Há alguns dias, foi aniversário de morte do lendário David Bowie, falecido em 10 de janeiro de 2016.
Este ano de 2026 é pungente e significativo em relação à lenda Bowie e todo o seu vasto universo simbológico, de uma forma sensivelmente especial - conforme já dito, Bowie, o mais alienígena dos pop stars, partiu em 2016, há exatamente dez anos atrás. Em 1996, ocorreu o famigerado "caso do ET de Varginha", um dos maiores episódios da nossa ufologia nacional, e que vem pipocar agora na mídia novamente, com documentário, novos materiais e tudo mais, e justamente num momento em que teorias, avistamentos, e uma série de fatos incríveis relacionados a discos voadores e revelações transbordam nas redes sociais. E lá por volta do distante ano de 1976 - ou seja, há cinquenta anos atrás - Bowie entrava de cabeça (e tronco, membros, corpo todo e alma) no lance de encarnar um alienígena, de uma forma muito mais intensa e visual do que nas alegorias de discos e shows que ele já apresentava regularmente: o cantor assumia plenamente sua performance de ator dramático no papel principal de um extraterrestre, em O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth), do diretor Nicolas Roeg.
David Bowie interpreta o protagonista, Thomas Jerome Newton, um extraterrestre que desce em nosso planeta com o árduo propósito de encontrar meios para transportar água daqui para o seu planeta de origem, desértico e à beira da extinção. Como necessita de dinheiro para desenvolver seus projetos, ele se passa por um inglês excêntrico que surge do nada nos EUA, com ideias avançadíssimas que o levam a criar uma das mais ricas e prósperas empresas de tecnologia do mundo, assim acumulando uma fortuna invejável para que possa colocar seus planos em prática. Dotado de poderes extraordinários, e que ele esconde dos outros (permitindo até mesmo captação de ondas variadas, viagens no tempo e vidência além dos limites conhecidos), Thomas é uma figura enigmática e tímida, bela e andrógina ao mesmo tempo, que desperta a curiosidade e as emoções de todos que o conhecem. Entretanto, ao mesmo tempo em que tenta cumprir sua missão, ele vai se envolvendo cada vez mais com os seres humanos que o rodeiam, se entregando aos seus vícios, paixões e interesses, e se humanizando cada vez mais nesse processo...
Obra hermética para muitos, e repleta de metáforas e códigos para outros, o filme de Roeg e Bowie não é uma ficção científica no sentido convencional. Pode não parecer um filme "fácil". Talvez funcione mais como uma parábola futurista, que expressa ideias filosóficas, e reflete sobre diversos paradigmas existenciais. Musas do pensamento coletivo, como os paradigmas do tempo e do envelhecimento, as desconfianças nos relacionamentos, o espectro da família, e o medo da morte e do desconhecido, são alguns dos ecos que ressoam na trama, e a permeiam, e que acabam invariavelmente cedendo espaço a um último, que acaba por deixar uma das mais fortes impressões em sua amarga conclusão: o poder dos estratagemas do dinheiro e do capitalismo devastador, que tudo monopoliza e corrompe, tornando a humanidade e a não-humanidade (o extraterreno de Bowie, no caso) em simples mecanismos propulsores do mercado de consumo.
Em sua hora final, o enredo (adaptado do livro de mesmo nome, do autor Walter Tevis) assume essa preocupação primária, de demonstrar como as engrenagens sociais vão se alinhando para consumir, digerir e dissecar todo o brilho, a diversidade e novidade das ideias do alienígena Thomas, logo em seguida o "humanizando", o cuspindo e o banalizando, numa alusão atroz à própria realidade da sociedade de culto e de rebanho, que eleva e derruba seus ídolos, que imola seus carneiros de ouro, os endeusa e depois os destrói. Ele é dominado pelas vozes e cenas dos aparelhos de TV invasivos, ele deixa de consumir a simples e pura água cristalina para, por influência de um affair, se tornar um alcoólatra. Ele passa a encontrar prazer nos bens e produtos, e na bajulação alheia... ele se deixa levar.
E assim, aquele que é diferente, inovador, e desconhecido (assim passando a representar uma ameaça), é tolhido, domesticado, explorado e dominado, até se esgotar e decair. O sistema não perdoa quem afronta e não se encaixa.
Bowie mesmo versava sobre isso em sua elegia do roqueiro alienígena decadente Ziggy Stardust, seu primeiro grande passaporte para a eternidade, no disco de 1972 - nova roupagem para a mensagem, ou mera coincidência de princípios? E podemos ver aqui também algum paralelo com a nossa realidade atual de celebridades corriqueiras de rede social, endeusadas, consumidas, corrompidas e derrubadas, ou simples coincidência também?
Sob um prisma mais técnico, é filme cujos efeitos especiais e parte de sua estética são datados, mas para que possa ser apreciado como a impactante obra de arte que é, deve ser assistido na concepção do experimentalismo, e dos signos ocultos que a sua cinematografia exótica carrega.
A câmera por vezes desliza, em devaneios. Travellings acompanhados por fade-ins e fade-outs incautos, feitos para nos dar a sensação etérea dos efeitos que um próprio alienígena, em sua percepção sensorial diferenciada, sentiria, em colapso com o nosso mundo.
Roeg se delicia na direção de tomadas de uma plasticidade belíssima, mas que também induzem o espectador ao delírio lisérgico de uma cosmogonia muito peculiar, ampliando a sua experiência fílmica antes já exercitada em outros momentos antológicos seus, como Performance (1970, com outro rockstar, Mick Jagger, como protagonista), e o surpreendente Inverno de Sangue em Veneza (Don't Look Now, 1973).
Bowie, por sua vez, nunca mais teria um papel de tanto destaque, e que o representasse tão bem em uma fase singular e específica de sua carreira, como esse - talvez, o papel mais lembrado depois acabaria sendo o do carismático rei dos duendes Jareth, na fantasia cult Labirinto (1986), de Jim Henson.
Para se ter uma ideia do impacto que 'O Homem que Caiu na Terra' teve sobre a trajetória e a imagem de Bowie, desde então, basta notar que foi a partir desta personagem que ele passou a encarnar integralmente a figura gélida do Thin White Duke, em seus discos e shows seguintes, e por todo o restante da década. Se livrando de um período tenebroso de loucuras, paranoias e incertezas, em que a cocaína quase o consumira por completo, Bowie agora lutava para adotar a sobriedade e uma nova postura: pálido, magro e de terno, com olhar sempre distante, assumia uma aparência que rompia de vez com os maneirismos das personas de suas mais espalhafatosas fases anteriores (Ziggy, Alladin Sane), e lançava quase que simultaneamente a obra-prima Station to Station (1976) - que carregava na capa foto de uma das cenas do filme, quando Thomas entra dentro da nave espacial projetada na Terra - para logo a seguir embarcar em sua "fase Berlin", quando foi morar na capital alemã e imergiu no krautrock, na música eletrônica e ambiental, e nas misturas de ritmos que precederiam o movimento new wave, levando tudo às últimas consequências nos discos seguintes - Low (1977, também com capa representando o personagem do filme), "Heroes" (1977), e Lodger (1979). Registros em que Bowie redefinia a música pop e apontava a direção futura, enterrando de vez o estilo de som dos anos 70 e décadas anteriores, e ditando tudo o que viria a ser a música jovem, dali em diante.
Eis que ali, naqueles petardos sonoros fantásticos e inovadores, o homem que caiu (e padeceu) na Terra, se ergueu novamente, se reinventou, e revolucionou mais uma vez o mundo, adquirindo o seu segundo passaporte para a eternidade.
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