quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

UM CLÁSSICO MODERNO SOBRE A DECADÊNCIA AMERICANA

 

O já falecido cineasta norte-americano Joel Schumacher (1939 - 2020) teve uma carreira irregular. Ao mesmo tempo em que era aclamado por filmes que marcaram gerações entre os anos 80 e 90 do século passado - Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987) e Tempo de Matar (A Time to Kill, 1996) são bons exemplos - ele também era capaz de cometer atrocidades, como a desconstrução total do super-herói Batman, nas destrambelhadas sequências da versão inicialmente feita por Tim Burton, resultando nas fanfarronices de Batman Eternamente (Batman Forever, 1995) e Batman e Robin (1997 - aquele com os famosos closes na bunda e peitos do homem-morcego com seu uniforme), que mais se pareciam com uma tentativa de desconstrução total da persona dark gótica do herói tão apreciada pelos fãs, para devolvê-lo à aura kitsch e debochada do famoso seriado de TV de 1966.

Mas houve uma vez em que Schumacher realmente se esmerou, e criou, na minha opinião, aquele que ainda é um dos melhores e mais subestimados clássicos do cinema de ação e suspense, com várias camadas de crítica social, que não fica devendo nada a exemplares do gênero feitos em décadas anteriores, e que é o retrato perfeito de uma era, de um momento de caos e revelação, em que o cinema americano voltava novamente a afundar o dedo - sem medo do sangue - nas horrendas feridas do seu pesadelo moral. E este momento, essa oportunidade, se chamou Um Dia de Fúria (Falling Down, 1993), filmaço com Michael Douglas e Robert Duvall nos papeis principais.

Douglas é William Foster, um aparentemente normal cidadão norte-americano que se vê preso num engarrafamento de trânsito de Los Angeles em um dos dias mais quentes do ano, doido de pressa de ir ver a sua filha que está fazendo aniversário. Mas o seu carro apresenta defeitos nos vidros e no ar condicionado, os barulhos e reações dos outros motoristas são infernais, o suor está escorrendo pra valer, e de repente começamos a perceber que o plot nos revelará que Foster não é um cara tão normal assim, e que à medida que as coisas ficam mais tensas e opressoras em volta dele, ele não continuará simplesmente sentado, esperando a situação melhorar e passar. Assim que ele começar a realmente perder a paciência, ele vai abandonar o seu veículo sem dar a mínima para os outros, e vai passar a atravessar a cidade a pé mesmo, em busca de seu destino, e passando por cima de tudo e de todos, se necessário, para cumprir o seu propósito.

A sua peregrinação dantesca e violenta vai levá-lo a ter contato com toda a fauna de tipos que afloram e o confrontam com as mazelas, agressões, hipocrisias e neuroses da moderna sociedade americana. Gangues de imigrantes latinos, mendigos e pedintes, uma rede de fast food matreira (a cena dele criticando o tamanho dos cheeseburgers diante das fotos na parede entrou pra história, e nos faz sentir o que já passamos na pele!), o comerciante psicótico neonazista, os velhos grã-finos do campo de golfe... 

O roteiro de Ebbe Roe Smith é incrível, encapsulando as mais diversas situações no trajeto de Foster, que explicitam como estamos vivendo em uma sociedade cada vez mais doente. Apesar da propalada estética "anos 90" que o filme apresenta (sem menções a internet, celulares, ou nada de redes sociais), ainda assim é uma obra que consegue permanecer atual, por focar em aspectos da crise urbana e da realidade que persistem em existir, e jogá-los brutalmente na cara do espectador.

Robert Duvall

Há um outro núcleo paralelo que vai se desenvolvendo em torno do personagem de Duvall, Martin Prendergast, um tira da divisão de roubos que está justamente em seu último dia de trabalho, prestes a se aposentar, quando a ação do filme se inicia. Através de ganchos rápidos do roteiro sabemos que ele é o típico cara boa praça e de índole passiva, que "abaixa a cabeça" para a esposa, e está se retirando do serviço antes do tempo para cuidar dela, que sofre de transtornos depressivos. Mas é justamente esse paradoxo - entre a loucura crescente de Foster e a reviravolta de Prendergast, voltando a curtir a adrenalina da vida policial, à medida que os fatos acontecem - que adiciona ainda mais tempero à trama, e nos encaminha para um final explosivo e cheio de tensão. Chegará Prendergast vivo ao seu último dia de trabalho? Até onde o caótico rastro de insanidade deixado por Foster em sua empreitada vai impactar a vida do pacato policial? É um suspense que vai se criando de forma muito bem elaborada, nas mãos da edição e da direção precisa de Schumacher.

A expressão "Falling Down" (decaindo), do título original, talvez seja mais propícia para delinear toda a sensação de queda das estruturas sociais que o filme pretende transmitir. Em um dado momento, tudo parece estar fora de ordem e ruir - e é justamente devido a isso que conseguimos ter sentimentos tão dúbios pelo personagem de Douglas no marcante desfecho, quando a própria fala dele inquire nossas consciências com uma questão crucial: ele é o mocinho, ou o bandido, afinal?

Nenhum dos dois. É apenas uma vítima. 

Assim como todos nós, reféns de um complexo turbilhão de coisas do cotidiano.



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