No último dia 17 de janeiro, completou 77 anos o guitarrista inglês Mick Taylor.
Taylor, caso os mais jovens não estejam lembrados, foi a primeira grande substituição na formação original dos Rolling Stones, quando o fundador do grupo, e um de seus guitarristas originais, Brian Jones, saiu da banda, em 1969.
O engraçado é que, apesar da posição cobiçada de ter entrado para uma das maiores bandas de rock do mundo, em seu auge, tudo ocorreu da forma mais imprevisível, e sem nenhum esforço ou interesse por parte de Taylor, como ele mesmo conta até os dias atuais.
Os Stones estavam precisando de um músico de estúdio para complementar algumas faixas do seu próximo disco, que estava sendo gravado (Let it Bleed, de 1969), e Mick Jagger e Keith Richards receberam referências daquele jovem guitarrista que participara de gravações com o mestre do blues britânico John Mayall, e vinha sendo muito elogiado.
Assim que deu sua contribuição para algumas das faixas, Taylor já foi abordado de cara por Jagger dizendo: "Era tudo um teste, cara. O lugar é seu. Estamos precisando de um guitarrista, e é você!".
A estreia ao vivo da figura se deu justamente com a volta dos Stones se apresentando em público novamente, depois de um bom período sem fazer shows, e logo no famoso concerto no Hyde Park em 5 de julho de 1969, apenas dois dias após a morte de Brian Jones, encontrado morto na piscina de sua casa pouco tempo depois de deixar o grupo (leia mais aqui).
Taylor debutou bem em todas as áreas, e o primeiro grande disco no qual ele participa no álbum inteiro, e debulha as seis cordas feito um maníaco, é o clássico Sticky Fingers, que saiu em 1971, contendo maravilhas como "Brown Sugar", "Can You Hear Me Knocking", "Sister Morphine" e "Sway".
Viriam ainda as guitarradas certeiras nos álbuns seguintes, todos marcantes: a obra-prima Exile on Main Street (1972), Goat's Head Soup (1973), e It's Only Rock n' Roll (1974).
É consenso geral que a fase de Taylor no grupo, entre 1969 e 1975, é o período mais prolífico e rico musicalmente dos Rolling Stones, até hoje. Foi aquele momento em que eles estavam com o seu vigor e criatividade mais em alta, já tinham conquistado o mundo, e a chegada de Taylor, com uma musicalidade e interação de guitarras com Keith Richards, gerou um som impressionante, inovador e jamais ouvido antes. Enquanto Richards providenciava o ritmo, o corpo das músicas, e se saía com riffs crus e diretos, num estilo mais seco e primal, Taylor adicionava camadas e mais camadas melódicas, criando solos belíssimos que passaram a adornar várias composições da banda.
"O cara toca tão bem que dá até raiva", uma vez comentou bem humoradamente Richards, não sem uma pontada de inveja braba.
A questão é que Taylor, apesar de toda a aclamação geral, alegaria que nunca se sentiu um verdadeiro "rolling stone", no sentido de ter o espírito da coisa. Era um cara bem pacato, e um legítimo e introspectivo estudioso do blues, como ele mesmo dizia. Um purista do estilo e do instrumento, bem próximo do gênio de um Eric Clapton, por assim dizer. Chegava a ser mais recluso e distante das câmeras, dos barulhos e burburinhos da mídia e da imprensa, até mais do que os seus colegas de banda quietos e calados, o baixista Bill Wyman e o baterista Charlie Watts - talvez por isso, de todos os guitarristas que passaram pelos Stones além do carro-chefe Keith Richards, Taylor seja o menos lembrado visualmente: Brian Jones e o atual e perseverante Ron Wood sempre demonstraram mais impacto midiático.
Essa postura, bem como os graves problemas internos relacionados a composição e crédito de algumas músicas, foram determinantes da saída de Taylor do grupo, em 1975. Anos depois, ele diria que mais da metade de algumas famosas canções daqueles álbuns citados anteriormente vinham de ideias dele, e que na hora de serem registradas, só o famoso binômio da dupla Jagger-Richards aparecia: grandes músicas como "Sway" e "Moonlight Mile" (do Sticky Fingers), "Rocks Off" e "All Down the Line" (de Exile), "Doo Doo Doo Heartbreaker" (de Goat's Head Soup) e a linda "Time Waits For No One" (do It's Only), que na minha opinião, é uma das melhores baladas já gravadas pelos Stones em sua carreira, com um solo majestoso de Taylor no final.
Contribuía pra caramba, mas na hora de faturar com direitos autorais, nada. Se foi assim mesmo, tem jeito não, Taylor logo ia se cansar mesmo.
A sua saída da banda foi tão repentina e incauta quanto a sua entrada: os Stones estavam numa festa, ele simplesmente chegou em Jagger com um drinque na mão, e falou baixinho: "Estou saindo da banda. Tchau". O vocalista saiu rindo, pensou que era somente uma piada, efeito da bebida. Não era - dali Taylor vazou, e nunca mais voltou.
Se lançou em uma tímida carreira solo, com bons discos de blues, e surpreendentemente, muitos anos depois de tudo, topou participar de alguns shows dos Stones no período 2012-2014, quando o grupo estava fazendo uma turnê comemorativa dos seus 50 anos. Taylor aparecia, ovacionado pela plateia, tocava umas duas ou três músicas, discretamente se despedia, e ia embora. Fiel ao seu espírito "lonesome rider" de blueseiro, como sempre!
A seguir, cinco grandes momentos da guitarra de Mick Taylor nos Rolling Stones:
1) Honky Tonk Women (single, 1969) - A canção que marca a estreia oficial de Taylor no grupo, um blues cheio de safadeza que descamba numa levada boogie onde ele e Richards dividem solos e ritmo com maestria, no que foi o primeiro grande sucesso de uma nova fase da banda.
2) Sway (Sticky Fingers, 1971) - Blues pesado e intenso, com um soleado cheio de veneno no final que era a marca registrada da criatividade melódica de Taylor.
3) Moonlight Mile (Sticky Fingers, 1971) - Balada com líricas nuanças folk, um dos pontos altos que encerrava mais um álbum clássico dos Stones. Mais uma das faixas sobre as quais Taylor reivindicava cerca de 60% da autoria, na composição musical.
4) Gimme Shelter (Goat's Head Soup - deluxe edition, 1973) - Essa versão ao vivo gravada durante a famosa turnê europeia dos Stones, naquele ano, já era famosa há muitos anos no mundo da pirataria, que disponibilizava os shows completos realizados pelos Stones em Bruxelas (Bélgica), na ocasião. Mas agora foi recentemente oficializada e disponibilizada na reedição de luxo do álbum de 1973, e simplesmente se notabiliza por ser considerada, por muitos, a melhor execução desse clássico (original de 1969), feita pela banda até hoje. E o motivo: simplesmente o toque inesquecível que Taylor dá a ela, lhe conferindo um dos mais belos e lancinantes solos de guitarra da história do rock.
5) Time Waits For No One (It's Only Rock and Roll, 1974): A gota d'água, o ponto final de tudo. Taylor reivindicou verbalmente com Jagger e Richards autoria sobre essa canção, que é uma das mais belas baladas gravadas pelos Stones. Deram de ombros e fizeram de conta que nem estavam ouvindo ele. Ele também virou as costas e saiu. Mas é um trabalho soberbo, especialmente nas lânguidas intervenções instrumentais de Taylor. Pra ouvir, curtir e se emocionar. Que despedida.
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