terça-feira, 20 de janeiro de 2026

HAPPY BIRTHDAY, MR. TAYLOR

 

No último dia 17 de janeiro, completou 77 anos o guitarrista inglês Mick Taylor.

Taylor, caso os mais jovens não estejam lembrados, foi a primeira grande substituição na formação original dos Rolling Stones, quando o fundador do grupo, e um de seus guitarristas originais, Brian Jones, saiu da banda, em 1969.

Mick Taylor

O engraçado é que, apesar da posição cobiçada de ter entrado para uma das maiores bandas de rock do mundo, em seu auge, tudo ocorreu da forma mais imprevisível, e sem nenhum esforço ou interesse por parte de Taylor, como ele mesmo conta até os dias atuais. 

Os Stones estavam precisando de um músico de estúdio para complementar algumas faixas do seu próximo disco, que estava sendo gravado (Let it Bleed, de 1969), e Mick Jagger e Keith Richards receberam referências daquele jovem guitarrista que participara de gravações com o mestre do blues britânico John Mayall, e vinha sendo muito elogiado. 

'Crusade' (1967), álbum de John Mayall que revelou Mick Taylor

Assim que deu sua contribuição para algumas das faixas, Taylor já foi abordado de cara por Jagger dizendo: "Era tudo um teste, cara. O lugar é seu. Estamos precisando de um guitarrista, e é você!". 

A estreia ao vivo da figura se deu justamente com a volta dos Stones se apresentando em público novamente, depois de um bom período sem fazer shows, e logo no famoso concerto no Hyde Park em 5 de julho de 1969, apenas dois dias após a morte de Brian Jones, encontrado morto na piscina de sua casa pouco tempo depois de deixar o grupo (leia mais aqui). 

Rolling Stones com Mick Taylor - o segundo, da esquerda p/ direita, entre Watts e Jagger

Taylor debutou bem em todas as áreas, e o primeiro grande disco no qual ele participa no álbum inteiro, e debulha as seis cordas feito um maníaco, é o clássico Sticky Fingers, que saiu em 1971, contendo maravilhas como "Brown Sugar", "Can You Hear Me Knocking", "Sister Morphine" e "Sway". 

Viriam ainda as guitarradas certeiras nos álbuns seguintes, todos marcantes: a obra-prima Exile on Main Street (1972), Goat's Head Soup (1973), e It's Only Rock n' Roll (1974).

Taylor e sua Gibson SG vinho, à esquerda, debutando com os Stones no show do Hyde Park (1969)

É consenso geral que a fase de Taylor no grupo, entre 1969 e 1975, é o período mais prolífico e rico musicalmente dos Rolling Stones, até hoje. Foi aquele momento em que eles estavam com o seu vigor e criatividade mais em alta, já tinham conquistado o mundo, e a chegada de Taylor, com uma musicalidade e interação de guitarras com Keith Richards, gerou um som impressionante, inovador e jamais ouvido antes. Enquanto Richards providenciava o ritmo, o corpo das músicas, e se saía com riffs crus e diretos, num estilo mais seco e primal, Taylor adicionava camadas e mais camadas melódicas, criando solos belíssimos que passaram a adornar várias composições da banda.

"O cara toca tão bem que dá até raiva", uma vez comentou bem humoradamente Richards, não sem uma pontada de inveja braba.

A questão é que Taylor, apesar de toda a aclamação geral, alegaria que nunca se sentiu um verdadeiro "rolling stone", no sentido de ter o espírito da coisa. Era um cara bem pacato, e um legítimo e introspectivo estudioso do blues, como ele mesmo dizia. Um purista do estilo e do instrumento, bem próximo do gênio de um Eric Clapton, por assim dizer. Chegava a ser mais recluso e distante das câmeras, dos barulhos e burburinhos da mídia e da imprensa, até mais do que os seus colegas de banda quietos e calados, o baixista Bill Wyman e o baterista Charlie Watts - talvez por isso, de todos os guitarristas que passaram pelos Stones além do carro-chefe Keith Richards, Taylor seja o menos lembrado visualmente: Brian Jones e o atual e perseverante Ron Wood sempre demonstraram mais impacto midiático.

Essa postura, bem como os graves problemas internos relacionados a composição e crédito de algumas músicas, foram determinantes da saída de Taylor do grupo, em 1975. Anos depois, ele diria que mais da metade de algumas famosas canções daqueles álbuns citados anteriormente vinham de ideias dele, e que na hora de serem registradas, só o famoso binômio da dupla Jagger-Richards aparecia: grandes músicas como "Sway" e "Moonlight Mile" (do Sticky Fingers), "Rocks Off" e "All Down the Line" (de Exile), "Doo Doo Doo Heartbreaker" (de Goat's Head Soup) e a linda "Time Waits For No One" (do It's Only), que na minha opinião, é uma das melhores baladas já gravadas pelos Stones em sua carreira, com um solo majestoso de Taylor no final.

Contribuía pra caramba, mas na hora de faturar com direitos autorais, nada. Se foi assim mesmo, tem jeito não, Taylor logo ia se cansar mesmo.

Mick Taylor atualmente

A sua saída da banda foi tão repentina e incauta quanto a sua entrada: os Stones estavam numa festa, ele simplesmente chegou em Jagger com um drinque na mão, e falou baixinho: "Estou saindo da banda. Tchau". O vocalista saiu rindo, pensou que era somente uma piada, efeito da bebida. Não era - dali Taylor vazou, e nunca mais voltou.

Se lançou em uma tímida carreira solo, com bons discos de blues, e surpreendentemente, muitos anos depois de tudo, topou participar de alguns shows dos Stones no período 2012-2014, quando o grupo estava fazendo uma turnê comemorativa dos seus 50 anos. Taylor aparecia, ovacionado pela plateia, tocava umas duas ou três músicas, discretamente se despedia, e ia embora. Fiel ao seu espírito "lonesome rider" de blueseiro, como sempre!

A seguir, cinco grandes momentos da guitarra de Mick Taylor nos Rolling Stones:

1) Honky Tonk Women (single, 1969) - A canção que marca a estreia oficial de Taylor no grupo, um blues cheio de safadeza que descamba numa levada boogie onde ele e Richards dividem solos e ritmo com maestria, no que foi o primeiro grande sucesso de uma nova fase da banda.


2) Sway (Sticky Fingers, 1971) - Blues pesado e intenso, com um soleado cheio de veneno no final que era a marca registrada da criatividade melódica de Taylor.


3) Moonlight Mile (Sticky Fingers, 1971) - Balada com líricas nuanças folk, um dos pontos altos que encerrava mais um álbum clássico dos Stones. Mais uma das faixas sobre as quais Taylor reivindicava cerca de 60% da autoria, na composição musical.


4) Gimme Shelter (Goat's Head Soup - deluxe edition, 1973) - Essa versão ao vivo gravada durante a famosa turnê europeia dos Stones, naquele ano, já era famosa há muitos anos no mundo da pirataria, que disponibilizava os shows completos realizados pelos Stones em Bruxelas (Bélgica), na ocasião. Mas agora foi recentemente oficializada e disponibilizada na reedição de luxo do álbum de 1973, e simplesmente se notabiliza por ser considerada, por muitos, a melhor execução desse clássico (original de 1969), feita pela banda até hoje. E o motivo: simplesmente o toque inesquecível que Taylor dá a ela, lhe conferindo um dos mais belos e lancinantes solos de guitarra da história do rock.


5) Time Waits For No One (It's Only Rock and Roll, 1974): A gota d'água, o ponto final de tudo. Taylor reivindicou verbalmente com Jagger e Richards autoria sobre essa canção, que é uma das mais belas baladas gravadas pelos Stones. Deram de ombros e fizeram de conta que nem estavam ouvindo ele. Ele também virou as costas e saiu. Mas é um trabalho soberbo, especialmente nas lânguidas intervenções instrumentais de Taylor. Pra ouvir, curtir e se emocionar. Que despedida.






 

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O HOMEM QUE CAIU (E PADECEU) NA TERRA

 

Há alguns dias, foi aniversário de morte do lendário David Bowie, falecido em 10 de janeiro de 2016.

Este ano de 2026 é pungente e significativo em relação à lenda Bowie e todo o seu vasto universo simbológico, de uma forma sensivelmente especial - conforme já dito, Bowie, o mais alienígena dos pop stars, partiu em 2016, há exatamente dez anos atrás. Em 1996, ocorreu o famigerado "caso do ET de Varginha", um dos maiores episódios da nossa ufologia nacional, e que vem pipocar agora na mídia novamente, com documentário, novos materiais e tudo mais, e justamente num momento em que teorias, avistamentos, e uma série de fatos incríveis relacionados a discos voadores e revelações transbordam nas redes sociais. E lá por volta do distante ano de 1976 - ou seja, há cinquenta anos atrás - Bowie entrava de cabeça (e tronco, membros, corpo todo e alma) no lance de encarnar um alienígena, de uma forma muito mais intensa e visual do que nas alegorias de discos e shows que ele já apresentava regularmente: o cantor assumia plenamente sua performance de ator dramático no papel principal de um extraterrestre, em O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth), do diretor Nicolas Roeg.

Fenômenos pop 'tudo a ver' em 2026: David Bowie, o E.T. de Varginha, e casos ufológicos

David Bowie interpreta o protagonista, Thomas Jerome Newton, um extraterrestre que desce em nosso planeta com o árduo propósito de encontrar meios para transportar água daqui para o seu planeta de origem, desértico e à beira da extinção. Como necessita de dinheiro para desenvolver seus projetos, ele se passa por um inglês excêntrico que surge do nada nos EUA, com ideias avançadíssimas que o levam a criar uma das mais ricas e prósperas empresas de tecnologia do mundo, assim acumulando uma fortuna invejável para que possa colocar seus planos em prática. Dotado de poderes extraordinários, e que ele esconde dos outros (permitindo até mesmo captação de ondas variadas, viagens no tempo e vidência além dos limites conhecidos), Thomas é uma figura enigmática e tímida, bela e andrógina ao mesmo tempo, que desperta a curiosidade e as emoções de todos que o conhecem. Entretanto, ao mesmo tempo em que tenta cumprir sua missão, ele vai se envolvendo cada vez mais com os seres humanos que o rodeiam, se entregando aos seus vícios, paixões e interesses, e se humanizando cada vez mais nesse processo...

Bowie como o alien Thomas Jerome Newton

Obra hermética para muitos, e repleta de metáforas e códigos para outros, o filme de Roeg e Bowie não é uma ficção científica no sentido convencional. Pode não parecer um filme "fácil". Talvez funcione mais como uma parábola futurista, que expressa ideias filosóficas, e reflete sobre diversos paradigmas existenciais. Musas do pensamento coletivo, como os paradigmas do tempo e do envelhecimento, as desconfianças nos relacionamentos, o espectro da família, e o medo da morte e do desconhecido, são alguns dos ecos que ressoam na trama, e a permeiam, e que acabam invariavelmente cedendo espaço a um último, que acaba por deixar uma das mais fortes impressões em sua amarga conclusão: o poder dos estratagemas do dinheiro e do capitalismo devastador, que tudo monopoliza e corrompe, tornando a humanidade e a não-humanidade (o extraterreno de Bowie, no caso) em simples mecanismos propulsores do mercado de consumo.

Em sua hora final, o enredo (adaptado do livro de mesmo nome, do autor Walter Tevis) assume essa preocupação primária, de demonstrar como as engrenagens sociais vão se alinhando para consumir, digerir e dissecar todo o brilho, a diversidade e novidade das ideias do alienígena Thomas, logo em seguida o "humanizando", o cuspindo e o banalizando, numa alusão atroz à própria realidade da sociedade de culto e de rebanho, que eleva e derruba seus ídolos, que imola seus carneiros de ouro, os endeusa e depois os destrói. Ele é dominado pelas vozes e cenas dos aparelhos de TV invasivos, ele deixa de consumir a simples e pura água cristalina para, por influência de um affair, se tornar um alcoólatra. Ele passa a encontrar prazer nos bens e produtos, e na bajulação alheia... ele se deixa levar. 

E assim, aquele que é diferente, inovador, e desconhecido (assim passando a representar uma ameaça), é tolhido, domesticado, explorado e dominado, até se esgotar e decair. O sistema não perdoa quem afronta e não se encaixa.

Bowie mesmo versava sobre isso em sua elegia do roqueiro alienígena decadente Ziggy Stardust, seu primeiro grande passaporte para a eternidade, no disco de 1972 - nova roupagem para a mensagem, ou mera coincidência de princípios? E podemos ver aqui também algum paralelo com a nossa realidade atual de celebridades corriqueiras de rede social, endeusadas, consumidas, corrompidas e derrubadas, ou simples coincidência também?




Sob um prisma mais técnico, é filme cujos efeitos especiais e parte de sua estética são datados, mas para que possa ser apreciado como a impactante obra de arte que é, deve ser assistido na concepção do experimentalismo, e dos signos ocultos que a sua cinematografia exótica carrega.

A câmera por vezes desliza, em devaneios. Travellings acompanhados por fade-ins e fade-outs incautos, feitos para nos dar a sensação etérea dos efeitos que um próprio alienígena, em sua percepção sensorial diferenciada, sentiria, em colapso com o nosso mundo. 

O e.t. Thomas em seu planeta natal

Roeg se delicia na direção de tomadas de uma plasticidade belíssima, mas que também induzem o espectador ao delírio lisérgico de uma cosmogonia muito peculiar, ampliando a sua experiência fílmica antes já exercitada em outros momentos antológicos seus, como Performance (1970, com outro rockstar, Mick Jagger, como protagonista), e o surpreendente Inverno de Sangue em Veneza (Don't Look Now, 1973). 

Bowie, por sua vez, nunca mais teria um papel de tanto destaque, e que o representasse tão bem em uma fase singular e específica de sua carreira, como esse - talvez, o papel mais lembrado depois acabaria sendo o do carismático rei dos duendes Jareth, na fantasia cult Labirinto (1986), de Jim Henson

Para se ter uma ideia do impacto que 'O Homem que Caiu na Terra' teve sobre a trajetória e a imagem de Bowie, desde então, basta notar que foi a partir desta personagem que ele passou a encarnar integralmente a figura gélida do Thin White Duke, em seus discos e shows seguintes, e por todo o restante da década. Se livrando de um período tenebroso de loucuras, paranoias e incertezas, em que a cocaína quase o consumira por completo, Bowie agora lutava para adotar a sobriedade e uma nova postura: pálido, magro e de terno, com olhar sempre distante, assumia uma aparência que rompia de vez com os maneirismos das personas de suas mais espalhafatosas fases anteriores (Ziggy, Alladin Sane), e lançava quase que simultaneamente a obra-prima Station to Station (1976) - que carregava na capa foto de uma das cenas do filme, quando Thomas entra dentro da nave espacial projetada na Terra - para logo a seguir embarcar em sua "fase Berlin", quando foi morar na capital alemã e imergiu no krautrock, na música eletrônica e ambiental, e nas misturas de ritmos que precederiam o movimento new wave, levando tudo às últimas consequências nos discos seguintes - Low (1977, também com capa representando o personagem do filme), "Heroes" (1977), e Lodger (1979). Registros em que Bowie redefinia a música pop e apontava a direção futura, enterrando de vez o estilo de som dos anos 70 e décadas anteriores, e ditando tudo o que viria a ser a música jovem, dali em diante.

Eis que ali, naqueles petardos sonoros fantásticos e inovadores, o homem que caiu (e padeceu) na Terra, se ergueu novamente, se reinventou, e revolucionou mais uma vez o mundo, adquirindo o seu segundo passaporte para a eternidade. 




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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

UM CLÁSSICO MODERNO SOBRE A DECADÊNCIA AMERICANA

 

O já falecido cineasta norte-americano Joel Schumacher (1939 - 2020) teve uma carreira irregular. Ao mesmo tempo em que era aclamado por filmes que marcaram gerações entre os anos 80 e 90 do século passado - Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987) e Tempo de Matar (A Time to Kill, 1996) são bons exemplos - ele também era capaz de cometer atrocidades, como a desconstrução total do super-herói Batman, nas destrambelhadas sequências da versão inicialmente feita por Tim Burton, resultando nas fanfarronices de Batman Eternamente (Batman Forever, 1995) e Batman e Robin (1997 - aquele com os famosos closes na bunda e peitos do homem-morcego com seu uniforme), que mais se pareciam com uma tentativa de desconstrução total da persona dark gótica do herói tão apreciada pelos fãs, para devolvê-lo à aura kitsch e debochada do famoso seriado de TV de 1966.

Mas houve uma vez em que Schumacher realmente se esmerou, e criou, na minha opinião, aquele que ainda é um dos melhores e mais subestimados clássicos do cinema de ação e suspense, com várias camadas de crítica social, que não fica devendo nada a exemplares do gênero feitos em décadas anteriores, e que é o retrato perfeito de uma era, de um momento de caos e revelação, em que o cinema americano voltava novamente a afundar o dedo - sem medo do sangue - nas horrendas feridas do seu pesadelo moral. E este momento, essa oportunidade, se chamou Um Dia de Fúria (Falling Down, 1993), filmaço com Michael Douglas e Robert Duvall nos papeis principais.

Douglas é William Foster, um aparentemente normal cidadão norte-americano que se vê preso num engarrafamento de trânsito de Los Angeles em um dos dias mais quentes do ano, doido de pressa de ir ver a sua filha que está fazendo aniversário. Mas o seu carro apresenta defeitos nos vidros e no ar condicionado, os barulhos e reações dos outros motoristas são infernais, o suor está escorrendo pra valer, e de repente começamos a perceber que o plot nos revelará que Foster não é um cara tão normal assim, e que à medida que as coisas ficam mais tensas e opressoras em volta dele, ele não continuará simplesmente sentado, esperando a situação melhorar e passar. Assim que ele começar a realmente perder a paciência, ele vai abandonar o seu veículo sem dar a mínima para os outros, e vai passar a atravessar a cidade a pé mesmo, em busca de seu destino, e passando por cima de tudo e de todos, se necessário, para cumprir o seu propósito.

A sua peregrinação dantesca e violenta vai levá-lo a ter contato com toda a fauna de tipos que afloram e o confrontam com as mazelas, agressões, hipocrisias e neuroses da moderna sociedade americana. Gangues de imigrantes latinos, mendigos e pedintes, uma rede de fast food matreira (a cena dele criticando o tamanho dos cheeseburgers diante das fotos na parede entrou pra história, e nos faz sentir o que já passamos na pele!), o comerciante psicótico neonazista, os velhos grã-finos do campo de golfe... 

O roteiro de Ebbe Roe Smith é incrível, encapsulando as mais diversas situações no trajeto de Foster, que explicitam como estamos vivendo em uma sociedade cada vez mais doente. Apesar da propalada estética "anos 90" que o filme apresenta (sem menções a internet, celulares, ou nada de redes sociais), ainda assim é uma obra que consegue permanecer atual, por focar em aspectos da crise urbana e da realidade que persistem em existir, e jogá-los brutalmente na cara do espectador.

Robert Duvall

Há um outro núcleo paralelo que vai se desenvolvendo em torno do personagem de Duvall, Martin Prendergast, um tira da divisão de roubos que está justamente em seu último dia de trabalho, prestes a se aposentar, quando a ação do filme se inicia. Através de ganchos rápidos do roteiro sabemos que ele é o típico cara boa praça e de índole passiva, que "abaixa a cabeça" para a esposa, e está se retirando do serviço antes do tempo para cuidar dela, que sofre de transtornos depressivos. Mas é justamente esse paradoxo - entre a loucura crescente de Foster e a reviravolta de Prendergast, voltando a curtir a adrenalina da vida policial, à medida que os fatos acontecem - que adiciona ainda mais tempero à trama, e nos encaminha para um final explosivo e cheio de tensão. Chegará Prendergast vivo ao seu último dia de trabalho? Até onde o caótico rastro de insanidade deixado por Foster em sua empreitada vai impactar a vida do pacato policial? É um suspense que vai se criando de forma muito bem elaborada, nas mãos da edição e da direção precisa de Schumacher.

A expressão "Falling Down" (decaindo), do título original, talvez seja mais propícia para delinear toda a sensação de queda das estruturas sociais que o filme pretende transmitir. Em um dado momento, tudo parece estar fora de ordem e ruir - e é justamente devido a isso que conseguimos ter sentimentos tão dúbios pelo personagem de Douglas no marcante desfecho, quando a própria fala dele inquire nossas consciências com uma questão crucial: ele é o mocinho, ou o bandido, afinal?

Nenhum dos dois. É apenas uma vítima. 

Assim como todos nós, reféns de um complexo turbilhão de coisas do cotidiano.



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domingo, 4 de janeiro de 2026

A CAÓTICA QUEDA PUNK DOS SEX PISTOLS

 

Recentemente, temos visto algumas aparições na mídia do lendário John Lydon - o eterno frontman dos Sex Pistols, na época ainda nominado Johnny Rotten - se desdobrando em anunciar e promover, em várias entrevistas podcasts afora, sobre a próxima turnê de sua banda PiL (o Public Image Limited), bem como dar as costumeiras patadas em seus ex-companheiros do lendário grupo punk que turbinou o gênero no mundo inteiro, lá pelos idos de 1976/77.

A questão é que Lydon diz que não entende - repleto de um mordaz ressentimento irônico - porque Steve Jones (guitarrista), Paul Cook (baterista) e Glen Matlock (baixista original, antes da chegada de Sid Vicious) nunca mais quiseram conversar com ele... sendo que o último contato mais próximo que tiveram foi nos tribunais britânicos, numa ruidosa pendenga acerca dos direitos de uso das músicas da banda, na qual Lydon estava metendo o ferro em todos os outros num pesado e milionário processo.

Da esquerda p/ direita: Sid Vicious, Johnny Rotten, Steve Jones e Paul Cook - os Sex Pistols

Lydon - ou o velho 'Johnny Rotten', como preferir - tem lá suas razões birrentas para agir assim, dadas as suas condições derradeiras na história sempre caótica e nada moderada ou complacente que o nome Sex Pistols sempre carregou. Era um grupo que, pelo seu início errático e conturbado, cheio de embates e rebeldia com todo o cenário pop/rock de Londres da época, e tendo a frente na maior parte do tempo um mala midiático como empresário (Malcolm McLaren), não teria nunca mesmo como terminar bem. A seguir, uma cronologia simples e concisa dos momentos finais do grupo, uma verdadeira epopeia da agonia punk:

- 5 de janeiro de 1978: Após um ano de absoluto sucesso, barulho e polêmicas, em que dão pontapé na revolução punk e vendem milhões de cópias do seu disco Never Mind the Bollocks, na Inglaterra e restante do globo, os Sex Pistols, por decisão de seu empresário Malcolm McLaren, iniciam 1978 com a famigerada turnê pelos EUA. Detalhe: a intenção de Malcolm com essas digressões, ao invés de levá-los para tocar em grandes centros e capitais norte-americanas (como New York e Los Angeles), onde o punk rock já era entendido e popularizado, era por os garotos para se apresentar em localidades menores e mais interioranas, justamente para "causar" e incitar a revolta e a agressividade punk onde o pessoal nem entendia aquilo direito, numa autêntica tentativa de gerar eventos conturbados. E dá certo: o primeiro show em Atlanta, na Georgia, é um festival de cusparadas entre banda e plateia, xingamentos, garrafas quebrando e cacos voando.

John Lydon (a.k.a. Johnny Rotten)

- 8 a 12 de janeiro de 1978: O grupo chega ao Texas para algumas apresentações. O clima interno na banda vai só piorando: o extremo tédio que os Pistols encaram durante os momentos de folga entre os shows, em lugares conservadores onde os únicos passatempos eram parques de diversão infantis, exposições agropecuárias, e butecos com música country, acabam se tornando regados a muita bebida e drogas (conseguidas com demora devido às poucas "conexões" com traficas americanos), e tudo isso vai elevando cada vez mais as tensões entre os membros, especialmente Sid Vicious, o mais alucinado de todos. Nos shows de Dallas e San Antonio, ele chega doidão para tocar, com a frase "gimme a fix" (me dá uma consertada, gíria para os viciados que pedem drogas) escrita a pincel no peito - mas que, com o clima alucinado de cacos jogados no palco e giletes utilizadas por Sid, acaba se misturando ao próprio sangue do mesmo, num verdadeiro festival de horror e automutilação, feito para chocar as audiências. 

"Gimme a fix"


Sid sangrando, no show de Dallas (janeiro de 1978)

- 14 de janeiro de 1978: Este é o dia do lendário último show da banda, em sua fase clássica. Ocorreu em San Francisco, no Winterland Ballroom, para um público estimado em 5000 pessoas - na verdade, o maior até então naquela turnê, pois nas apresentações anteriores, os relatos aterrorizados da imprensa sobre o grupo tinham afugentado um grande número de possíveis espectadores, e não eram poucos os lugares vazios na audiência. Ocorrido de forma mais contida e com uma boa execução das músicas da banda - incluindo uma performance supreendentemente competente de Sid no baixo, apesar de sua fama de não saber tocar direito - o show termina de forma irreverente, com Johnny Rotten vociferando para a plateia: "Ever get the feeling you've been cheated?" (Alguma vez vocês já se sentiram trapaceados?), antes de entrarem na execução de "No Fun", uma das covers do The Stooges mais executadas pelo grupo. Era uma clara alusão à revolta que a banda, e ele (Rotten/Lydon), particularmente, sentiam em relação ao modo como vinham sendo tratados por Malcolm, como produtos sendo utilizados e ridicularizados por ele e pela mídia ianque, numa das turnês mais fuleiras e cínicas de que se tem notícia na história do rock.

- 17 de janeiro de 1978: O dia da separação oficial da banda. Após um arranca-rabo federal entre Johnny Rotten e Malcolm, que passam a discordar em grau e número sobre a continuidade da turnê e os próximos passos do grupo, o empresário chama o restante da banda para o acompanhar, garantindo que não precisam daquele "pestinha vagabundo do Johnny", e que os Sex Pistols podem se virar com qualquer outro vocalista. Ocorre a cisão: Steve Jones e Paul Cook topam seguir com Malcolm, e num primeiro instante, Sid fica em cima do muro - mas logo decide continuar com Johnny nos EUA (amigos de infância que eram). Malcolm  parte para comprar passagens de avião para cair fora dali, com a equipe e os outros integrantes. E assim, Johnny e Sid são largados em San Francisco, praticamente sem nenhum dinheiro ou passagens de volta, enquanto Malcolm e os outros rapazes vão embora, já com planos de ir para o Brasil, devido a um "documentário" que o empresário tinha a intenção de fazer.

Sid Vicious e Nancy Spungen

- 20 de janeiro de 1978: Após uma série de contratempos para conseguir alguns trocados e zarpar de San Francisco, Johnny e Sid chegam a New York. Johnny já decide de cara que o apelido artístico "Joãozinho Podre" é coisa do passado, o renega publicamente, e retoma o seu nome de batismo, John Lydon. Ele está doente, bastante gripado, e ainda vai passar alguns dias na cidade, antes de conseguir o dinheiro para comprar passagens de volta para a Inglaterra. Quem vai afinal ajuda-lo é o empresário Richard Branson, o excêntrico dono da Virgin Records, que passara a lançar os discos da banda. Lydon insiste para Sid ir com ele, mas nesta altura, o baixista/vocalista já está por demais envolvido com os planos da sua perigosa tiete e namorada, Nancy Spungen, em continuarem por ali, morando no decadente Chelsea Hotel. São também dissuadidos pelas ideias de Malcolm, que acha a imagem de Sid o máximo da postura e iconografia punk, e telefona para eles sem parar, afirmando que tem planos para fazer de Sid um "astro", o novo e verdadeiro frontman dos Sex Pistols, e que sequências com ele para o documentário da banda já estão planejadas. Óbvio que isso envolverá muito dinheiro, coisa que arregala os olhinhos de Sid e Nancy, verdadeiros junkies que estão sempre precisando de grana para comprar o "material". Assim sendo, Malcolm entra na mente deles, e acabam recusando a oferta de voltarem com Lydon para Londres.

Malcolm McLaren

- Início de fevereiro de 1978: De volta à Inglaterra, Lydon começa a bolar o seu renascimento artístico, que se dará com um grupo de sonoridade diferente, fora das estruturas do punk e utilizando elementos experimentais de música vanguardista, reggae, dub, e da futura new wave - é o PiL (Public Image Limited). Enquanto isso, Malcolm, Jones e Cook aterrissam no Brasil, com o objetivo de "tirar umas férias", mas também aproveitar contatos de Malcolm para começar as filmagens de algumas sequências do anárquico The Great Rock n' Roll Swindle.

- Fevereiro e março de 1978: Talvez uma das mais intensas galhofas do casamento entre música pop e cinema tenha sido essa iniciativa de Malcolm McLaren: o documentário fake "A Grande Trapaça do Rock n' Roll" - título que o filme ganhou no Brasil - já começou errado, e sua história tem muito a ver com a nossa terrinha aqui. Conforme já comentado, os contatos bizarros de McLaren o levaram a travar acordos com riquinhos e grã-finos da high society carioca do final dos anos 70 (gente ligada a figuras como o playboy Jorginho Guinle, empresários do grupo Garnero, e diretores da Rede Globo), e calhou dele trazer os dissidentes Steve Jones e Paul Cook para filmarem cenas nas praias escaldantes do Rio de Janeiro e - escândalo máximo para alfinetar a Coroa britânica - gravar uma música e videoclipe com o lendário ladrão do assalto ao trem pagador britânico dos anos sessenta, o inglês Ronald Biggs, um verdadeiro mala que veio se refugiar no Brasil para fugir da prisão na Europa, e se tornou um bon vivant e figurinha oportunista do jet set por aqui. Gravaram "No One is Innocent", picaretagem travestida de punk que foi incluída no filme e sua trilha sonora, e além disso, rodaram as "naites cariocas", de festa em festa, enchendo a cara de pinga e feijoada, e aprontando os maiores exageros possíveis. 

Histórica foto do ladrão 'pop' Ronald Biggs, com Paul Cook e Steve Jones, nas praias do Rio

Era o último e decadente suspiro de uma banda que começara até autêntica, mas afundou na canalhice de seu empresário oportunista e interesseiro, disposto a espremer o suco envolvendo o nome "Sex Pistols" até o fim, no último bagaço. "Rock n' Roll Swindle" não conta nada da verdadeira história do grupo, é um mockumentary (falso documentário), e tem, além de tudo, aquele clima de produção camp e barata, com cenas sem grande acabamento: apresenta um fiapo de roteiro e uma trama absurda e sem pé nem cabeça, idealizada por McLaren, com várias sequências toscas de animação, personagens bizarras e figuras sadomasoquistas tentando dar golpe nos Sex Pistols, tudo feito num pretenso amadorismo e desleixo desde que o projeto começou sob a tutela de Russ Meyer, lendário diretor americano de filmes B, mas que brigou com McLaren e jogou a toalha assim que descobriu que a conta de eletricistas e cameramen do estúdio não foi paga, causando um boicote da equipe no set já no primeiro dia de filmagem. Sobrou para o conhecido diretor dos primeiros videoclipes dos Pistols, Julien Temple, assumir a direção e tocar o desastre adiante. As filmagens em que John Lydon aparece cantando, bem como as que o baixista original do grupo Glen Matlock toca no palco, são todas cenas de arquivo, utilizadas sem o consentimento dos mesmos - que obviamente entraram com processos depois em cima de McLaren e da produtura do filme, para receber o que lhes era devido.

Mas a cena fundamental e mais lembrada dessa obra-prima da sem vergonhice é a antológica sequência de Sid Vicious cantando a versão punk de "My Way", do Frank Sinatra.

- Abril e maio de 1978: Este é o período que Sid Vicious passa em Paris, na França, para onde foi enviado por McLaren para gravar as suas cenas de participação no filme. Foi alugado um grande salão com plateia contratada, para rodar a cena em que ele entra no palco com uma voz zombeteira, tal qual um crooner decadente, fazendo as suas famosas caretas com a boca puxada e cantando as primeiras linhas de "My Way" sobre um fundo orquestral suntuoso, para logo em seguida entrar o acompanhamento punk rock dos Pistols e tudo descambar pro relaxo, com Sid cantando no melhor estilo Johnny Rotten, e encerrando tudo com um aloprado tiroteio contra o próprio público do show, numa performance que se tornou emblemática: era a síntese do punk, atacando e matando seus próprios fãs. A voz de Sid era boa - melhor ainda do que ele no baixo - e caso ele não fosse tão "vida loka", é provável que tivesse conseguido seguir mais algum tempo adiante com o teatro de McLaren e os Sex Pistols restantes. 

A famosa cena de Sid metendo tiro, depois de cantar "My Way"

Mais algumas cenas foram rodadas com Sid: dele no seu quarto de hotel, passeando pelas ruas de Paris e roubando croissants para comer, e pilotando uma motona, e seriam utilizadas em clipes de algumas músicas que ele gravaria para um pretenso futuro disco solo, como "C'mon Everybody", cover de Eddie Cochran, ídolo da geração pioneira do rock dos anos 50, que Sid venerava. No final de maio, ele e Nancy voltam para os EUA, onde ele passaria um temporada no bar Max's Kansas, de New York, fazendo erráticos shows com músicos convidados, como Mick Jones (The Clash) e Jerry Nolan (ex-New York Dolls), onde terminava invariavelmente cambaleando e caindo do palco, de tão chapado. Isso aconteceu apenas alguns poucos meses antes do episódio fatal com Nancy.

- Junho de 1978: O compacto contendo "No One is Innocent" e "My Way" é lançado na Inglaterra sob o nome Sex Pistols, e vai bem nas paradas, obrigado, mantendo o nome da banda em evidência, e saciando um pouco a fome da geração punk que ainda esperava mais material do grupo - haviam lançado apenas um único LP antes do seu fim! McLaren festeja, e John Lydon xinga e detesta, preparando o seu retorno de vingança.

O PiL (Public Image Limited), de John Lydon

- Setembro de 1978: No final do mês, Lydon enfim lança o single "Public Image", resultado do seu novo projeto - o PiL. Com um som totalmente diferente do que os Sex Pistols faziam, é bastante elogiado pela crítica, e Lydon tem a sua revanche e sobrevida afinal, ganhando novos fãs a partir de então. Mesmo após várias reformulações, ele segue até hoje com o grupo.

- Outubro de 1978: No dia 12, o corpo de Nancy Spungen é encontrado sem vida, e ensanguentado, no banheiro do quarto em que ela e Sid estavam morando, no Chelsea de New York. Tudo indicava que fora homicídio, com cortes feitos por uma grande faca de caça. Sid ligou para a polícia pedindo ajuda, por volta das 10 horas da manhã, e disse que não entendia o que aconteceu, possivelmente grogue pelo uso de substâncias na noite anterior. Se enrolando em seu controverso depoimento, alegando não se lembrar de muita coisa da noite passada, disse que eles brigaram, e que ele poderia supostamente ter a esfaqueado, mas não a matou. Sid complica sua vida e vai preso, tido como o principal suspeito pela polícia, que colhe depoimentos de testemunhas que falaram ter ouvido muitos gritos do casal, em fortes discussões no dia anterior durante uma festa que deram para amigos no quarto do hotel, e também os gemidos de Nancy de madrugada, como se estivesse pedindo socorro - o que era uma constante, dado o atribulado relacionamento deles. 

A 'mugshot' de Sid Vicious

Logo, no entanto, a pedido de Malcolm McLaren junto à gravadora Virgin (e também com uma ajudinha de Mick Jagger, dos Rolling Stones, que se disponibilizou a pagar parte da fiança), advogados entraram com uma defesa para Sid e conseguiram soltá-lo. A tese passou a apontar que Nancy poderia ter sido morta não por Sid, mas sim por algum traficante a quem ela devia dinheiro, ou algum ladrão que entrou no apartamento deles sorrateiramente após a festa, para roubar o dinheiro que eles guardavam em uma cômoda, e que poderia ter sido flagrado por Nancy. 

Sid e John, em foto de 1977

- Novembro de 1978 a janeiro de 1979: Apesar de estar em liberdade novamente, a vida de Sid é um calvário sinuoso de situações típicas de um junkie irrecuperável: enquanto aguarda o julgamento em liberdade, obrigado a comparecer periodicamente na unidade de homicídios da polícia de New York, bem como a visitar centros de aplicação de metadona para recuperação de drogados, ele tenta inutilmente concentrar esforços para ensaiar material a ser gravado para o seu tão esperado primeiro disco solo (que deveria sair no natal de 1978), não consegue, e ainda arranja confusão com o irmão da cantora Patti Smith, Todd, em uma noite na boate Hurray, cortando seu rosto com uma garrafa quebrada após tentar flertar com a namorada de Todd. Mais encrencas com a justiça, mais audiências de tribunal, até que...

- Fevereiro de 1979: No dia primeiro deste mês, Sid Vicious é encontrado morto, ao lado de uma seringa antes repleta de heroína, que ele injetara na noite anterior. Morreu sem ser julgado, e levando consigo o mistério da morte de Nancy, que nunca será resolvido. Era a afronta derradeira do cara eleito por muitos como o "símbolo" máximo do punk rock. Sendo ele e o ex-Rotten John Lydon as figuras centrais daquela hecatombe sonora e comportamental que pôs abaixo todas as estruturas e convenções do rock de então, agora era caminho sem volta mesmo: Sex Pistols nunca mais.

- Prólogo: Todo o ano de 1979 se passou, e a "grande última trapaça" de Malcolm McLaren, o tão alardeado filme dos Sex Pistols produzido por ele, não fora lançado! Problemas de pós-produção e distribuição atrasaram muito a estreia de 'The Great Rock n' Roll Swindle', que só foi chegar mesmo nas salas de cinema no ano seguinte, em abril de 1980.

Aí o mundo já era outro, o punk rock e a disco music já tinham dobrado a esquina, sensações novas como a new wave de bandas como Talking Heads, Blondie, Joy Division e outras já tinha jogado a pá de terra na cara do pessoal da década passada, e o "movimento rebelde" daquela galera de couro, tachinhas e cabelo espetado já se encontrava devidamente digerido, empacotado e domesticado pela mídia mundial, não era sensação e não surpreendia mais ninguém. Resultado: o filme de McLaren foi um fiasco nas bilheterias, e se tornou uma mera curiosidade, cápsula do tempo pitoresca e cult de mais uma revolução jovem que ficou pra trás.











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