segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A ESTÉTICA DE PSICODELIA 'KITSCH' DO HOMEM-MORCEGO

 

Várias mídias tem comentado nas últimas semanas sobre os 60 anos que a icônica série de TV americana Batman & Robin completou, no início deste ano. O espetáculo se notabilizou pela forma galhofeira e cheia de comicidade e absurdos com que retratava um dos maiores heróis da cultura pop, pertencente ao panteão da DC Comics, o nosso lendário "homem morcego".

O que muitos podem não saber é que o seriado, estrelado por Adam West e Burt Ward nos papéis da dupla dinâmica, nunca esteve muito fora de um padrão que era o esperado por público e crítica daqueles tempos e, comparando com a figura gótica e sombria na qual o herói se tornou mais recentemente, aquele era um Batman muito mais apropriado para a atmosfera que o mundo vivia, podendo ser considerado um típico produto de sua época.

A segunda metade da década de 1960 foi um período em que o ponteiro do relógio deu uma endoidada e começou a girar mais rápido, alterando padrões estéticos, morais, sociais, e de percepções, com o advento da contracultura. Revolução de costumes, com pílula anticoncepcional, "bolinhas" e substâncias lisérgicas, minissaia, Beatles no som e 007 nos cinemas, exaltando os prazeres da vida e das novas tecnologias que surgiam, reflexos da Swingin' London e suas roupas com cores vibrantes, e dos próprios EUA, adotando essas tendências de tudo muito colorido e às vezes nonsense, como forma de renegar as décadas anteriores mais preto-e-branco e sisudas, que remetiam ao ainda recente fantasma aterrador e melancólico de uma guerra mundial: tudo isso se misturava num caldeirão de influências culturais que passava a contaminar todo mundo que mexia com alguma forma de arte naquele período. E com as histórias em quadrinhos não seria diferente.

Burt Ward (o Robin), à esquerda, e Adam West (Batman), à direita, que encarnavam os heróis na série

O Batman da série de TV era um reflexo direto das últimas vivências do próprio herói nas HQs, em sua fase conhecida como a "era de prata", em que esteve sob a tutela de Sheldon Moldoff - entre o final da década de 50 e meados da década de 60, foram produzidas algumas das mais tresloucadas histórias em quadrinhos do homem morcego pela DC, incluindo a célebre "Batman Arco-Íris" (Detective Comics, de 1957), que chegava ao cúmulo de colocar o nosso herói utilizando o seu traje em variadas cores para surpreender e distrair ataques de bandidos contra o seu pupilo e parceiro Robin! Imagina se a gurizada de hoje, acostumada com o soturno "Cavaleiro das Trevas" contemporâneo, iria engolir esse Batman todo serelepe...

A famigerada HQ do "Batman arco-íris", de 1957

Importante considerar que foram esses tipos de narrativa que despertaram a atenção de pessoas como William Dozier, da ABC TV dos EUA, idealizador e produtor da série, e que também enfileirou outra série de herói da DC, que chegou a fazer crossover com o Batman em alguns episódios: o Besouro Verde (The Green Hornet, 1966-1967) - que inclusive marcava a estreia do lendário Bruce Lee, como o auxiliar do protagonista, Kato - mas que não ficou tão famosa como o Batman, pois não tinha a mesma verve e o apelo popular do herói. 

O Besouro Verde, com o seu também mascarado assistente Kato (Bruce Lee), à direita

A questão é que o lance da época era "causar", e fazer um balaio de humor, ação e referências pop tão bizarras, que chamasse a atenção tanto de crianças quanto de adultos - tudo pela audiência, ávida por experiências e coisas diferentes. Era um mundo mais leve e ingênuo, e um mundo que clamava por cores, brilho, estouro e sensações alegres e estupefacientes, à medida em que o flower power começava a se espalhar. Por falar em estouro, como esquecer as vibrantes onomatopeias insistentemente exibidas durante as cenas de luta da série, citação direta do universo dos quadrinhos? BUMP! KABOW! PLAFT! BOOM!



Por isso, a série do Batman tinha lances tão extravagantes, como a participação especial de diversas celebridades do entretenimento aparecendo do nada nas janelas dos prédios enquanto Batman e Robin os escalavam, e parando para conversar com eles assuntos "nada a ver". Ou absurdos como o Batman dançando twist, watusi ou surfando, de fantasia e tudo... para logo em seguida dar lições de moral no Robin e no telespectador de um jeito todo sério e afetado, ou ficar atendendo aquele bizarro telefone vermelho de emergências do Emissário Gordon, enquanto elucubrava teorias atrapalhadas sobre os planos mais esquisitos e desvairados de vilões como o Coringa, o Pinguim ou o Charada. Era, acima de tudo, muito, mas muito kitsch - tudo caricato e exagerado, feito para dar risada e ficar na memória, de tão infame.




O uso das cores berrantes em personagens e histórias foi muito relevante nesse contexto, agregando o padrão visual da psicodelia que seria preponderante para simbolizar toda uma geração da cultura pop que nascia ali, nos mais variados campos das artes. De repente, era "in" utilizar as mais diferentes e chamativas combinações de cores, e se tornava da moda aludir a viagens sensoriais e buscas por novos enfoques e significados. 

A estética pop psicodélica colorida passava a dominar todas as áreas, em todas as mídias - acima, capa da revista Manchete, em 1967


Propaganda dos postos Shell, de 1968 - na época, passaram a patrocinar gibis e desenhos animados de super heróis da Marvel no Brasil


Spock (Leonard Nimoy) e Kirk (William Shatner), na clássica série 'Jornada nas Estrelas', dos anos 60

A algazarra psicodélica que passou a tomar conta do cinema, da música e da televisão se traduzia não só nas imagens e sons, mas também no que estava por trás delas: as mensagens. Roteiros de outra clássica série de TV da época, a hiper cultuada Star Trek - Jornada nas Estrelas (1966-1969), de Gene Roddenberry, jogavam o espectador em intrincadas tramas onde os personagens da nave Enterprise exploravam novos planetas e dimensões, e se deparavam com questionamentos psicológicos que refletiam sobre a sociedade e ideologias muito humanas - ainda que as tramas se passassem em espaços cósmicos e com seres extraterrenos muito distantes, "audaciosamente indo onde homem nenhum jamais esteve" (como constava na lendária narração introdutória da série). Não foi apenas o ácido: Capitão Kirk e Dr. Spock também destamparam o cérebro de muita gente.

Jane Fonda, como Barbarella (1968)

Toda essa estética audiovisual "sideral" transbordou para outros filmes do gênero de ficção científica, sendo o célebre Barbarella (com Jane Fonda, de 1968) o exemplo mais lembrado, até hoje. Ali também, os diálogos insólitos e a postura nonsense tomavam conta, um tipo de humor e ambientação que buscavam o delírio, a extrapolação dos sentidos. Contexto espacial e colorido: good vibrations que, sob a influência adicional da corrida espacial da Guerra Fria típica daqueles dias - atingindo o seu ápice com a chegada do homem à Lua, em 1969 - assolaram também artistas nossos aqui (Os Mutantes, da música "2001" e seu "astronauta libertário", do segundo disco), e do lado de lá também (David Bowie com aquele sensacional primeiro hit que o revelou ao mundo, "Space Oddity" - não por acaso, trilha sonora da conquista lunar).

Os Mutantes



David Bowie, no clipe de 'Space Oddity' (1969)

Enfim, um desbunde só, que foi se esticando até o finalzinho da década, em 1969, quando logo após o antológico festival de Woodstock, e o desastroso e famigerado show de Altamont (dos Rolling Stones), o sonho acabou - juntamente com os Beatles e toda a utopia hippie indo junto pelo ralo - e a nova década que viria soterraria todo esse clima de festa e traria novamente tempos sombrios e muita desolação.

Os Rolling Stones, em Altamont (1969)

O seriado já tinha acabado, um ano antes. Batman, então, voltaria a ser "das trevas" como nos seus primórdios, roupa e capa mais escuras e sem o aro amarelinho em volta da insígnia do morcego, e Robin, o "menino prodígio", já nem tinha mais muita importância. Ficava para trás aquela figura camp e bisonha que fora sensação da TV. 

Santa agonia, Batman! Que destino, homem morcego.




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