domingo, 4 de janeiro de 2026

A CAÓTICA QUEDA PUNK DOS SEX PISTOLS

 

Recentemente, temos visto algumas aparições na mídia do lendário John Lydon - o eterno frontman dos Sex Pistols, na época ainda nominado Johnny Rotten - se desdobrando em anunciar e promover, em várias entrevistas podcasts afora, sobre a próxima turnê de sua banda PiL (o Public Image Limited), bem como dar as costumeiras patadas em seus ex-companheiros do lendário grupo punk que turbinou o gênero no mundo inteiro, lá pelos idos de 1976/77.

A questão é que Lydon diz que não entende - repleto de um mordaz ressentimento irônico - porque Steve Jones (guitarrista), Paul Cook (baterista) e Glen Matlock (baixista original, antes da chegada de Sid Vicious) nunca mais quiseram conversar com ele... sendo que o último contato mais próximo que tiveram foi nos tribunais britânicos, numa ruidosa pendenga acerca dos direitos de uso das músicas da banda, na qual Lydon estava metendo o ferro em todos os outros num pesado e milionário processo.

Da esquerda p/ direita: Sid Vicious, Johnny Rotten, Steve Jones e Paul Cook - os Sex Pistols

Lydon - ou o velho 'Johnny Rotten', como preferir - tem lá suas razões birrentas para agir assim, dadas as suas condições derradeiras na história sempre caótica e nada moderada ou complacente que o nome Sex Pistols sempre carregou. Era um grupo que, pelo seu início errático e conturbado, cheio de embates e rebeldia com todo o cenário pop/rock de Londres da época, e tendo a frente na maior parte do tempo um mala midiático como empresário (Malcolm McLaren), não teria nunca mesmo como terminar bem. A seguir, uma cronologia simples e concisa dos momentos finais do grupo, uma verdadeira epopeia da agonia punk:

- 5 de janeiro de 1978: Após um ano de absoluto sucesso, barulho e polêmicas, em que dão pontapé na revolução punk e vendem milhões de cópias do seu disco Never Mind the Bollocks, na Inglaterra e restante do globo, os Sex Pistols, por decisão de seu empresário Malcolm McLaren, iniciam 1978 com a famigerada turnê pelos EUA. Detalhe: a intenção de Malcolm com essas digressões, ao invés de levá-los para tocar em grandes centros e capitais norte-americanas (como New York e Los Angeles), onde o punk rock já era entendido e popularizado, era por os garotos para se apresentar em localidades menores e mais interioranas, justamente para "causar" e incitar a revolta e a agressividade punk onde o pessoal nem entendia aquilo direito, numa autêntica tentativa de gerar eventos conturbados. E dá certo: o primeiro show em Atlanta, na Georgia, é um festival de cusparadas entre banda e plateia, xingamentos, garrafas quebrando e cacos voando.

John Lydon (a.k.a. Johnny Rotten)

- 8 a 12 de janeiro de 1978: O grupo chega ao Texas para algumas apresentações. O clima interno na banda vai só piorando: o extremo tédio que os Pistols encaram durante os momentos de folga entre os shows, em lugares conservadores onde os únicos passatempos eram parques de diversão infantis, exposições agropecuárias, e butecos com música country, acabam se tornando regados a muita bebida e drogas (conseguidas com demora devido às poucas "conexões" com traficas americanos), e tudo isso vai elevando cada vez mais as tensões entre os membros, especialmente Sid Vicious, o mais alucinado de todos. Nos shows de Dallas e San Antonio, ele chega doidão para tocar, com a frase "gimme a fix" (me dá uma consertada, gíria para os viciados que pedem drogas) escrita a pincel no peito - mas que, com o clima alucinado de cacos jogados no palco e giletes utilizadas por Sid, acaba se misturando ao próprio sangue do mesmo, num verdadeiro festival de horror e automutilação, feito para chocar as audiências. 

"Gimme a fix"


Sid sangrando, no show de Dallas (janeiro de 1978)

- 14 de janeiro de 1978: Este é o dia do lendário último show da banda, em sua fase clássica. Ocorreu em San Francisco, no Winterland Ballroom, para um público estimado em 5000 pessoas - na verdade, o maior até então naquela turnê, pois nas apresentações anteriores, os relatos aterrorizados da imprensa sobre o grupo tinham afugentado um grande número de possíveis espectadores, e não eram poucos os lugares vazios na audiência. Ocorrido de forma mais contida e com uma boa execução das músicas da banda - incluindo uma performance supreendentemente competente de Sid no baixo, apesar de sua fama de não saber tocar direito - o show termina de forma irreverente, com Johnny Rotten vociferando para a plateia: "Ever get the feeling you've been cheated?" (Alguma vez vocês já se sentiram trapaceados?), antes de entrarem na execução de "No Fun", uma das covers do The Stooges mais executadas pelo grupo. Era uma clara alusão à revolta que a banda, e ele (Rotten/Lydon), particularmente, sentiam em relação ao modo como vinham sendo tratados por Malcolm, como produtos sendo utilizados e ridicularizados por ele e pela mídia ianque, numa das turnês mais fuleiras e cínicas de que se tem notícia na história do rock.

- 17 de janeiro de 1978: O dia da separação oficial da banda. Após um arranca-rabo federal entre Johnny Rotten e Malcolm, que passam a discordar em grau e número sobre a continuidade da turnê e os próximos passos do grupo, o empresário chama o restante da banda para o acompanhar, garantindo que não precisam daquele "pestinha vagabundo do Johnny", e que os Sex Pistols podem se virar com qualquer outro vocalista. Ocorre a cisão: Steve Jones e Paul Cook topam seguir com Malcolm, e num primeiro instante, Sid fica em cima do muro - mas logo decide continuar com Johnny nos EUA (amigos de infância que eram). Malcolm  parte para comprar passagens de avião para cair fora dali, com a equipe e os outros integrantes. E assim, Johnny e Sid são largados em San Francisco, praticamente sem nenhum dinheiro ou passagens de volta, enquanto Malcolm e os outros rapazes vão embora, já com planos de ir para o Brasil, devido a um "documentário" que o empresário tinha a intenção de fazer.

Sid Vicious e Nancy Spungen

- 20 de janeiro de 1978: Após uma série de contratempos para conseguir alguns trocados e zarpar de San Francisco, Johnny e Sid chegam a New York. Johnny já decide de cara que o apelido artístico "Joãozinho Podre" é coisa do passado, o renega publicamente, e retoma o seu nome de batismo, John Lydon. Ele está doente, bastante gripado, e ainda vai passar alguns dias na cidade, antes de conseguir o dinheiro para comprar passagens de volta para a Inglaterra. Quem vai afinal ajuda-lo é o empresário Richard Branson, o excêntrico dono da Virgin Records, que passara a lançar os discos da banda. Lydon insiste para Sid ir com ele, mas nesta altura, o baixista/vocalista já está por demais envolvido com os planos da sua perigosa tiete e namorada, Nancy Spungen, em continuarem por ali, morando no decadente Chelsea Hotel. São também dissuadidos pelas ideias de Malcolm, que acha a imagem de Sid o máximo da postura e iconografia punk, e telefona para eles sem parar, afirmando que tem planos para fazer de Sid um "astro", o novo e verdadeiro frontman dos Sex Pistols, e que sequências com ele para o documentário da banda já estão planejadas. Óbvio que isso envolverá muito dinheiro, coisa que arregala os olhinhos de Sid e Nancy, verdadeiros junkies que estão sempre precisando de grana para comprar o "material". Assim sendo, Malcolm entra na mente deles, e acabam recusando a oferta de voltarem com Lydon para Londres.

Malcolm McLaren

- Início de fevereiro de 1978: De volta à Inglaterra, Lydon começa a bolar o seu renascimento artístico, que se dará com um grupo de sonoridade diferente, fora das estruturas do punk e utilizando elementos experimentais de música vanguardista, reggae, dub, e da futura new wave - é o PiL (Public Image Limited). Enquanto isso, Malcolm, Jones e Cook aterrissam no Brasil, com o objetivo de "tirar umas férias", mas também aproveitar contatos de Malcolm para começar as filmagens de algumas sequências do anárquico The Great Rock n' Roll Swindle.

- Fevereiro e março de 1978: Talvez uma das mais intensas galhofas do casamento entre música pop e cinema tenha sido essa iniciativa de Malcolm McLaren: o documentário fake "A Grande Trapaça do Rock n' Roll" - título que o filme ganhou no Brasil - já começou errado, e sua história tem muito a ver com a nossa terrinha aqui. Conforme já comentado, os contatos bizarros de McLaren o levaram a travar acordos com riquinhos e grã-finos da high society carioca do final dos anos 70 (gente ligada a figuras como o playboy Jorginho Guinle, empresários do grupo Garnero, e diretores da Rede Globo), e calhou dele trazer os dissidentes Steve Jones e Paul Cook para filmarem cenas nas praias escaldantes do Rio de Janeiro e - escândalo máximo para alfinetar a Coroa britânica - gravar uma música e videoclipe com o lendário ladrão do assalto ao trem pagador britânico dos anos sessenta, o inglês Ronald Biggs, um verdadeiro mala que veio se refugiar no Brasil para fugir da prisão na Europa, e se tornou um bon vivant e figurinha oportunista do jet set por aqui. Gravaram "No One is Innocent", picaretagem travestida de punk que foi incluída no filme e sua trilha sonora, e além disso, rodaram as "naites cariocas", de festa em festa, enchendo a cara de pinga e feijoada, e aprontando os maiores exageros possíveis. 

Histórica foto do ladrão 'pop' Ronald Biggs, com Paul Cook e Steve Jones, nas praias do Rio

Era o último e decadente suspiro de uma banda que começara até autêntica, mas afundou na canalhice de seu empresário oportunista e interesseiro, disposto a espremer o suco envolvendo o nome "Sex Pistols" até o fim, no último bagaço. "Rock n' Roll Swindle" não conta nada da verdadeira história do grupo, é um mockumentary (falso documentário), e tem, além de tudo, aquele clima de produção camp e barata, com cenas sem grande acabamento: apresenta um fiapo de roteiro e uma trama absurda e sem pé nem cabeça, idealizada por McLaren, com várias sequências toscas de animação, personagens bizarras e figuras sadomasoquistas tentando dar golpe nos Sex Pistols, tudo feito num pretenso amadorismo e desleixo desde que o projeto começou sob a tutela de Russ Meyer, lendário diretor americano de filmes B, mas que brigou com McLaren e jogou a toalha assim que descobriu que a conta de eletricistas e cameramen do estúdio não foi paga, causando um boicote da equipe no set já no primeiro dia de filmagem. Sobrou para o conhecido diretor dos primeiros videoclipes dos Pistols, Julien Temple, assumir a direção e tocar o desastre adiante. As filmagens em que John Lydon aparece cantando, bem como as que o baixista original do grupo Glen Matlock toca no palco, são todas cenas de arquivo, utilizadas sem o consentimento dos mesmos - que obviamente entraram com processos depois em cima de McLaren e da produtura do filme, para receber o que lhes era devido.

Mas a cena fundamental e mais lembrada dessa obra-prima da sem vergonhice é a antológica sequência de Sid Vicious cantando a versão punk de "My Way", do Frank Sinatra.

- Abril e maio de 1978: Este é o período que Sid Vicious passa em Paris, na França, para onde foi enviado por McLaren para gravar as suas cenas de participação no filme. Foi alugado um grande salão com plateia contratada, para rodar a cena em que ele entra no palco com uma voz zombeteira, tal qual um crooner decadente, fazendo as suas famosas caretas com a boca puxada e cantando as primeiras linhas de "My Way" sobre um fundo orquestral suntuoso, para logo em seguida entrar o acompanhamento punk rock dos Pistols e tudo descambar pro relaxo, com Sid cantando no melhor estilo Johnny Rotten, e encerrando tudo com um aloprado tiroteio contra o próprio público do show, numa performance que se tornou emblemática: era a síntese do punk, atacando e matando seus próprios fãs. A voz de Sid era boa - melhor ainda do que ele no baixo - e caso ele não fosse tão "vida loka", é provável que tivesse conseguido seguir mais algum tempo adiante com o teatro de McLaren e os Sex Pistols restantes. 

A famosa cena de Sid metendo tiro, depois de cantar "My Way"

Mais algumas cenas foram rodadas com Sid: dele no seu quarto de hotel, passeando pelas ruas de Paris e roubando croissants para comer, e pilotando uma motona, e seriam utilizadas em clipes de algumas músicas que ele gravaria para um pretenso futuro disco solo, como "C'mon Everybody", cover de Eddie Cochran, ídolo da geração pioneira do rock dos anos 50, que Sid venerava. No final de maio, ele e Nancy voltam para os EUA, onde ele passaria um temporada no bar Max's Kansas, de New York, fazendo erráticos shows com músicos convidados, como Mick Jones (The Clash) e Jerry Nolan (ex-New York Dolls), onde terminava invariavelmente cambaleando e caindo do palco, de tão chapado. Isso aconteceu apenas alguns poucos meses antes do episódio fatal com Nancy.

- Junho de 1978: O compacto contendo "No One is Innocent" e "My Way" é lançado na Inglaterra sob o nome Sex Pistols, e vai bem nas paradas, obrigado, mantendo o nome da banda em evidência, e saciando um pouco a fome da geração punk que ainda esperava mais material do grupo - haviam lançado apenas um único LP antes do seu fim! McLaren festeja, e John Lydon xinga e detesta, preparando o seu retorno de vingança.

O PiL (Public Image Limited), de John Lydon

- Setembro de 1978: No final do mês, Lydon enfim lança o single "Public Image", resultado do seu novo projeto - o PiL. Com um som totalmente diferente do que os Sex Pistols faziam, é bastante elogiado pela crítica, e Lydon tem a sua revanche e sobrevida afinal, ganhando novos fãs a partir de então. Mesmo após várias reformulações, ele segue até hoje com o grupo.

- Outubro de 1978: No dia 12, o corpo de Nancy Spungen é encontrado sem vida, e ensanguentado, no banheiro do quarto em que ela e Sid estavam morando, no Chelsea de New York. Tudo indicava que fora homicídio, com cortes feitos por uma grande faca de caça. Sid ligou para a polícia pedindo ajuda, por volta das 10 horas da manhã, e disse que não entendia o que aconteceu, possivelmente grogue pelo uso de substâncias na noite anterior. Se enrolando em seu controverso depoimento, alegando não se lembrar de muita coisa da noite passada, disse que eles brigaram, e que ele poderia supostamente ter a esfaqueado, mas não a matou. Sid complica sua vida e vai preso, tido como o principal suspeito pela polícia, que colhe depoimentos de testemunhas que falaram ter ouvido muitos gritos do casal, em fortes discussões no dia anterior durante uma festa que deram para amigos no quarto do hotel, e também os gemidos de Nancy de madrugada, como se estivesse pedindo socorro - o que era uma constante, dado o atribulado relacionamento deles. 

A 'mugshot' de Sid Vicious

Logo, no entanto, a pedido de Malcolm McLaren junto à gravadora Virgin (e também com uma ajudinha de Mick Jagger, dos Rolling Stones, que se disponibilizou a pagar parte da fiança), advogados entraram com uma defesa para Sid e conseguiram soltá-lo. A tese passou a apontar que Nancy poderia ter sido morta não por Sid, mas sim por algum traficante a quem ela devia dinheiro, ou algum ladrão que entrou no apartamento deles sorrateiramente após a festa, para roubar o dinheiro que eles guardavam em uma cômoda, e que poderia ter sido flagrado por Nancy. 

Sid e John, em foto de 1977

- Novembro de 1978 a janeiro de 1979: Apesar de estar em liberdade novamente, a vida de Sid é um calvário sinuoso de situações típicas de um junkie irrecuperável: enquanto aguarda o julgamento em liberdade, obrigado a comparecer periodicamente na unidade de homicídios da polícia de New York, bem como a visitar centros de aplicação de metadona para recuperação de drogados, ele tenta inutilmente concentrar esforços para ensaiar material a ser gravado para o seu tão esperado primeiro disco solo (que deveria sair no natal de 1978), não consegue, e ainda arranja confusão com o irmão da cantora Patti Smith, Todd, em uma noite na boate Hurray, cortando seu rosto com uma garrafa quebrada após tentar flertar com a namorada de Todd. Mais encrencas com a justiça, mais audiências de tribunal, até que...

- Fevereiro de 1979: No dia primeiro deste mês, Sid Vicious é encontrado morto, ao lado de uma seringa antes repleta de heroína, que ele injetara na noite anterior. Morreu sem ser julgado, e levando consigo o mistério da morte de Nancy, que nunca será resolvido. Era a afronta derradeira do cara eleito por muitos como o "símbolo" máximo do punk rock. Sendo ele e o ex-Rotten John Lydon as figuras centrais daquela hecatombe sonora e comportamental que pôs abaixo todas as estruturas e convenções do rock de então, agora era caminho sem volta mesmo: Sex Pistols nunca mais.

- Prólogo: Todo o ano de 1979 se passou, e a "grande última trapaça" de Malcolm McLaren, o tão alardeado filme dos Sex Pistols produzido por ele, não fora lançado! Problemas de pós-produção e distribuição atrasaram muito a estreia de 'The Great Rock n' Roll Swindle', que só foi chegar mesmo nas salas de cinema no ano seguinte, em abril de 1980.

Aí o mundo já era outro, o punk rock e a disco music já tinham dobrado a esquina, sensações novas como a new wave de bandas como Talking Heads, Blondie, Joy Division e outras já tinha jogado a pá de terra na cara do pessoal da década passada, e o "movimento rebelde" daquela galera de couro, tachinhas e cabelo espetado já se encontrava devidamente digerido, empacotado e domesticado pela mídia mundial, não era sensação e não surpreendia mais ninguém. Resultado: o filme de McLaren foi um fiasco nas bilheterias, e se tornou uma mera curiosidade, cápsula do tempo pitoresca e cult de mais uma revolução jovem que ficou pra trás.











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A CAÓTICA QUEDA PUNK DOS SEX PISTOLS

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