao cúmulo de financiar programas de TV com grupos terroristas - a cena dela com a personagem supremacista Laureen Hobbs, mencionada no diálogo que abre esse post, é um primor de desmistificação das ideologias como nunca se viu; o executivo Frank Kackett (excepcional atuação do sempre grande Robert Duvall) é a melhor representação dos interesses vis e voláteis de empresários no ramo das mídias; e a pequena mas decisiva aparição do chefão do grupo que controla o canal de TV, Arthur Jansen (Ned Beatty, soberbo) simplesmente prepara um plot twist que é capaz de atiçar todos aqueles que teorizam sobre a "nova ordem mundial" (pois é, ela também está no filme).





Obrigatório ainda citar aqui o outro protagonista do filme, ao lado do personagem de Finch, que é o seu amigo e chefe de jornalismo, Max Schumacher, desempenhado com as habituais maestria e elegância pelo gigante William Holden - naquele que pode, facilmente, ser considerado como o seu último grande papel, antes de falecer (em 1981). É uma atuação que diante das outras que foram laureadas fica até meio esquecida por muitos, mas é justamente a que dá base e sustentação a toda a trama do filme, incluindo a sua narração em off

William Holden

É Holden que faz escada para a atuação primorosa e oscarizada de Beatrice Straight, sua esposa no filme, naquele que é um dos mais dolorosos e bem feitos diálogos de casal em crise já filmados em Hollywood. É ele que garante a visão ainda humana e moral, sentimental e com o olhar cheio de perplexidade, diante de todos os desvarios a que os demais personagens da trama vão se entregando, observando complacente as suas descidas ao inferno. A sua dobradinha com a personagem de Faye, com quem acaba tendo um caso extraconjugal, também rende alguns dos melhores e mais mordazes diálogos de todos os tempos -  digamos que, assim como o seu personagem pistoleiro no clássico faroeste Meu Ódio Será Sua Herança (Wild Bunch, 1969) vai de um encontro a um desfecho épico, aqui também Schumacher tem um desfecho épico, mas na forma de um dos mais ferozes "foras" já perpetrados contra uma personagem feminina. Sem prosseguir no spoiler, é ver para crer.

Caso você seja dessas pessoas que ainda não teve a felicidade de ver e saborear este exemplar sublime do cinema, faça um favor a si mesmo: homenageie e parabenize Network - Rede de Intrigas com uma bela sessão, em seu cinquentenário. É arte de alto nível, feita para pensar. De preferência, comparando e analisando, de forma bem crítica, a situação em que foram parar o jornalismo, e a mídia de um modo geral, nos dias de hoje.

Humor, inteligência e reflexão, como o cinema já não faz.

 


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